Protagonistas

"Nunca foi tão fácil, barato e rápido criar uma empresa de sucesso"

Entrevista com António Lucena de Faria, presidente do grupo Methodus.
Paulo Jorge Neves (www.expresso.pt)
António Lucena de Faria durante uma das suas aulas no ISEG Luis Faustino António Lucena de Faria durante uma das suas aulas no ISEG

António Lucena de Faria é um criador de empresas. Com 15 anos, construiu o primeiro negócio baseado em aquários, que vendeu posteriormente à família.

Com 17 foi do Porto para Lisboa tirar o curso de Economia na Universidade Católica. Depois fez um MBA na Universidade de Minnesota nos Estados Unidos. De volta a Portugal, criou em 1987 a Methodus Sistemas de Informação e nos anos seguintes mais de 10 empresas.

Há dois anos lançou em Silicon Valley (EUA) o projeto ActionFlow.com.

Atualmente é o presidente da administração do Grupo Methodus e o fundador da Fábrica de Start-ups. Dedica-se a juntar empreendedores, testar modelos de negócios e criar novas empresas inovadoras e orientadas para o mercado global. Nesta entrevista desfaz o mito de que abrir uma empresa é um 'bicho de sete cabeças'.

 

Entrevista


 

O que é ser empreendedor?
É um criador de empresas. Alguém que consegue descobrir um problema que ainda não está bem resolvido, que é capaz de imaginar uma solução, criar uma equipa e encontrar clientes, que pretende ser o dono do seu destino.

Por que razão há poucos em Portugal?
Na verdade existem muitos. Temos mais de um milhão de microempresas.Precisamos é de empreendedores mais bem preparados para enfrentar a concorrência, com mais conhecimentos em gestão de empresas, mais inovadores e mais virados para o mercado global.

Oque é preciso para lançarumnegócio e atrair investidores?
Primeiro, uma ideia de negócio razoável.Segundo, uma equipa sólida, com pessoas que se complementam, muito motivadas, dedicadas e esforçadas. Terceiro, ser capaz de demonstrar que o negócio tem boas possibilidades de sucesso, através das métricas recolhidas na interação com os potenciais clientes. A maior dificuldade dos investidores portugueses é encontrarem oportunidades de investimento com estas características.

Há receio das pessoas em lançarem-se num negócio. O que as trava?
Falta de vontade e medo do fracasso.Na Europa existeumpreconceito em relação a quem teve a coragem de avançar com um projeto mas não teve sucesso.

Quais são as armas de um empreendedor em tempo de austeridade?
São tempos de grandes mudanças e também de grandes oportunidades. O que é necessário é ter coragem, descobrir como resolverum problema importante, criar uma equipa forte, testar a ideia de negócio, ouvir os clientes e não desistir ao primeiro grande obstáculo.

Como é que um empreendedor olha para o risco?
Com a convicção de que é capaz de ultrapassar as dificuldades. Lembrando que as tempestades não duram para sempre.Com entusiasmo por ter de enfrentar novos desafios e criar algo de novo.

A perceção de risco está a mudar na Europa onde já nada é garantido?
Nunca nada foi garantido. Nós é que nos convencemos do contrário. Hoje são cada vez mais os que sabem que a solução está em nós mesmos e não nos outros.

O que é e para que serve um Start-up Bootcamp?
Um Bootcamp é um conjunto de sessões de trabalho onde se aprende a criar uma empresa de sucesso. Serve para definir o modelo de negócio da futura empresa, para criar a equipa e testar a sua solidez, para verificar se existem clientes para esse modelo de negócio.
E pode servir para encontrar investidores, caso sejamos capazes de demonstrar que o nosso modelo de negócio funciona, ou seja, que temos uma boa probabilidade de conseguir clientes suficientes para que o negócio seja rentável.

É admirador do conceito de modelo de negócios de Alex Osterwalder. Resumidamente: o que é e porque o admira?
O Alex Osterwalder desenvolveu uma representação de uma empresa através de um modelo com nove grandes componentes. Trata-se de uma abordagem fácil de entender, focada no essencial, muito intuitiva e de grande aplicabilidade prática. Permite-nos desenhar um negócio, abordando os aspetos mais críticos e identificando oportunidades para inovação.

Também gosta da abordagem de 'Desenvolvimento de Clientes' do Steve Blank.
É uma abordagem verdadeiramente revolucionária e tem tido uma expansão fulgurante no mundo das start-ups.
Consiste numa ideia simples mas muito poderosa: temos de descobrir se a empresa que queremos criar tem ou não clientes, antes de a criarmos. A abordagem tradicional consiste em elaborarmos um plano de negócios baseado num conjunto de suposições que apenas são testadas depois de lançarmos a empresa. E, como Steve diz, "nenhum plano de negócios sobrevive ao primeiro contacto com os clientes".

O que recomenda a quem estiver a pensar ser um empreendedor?
Descobrir mais sobre como criar uma empresa de sucesso utilizando a abordagem de 'Desenvolvimento de Clientes' de Steve Blank e de desenho do modelo de negócios de Alex Osterwalder.
Avançar já e aproveitar os tempos que vivemos, em que são muitas as oportunidades e poucos os descobridores. Nunca foi tão fácil, barato e rápido criar uma empresa de sucesso como agora.

 

Publicado originalmente na edição de 18-02-2012 no caderno de Economia do semanário Expresso.