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Expresso

Rui Gustavo Editor de Sociedade

Como negociar com príncipes

4 de Junho de 2018

Hoje, numa sala anónima do Ministério da Educação, o futuro de milhares de crianças e dos respetivos pais estará em cima da mesa de negociações. De um lado, o ministro Tiago Brandão Rodrigues, que já terá assegurado a sua presença “nove meses depois” da última aparição; do outro, os sindicatos dos professores, a começar, logo às 9h30 pela Fenprof do já veterano Mário Nogueira. Em causa, acima de tudo, o descongelamento da carreira dos professores prometida pelo Governo até 2023 e exigida, na totalidade, pelos docentes. O que os separa? “Nove anos, quatro meses e dois dias” contabilizados pelo negociador Mário Nogueira que não aceita a proposta governamental de descongelar “apenas” dois anos e dez meses da carreira. Tempo é dinheiro e nas contas do Governo o degelo vai custar 1.477 milhões de euros e nas do sindicato 900 milhões.

O problema sai da sala do Ministério porque o sindicato, ainda antes das negociações, já anunciou uma greve para o final do ano letivo - altura das avaliações, renovação das matrículas e constituição das turmas. Não é muito difícil imaginar o efeito dominó do que sair da sala de reuniões da 5 de outubro. Só há negociação quando as duas partes ganham mas desta vez vai ser precisa muita habilidade negocial para ninguém perder a face.

No livro “Como negociar com príncipes”, François de Callières, diplomata e secretário do gabinete do rei Luís XIV, defendia a importância da diplomacia para a resolução de conflitos, argumentando que negociação “é cooperação e não competição” e que o principal objetivo dos governantes deve ser o de não recorrer à guerra “enquanto não tiver lançado mão e esgotado a via da razão e da persuasão”. Callières não foi ouvido na altura e só trezentos anos depois “A Arte de Negociar”, como também é conhecida, teria algum sucesso. Algum.

Se costuma andar de comboio, provavelmente estará a ler este Curto numa estação à espera do comboio que nunca mais vem. É que hoje há greve da CP porque os trabalhadores estão contra a alegada intenção da empresa de pôr a circular comboios com um agente único a bordo. Mesmo que tenha comprado bilhete, não tem direito a devolução do dinheiro ou a comboio.

As negociações entre o Governo e os sindicatos, não só este, mas qualquer governo, são uma espécie de tormento de Sísifo, o rei condenado a empurrar uma pedra até ao alto de uma montanha para ter de a empurrar outra vez no dia seguinte. O mito grego pretendia demonstrar o absurdo da existência humana. Se finalmente ouvirmos Callières, talvez a pedra fique no topo por algum tempo.

OUTRAS NOTÍCIAS

Devia dizer outras negociações: Jorge Jesus e Bruno de Carvalho estão a negociar a rescisão do contrato entre o treinador e o Sporting. De acordo com os desportivos de hoje, Jesus já terá acordo com os sauditas do Al-Hilal onde irá ganhar sete milhões de euros num ano. A assinatura do contrato está dependente do acordo de rescisão com o Sporting que ainda ontem, num longo comunicado traduzido pela Tribuna, garantia que nunca despediu Jesus e elogiava os jogadores e treinadores do Vitória de Guimarães que se mantiveram no clube apesar de terem sido atacados pelos adeptos, numa situação semelhante à ocorrida em Alcochete.

Em três anos depois de ter saído com estrondo do Benfica, Jesus ganhou uma Taça da Liga e uma Supertaça e devolveu competitividade ao clube. A saída é marcada pelos absurdos acontecimentos de Alcochete quando a equipa foi atacada pelos próprios adeptos antes de um treino. 23 dos cerca de 50 atacantes foram detidos e estão em prisão preventiva. Os outros terão sido identificados, mas não foram, sequer, detidos pela polícia.

Não é a primeira nem será a última vez que temos de escrever isto: 48 migrantes morreram na madrugada de domingo quando a embarcação em que navegavam se virou ao largo da Tunísia. O barco tinha capacidade para 70 pessoas, mas seguiam a bordo mais do dobro. A contabilidade mortal não deve ficar por aqui.

Na Turquia, nove pessoas morreram quando a lancha em que viajavam se virou ao largo da província da Anatólia. Seis eram crianças. Até quando?

Hoje, no Tribunal de Sintra, prossegue o julgamento de 17 agentes da PSP acusados de agredirem vários jovens da Cova da Moura, um bairro degradado às portas da capital. Os polícias são igualmente acusados de ofensas racistas e de proferir frases como “Sangue de preto, que nojo”. Na primeira sessão, os policias que prestaram depoimento não só negaram todas as acusações como garantiram que se limitaram a defender a esquadra de uma invasão. Versão oposta à da principal vítima que diz ter sido abordado e imediatamente agredido por polícias sem qualquer motivo e que os amigos e familiares que foram à esquadra para saber deles acabaram igualmente agredidos.

A acusação tem factos graves, como detidos algemados a noite inteira e obrigados a dormir no chão, ameaças e ofensas sem qualquer justificação que, a serem verdade, serão uma mancha grave no uniforme da PSP. Mas também tem fragilidades (uma oficial chegou a estar acusada quando nem esteve no local) e o facto de os polícias acusados terem aceitado falar mostra que estarão de facto convencidos de que não cometeram qualquer crime. Mas para já, a Justiça tem dado mais força à versão das alegadas vítimas: os procuradores do MP e o juiz de instrução consideraram que há indícios suficientes para um julgamento. Por negociação entre o Estado e o povo, a polícia, não só a PSP mas todas as outras forças, são os únicos que num país normal podem exercer a violência de forma legal. Repito: legal.

Dias depois de Donald Trump ter adiado a cimeira com o líder norte-coreano Kim Jong-un, foi a vez de Bashar al-Assad, líder da martirizada Síria, a anunciar que vai encontrar-se com o presidente da Coreia que de pária passou a diplomata num estranho piscar de olhos.

As autoridades britânicas atribuem ao estilo musical “drill” a responsabilidade pela onda de esfaqueamentos que matou dezenas de jovens em Londres e nos arredores. Nos vídeos publicados no youtube, os grupos deste estilo de rap “niilista” falam de, de facto, de esfaqueamentos, ataques, morte e outras liberdades criativas, mas dizem estar a ser usados como bodes expiatórios. Trinta vídeos foram retirados do youtube.

Miguel Oliveira venceu o Grande Prémio de Itália em Moto GP2. A notícia está na primeira página de praticamente todos os jornais de hoje. O melhor relato pode ser ouvido aqui. Obrigado, Brasil, por existires.

FRASES

“É preciso fazer voz grossa a Bruxelas”
Assunção Cristas, líder do PP, sobre o corte dos fundos comunitários a Portugal

“Mais do que voz grossa, é preciso argumentar”
Jerónimo de Sousa, líder comunista, sobre o mesmo corte.

“Tenho a esperança, mais, tenho a convicção de que estamos a fazer tudo para que não se repita o que aconteceu no ano passado”
Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a época dos fogos que se avizinha

“Olho para o sinal, está vermelho, não aparece nada”
Utente da CP há duas horas à espera do comboio que não aparecia

"A Itália e a Sicília não podem ser o campo de refugiados da Europa Os bons tempos para os clandestinos chegaram ao fim: preparem-se para fazer as malas"

Matteo Salvini, novo ministro do Interior italiano

O que eu ando a ler

“Ali. A Life”

Jonathan Eig

Muhammad Ali é o maior pugilista da história apesar de ter tido várias derrotas no currículo enquanto muitos lutadores que conseguiram acabar a carreira sem derrotas não passam de uma página no livro da história do boxe. É que há homens maiores do que a vida. Muhammad - cujo bisavô era escravo, o avô um assassino condenado e o pai um alcoólico que batia na mulher e chegou a atacar um dos filhos com uma faca – mudou de nome porque quis matar a herança de escravo (nasceu Cassius Marcellus Clay, já agora), recusou alistar-se no exército americano e a combater no Vietname porque “nunca nenhum vietcong me chamou preto” (tradução livre) e por causa disso perdeu o título mundial e foi proibido de combater durante vários anos. Além de ser um lutador transcendental, inventou o trash-talk - luta verbal pré-combate que consiste em perturbar e provocar o adversário o mais possível de preferência com piada. E Ali tinha. No fim da vida, minado pela doença de Parkinson, já era uma figura consensual quando acendeu a chama dos jogos olímpicos de Atalanta. Aos eleitos tudo se perdoa. O livro é escrito por Jonathan Eig que entrevistou mais de 500 pessoas para poder contar todos os combates de Ali. Dentro e fora do ringue.

O que eu ando a ver

“Ilha dos Cães”

Wes Anderson

Fábula no sentido literal de Wes Anderson (só entendemos o que os cães dizem porque os humanos falam em japonês que só é traduzido de vez em quando), o filme de animação non-stop (bonecos reais filmados e não desenhados) conta a história de Atari, o filho adotivo do presidente da Câmara ditador Kobayashi, que ordenou o exílio forçado de todos os cães da cidade de Megasaki a pretexto de uma gripe canina e do excesso de população. Atari é o único que não esquece o seu cão e parte para a ilha que dá título ao filme (na verdade é uma ilha de lixo) em busca de Spots. Outrora resignados, os cães veem no puto o exemplo que precisam para mudarem (ou tentarem que é o que realmente interessa) o destino malvado. Para além do argumento inteligente, e da pandilha de astros nas vozes (Edward Norton, Bryan Cranston, Bill Murray, Frances McDormand, Scarlett Joahansson, Yoko Ono, sim essa Yoko Ono) o filme é um regalo visual e cada plano é um quadro cuidadosamente pintado pelo cineasta a quem já me tinha rendido desde “Os Tenenbaums – uma Comédia Genial”. O filme deve estar quase a sair de cena. Tal como eu, pelo menos por agora.

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