26/05/2012 atualizado às 12:47
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Jorge de Brito (1928-2006)

O bancário que se tornou banqueiro

Começou do zero, fundou um banco e comprou um jornal. Foi preso, recuperou a dignidade e chegou à presidência do Benfica. A vida de Jorge de Brito dava mesmo um filme.

20:44 Quarta feira, 2 de agosto de 2006
Jorge de Brito durante o seu julgamento, em Junho de 1976
Jorge de Brito durante o seu julgamento, em Junho de 1976
Fotografia de arquivo d`"A Capital"

Formou um pequeno império que depressa se desmoronou, fundou um banco, ganhou o concurso para a construção das auto-estradas portuguesas e concretizou um sonho de infância - o de vir a ser presidente do Sport Lisboa e Benfica. Jorge de Brito morreu ontem, dia 2 de Agosto. Tinha 78 anos.

Jorge de Brito iniciou a sua ligação à banca, no decorrer dos anos 40, quando era ainda um simples empregado bancário do grupo Espírito Santo. Mas cedo conquistou a sociedade do pré-25 de Abril, que o admirava e depositava nele toda a confiança. «A minha palavra valia ouro. Fechava operações de milhares de contos pelo telefone e as pessoas acreditavam cegamente em mim», afirmou o próprio em entrevista ao semanário Independente.

Jorge de Brito esteve também ligado à imprensa, como administrador do jornal «O Século», que comprou «para ter uma arma» contra os adversários. O poder económico e político não lhe bastava.

A sua fortuna pessoal garantiu-lhe a aquisição de um vasto espólio artístico. Ao longo de três décadas comprou mais de três mil telas de diversos pintores, portugueses e estrangeiros, com quem privava diariamente. Destaca-se um grande núcleo de trabalhos de Vieira da Silva, hoje expostos na fundação com o nome da artista. Apesar da ter intenção de criar um museu para expor as suas obras, acabou por vendê-las ou doá-las a diferentes instituições. Na década de 70, doou o Retrato de Fernando Pessoa , de Almada Negreiros, à Câmara Municipal de Lisboa. O quadro foi depois transferido para o Museu da Cidade e, finalmente, para a Casa Fernando Pessoa, onde se encontra actualmente. No início dos anos 80, vendeu quase duas centenas de peças ao Centro de Arte Moderna, da Fundação Gulbenkian.

Auto-estradas com nome

No início dos anos 70, ganhou o concurso para a construção das auto-estradas portuguesas e fundou a Brisa, cujo nome foi inspirado no seu apelido, BRI(to), SA.

Em 1972, com o aval do então ministro das Finanças, Dias Rosa, Jorge de Brito criou o Banco Intercontinental Português (BIP), mantendo-se como accionista maioritário. Aquela instituição bancária funcionava através de crédito auto-atribuído, para financiar os negócios realizados por cerca de 60 empresas, das quais detinha parte ou a totalidade do capital. No entanto, em princípios de 1974, as dívidas do grupo ascendiam já aos seis milhões de euros e, em Dezembro do mesmo ano, Jorge de Brito é detido e pronunciado por exportação ilegal de divisas.

Acusado de transferir para o estrangeiro cerca de 70 mil contos, sem a devida autorização do Banco de Portugal, esteve preso durante 18 meses sem culpa formada e tentou evadir-se, por duas vezes, sem sucesso. Finalmente, o tribunal condenou-o a seis meses de prisão, mas o banqueiro saiu em liberdade por já ter cumprido pena.

Enquanto esteve na prisão, tentou salvar a sua colecção de obras de arte, enviando-a para Espanha. O primeiro carregamento passou a fronteira em São Gregório, perto de Melgaço, o segundo, porém, foi parar às mãos da polícia franquista que reclamou uma contrapartida de 27 milhões de pesetas para a devolução das obras. O espólio incluía quadros de Vieira da Silva, Serge Poliakoff, René Magritte, Sonia Delannay e Albert Cleizes, bem como porcelanas únicas no mundo.

Conquista da presidência 

A vida atribulada de Jorge de Brito começava a compor-se quando, nos anos 80, tinha já recuperado parte da sua fortuna. Benfiquista de gema, faltava-lhe ainda concretizar um sonho de sempre: ser presidente do clube das águias.

Sócio desde 1935, foi um dos mais prestigiados dirigentes encarnados, entre 1992 e 1994, e esteve ligado à conquista de uma Taça de Portugal e de um campeonato.

«Em honra de um grande e histórico benfiquista, o clube já colocou as suas bandeiras a meia haste. É com pesar e grande emoção que o Benfica endereça os sinceros sentimentos aos familiares e amigos de Jorge de Brito», pode ler-se no sítio do clube da Luz na Internet.

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