O brilho nos olhos dos pirómanos em dia de incêndio
Aceite a intervenção externa, acabou finalmente a conversa de que o FMI vem pôr o País na ordem. Tirando uns talibã enlouquecidos, já toda a gente percebeu, olhando para a a Grécia e para a Irlanda, que não é esse o objetivo da intervenção. Trata-se de, em troca de mais dívida, impor políticas nacionais que garantam que os credores terão de se deparar com incumprimentos ou necessidades de renegociação o mais tarde possível. Ao adiar o inevitável, provavelmente até 2013 - ano em que algumas regras podem vir a mudar -, recapitalizar o mais depressa possível a banca alemã, a maior credora da Europa. Para ela estar preparada para o que vem depois, resultado da agonia económica dos países periféricos. E se a coisa se alastrar à Bélgica e a Espanha tudo pode acontecer ainda mais cedo.
Mas ainda há quem, em Portugal, fale em crescimento nos próximos anos. E quem olhe para esta intervenção como um começo de um novo ciclo de esperança. A propaganda tem uma capacidade extraordinária de resistir com indiferença aos factos. É olhar para os que viveram isto antes de nós. A verdade é esta: as medidas que virão associadas a esta intervenção são medidas recessivas. É crise em estado puro.
No que toca às contas públicas, não é preciso ser um génio para fazer contas: menos receita fiscal, mais despesa social (mesmo que se corte nos subsídios, o desemprego continuará a aumentar) e contração do PIB, que é a referência de todos os restantes indicadores.
Mas o nosso maior problema não é a dívida pública. Até ao aumento dos juros, em 2008, ela estava na média europeia. O nosso maior problema, que nos destaca dos restantes países mas que é sistematicamente ignorado em quase todos os discursos e comentários, é a dívida externa. E dessa dívida externa, três quartos (em 2009) são dívida privada. Os portugueses estão endividados e a banca, para lhes emprestar, está endividada no exterior. Esta intervenção terá também como destinatários os bancos. Seguramente sem as condições que o Estado será obrigado a cumprir, a banca terá liquidez. Por isso pressionou tanto para este "pedido" de "ajuda" externa. Só que o que vem a seguir não melhorará a nossa situação.
Só há duas formas de resolver o nosso endividamento externo: poupança e crescimento económico. Como a média salarial em Portugal mal dá para as despesas básicas não se imagina como vão poupar os portugueses. Junte-se a isto o aumento de impostos, o aumento do desemprego e o aumento do preço de bens públicos - como os transportes - e percebe-se que, pelo contrário, passará a haver menos condições para poupar. Quanto ao crescimento, alguém terá de explicar como se conseguirá esse milagre da multiplicação dos pães. Menos dinheiro disponível, menor capacidade de investimento, crise no mercado externo, crise aguda no mercado interno... Querem mais ingredientes para o desastre? Agora acrescentem a tudo isto vários anos de políticas recessivas...
Quem, por um fetish qualquer por soluções castigadoras ou por uma atração adolescente pelo abismo, vê na chegada do FMI o começo de uma nova era de bons hábitos vive noutro planeta. E quem decide políticas neste pressuposto só nos poderá enterrar ainda mais.
O que realmente assusta é ver a indisfarçável satisfação com que algumas pessoas receberam as notícias desta semana. Assim como os olhos do pirómano brilham quando o fogo consome a floresta, os seus brilharam perante o desastre. Os portugueses viverão agora "com menos angústia e com menos incerteza", disse um candidato a primeiro-ministro, parecendo ignorar que, pelo contrário, a crise se irá aprofundar e todos viveremos com mais angústia e mais incerteza. E este homem poderá vir a fazer o papel de bombeiro nos próximos anos. A um primeiro-ministro incompetente poderá suceder um primeiro-ministro inconsciente. Um deixou o fogo alastrar por incúria. O outro parece acreditar no poder purificador do fogo.


