| OPINIÃO |
Nós e o futebol
Hoje, o nacionalismo popular e populista passou dos campos de batalha para os campos de futebol. Goste-se ou não, é, atualmente, um fenómeno de expressão patriótica ímpar, exacerbado pelo mediatismo em que vivemos.
Passar no Marquês de Pombal a seguir aos jogos e ver miúdos de 15 anos, brancos, pretos e mulatos, a cantar o Hino a peito cheio impressionava qualquer um.
Numa altura em que Portugal atravessa momentos difíceis e alguns estão descrentes, a Seleção ajudou-nos a lembrar a fibra de que somos feitos.Foi consolidada ao longo de uma História de 900 anos, nos quais atravessámos momentos mais difíceis, transcendemo-nos e superámos, sempre, grandes adversidades. Continuámos a ser senhores do nosso destino, quando outros (a Catalunha ou a Baviera, por exemplo) não o conseguiram.
Obviamente que centrar o nosso patriotismo e orgulho nacional no futebol é ridículo e "menorizante". No entanto, é inquestionável exemplo a seguir. Já há anos Michael Porter identificara o futebol como vantagem comparativa de Portugal. No futebol (tal como em política externa) temos uma dimensão muito superior ao nosso tamanho geográfico e demográfico. Proporcionalmente somos, sem dúvida, a maior potência mundial (isto do sucesso proporcional no futebol também se aplica à Língua Portuguesa). Jogando sem o "handicap" da proporção, a nossa seleção tem uma série de resultados extraordinária no último quarto de século. Em termos individuais, temos o melhor treinador do mundo, um dos dois melhores jogadores (este ano o melhor) e, pelos vistos, até o melhor árbitro!
Nascer com o talento do Ronaldo ou do Mourinho é uma raridade, qualquer que seja a profissão. Não obstante, a capacidade de trabalho, perseverança e ambição que demonstram são exemplares para qualquer um. Esqueçamos a inveja que infelizmente nos é tão característica (Camões bem o sabia). Admiremos e emulemos o exemplo.
Dito isto e voltando à bola, não ganhámos, mais uma vez. É verdade, foi triste e frustrante. Ficámos à distância de um poste. Será o nosso fado? Mas tão ou mais importante que atingir o destino é a viagem. E essa, por momentos, foi fantástica. Deu-nos alegria, fez-nos acreditar e sonhar. Como diria o Chico Buarque, "foi bonita a festa!" Isso, ninguém nos tira.
500 anos depois de Cabral, talvez descubramos a vitória no Brasil. O Padre António Vieira, percursor do Quinto Império, que escreveu "para nascer, Portugal; para morrer o mundo" (embora eu prefira: para nascer e morrer, Portugal; para viver, o mundo), ficaria orgulhoso. Até lá, fico com as palavras de Bruno Alves: "É difícil, porque treino muito e dou o meu melhor. Dei tudo o que podia durante o jogo. Estou aí se precisarem de mim outra vez. Estou aí."


