26/05/2012 atualizado às 12:09

Cannes 2010

No rasto de Ceausescu

Um filme extraordinário sobre a ascensão e queda de um ditador fotogénico: "The Autobiography of Nicolae Ceausescu", de Andrei Ujica.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes (www.expresso.pt)
12:57 Quinta feira, 20 de maio de 2010
Nicolae Ceausescu
Nicolae Ceausescu

Um filme com um título destes, exibido em Cannes numa sessão especial, fora de competição, longe da passadeira vermelha, e numa sala da rectaguarda do Palais des Festivals, cheirava a coisa séria. E é.

Documento


De Andrei Ujica, nascido há 60 anos em Timisoara, a mesma Timisoara que Ceausescu cobriu de sangue antes de pagar com o seu próprio sangue vinte e quatro anos de ditadura, não se sabe muito. Ujica é um documentarista laborioso. Homem de literatura, co-assinou em 1992 um "Videograms of a Revolution", com Harun Farocki, sobre a revolução e a passagem do seu país (a mais violenta de todas as nações do Bloco de Leste) à democracia. O seu segundo filme, "Out of the Present" abordava uma 'vida em suspenso', a do cosmonauta Sergueï Krikaliov, que passou dez meses a bordo da estação espacial Mir, enquanto que, 'cá em baixo', a URSS se desmantelava até não ficar pedra sobre pedra. "The Autobiography of Nicolae Ceausescu" completa agora uma trilogia preciosa, dedicada ao fim dos regimes comunistas na Europa.

Monumento


"The Autobiography of Nicolae Ceausescu" exigiu trabalho de sapa. Ujica viu-se confrontado com 1000 (mil!) horas de 'footage', maioritariamente retirados de arquivos nacionais e da televisão romena. Dessas 1000, seleccionou 250. E destas, ergueu um filme com três horas de duração que colocamos desde já no grupo restrito das grandes descobertas de Cannes. Percurso aturado, o deste filme: começa e acaba com o famoso interrogatório ao ditador e à sua mulher Elena, antes das suas condenações à morte, traçando pelo meio a história de um homem, da sua ascensão ao poder (em 1965, após a morte de Gheorghiu-Dej) até ao fim dos seus dias.

A personagem Ceausescu


No filme de Ujica vemos Ceausescu de férias, Ceausescu rodeado de crianças, Ceausescu a jogar voleibol, a receber De Gaulle e Mao Tse-Tung... Ceausescu é um tratado de fotogenia, quer a discutir materialismo dialético, quer no mais mundano dos seus gestos de protocolo. Da sua ascensão política fulminante à coqueluche de ditador comunista cool em que se torna (era convidado por toda a parte, da China à Coreia do Norte, da Casa Branca ao Palácio de Buckingham, enquanto criticava a URSS e a Primavera de Praga...). Ficamos familiarizados com cada nuance, cada inflexão da sua voz, a linguagem do seu corpo - Ceausescu, como bom ditador que se preze, é um sedutor nato. Uma omnipresença. Terá sido talvez por isso que Ujica chamou este filme de "autobiografia." Ujica foi mais longe: "Afinal, um ditador não passa de um artista com a possibilidade de meter todo o seu egoismo em prática." "The Autobiography of Nicolae Ceausescu" não prova outra coisa.

Sem comentários


Ou será que o terror vem, afinal, de outra coisa? "The Autobiography of Nicolae Ceausescu" acredita de tal modo no poder das suas imagens, na sua inconsciente camada de sordície, que, ao contrário de 99% dos documentários da TV, recusa-se a comentá-las. Não há qualquer voz off. Qualquer tipo de remissão: nada se sublinha. O 'footage', a cores e a preto e branco, fala por si e expõe o seu legado monstruoso. O que é mais extraordinário neste filme é o modo como ele consegue, à luz da História, e perante o alcance de tal assunto, enfrentar Ceausescu e amaldiçoá-lo com as suas próprias palavras e sorrisos. Em resumo: com a sua própria imagem.

The Autobiography of Nicolae Ceausescu
de Andrei Ujica
(Fora de Competição)

http://www.youtube.com/watch?v=zwVlWknDGOY

 

 

  1. Festival de Cannes (em português)

  2.  

  3. Informação sobre a competição

  4.  

  5. Informação sobre o "Un Certain Regard "

  6.  

  7. Quinzena dos Realizadores (em pdf)

  8.  

  9. Semana da Crítica

  10.  

  11. Cannes 2009

 

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CM84 (seguir utilizador), 2 pontos , 14:42 | Quinta feira, 20 de maio de 2010
. Ficamos familiarizados com cada nuance, cada inflexão da sua voz, a linguagem do seu corpo - Ceausescu, como bom ditador que se preze, é um sedutor nato. Uma omnipresença. Terá sido talvez por isso que Ujica chamou este filme de "autobiografia." Ujica foi mais longe: "Afinal, um ditador não passa de um artista com a possibilidade de meter todo o seu egoismo em prática."

Única diferença: Em Democracia, não tem a possibilidade de meter "todo" o seu egoísmo em prática.
 
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