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Ricardo Costa Diretor de Informação da SIC

Un gobierno Frankenstein, il governo gialloverde e para a semana logo vemos

1 de Junho de 2018

No início da semana, Itália caminhava para um período de caos que redundaria em eleições antecipadas, enquanto Espanha se preparava para debater uma moção de censura que deveria deixar tudo na mesma e as eleições a uma distância considerável. Pois bem, ontem tudo mudou e Itália vai mesmo ter um governo formado pela mistura explosiva da Liga e do Movimento 5 Estrelas, enquanto Espanha deverá ver o fim abrupto de sete anos de executivo Rajoy, trocado por um governo inviável liderado pelo PSOE e que deve acabar… em eleições antecipadas.

No início da semana, o italiano Paolo Savona viu o seu nome ser vetado para ministro da Economia e Finanças, por ser anti-Euro, provocando uma crise institucional. Ontem surgiu de novo como ministro do novo governo, agora na pasta do Assuntos Europeus, e já está tudo ok.

No início da semana, o espanhol Pedro Sanchéz era aquele em que ninguém acreditava que chegaria a primeiro-ministro, mas que aproveitou a sentença judicial de um gravíssimo escândalo de corrupção que envolve o PP, para lançar uma moção de censura e esperar que os astros se alinhassem. Os astros são muito contraditórios – nacionalistas bascos, independentistas catalães, Podemos, etc – mas alinharam-se e chegam para acabar com o governo de Mariano Rajoy ao fim da manhã de hoje.

Em Espanha chamam a esta experiência o governo Frankenstein, em Itália os nomes ainda se ficam pelo simpático “gialloverde” (amarelo-verde), para normalizar uma experiência populista sem precedentes na terceira maior economia da zona euro.

A política italiana nunca foi para princesas, desculpem, para meninos, mas a de hoje só serve a quem vive um dia de cada vez. A espanhola é menos dada a mudanças rápidas e a soluções arriscadas, mas a verdade é que hoje vai ver nascer o governo com menor base de apoio parlamentar de sempre.

A moral desta história de dois países do Sul da Europa é… bem, é melhor esperar e não fazer piadas porque a capacidade de nos surpreenderem é sempre grande. A pressão dos mercados continua acesa em Itália, dado o extremo populismo da solução governamental, mas é natural que se estenda a Espanha caso a incerteza política seja grande. E tudo isto nos dirá respeito, claro, porque agitação nos países do Sul é coisa que costumaafetar Portugal.

OUTRAS NOTÍCIAS
A administração norte-americana inicia hoje formalmente uma guerra comercial com a União Europeia, ao decidir que acabaram as exceções temporárias às tarifas que Washington aplicou às importações de aço e alumínio. Bruxelas já prometeu que irá retaliar, tal como o Canadá e o México, que, perdoem a expressão, levaram pela mesma tabela. Estas três economias representam mais de 40% das importações americanas de aço e alumínio.

A decisão mereceu o aplauso de algumas indústrias nos EUA, mas fortes críticas e preocupações de outros, desde a indústria automóvel à agricultura, que já está a sofrer sérias retaliações chinesas. O comércio mundial é um enorme sistema de vasos comunicantes e sempre que há uma guerra por causa do produto x, acaba por haver impacto no produto y, seja no preço, seja na capacidade de produção, seja nos empregos que gera ou faz perder.

Para a retórica interna, Trump agrada de imediato a uma boa parte dos seus eleitores, que pensam que fronteiras mais fechadas significam mais emprego e maior segurança nacional. Mas, como os chineses já mostraram ao aumentar as tarifas sobre a soja, há muitas formas de retaliar junto dos mesmíssimos eleitores do presidente americano, que sempre disse gostar de guerras comerciais.

Depois de França, Áustria e Bélgica, agora foi a vez de a Dinamarca vetar a utilização da burca e do niqab, uma medida que se junta a uma série que pretende apertar a política de imigração naquele país nórdico. O uso de vestes que tapem integralmente a cara é relativamente raro naquele país – não haverá duzentas mulheres a fazê-lo – mas o parlamento avançou com a lei.

A capa da edição da Vogue para a Arábia Saudita está a provocar uma onda de espanto e de protestos porque retrata uma princesa saudita ao volante de um descapotável vermelho, toda vestida de branco, saltos altos incluídos, e luvas de cabedal preto. A capa surge para assinalar o fim da proibição das mulheres sauditas poderem conduzir, mas é absolutamente invulgar naquelas paragens e recebeu fortes protestos por causa das muitas ativistas femininas que estão presas por lutarem pelos seus direitos.

Zidane disse adeus ao banco do Real Madrid, numa conferência de imprensa surpreendente que deixou os adeptos do clube em estado de choque. Acabado de vencer a Champions, o treinador francês segue o seu caminho – não se sabe para onde – e o Real está a procurar treinador, com Mauricio Pochettino à cabeça, segundo a Marca.

O português Marco Silva vai treinar o Everton na próxima época. O ex-treinador do Sporting teve um mau ano na Premier League, depois de ter sido despedido do Watford em Janeiro, mas o bom futebol que as suas equipas costumam praticar agradou muito ao principal acionista do Everton, que já tinha tentado contratar Silva no ano passado e que agora conseguiu o pretendido.

Os desportivos portugueses andam às voltas com a venda falhada de Rui Patrício ao Napóles, as contratações do Benfica e o aparente fim do sufoco financeiro do F.C. Porto, depois de várias vendas de jogadores.

Na frente “Bruno de Carvalho”, a guerra jurídica teve mais um volte-face. Agora, a direção do Sporting anunciou que substituiu a Mesa da Assembleia Geral demissionária e Jaime Marta Soares por uma Comissão Transitória e que a Assembleia Geral de destituição não se irá realizar. Ninguém sabe como tudo isto vai acabar, apenas que vai demorar e ter muitas surpresas…

FRASES
Solo siento orgullo de haber sido tu jugador, Míster, gracias por tantísimo.”. Cristiano Ronaldo, no Instagram, a agradecer a Zinedine Zidane

"Onde se pode poupar é nos salários da Função Pública". Alfredo Cuevas, chefe da missão do FMI para Portugal, em entrevista ao Jornal de Negócios

Um frankenstein espanhol não é uma geringonça portuguesa”. Leonídio Paulo Ferreira, num artigo de opinião no DN

O QUE EU ANDO A LER
O que eu ando a ler é o mesmo que andava a ler quando escrevi, vai para quinze dias, o meu último Expresso Curto. Conto acabar nos próximos dias o Jogos de Raiva, do Rodrigo Guedes de Carvalho, que entretanto subiu tops acima e merecidamente se alcandorou ao primeiro lugar da ficção, nacional e traduzida, justa categoria e justo lugar para este belíssimo romance.

Não fazendo sentido repetir recomendações, vamos ao que se segue na minha cabeceira, neste caso um livro de que agora se fala muito por se estarem a assinalar os 50 anos sobre a data em que aterrou com estrondo entre nós em 1968, entre o fim do salazarismo e um marcelismo que não se sabia o que viria a ser.

Foi nesse ano em que muita coisa mudou mundo fora, que O Delfim chegou às livrarias, para confirmar José Cardoso Pires como um escritor maior da língua portuguesa e este romance em particular como uma obra-prima. Com raras exceções da crítica – entre os quais José Saramago, que mais tarde corrigiu o tiro, e Luiz Pacheco, que não veio a mundo para corrigir coisa alguma -, o livro foi recebido com todos os superlativos que os grandes críticos como Óscar Lopes, Alexandre Pinheiro Torres ou Mário Dionísio tinham à sua disposição.

Bruno Vieira do Amaral publicou esta semana um belíssimo texto sobre este livro e os tempos em que foi publicado. 50 anos de “O Delfim”: José Cardoso Pires e a autópsia de uma sociedade.

Fiquem com o último parágrafo desse artigo:

Hoje, cinquenta anos após a publicação, o livro, esse, continua a pairar sobre nós, menos esquecido do que alguns pensam, como retrato lúcido do estertor de uma sociedade com sonhos apodrecidos de um lado e privilégios moribundos do outro.”

E agora juntem estas linhas do prefácio que Gonçalo M. Tavares escreveu para a reedição na Relógio D’Água:

Ler a prosa de Cardoso Pires é ter a sensação de que aquelas páginas surgiram naturalmente assim, já impressas. Como se o emissor das letras fosse a própria página, e o seu instinto natural, e não uma figura exterior”.

É a leitura que se segue, com um enorme atraso da minha parte, mas um grande livro nunca perde com o tempo. Das notícias não se pode dizer o mesmo, é melhor ir vendo o que se passa. Hoje pelo Expresso online, amanhã com mais tempo temos Expresso nas bancas, com textos que nos acompanham toda a semana. Tenha um bom dia.

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