É como se fôssemos para Elvas, mas não se chega a entrar na cidade nem a cantar Badajoz à vista. Sai-se da autoestrada (A6) onde a placa indica Elvas centro/Santa Eulália, depois toma-se a N246 assinalada pela tabuleta que aponta Santa Eulália/ Monforte/Portalegre. O trajeto não ultrapassa a meia dúzia de quilómetros. Espera-nos São Vicente (de seu nome completo São Vicente e Ventosa), povoação e freguesia do concelho elvense situada numa planície, com as casas baixas ao longo da estrada, de barras azuis ou amarelas e evidentemente de aprimorada caiação, algumas chaminés características, laranjeiras no decorrer dos passeios. Nada tem de notável, pelo menos para embasbacar o forasteiro.
A ver vamos, como diz o invisual, se vale a pena o que cá nos trouxe, o restaurante Pompílio, sito na dita estrada batizada como Rua de Elvas, 96. De fora, apercebem-se o café e o longo muro que resguarda o pátio. É por este que se entra e se dá conta de quão agradável será refeiçoar ali no tempo adequado. Pesadas portas de vidro dão acesso às salas amplas (cabem 120 dentaduras sentadas), acolhedoras, numa envolvência de pedra e de madeira, as mesas atoalhadas porém com papel em cima, guardanapos igualmente papeleiros (às tantas vieram os de pano), alfaias a contento. Está-se bem e melhor se estaria com a televisão desligada.
A lista abre com pratos (poucos) em dia fixo: segunda-feira, "feijoada" (€8); quarta, "carne de porco à lavrador" (€9); quinta, "cozido à portuguesa" (€9); sexta, "bacalhau à Pompílio" (€9,50). Seguem-se cerca de 10 Sugestões do Dia e depois a chamada Ementa, com 1 Sopa, 8 Peixes e Mariscos e 17 Carnes. Além do que se comeu e contará a seguir, digo, para dar maior ideia do conteúdo, que gostaria de ter provado "bacalhau dourado" (€9,50), "arroz de lebre" (€12), "pezinhos de coentrada" (€9) e "lombo assado no forno" (€9,50).
Como não há entradas, pediu-se uma dose de "arroz de coelho bravo" (€22) para repartir pelos seis convivas. Em caçoula de barro, o carolino da ordem em consistência à beira do caldoso e tendo absorvido os gostinhos do leporídeo, carne generosa, conjunto muitíssimo saboroso: uma arrozada abacial que haveria de ser o melhor prato da jornada. O "bacalhau especial assado" (€16,50), na brasa, rodeado de batatas e couve lombarda cozidas, alface, tomate e cenoura filamentada, regado por azeite quente com alho, não pareceu merecer o epíteto de especial, até porque alguns caudatários não ficam ali bem. Acompanhados por boas batatas fritas aos palitos, os "rins, ovos e miolos" (€9), apresentados em pão escavado, constituíram interessante combinação. Muito bom o "ensopado de borrego" (€9,80), na linha dos que são feitos sem refogado, com batatas e o pãozinho fatiado à vontade do freguês. Mesmo sem estar muito puxada, aprovadíssima foi a "feijoada de lebre" (€12), feijão branco e cenoura a venerarem a personalidade da saltarilha. Primeiro cozida (daí haver na lista "canja de perdiz", €3) e depois então cozinhada, a "perdiz estufada" (€17,50), independentemente do problema que já nem sequer se discute da braveza integral ou não, acusou um laivo adocicado por conta da cenoura que dominava o molho. Com o "pombo bravo tostado" (€9,80), de apresentação infeliz (escondido sob batatas fritas), aconteceu o senão de saber demasiado à banha que entrou na confeção, que nem o percetível vinagre conseguiu eliminar.
Uma dúzia de doces variados preenche a rubrica. Claro que aqui não podia faltar a "sericá com ameixa de Elvas" (€3,50), mas só se comeu a excelente ameixa (€0,75), para abrir alas para o senhor "fidalgo" (€3,75) e um surpreendente pela positiva "manjar de abade" (€3,75) em que a encanitante bolacha amocha perante a chila e os ovos moles. Carta de vinhos sem datas, eminentemente alentejana: 84 tintos e 11 brancos, acrescidos de 5 verdes brancos e 12 tintos doutras regiões. Serviço simpático.
O restaurante é uma instituição familiar construída a pouco e pouco. O senhor Pompílio, depois de estadia em Cabeço de Vide, resolveu regressar a esta sua terra de São Vicente e abriu um café com tasca em 1975. De então para cá é o que se vê, em sociedade com os dois filhos varões desde 1991, as mais recentes obras de remodelação em 2006. Sem esquecer, era o que mais faltava, a esposa e mãe, sempre no comando da cozinha.
Não obstante alguns reparos críticos expostos, este Pompílio merece toda a frequência que tem e a ele é imprescindível voltar.
Texto publicado na revista Única de 4 de dezembro de 2010