Nuno Markl: "Detesto gente imaturamente adulta"
É o rei dos humoristas na internet. O seu blogue tem uma legião de fãs e no Twitter é dos portugueses com mais seguidores. Mas Nuno Markl já sentiu na pele os dissabores da popularidade virtual. (Veja o vídeo no final do texto)
Sente-se um malabarista com 1000 bolas. Compreendemos porquê. Entre as gravações matinais na Antena 3, Os Contemporâneos, o programa "Nuno & Nando", o documentário sobre o humor nacional que está a preparar, o blogue e o Twitter, sobra-lhe neste momento pouco tempo livre na sua agenda. Encontrou algumas horas para falar com o Expresso sobre o humor, a sua relação com a Internet e as mudanças na sua vida agora que vai ser pai. Tudo sem tirar o iPhone do bolso para 'tuitar'...
Disputou durante anos com Pacheco Pereira o topo do ranking dos blogues mais lidos com o "Há Vida em Markl". Hoje é um dos português mais populares no Twitter, com cerca de 11.300 seguidores. Tem uma postura profissional em relação à Net?
É um misto das duas coisas. Na verdade, perdi um pouco o controle sobre o que é a minha vida pessoal e profissional quando comecei a fazer o "Há Vida em Markl", primeiro nos cartoons do "Inimigo Público", e depois na Antena 3 e no blogue. Porque a ideia é usar as minhas experiências de vida como material humorístico, coisas com que as pessoas se possam rever. Como assumir que não sei andar de bicicleta ou não saber conduzir. Hoje, há um cruzamento total entre a vida pessoal e profissional, sempre, obviamente, com alguma reserva - eu não partilho tudo.
Sim, toda a gente gosta de saber o que se passa dentro da casa do vizinho. Mas é também um reconhecimento que penso que algumas pessoas sentem com o tipo de coisas que eu conto que também se passaram com elas, e que por vezes não são nada fixes nem cool de se assumirem. É um misto de voyeurismo e de identificação.
Você é a sua melhor matéria de humor? Pode ser narcisismo?
Sim, (risos) de forma meio neurótica, meio egocêntrica... Gosto deste tipo de humor. O humor do Seinfeld é todo na primeira pessoa, supostamente são coisas que lhe acontecem. É evidente que há coisas que eu conto que não me aconteceram exactamente assim, porque estou a trabalhar em comédia e não a fazer um diário.
Como é que se organiza para estar sempre o dia inteiro a escrever para a Internet, blogue e Twitter?
Neste momento estou quase sempre em frente ao computador, e o Twitter e o blogue estão ali no mesmo ecrã. Estou a escrever um texto, e de repente lembro-me de qualquer coisa e vou à janelinha do lado fazer um tuit ou um post.
O seu dia-a-dia está todo lá?
Sim, mas tento, quando escrevo, que seja algo mais do que alguns tuits que se vêem tipo "estou a tomar o pequeno-almoço; estou a almoçar; estou a fazer cocó..." O que é engraçado no Twitter é falar destas coisas corriqueiras, no meu caso tentar encontrar um ângulo cómico, e fazê-lo em 140 caracteres. É um desafio tremendo ao nosso poder de síntese.
Há quem diga que o Twitter veio tornar os blogues tão longos e chatos como a Internet fez com os jornais. Acredita que o Twitter veio substituir os blogues?
Sim, eu próprio sinto isso com o meu blogue. O Twitter é tão imediato e rápido que é uma tentação fazer tudo por ali. Vejo uma coisa na rua, tiro uma fotografia e ponho online, é muito mais versátil. E começo a sentir que no blogue tenho de gastar palavras a mais... O Twitter veio espicaçar-me a falar de forma curta e grossa.
Neste momento, o Twitter é o seu principal palco, excluindo a rádio?
Sim, é capaz de ser. Quem está de fora muitas vezes pergunta-se para que é que aquilo serve. Aliás, eu próprio era um desses. Quando abri conta pela primeira vez, já o Twitter existia há 500 anos e não ligava nenhuma ao assunto... Mas, depois, quando se entra, meio a medo, percebe-se que é muito mais engraçado do que um blogue. Sinto que entrou em vertigem na minha vida. E, de um ponto de vista pragmático, o Twitter é também a melhor promoção, quase viral, ao nosso trabalho. Cria-se uma comunidade, e uma informação passa aos nossos seguidores, depois começa a ser 'retuitada' (reenviada) aos seguidores deles, e chega a milhares de pessoas num instante. Isto tem um potencial enorme para toda a gente que tenha um produto para divulgar, e não só para os humoristas ou artistas.
Responde às pessoas que lhe enviam mensagens?
Sim, tento responder ao maior número de mensagens possível. Detesto deixar pessoas sem resposta sobre o meu trabalho. E há gente com muita piada, às quais me dá gozo responder. Falo com pessoas no Twitter que, pela sua conversa, não me importaria de conhecer na "vida cá fora".
Foi na Net que revelou que ia sair do programa "Sexta à Noite", que a sua namorada (Ana Galvão - apresentadora de rádio e TV) está grávida ou o nome do seu filho. É uma estratégia de antecipação à curiosidade dos media?
Quando comecei a namorar com a Ana, ligaram-me de uma revista a pedir-me para eu lhes dar o exclusivo da notícia quando ela engravidasse. Fiquei em estado de choque! Decidi imediatamente que nenhuma revista seria a primeira a saber coisa nenhuma, conto tudo online e o assunto está arrumado. Exclusividade de um filho é uma ideia que me horroriza, absolutamente imoral, só os pais é que têm qualquer tipo de exclusividade sobre uma criança.
Não teme esta sobreexposição?
Não. As coisas que eu conto sinto que são mesmo material de comédia ou relevantes, dentro do conceito porventura meio estranho de relevância que a Net tem. Mas sei perfeitamente que é uma estratégia arriscada, porque cria a ilusão a algumas pessoas que estou a abrir a porta de casa e, por vezes, aparecem pessoas com claro excesso de confiança a dizer coisas terríveis, que até me custa reproduzir. Como, por exemplo, "tomara que a tua namorada aborte" ou "que deite essa criança pela sanita abaixo". Os meus amigos e família dizem-me que estou a pôr-me a jeito, que estou a dar demasiada confiança às pessoas, mesmo que seja uma estratégia pensada da minha parte. Mas é um risco que decidi correr.
Conhece bem os dissabores da popularidade do online. Teve de fechar a parte de comentários do site, tem clones no Twitter - pessoas que se fazem passar por si...
Penso que são sempre os mesmos, que querem enervar e desestabilizar. Bem, enquanto se mantiverem online tudo bem, só não me dava jeito que me espetassem uma faca... Vou interpor uma acção judicial, embora seja um oceano tremendo de chatices. Por isso é que muitas celebridades lá fora têm clones e já desistiram de se chatear - deixam-nos à solta. Eu decidi fazê-lo porque me irrita profundamente a impunidade do online. É preciso dar um exemplo, essas pessoas têm que aprender uma lição.
Da Áustria. O meu avô era austríaco, foi um dos fundadores da Tudor em Portugal. Hoje não falo nada de alemão, nem nunca fui à Áustria, embora tenha lá família.
Reconhece alguma coisa em si dessa costela austríaca?
Muito pouco... Dizem-me que os austríacos são muito frios, organizados, metódicos - eu não sou nada disso. Devo ter qualquer coisa cá, mas ainda não descobri. Um dia tenho de fazer essa viagem de autodescoberta, visitar as minhas raízes.
Markl deu um bom nome artístico...
É verdade, embora me tenham aconselhado no início a não o usar por ser muito complicado. Estive à beira de ficar Nuno Lobato... O que até me orgulhava, porque remetia para o meu antepassado favorito - um tio tetravô - Gervásio Lobato, escritor e humorista do século XIX que escreveu o "Lisboa em Camisa". Uma das coisas que me abriram o espírito para a comédia foi quando a minha avó paterna me emprestou o livro, eu era novíssimo e ri a bom rir.
A sua infância e adolescência foram traumatizantes. Era o cromo caixa de óculos da turma?
Bem, é um bocado exagero dizer que foram traumatizantes... Mesmo as coisas mais traumáticas da minha infância e juventude, hoje olho para elas e acho-as terrivelmente divertidas. Tudo aquilo são memórias boas. Mas sim, foram anos muito atrapalhados. Eu era um tipo superatado, muito tímido e com dificuldades de me relacionar com os outros. Ninguém dava por mim - literalmente - era invisível. E só me desatava perante as pessoas quando fazia uns desenhos e cartoons, era o meu método para chegar aos outros miúdos. Um recreio é uma sociedade sinistra - eu não sabia jogar à bola, levava calduços, era insultado. Tinha de desenhar para sobreviver... Estava sempre no grupo onde havia caixas de óculos e buchas - éramos os outcasts da escola.
Quando é que percebeu que podia ganhar a vida fazer humor?
Começou, ainda antes do Cenjor, a fazer umas horas numa rádio local em Benfica.
Desde sempre que gostei de rádio, nos anos 80 a rádio era óptima. Havia programas incríveis de autor... Ainda puto gravava programas a fingir com a minha irmã, ainda mais pequena. Nas traseiras da casa da minha avó funcionava a Rádio Voz de Benfica, com um som fanhoso, era feita praticamente só por uma pessoa. Um dia fui lá, nervosamente, e ele convidou-me logo para experimentar nessa tarde. A partir daí fiquei viciado.
Está sempre a evocar os anos 80, colecciona bonecadas e discos desses tempos... Há em si uma criança que nunca cresceu?
Como caranguejo retinto, sou incrivelmente ligado à infância. Sim, há um lado infantil em mim, aquele lado que delira em ir ao Toys R'Us ver quais são as últimas novidades... E acho que este lado infantil é grande parte da minha inspiração, porque me faz não me levar muito a sério, parodiar tudo. Há muita gente a levar-se muito a sério, detesto gente imaturamente adulta. Guardar esse lado infantil ajuda a manter a sanidade.
É importante para um humorista manter sempre esse lado infantil?
Acho que sim. A maior parte dos humoristas que eu conheço têm esse lado. O humor na sua essência são disparates. É gostar de brincar, não levar as coisas demasiado a sério. Eu não conheço nenhum humorista que seja um senhor absolutamente adulto e sisudo...
O que é que o faz rir?
Gosto do humor do quotidiano, das pequenas coisas da vida, aquele que é puramente disparatado, de situações absurdas ancoradas na realidade. Quero que as pessoas pensem "isto é muito estúpido!", mas que ao mesmo tempo os comportamentos das personagens as façam recordar gente que conhecem na vida real. Acho que esse é o humor mais giro de fazer.
Na adolescência como foi a sua relação com o sexo oposto?
Obviamente que foi uma complicação. Uma relação de muito sofrimento. Sempre com uma tremenda dificuldade de comunicação e de mal-entendidos. Sofri continuamente por amor. Muitos desses desgostos foram de amor inconfessado. Era do género: Olha que miúda tão gira... ahhhhh, tem namorado! Passei por variadíssimas situações dessas.
Usou o seu talento para escrever cartas de amor?
Eu era um tipo super-romântico, mas a lata não me chegava sequer para eu mostrar essas eventuais cartas de amor. Não tinha coragem. Portanto, boa parte da adolescência foi passada a sofrer em silêncio.
Anos mais tarde vingou-se. E, tipo Woody Allen, o tipo da figura difícil conquistou o coração de uma mulher belíssima... a Ana Galvão.
(Risos) sim... Antes tive uma relação de dez anos com a Anabela. Foi um casamento magnífico. E muito certinho, porque teve princípio, meio e fim. Costumo dizer que foi um casamento com genérico final. Acabou porque tinha de acabar. A arte está no casal perceber quando é que a relação chegou ao fim e saber fechá-la de uma forma adulta. Hoje estou com a Ana, que é uma figura pública e tem inúmeros fãs homens..
Hoje consegue decifrar as mulheres?
Algumas sim. A Maria Vasconcelos, minha amiga e colega, com quem fiz o programa de rádio "O Homem que Mordeu o Cão", que é psiquiatra, dizia que eu tenho uma grande inteligência emocional. Quer dizer que percebo bem a maneira de funcionar das pessoas. Mas isso não me ajudou nada na adolescência...
Agora, vai entrar numa nova fase da sua vida. Será pai em Junho. Já sente o peso da responsabilidade? Sente-se um homem diferente?
Sim. É bom que a gravidez de uma mulher dure nove meses. (risos) Para ela carregar a criança e nós organizarmos a mente para percebermos que nada vai ser como dantes.
É um processo confuso?
Tem sido bom. Porque eu já estou em boa idade para ser pai, não vale a pena estar a adiar mais. E eu teria muito gosto em deixar mais um 'marklito' no mundo. Eu ainda sou irresponsável numa série de coisas. Ou melhor, sou acima de tudo distraído. Estou em estágio para ser mais concentrado.
É verdade. Podemos andar a vida toda a enganarmo-nos e a dizer coisas como "os carros fazem poluição, dão imenso trabalho, e depois arrumá-los!?" Mas depois começo a pensar: e se eu estiver em casa com a Ana e chegar a altura do nascimento? Quem vai a guiar? Ela, com a criança já com o braço de fora do carro, vai levar-me a mim ao hospital? Foi algo que me pôs a pensar.
Como é que conseguiu viver tantos anos sem carta de condução? Se não gosta de futebol como é que tinha conversa para os taxistas?
Isso continua a ser um drama terrível. O não saber o suficiente de futebol para conversar com taxistas. Mas são muitos anos a andar de táxi e às tantas comecei a conhecer alguns taxistas. Portanto, de vez em quando encontro alguns que já sabem que eu não percebo de futebol.
Na sua agenda, o humor está sempre presente. De manhã à noite. É presença matinal em programas humorísticos de rádio, escreve e interpreta os guiões dos "Contemporâneos" (RTP) e de outros tantos programas, alimenta quase hora a hora o seu site e o Twitter. Como consegue aguentar o ritmo?
Já foi pior. O que eu fazia na rádio era absolutamente insano, um sofrimento atroz. Ao ponto de eu ter falado com o Rui Pêgo (director de programas da RDP) a comunicar-lhe que não conseguia assegurar dois programas "Há Vida em Markl" todos os dias - eram duas edições, uma às 8h20 e outra às 10h20. Acabei por mudar o formato.
Quando eu estou de mau humor curiosamente saem-me boas piadas. O mau humor é amigo do humorista. Fico ácido, mordaz. O mesmo acontece com as poucas horas de sono. Lembro-me que fiz algumas boas edições de "O Homem que Mordeu o Cão" e do "Há Vida em Markl" com pouquíssimas horas de sono. Acordo com uma fúria contra o mundo e fico mais acutilante e agressivo.
E quando não está inspirado de todo?
Às tantas, comecei a desenvolver técnicas. A que eu uso é sacar à força ideias olhando para objectos. Olho para uma cadeira. E penso, o que é que ela me inspira? Pessoas sentadas nela? As palhinhas das cadeiras? E de repente começo com associações de ideias absolutamente esgotantes. Escava-se, escava-se até encontrar graça naquilo.
A maioria das pessoas julga que fazer humor é fácil, basta dizer umas larachas. Escrever bom humor requer muito trabalho?
Muitíssimo. Porque requer uma reacção tão precisa do espectador que é rir. Se numa comédia as pessoas não se rirem será um fiasco. E portanto tens de estar inspirado ao máximo.
Um bom sketch reflecte muitas horas de trabalho?
Sim, eu vivo com o humor. Um dia típico para mim é acordar às 7h, fazer o programa "Há Vida em Markl", gravado nas instalações da RDP ou a partir da minha casa. Almoço e começo a escrever para "Os Contemporâneos" até à hora do jantar. Também estou a escrever para o documentário "As Divinas Comédias", sobre a história da comédia na televisão portuguesa. E ainda, certas noites, são reservadas para escrever os textos para a rádio.
E sobra-lhe tempo para viver?
Nesses dias a minha vida praticamente não existe, a não ser em pequenos fragmentos. Entre intervalos de trabalho. Procuro não ir para lá das oito da noite, tento que seja o meu limite. Porque senão é o fim. Sinto que parte da desagregação do meu casamento foi porque eu trabalhava mesmo muito. E isso faz com que os mundos das pessoas se separem.
Considera-se um workaholic?
Sou um tipo com muito trabalho. Um workaholic é alguém que não sabe fazer mais nada na vida...
A procura da melhor piada, do melhor texto de humor não pode levar à obsessão?
Pode tornar-se um bocado obsessivo. Porque é uma coisa muito delicada e ingrata. Porque nem toda a gente se ri do mesmo. Eu e o Francisco Palma passamos às vezes horas para numa só frase escrever as palavras de uma maneira certa para ter o tal efeito.
É-lhe difícil desligar?
Sem dúvida. Posso estar no destino mais paradisíaco do mundo e de repente vejo uma coisa que me faz pensar "isto dá uma edição do 'Há Vida em Markl', deixa-me tomar notas para quando voltar". E, de repente, dou por mim em férias com um caderninho a escrever ideias. É algo desgastante, mas antes isso do que estar numa repartição ou atrás de um balcão...
"Os Contemporâneos" reflectem também o humor da actualidade política. Referem o Sócrates, o Cavaco, a Manuela Ferreira Leite, o Vital Moreira...
Sim. De vez em quando sinto-me na obrigação de escrever sobre coisas da actualidade. Mas não me sinto vocacionado para esse tipo de humor porque me aborrece. Há quem o faça maravilhosamente bem. Adoro ver o "Contra-Informação" (RTP1) e o "Daily Show" (SIC Radical). A política portuguesa é um universo muito restrito. Andamos todos ao mesmo. Os alvos não mudam...
O humor político não é importante?
Muitíssimo. Alguém tem de escarnecer desta classe política maioritariamente ridícula que nós temos. Que nos fornece tão bom material risível. Mas é um tipo de humor que perde actualidade em pouco tempo. É como os jornais...
O humor não deve servir para passar mensagens? [RESPOSTA]Pode e deve. Mas eu gosto de fazer um humor mais universal e intemporal. No sentido em que possa fazer rir as pessoas daqui a alguns anos. Que tenham a ver com o homem e os defeitos mais humanos. E analisar isso à lupa. É um campo muito mais vasto do que as tricas políticas ou futebolísticas.
Estes tempos de crise são tempos de bonança para o humor?
Sem dúvida. Para já porque as pessoas precisam de rir. Falei há tempos com a Mafalda Mendes Almeida do "Contra Informação", que me disse que a altura em que tem mais audiência é quando há mais crise. As pessoas procuram humor quando estão tristes. Precisam de alguém que pegue nas fezes e faça dali um bonito cinzeiro.
Há para si temas tabu? Onde é que usa a caneta azul?
Tenho não usá-la à partida. Acho que não devemos nunca virar as costas a uma possibilidade de comédia. É errado começar do pressuposto de que não se vai falar disto, disto e disto. Mas já a usei, por exemplo, no sketch na "Última Ceia", um dos primeiros que fiz nas Produções Fictícias para o Herman José. Fizemo-lo primeiro para a rádio, que era bastante brutal, e depois nós próprios começámos a censurá-lo quando passámos para a televisão. E ficou com menos graça, mas gerou ainda muita fúria. Penso que hoje já não aconteceria. Há tanta coisa a acontecer que as pessoas não têm tempo de se concentrar num protesto.
É sabido que o Herman é uma das suas referências. Neste momento, ele está desempregado... É difícil envelhecer a fazer humor?
Eu participei na escrita de vários programas do Herman, e no "Hora H" fizemos muitas coisas experimentais. E ele fê-las com toda a pica e energia. Por isso, acho injusto que digam que o Herman já não é o que era. Possivelmente ele teve alguma responsabilidade nisso, por causa da fase em que o Herman SIC se transformou em algo que o afastou dos seus fãs mais acérrimos. Passou entretanto a haver muito humor na TV, surgiram os Gato Fedorento...
Ele ainda o faz rir?
Sim, faz-me rir. De todas as vezes que o encontro ele tem uma boca certeira e muito divertida. Eu acho que ele pode fazer agora uma pausa e depois regressar com um projecto que recupere o entusiasmo das pessoas. É verdade que há um desgaste da imagem do Herman. E, às tantas, isso ultrapassa-o enquanto humorista...
Tem medo que isso aconteça consigo?
Claro que sim. Mas se deixar de ter graça posso sempre fazer rádio. Posso escrever textos, mesmo que não façam rir. Se não viver do humor, viverei da rádio.
Há cerca de dois anos conheceu pessoalmente o Seinfeld, um dos seus maiores ídolos de humor. Nessa ocasião chegou a entrevistá-lo e a fazê-lo rir com uma piada. Foi a sua maior coroa de glória?
Foi sem dúvida muito marcante. Conheci-o em Madrid num breve encontro de promoção do filme "História de uma Abelha". Na versão portuguesa do filme eu dei a voz à abelha protagonista, que na versão original tem a voz do Seinfeld. Eu fiquei completamente esmagado com essa epifania humorística. Ele é um Deus do humor.
Do que falaram?
Depois da entrevista, ele veio ter comigo e iniciou uma conversa banal: "Então fazes comédia? Estás baseado em Lisboa?" Nesse momento arrependi-me de morte por não ter cartões de visita e de não lhe ter dito que queria estagiar com ele em Los Angeles. (risos) Acabámos a conversa a trocar lenga-lengas. Ensinei-lhe a velha cantilena "Joaninha voa voa, que o teu pai está em Lisboa".
Aos sábados, apresenta na Antena 3 o programa "Nuno & Nando", em parceria com Fernando Alvim. Ele é um dos seus maiores cúmplices da comédia?
Eu e o Alvim somos uma espécie de irmãos. Sempre nos demos muito bem a trabalhar. Talvez por sermos ambos desorganizados e amalucados. Ele é um dos tipos mais criativos e empreendedores que conheço. Anda a gastar rios de dinheiro na sua incrível revista literária - a "365" -, este ano realizou o festival da canção alternativo e os prémios Monstros e está a abrir na Internet o canal Speaky TV. Para mim é uma das figuras principais e mais dignas de respeito do entretenimento nacional.
Ambos são apontados como os pais dos Gato Fedorento - divulgados no vosso programa "O Perfeito Anormal".
É verdade que eles se lançaram no nosso programa. Mas eram suficientemente bons para singrarem mais tarde ou mais cedo. Aliás, eles, tal como eu, já singravam como argumentistas a escreverem para o Herman e para a Rueff.
Chegam às suas mãos muitas propostas de aspirantes a humoristas?
Sim. Muitas mesmo. Para os meus e-mails, para o Twitter, para o Facebook. Há muita gente a querer fazer humor. Há uns que se vê à partida que têm potencial, outros não. E depois há casos tão extraordinários que fico ansioso por dá-los a conhecer ao mundo. Como aconteceu com o Pedro Santo e o João Pombeiro e o João Moreira, os tipos que fazem o programa do Bruno Aleixo, na SIC Radical.
Eles são uma das grandes novidades do humor nacional.
Completamente. O Bruno Aleixo é uma coisa nunca antes tentada na nossa televisão. E eles nem queriam aparecer. Tive de insistir para que o Pedro Santo tivesse uma reunião nas Produções Fictícias. Diz a minha experiência que as pessoas que mais talento têm são as que não querem ser conhecidas.
Há gente com graça na Internet?
Imensa. O arcebispo de Cantuária. É um tipo com um site magnífico com trocadilhos (http://arcebispodecantuaria.blogs.sapo.pt
). Dos mais refinados que eu vi em toda a minha vida. O André Toscano é outro que eu aconselho vivamente. É autor dos textos mais hilariantes que eu li nos últimos tempos. O seu site é o www.dizquedisse.com
. Ele tem todo o talento e potencial, mas está na maior no seu negócio de microfones e sistemas de som.
Acredita que o talento vem sempre ao de cima?
Acho que sim. Quando existe. E a Internet é uma ferramenta tremenda para as pessoas mostrarem aquilo que são capazes.
Gosta de cinema e de séries. Esta era dourada das séries de TV veio trocar as voltas à indústria do cinema americano?
Talvez. Eu adoro cinema e há muito público para ele. Porém, há séries de ficção que estão a ser melhores blockbusters do que certos filmes de Hollywood. Gosto muito da série "Lost" e descobri agora o "Dexter", uma série sobre um serial killer de quem fiquei completamente fã. O "Dexter" é um pontapé violentíssimo nos tomates do "CSI", porque este último já não apresenta novidade no domínio forense.
Tem uma grande colecção de cinema.
Tenho uns 3000 DVD... uma coisa louca. Forram-me as paredes do escritório. Música também colecciono muita, mas fui passando todos os meus CD - que eram imensos - para um disco rígido e para o meu ipod. O CD em si parece-me um objecto desinteressante, ao contrário do disco de vinil.
Pensemos em grande. Se lhe fosse edificada uma estátua, o que gostaria de ver lá escrito?
Podia ser uma frase do tipo: "Muitas vezes lixou-se, é pá, mas fez sempre aquilo que achava que tinha de fazer..." (risos).
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Maio de 2009


Mãozinhas para abaixo! Numa sessão fotográfica memorável, Markl encarnou personagens de filmes dos seus realizadores favoritos. Aqui faz de Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton. O pior foi a cominhão...
