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Expresso

Luísa Meireles Redatora Principal

Selvajaria é nome pequeno

16 de Maio de 2018

Sabe do que estou a falar não sabe? Acertou em cheio: do futebol, do Sporting e da tremenda vergonha de ver uma fotografia destas.

Esta é a cabeça de Bas Dost, o holandês que joga pelo Sporting e que é um dos seus mais famosos marcadores. Disse que se encontrava "vazio". A fotografia foi tirada pouco depois de conhecido o ataque de um bando à Academia do Sporting em Alcochete, ontem, a meio da tarde, espancando com barras de ferro e cintos atletas e equipa técnica, destruindo o balneário e vandalizando a área. Encapuzados, ainda por cima, o pequeno requinte de grandes criminosos. É o quê esta gente: energúmenos, vândalos, arruaceiros, selvagens, ou "casuals", como se designam agora aqueles que só aparecem para as cenas de pancada?

O recinto estava rodeado de jornalistas, já de plantão por causa da verdadeira novela em que se transformou o dia a dia do clube dos leões. Ainda ontem, a notícia era o suposto os jornais titulavam como "terramoto", ou "ponto final" o conflito entre o seu histriónico presidente e o seu (agora) desafortunado treinador, se tal adjetivo é apropriado para quem ganha 7,5 milhões de euros por ano. Mas adiante, que a questão hoje não é essa.

Os comentadores não pararam toda a noite (e eu com eles, ó, logo eu, ironia das ironias!) e hiperbolizaram o relato. Tragédia, ainda vá, mas ato de terrorismo? Enfim, é melhor não perder a dimensão das coisas, se bem que reconheça que o seriado vai cada dia tomando novas e piores tonalidades. Não vou repetir os pormenores, disponíveis, por exemplo, aqui, aqui, e mais aqui (em vídeo) mas o que aconteceu ontem no Sporting, se foi exclusivo do clube, não o é infelizmente no mundo do futebol.

O clube vive momentos de pesadelo, desde que perdeu em Madrid, que custam a crer: eles são as inacreditáveis tiradas de Bruno de Carvalho (que nem os atletas quiseram ver ontem em Alcochete), os tumultos e insultos em Alvalade, num crescendo que foram até ao lançamento de petardos pelos próprios adeptos no jogo com o Benfica, à quase agressão dos jogadores Rui Patrício e William de Carvalho depois da derrota com o Marítimo e, agora, a isto. Já para não falar das suspeitas que impedem sobre o mesmo clube a propósito das suspeitas de suborno dos jogos de andebol e que parece estenderem-se a outras modalidades (e a outros clubes), segundo diz o jornal I.

Os adeptos estão zangados. No restrito mundo em que estou a escrever, há um que diz que pediu as quotas de volta, outro que nem consegue falar e outro ainda que diz, como a direção do clube, "que isto não é o meu Sporting", mas "um bando de selvagens". Quem está por trás disto, perguntam. E com que objetivo? Que vai acontecer a Bruno de Carvalho? E ao Sporting? Os jogadores vão-se embora? Eu não sei, mas há muitos palpites.

Marta Soares, o tão corajoso chefe de bombeiros que ajuda a demitir comandantes da Proteção Civil, ainda ontem dizia que o Sporting não vivia em crise, mas só vai convocar os órgãos sociais do clube para segunda-feira. Houve quem reclamasse que ele devia demitir de imediato a estrutura diretiva, mas nada, aquilo parece uma aliança indestrutível. Quanto ao próprio presidente do clube, leia o que ele disse, para não ter de se beliscar. Eu, que percebo pouco do meio, deixo os comentários para quem sabe e tem opinião - a do Pedro Candeias, por exemplo (Foi chato, Bruno?) ou esta. Só consigo ver de fora.

Por isso pergunto: ninguém pensou quais seriam as consequências de um "presidente-adepto", de fala desbragada e que - como diz - "para ter sucesso, a primeira coisa a fazer é criar fama de maluco"?[para assinantes, lamento] Pois ganhou-a e este é o resultado do populismo no futebol. Mas o pior é o resto. Voando sobre o Sporting, ninguém pensou sobre os efeitos de horas sem fim a falar de futebol, no tempo extravagante que ele tem no espaço público, na televisão e na rádio em especial, a pretexto das audiências, num círculo vicioso de dar circo a quem pede circo porque não lhe dão mais nada?

Ninguém imaginou o poder da linguagem de confronto e espírito de guerra que animam os comentadores profissionais de desporto que pululam em cada horário nas televisões? Do escândalo após escândalo, dos crimes que atravessam este desporto? Da raiva que suscitam nos adeptos e do "mono-papo" que abrange legiões de portugueses? Que se pode esperar senão sangue desta cultura de ódio que parece estender-se à sociedade inteira depois de tudo isto? Por isso, deve ler esta opinião do Daniel Oliveira, escrita ainda antes do que aconteceu em Alcochete.

Desculpem, mas há consequências. A Justiça e o Governo têm o dever de tirá-las e nós todos de refletir sobre elas. Não sei se chegam palavras de repúdio pela violência e de solidariedade para com os agredidos, nem a promessa de que no domingo, no final da Taça, o Jamor será a "festa do futebol". Tem de haver regulação. Lá fora, Portugal continua a ser o campeão europeu e o país de onde saem campeões, entre eles o grande Ronaldo (que por acaso se formou nos primórdios da Academia de Alcochete do Sporting). Eu, por enquanto, só consigo resumir o meu pensamento à mesma palavra com que comecei este texto: vergonha.

OUTRAS NOTÍCIAS

Haveria, mas os acontecimentos de Alcochete abafaram tudo. Ou quase. O Primeiro-ministro deu uma entrevista há dois dias ao Diário de Notícias, deu recados, avisos e explicações. Aqui no Expresso escolhemos cinco questões principais para o ajudar a perceber (se é que o leitor precisa, diga-se de passagem) e demos-lhe o título: "Uma demissão, um estranho 'estímulo' presidencial e pinças para um ativo tóxico". Será que já tinha pensado nisso?

O ativo tóxico (para o PS, claro está), é Sócrates, porque para todos os partidos e a sociedade inteira é mesmo a corrupção. Por isso, achei interessante esta entrevista de João Cravinho, o velho militante socialista (ex-MES), que propôs um pacote de combate à corrupção que o ex-líder do PS não deixou passar. Diz que "quem esteve no governo Sócrates sentiu-se incomodado mas não tirou consequências" e dá que pensar. Segundo Cravinho, "há uma grande baralhada sobre a presunção de inocência" lembrando que "se subordinarmos a apreciação ética à apreciação judicial acabamos por judicializar a ética e a moral".

Um outro assunto que tão cedo não sairá de cena é a OPA dos chineses à EDP. Os investidores reclamam mais e justamente, como explica o Miguel Prado e opina o Ricardo Costa e também o Celso Filipe, no Negócios. Aliás, é dele a brilhante citação de Deng Xiaoping sobre o capitalismo de Estado a que deu asas na China: "Não sei se Marx aprova tudo o que estamos a fazer aqui. Mas vou encontrar­-me com ele no céu e conversaremos a esse respeito." Os chineses pagaram bem mais por quase um terço da EDP, que é o que têm agora. Oito analistas já subiram a avaliação.

Por falar em Economia, segundo o decreto-lei de execução orçamental que ontem foi publicado, o Ministério das Finanças deu luz verde para gastar mais no óbvio: o lançamento de vários projetos de investimento público e medidas urgentes quanto à preparação da campanha de prevenção e combate aos incêndios de 2018. O crescimento, em si, foi menor do que se esperava no primeiro trimestre (2,1%). Há já quem diga que se a coisa continuar a tal folga orçamental que nos ia resolver muuuitos problemas desaparece. Mas são opiniões, porque o Governo diz-se tranquilo.

E uma boa notícia, desta feita no campo do turismo: sabia que Portugal é o único país escolhido pela Google para o seu conselho de turismo? Pois é. O país passou a ser membro do órgão que reúne os 'gurus' mundiais do turismo, sendo o único Estado representado no seu International Travel Advisory. Ana Mendes Godinho sorri de felicidade.

Quanto ao desanuviamento das relações com Angola, o ministro dos negócios Estrangeiros confirmou o que disse ao Expresso, só que desta vez em uníssono com o seu homólogo angolano: vão trabalhar de imediato na visita de António Costa a Luanda.

António Costa está hoje em Sofia, na Bulgária, para participar numa cimeira dos líderes europeus para tentarem forjar uma resposta comum à decisão de Trump de abandonar o acordo nuclear com o Irão, discutir os acontecimentos em Gaza e as taxas alfandegárias. O que os ocupará está aqui.

LÁ FORA

CATALUNHA, que é o que está mais perto. Quim Torra foi investido 'president' da Catalunha e o seu primeiro ato foi visitar Puidgemont a Berlim. Mas Rajoy, presidente do governo espanhol e Sánchez, líder do PSOE, acordaram um 155 "contundente" (o artigo constitucional que prevê sanções contra a autonomia), se Torra reabrir a via unilateral.

ITÁLIA, porque é o próximo país cujo Governo é capaz de apavorar a Europa. Pode estar para breve um acordo entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga Norte, de extrema-direita. "Invista em paracetamol", diz o Político. Não sei se chega, digo eu. Mas, já agora, leia o "contrato" que celebraram.

BRASIL depois, porque é país irmão e a notícia parece uma piada. O Presidente Temer quis celebrar o segundo aniversário no poder e arranjou um slogan que se tornou uma graçola de mau gosto: "O Brasil voltou, 20 anos em dois". Tirando a vírgula, era uma mensagem de retrocesso, para muitos espelho da realidade (o Presidente brasileiro tem uma taxa de 71% de avaliação negativa). A explicação toda está aqui. Temer acabou por encurtar o lema só para "O Brasil voltou".

ISRAEL finalmente, que tem sido o prato forte das notícias internacionais. A embaixada americana foi inaugurada em Jerusalém na segunda-feira, morreram pelo menos 52 palestinianos e Benjamim Netanyahu teve a coragem de dizer que era "um dia glorioso" e que "com os palestinianos os métodos não letais não funcionam" (foi o momento zen de perplexidade absurda). Mas foi sobretudo o dia em que os palestinianos choraram duas catástrofes, escreveu a Margarida Mota. O êxtase nacionalista que se vive no país é de tal ordem (até ganhou a Eurovisão!) que, segundo Chemi Shalev, editor da versão americana do jornal Haaretz, "em Israel, por estes dias, Benjamin Netanyahu é rei e Donald Trump é um Deus".

O exemplo americano deverá em breve ser seguido pela Guatemala, as Honduras e o Paraguai, que também vão abrir as suas embaixadas em Jerusalém, assim como a República Checa, a Roménia e talvez a Hungria. Estes três últimos, pelo menos, romperam fileiras com os restantes países da União Europeia, enviando representantes à receção que o primeiro-ministro israelita ofereceu na ocasião (em contraste com a África do Sul, que anunciou a retirada do seu embaixador, em sinal de protesto). É caso para perguntar: que vale a Europa? Numa declaração da Alta Representante para a Política Externa, a UE pediu "a máxima contenção" depois das mortes em Gaza.

O tema tem merecido atenção de muitos comentadores: Daniel Oliveira, Clara Ferreira Alves e Henrique Cymerman aqui no Expresso (é de reter a sua lembrança de Shimon Peres, o líder trabalhista israelita, que dizia que "tanto os otimistas como os pessimistas morrem no final. Mas os otimistas vivem muito melhor "), ou de Paulo Sande no Observador. Se quer formar a sua própria opinião e percebe francês, veja a história do conflito contada por mapas.

No Médio Oriente, estão reunidas as condições para abrir ainda mais chagas, sobretudo quando há um Presidente americano [não, não nos esquecemos do cantinho Trump, que tem lugar marcado nos Curtos do Expresso] que é da opinião que "a paz entre palestinianos e israelitas 'não é assim tão difícil". Se não acredita, veja: é um vídeo do jantar na Casa Branca com o seu homólogo (?) palestiniano. Leia-se o Carlos Santos Pereira no DN. Não estão os Estados Unidos a abusar da sua hegemonia?

Altura ainda para falar da RÚSSIA, onde o imbatível Vladimir Putin inaugurou a ponte da Crimeia ao volante de um camião! A ponte era reclamada desde os tempos dos czares e foi já denunciada por Bruxelas como uma "nova violação de soberania".

E para a COREIA DO NORTE, onde o inefável líder Kim Jon-Un ameaça não ir à cimeira com Trump porque os exercícios militares conjuntos da Coreia do Sul com os Estados Unidos são uma "uma provocação". Está tudo aqui (a cimeira está marcada para 12 de junho). E é por isso que o encontro do nosso Presidente com o seu homólogo americano pode falhar.

Para mais noticias, aproveito as MANCHETES DOS JORNAIS (fora o Sporting):

"Dadoras de óvulos aceitam quebrar o anonimato" - Diário de Notícias

"Portugal na CEE quase desaparece do ensino da História" - Público

"Disparidade salarial nas empresas agrava-se" - Jornal de Negócios

"Almeida Rodrigues, ex-diretor da PJ: "saio com a sensação do dever cumprido" - I

"Porto: reitor acumula consultas na universidade" - Correio da Manhã

"Hospitais acumulam um ano de dívidas" - Jornal de Notícias

FRASES
Só vale a pena uma:

"Temos que nos habituar. Isto faz parte do dia-a-adia. O crime faz parte do dia-a-dia", Bruno de Carvalho

O QUE ANDO A LER

Pouco. Há um pequenino novo membro na família (na verdade uma) e os meus tempos livres vão para ela. Mas como a Europa é sempre um dos meus temas de eleição, e não têm sido poucas as polémicas sobre o Presidente francês Emmanuel Macron, dediquei-me a ler este pequeno ensaio: "A França está de volta à Europa, mas em que termos?" A França é indispensável em qualquer Europa, mas para ter sucesso é preciso também que a Europa 'regresse' a França, como escreve o autor, Thierry Chopin, da Fundação Robert Schuman (em inglês).

A propósito, sabia que a Comissão Europeia está a fazer uma consulta cidadã sobre o que pensam os europeus sobre a Europa? Que tal tirar um pouco do seu tempo e participar nessa consulta? Vamos lá, se me permite a familiariedade, não se limite a refilar.

E se foi leitor(a), como eu, do Diário de Anne Frank, deixe-se atrair por este artigo: duas páginas inéditas que revelam a sua curiosidade pelo sexo. Ora, que espanto! Não tinha a jovem judia alemã 13 anos, quando a sua família foi descoberta a viver praticamente enclausurada num sótão em Amesterdão e foi levada para um campo de concentração?

Assim chegámos ao fim deste Curto, quase mono-temático. Desta vez, o futebol também tomou conta de mim. Et pour cause.

Mas não deixe de ter um Bom Dia, apesar das discussões que o marcarão. A Primavera está aí! E não deixe de "picar o ponto", aqui no Expresso, a qualquer hora, se quiser manter-se informado. Até breve!

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