18 de maio de 2013 às 17:29
Página Inicial  ⁄  Blogues  ⁄  Antes pelo contrário  ⁄  O brilho nos olhos dos pirómanos em dia de incêndio

O brilho nos olhos dos pirómanos em dia de incêndio

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Aceite a intervenção externa, acabou finalmente a conversa de que o FMI vem pôr o País na ordem. Tirando uns talibã enlouquecidos, já toda a gente percebeu, olhando para a a Grécia e para a Irlanda, que não é esse o objetivo da intervenção. Trata-se de, em troca de mais dívida, impor políticas nacionais que garantam que os credores terão de se deparar com incumprimentos ou necessidades de renegociação o mais tarde possível. Ao adiar o inevitável, provavelmente até 2013 - ano em que algumas regras podem vir a mudar -, recapitalizar o mais depressa possível a banca alemã, a maior credora da Europa. Para ela estar preparada para o que vem depois, resultado da agonia económica dos países periféricos. E se a coisa se alastrar à Bélgica e a Espanha tudo pode acontecer ainda mais cedo.

Mas ainda há quem, em Portugal, fale em crescimento nos próximos anos. E quem olhe para esta intervenção como um começo de um novo ciclo de esperança. A propaganda tem uma capacidade extraordinária de resistir com indiferença aos factos. É olhar para os que viveram isto antes de nós. A verdade é esta: as medidas que virão associadas a esta intervenção são medidas recessivas. É crise em estado puro.

No que toca às contas públicas, não é preciso ser um génio para fazer contas: menos receita fiscal, mais despesa social (mesmo que se corte nos subsídios, o desemprego continuará a aumentar) e contração do PIB, que é a referência de todos os restantes indicadores.

Mas o nosso maior problema não é a dívida pública. Até ao aumento dos juros, em 2008, ela estava na média europeia. O nosso maior problema, que nos destaca dos restantes países mas que é sistematicamente ignorado em quase todos os discursos e comentários, é a dívida externa. E dessa dívida externa, três quartos (em 2009) são dívida privada. Os portugueses estão endividados e a banca, para lhes emprestar, está endividada no exterior. Esta intervenção terá também como destinatários os bancos. Seguramente sem as condições que o Estado será obrigado a cumprir, a banca terá liquidez. Por isso pressionou tanto para este "pedido" de "ajuda" externa. Só que o que vem a seguir não melhorará a nossa situação.

Só há duas formas de resolver o nosso endividamento externo: poupança e crescimento económico. Como a média salarial em Portugal mal dá para as despesas básicas não se imagina como vão poupar os portugueses. Junte-se a isto o aumento de impostos, o aumento do desemprego e o aumento do preço de bens públicos - como os transportes - e percebe-se que, pelo contrário, passará a haver menos condições para poupar. Quanto ao crescimento, alguém terá de explicar como se conseguirá esse milagre da multiplicação dos pães. Menos dinheiro disponível, menor capacidade de investimento, crise no mercado externo, crise aguda no mercado interno... Querem mais ingredientes para o desastre? Agora acrescentem a tudo isto vários anos de políticas recessivas...

Quem, por um fetish qualquer por soluções castigadoras ou por uma atração adolescente pelo abismo, vê na chegada do FMI o começo de uma nova era de bons hábitos vive noutro planeta. E quem decide políticas neste pressuposto só nos poderá enterrar ainda mais.

O que realmente assusta é ver a indisfarçável satisfação com que algumas pessoas receberam as notícias desta semana. Assim como os olhos do pirómano brilham quando o fogo consome a floresta, os seus brilharam perante o desastre. Os portugueses viverão agora "com menos angústia e com menos incerteza", disse um candidato a primeiro-ministro, parecendo ignorar que, pelo contrário, a crise se irá aprofundar e todos viveremos com mais angústia e mais incerteza. E este homem poderá vir a fazer o papel de bombeiro nos próximos anos. A um primeiro-ministro incompetente poderá suceder um primeiro-ministro inconsciente. Um deixou o fogo alastrar por incúria. O outro parece acreditar no poder purificador do fogo.

Comentários 47 Comentar
ordenar por:
mais votados ▼
Alternativa, precisa-se
Quem considera este tipo de intervenção uma coisa boa, está mal informado. Isto é um mal necessário, para evitar males maiores.
Se houvesse desconfiança na banca e as pessoas corressem aos depósitos??
Se a CP e os Metros ficassem sem dinheiro para pagar vencimentos??
E a GNR e a PSP com dificuldades de funcionamento, por falta de fundos??
Agora temos maus tempos à frente, e é preciso preservar as condições de vida dos mais débeis.Há gente que não pode ser penalizada, nem num tostão mais.Essas negociações têm que ter isso em conta e dizer a esses europeus ricos que pensões e rendimentos de 400/500 não podem ser tocadas.
Re: Alternativa, precisa-se Ver comentário
Não é mal "necessário"! Só foi porque o gov caiu Ver comentário
Re: Alternativa, precisa-se Ver comentário
Re: Alternativa, precisa-se Ver comentário
A elogio da insanidade
“Há na loucura um prazer que só os loucos conhecem”

É a conclusão que tiro, quando por completa inconsciência leio este blogue. Mas como alguém já disse: "A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos." – decidi “pensar-à-DO”

Os “outros” não nos querem emprestar o “seu” dinheiro. Não emprestam, ponto final. Como os “filhos-da-mãe” do alemães, não nos deixam fabricar moeda (coisa que em passado recente, éramos dos melhores), como solução, vamos seguir uma política de esquerda.

Sair do Euro; não pagar nada aos mafiosos; ressuscitar o escudo e desatar a fazer moeda (notas de preferência).

Seria a “mãe” de todas as vinganças: os Árabes ficavam à rasca para vender o petróleo e os alemães, os AUDIs e BMWs.

Petróleo, podíamos contar com o dos nossos irmãos angolanos (como estão na Internacional Socialista, são da esquerda fixe), ou dos brasileiros (não esquecer falar com o Lula).

E depois continuar a investir (em escudos), não sem antes, cortar com a globalização e, é verdade, deixar entrar os emigrantes. Todos. Para mostrar a solidariedade de esquerda.

O ordenado mínimo subia, os ordenados principescos mantinham-se, porque a esquerda é respeitadora dos direitos adquiridos.

Ah, é verdade, não esquecer de prender na “solitária” o Medina Carreira, para evitar que comece a chatear com contas e gráficos neoliberais.

E só não continuo neste meu apoio às teses de DO, porque chegaram os enfermeiros para internarem.
Re: A elogio da insanidade Ver comentário
Re: A elogio da insanidade Ver comentário
Re: A elogio da insanidade Ver comentário
Re: A elogio da insanidade Ver comentário
Portugal tem uma saída
Depois do aperto, há que deixar a crítica pela crítica e apresentar propostas concretas para uma saída possível.

É isto que é exigido a todos os comentadores porque não adianta nada continuar a malhar no ferro frio.

Por esse motivo vou dar o meu contributo nestas páginas com uma proposta exequível para Portugal que espero possa ser discutida por todos.

Por falta de tempo reservo o espaço deste fim de semana para a apresentação desse conjunto de ideias.
Re: Portugal tem uma saída Ver comentário
De Setembro de 2010... Ver comentário
Mais ideias de hoje (como me veem a cabeca) Ver comentário
Re: Mais ideias de hoje (como me veem a cabeca) Ver comentário
e continuo ao sabor dos pensamentos Ver comentário
Re: e continuo ao sabor dos pensamentos Ver comentário
DO
O mal está feito e há que arcar com as responsabilidades dos actos.
Agora honestamente o que eu gostaria de ver era ser alguém que nos levou a esta situação ser responsabilizado criminalmente, e enquanto isso não acontecer nunca saímos da cepa torta, pois eles acham-se acima da lei e tudo fazem impunemente.
É isto democracia?
Uma democracia sem justiça é uma ditadura de interesses que lesam um país e legando as dívidas ao povo.
Re: DO Ver comentário
DO
Sabe que as reformas que os políticos têm, é o ingrediente maior para uma destabilização das contas públicas e que muitos dele nada fizeram de útil a não ser estarem sentados o dia inteiro a ressonar na AR.
Por falar em políticos o que fizeram a Manuel Alegre? Amuou?
Evidente
"O nosso maior problema, que nos destaca dos restantes países mas que é sistematicamente ignorado em quase todos os discursos e comentários, é a dívida externa."

É evidente, e já o era há pelo menos cinco anos atrás. A única solução com efeitos imediatos é limitar o valor das importações ao valor das exportações. O que iria doer mas doeria menos do que qualquer outra alternativa, e teria a grande vantagem de criar um ponto de partida para a recuperação. Sem isso acabaremos por ter de convidar o Sr. Roberto Mugabe para primeiro-ministro...
Re: Evidente Ver comentário
Re: Evidente Ver comentário
Re: Evidente Ver comentário
Re: Evidente Ver comentário
Re: Evidente Ver comentário
DESDE 1974 A GOZAR COM PORTUGAL!
“Só há duas formas de resolver o nosso endividamento externo: poupança e crescimento económico.” Ninguém questionará esta sua frase. O problema é o resto, nomeadamente o ONDE, QUANDO e COMO fazer. Vc tal como a maioria dos camaradas instalados e bem acomodados são parte do problema e o vosso pânico é q têm consciência disso. Junto com os beneficiados do amiguismo e clientelismo do Portugal d Abril são os parasitas do sistema. Engrossaram a maquina estatal directa e indirectamente e acreditando no q dizem os especialistas um dos grandes problemas do país é a sobre dimensão da maquina estatal e a sua eficiência. A questão pertinente é mais a eficiência do Estado q é tida como entre o mau e muito mau. Gasta muito e não dá conta do recado. O bailout irá impor a realização apressada e fria dum trabalho d casa q bem podia ter sido feito tranquilamente durante a última década. Como não foi agora perante o descalabro e afiliação vamos fazer em pouco tempo o q devíamos ter feito em anos. Convenções colectivas d trabalho ou melhor d parasitismos sindical ou corporativo serão revistas, subsídios irresponsáveis serão cortados, institutos e secretarias disto e daquilo encerrarão, dinheiros injustificadamente gastos terão q ser devolvidos, incompetentes despedidos, acomodados postos a trabalhar e teóricos da treta a pensar fazem parte da cartilha q se avizinha. A SUA PROCUPAÇÃO COMEÇA E É POR AQUI Q VAI. O país q vc gostava NUNCA será possível e ainda bem. Bastaram os tempos da ...
Re: DESDE 1974 A GOZAR COM PORTUGAL! 2 Ver comentário
Bute ..fogo neles..!
Maso que adianta vir o dinheiro se continuamos com a casa por arranjar ?
Ok..vamos receber dinheiro para os sofás novos, para o ar condicionado e para poder ir ás compras ao Continente mas a telhado continua por arranjar e ao meter água vai continuar a dar cabo da mobilia.
Cortem nos ordenados e nas reformas de luxo, coloquem um plafond máximo de 5000 euros nos ordenados do Estado façam uma verdadeira reforma fiscal, sejam severos com a fuga ao fisco acabem com o of-shore da Madeira, acabem com fundações da treta, renegociar as parcerias público/privadas, deixar de sustentar " empresários sacadores" e reformar a justiça sem manipulações politicas e leis mais severas ! Só que para se fazer isto não chega escrever comentários na net..mas sim fazer-mos nós mesmos esta revolução como na Islândia e acabar com a politica caduca baseada na individualidade e no compadrio !
Comentários
Hoje dá prazer ler os comentários dos leitores do Expresso.
Aparecem críticas, preocupações e sugestões que me parecem pertinentes.
Se os políticos de topo lessem e reflectissem sobre estes textos, não se perdia nada.!!
O brilho nos olhos dos pirómanos
O meu amigo alentejano que por acaso não sabe uma letra do tamanho de um boi, mas que é pessoa muito inteligente e com muito bom senso, diz-me o outro dia que para ele o FMI só vem buscar a camisa que nos emprestou, mas como já está velha vai exigir as calças e os sapatos. Lá vamos ficar de tanga e descalços.
Não erremos o alvo
Os banqueiros não são um problema: os banqueiros são o problema. Portugueses ou alemães, tanto faz.
Porreiro pá?!
Que todos nós sempre fomos, durante todo este tempo, os fiadores desta política despesista. Acho que não é novidade, pelo menos para quem tinha os olhos abertos.
Depois, essas histórias de "coisas" do Estado em "média" com os níveis europeus, a mim não me agrada nada.
Primeiro, porque nós estamos na média ou acima, nas coisas más. Nas coisas boas, estamos sempre muito abaixo da média, ou seja, em falta.
Segundo, porque toda a gente que tem cabeça que é utilizada para pensar, já estava a ver este filme.

Apesar do que se diz, já no Governo Barroso se lutou contra um Estado crescente, carregado de problemas estruturais, a precisar de novas ideias e novas pessoas. Mas alguém faz ideia das dificuldades de um aparelho, onde estão instalados PS e PCP de forma profunda, em mudar? Só que, não interessa falar disso.

Adiante, agora temos FMI, teremos muita dificuldade para um conjunto de pessoas que trabalham, que produzem, que sempre foram os fiadores do Estado e que continuaram a pagar os desmandos dos sonhadores socialistas.
Não são os dependentes do Estado, esses estão habituados a depender, que sentirão a pior crise. Será uma oportunidade para mudar, certamente para melhor, porque isso de estar parado não é vida.

É urgente, muito urgente, criar um processo que proteja os frágeis, os verdadeiramente frágeis da nossa sociedade, que ao longo dos próximos anos estarão em elevado risco.
A inevitabilidade do tombo
Caro Daniel,
Claro que tem razão. O FEEF não vem ajudar mais ninguém que não os nossos credores. Mas tal mal tornou-se inevitável a partir de uma determinada altura.

Lembremo-nos que quando a Espanha começou a atacar o problema o Zé Pinto ainda perguntava indignado «crise? Qual crise? Pessimismo, botabaixismo, ...».
A MFL lançou o grito de alerta. A maioria não ouviu. Agora os espanhóis estão-se a escapar ao FEEF enquanto nós vamos mamar a ampola!

Outra coisa muito importante é esta: se tivéssemos recorrido mais cedo ao FEEF teríamos muito mais poder negocial, inclusive para restruturar a dívida...
Assim, reagindo tarde e a más horas -- mais uma vez -- estamos de calças na mão, só com tanguinha. Os senhores do FEEF e do FMI tem-nos onde querem.

Por tudo isto, só temos a agradecer a nós próprios, ao Zé "Special One" Pinto, e á maior parte dos antecessores.
Deixemo-nos de chorar sobre leite derramado e comecemos a analisar o que correu mal e o que tem de mudar.
Re: A inevitabilidade do tombo Ver comentário
Re: A inevitabilidade do tombo Ver comentário
venha o FMI
Não me brilharam os olhos, mas espero sinceramente que sejam capazes de fazer o trabalho que por cá nunca conseguiram: emagrecer o estado; qto. ao crescimento, ele só poderá vir das empresas e por isso estas têem de ter os seus custos mais reduzidos, nomeadamente ao nível da energia e comunicações.

Daniel, sejamos claros: o Estado até aqui investe mal, negoceia mal (vide PPP) e já nem consegue dar conta da saúde e da educação; por conseguinte, é obrigatório acabar com um modelo assistencialista universal que nos coloca a todos numna posiç~ºao subalterna de pedintes.

Assim, o que precisamos mesmo é de trabalho, de coragem, de iniciativa, de mais e melhores horizontes...
a pequenez da esquerda que se apraz em obras públicas e greves, desconhecendo em absoluto de onde vem o dinheiro está completamente "demodée" e é ruinosa.
Responsabilidade é a palavra chave e estou portanto muito longe do seu grito de Ipiranga do "Não Pagamos".
Re: venha o FMI Ver comentário
Re: venha o FMI Ver comentário
Re: venha o FMI Ver comentário
Re: O brilho nos olhos dos pirómanos em dia de inc
Há poucos dias atrás, o insuspeito Diretor-Geral do FMI (que nos vai emprestar uma fatia considerável de euros) foi muito claro no que disse: o problema de Portugal, antes do défice público, passa acima de tudo pelo financiamento da banca e pelo endividamento privado. De forma inusitadamente crua, ficam deitadas por terras as teses delirantes de que Portugal era totalmente diferente da Irlanda. É-o na forma. Não o é no conteúdo. Como os Irlandeses, uma boa maquia do que aí vem é para sustentar os mesmos de sempre (o sistema financeiro português que está em boa parte à beira do colapso), com a fatura a liquidar por todos nós. Foi a banca que, através dos seus lacaios das agências de rating, forçou a intervenção externa no nosso país. O que aí vem começa a ganhar contornos bem nitidos: despedimentos na FPública (após a revisão constitucional que PS, PSD e PP patrocinarão prestimosamente), congelamento de sálarios e pensões em larga escala. Quem pugnava pela vinda do FMI e FEEF vai amargurar bastante. Uma FPública sem dinheiro para consumir vai contaminar todos os setores de atividade. Falências, despedimentos e recessão entrarão no léxico quotidiano dos portugueses. A comunicação social, valha a verdade, contribuiu, excitada, para a vinda dos estrangeiros ditar a Portugual o que fazer. Quando, entre outros, abro o site do Expresso e continuo a ler sistematicamente expressões benévolas como 'ajuda' e 'resgate', além do nojo intelectual que me provocam fica o registo dos media
Re: O brilho nos olhos dos pirómanos em dia de inc Ver comentário
PUB
PUB
Expresso nas Redes
Pub