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Expresso

Vítor Matos Editor de política

O mundo nas mãos de um homem que não lê

9 de Maio de 2018

Donald Trump não é um leitor voraz. O seu Conselho de Segurança Nacional fazia-lhe chegar relatórios profundos sobre as teias complexas da geoestratégia internacional. Mas eram demasiado longos, muito complicados, fez saber um membro do staff. Mais curtos, por favor. Passaram então a chegar curtinhos, apenas em resumos de uma página. Ainda assim eram exaustivos demais. Mais uma vez, a Casa Branca fez saber que era melhor cortar, resumir e paginar. O Presidente era um homem “visual” e o melhor era mesmo apresentar as informações de forma “pictórica”. Como se dissessem: expliquem-lhe em desenhos. Como conta aqui a New Yorker, Donald Trump acabou a receber os relatórios da Segurança Nacional em pequenos e resumidíssimos cartões estreitos e compridos, e mesmo assim ninguém tem a certeza de que ele os lê.

Foi este homem, com este grau de atenção e profundidade quanto aos temas mais importantes do planeta, que esta terça-feira tomou mais uma decisão que gera instabilidade num mundo já de si instável. Não estávamos descansados ontem. Hoje é supostos estarmos menos descansados ainda. Não é novidade: desde que Trump tomou posse que estamos menos descansados todos os dias e à espera que o mundo se aguente - até ele desaparecer do mapa político - em cima de gelo fino sem haver uma catástrofe qualquer.

Donald Trump rasgou o acordo nuclear com o Irão, assinado a 14 de julho de 2015, em Viena, por Barack Obama e os líderes de outros países ocidentais. Como explica aqui o Expresso, durante mais de dez anos o Ocidente preocupou-se com a possibilidade de o Irão, um regime xiita, profundamente religioso e conservador, estar a desenvolver armas nucleares, colocando em risco alguns aliados no Médio Oriente, como Israel. Quando esse Plano Conjunto de Ação foi assinado, o perigo atenuou-se, mas esta terça-feira regressou. O Presidente norte-americano não fez mais do que cumprir uma promessa eleitoral. E colocou os Estados Unidos como o único país do Conselho de Segurança das Nações Unidas fora do acordo.

“Se o regime iraniano continuar as suas aspirações nucleares, vai ter mais problemas do que alguma vez teve”, ameaçou Trump, garantindo ter provas de que o Irão violou o pacto. Países como o Reino Unido, a França, a Rússia ou a China criticaram o recuo dos EUA. Hassan Rouhani, Presidente do Irão, fez uma comunicação a dizer que o país quer manter-se no acordo, e deu ordens para negociar com os europeus, os chineses e os russos, mas deu ordens à Agência de Energia Atómica do Irão “para iniciar os preparativos necessários para retomar o enriquecimento [de urânio] ao nível industrial sem qualquer limite”. Preocupante.

O Observador fez um explicador que ajuda a perceber o que está em causa. O Jornal de Negócios diz que esta política de Trump ajuda a manter o petróleo acima dos 70 dólares. Haja alguém que ganhe com a crise.

Se lá fora não estamos seguros, cá dentro é suposto estarmos preocupados com a segurança. No dia em que o Presidente da República disse em entrevista ao Público e à Renascença que não se recandidatava caso se repetisse uma tragédia com fogos, o comandante da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) demitiu-se. Segundo o Público, tudo se precipitou numa reunião em que Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, pediu ao secretário de Estado da Proteção Civil para mandar calar o coronel António Paixão - que saiu da sala e não voltou. Edificante, para quem trata de assuntos tão sérios. No Parlamento, o ministro Eduardo Cabrita fugiu às perguntas e classificou a preocupação da demissão de mais um comandante da ANPC como uma "excitação sobre o tema do dia".

Mas há outras razões para estarmos preocupados ou excitados este dia, como diria Cabrita.

O Público faz manchete com um trabalho de investigação sobre como estão atrasadas as medidas de preparação para o combate aos fogos: o grupo especial para ataque aos incêndios não tem “meios básicos para trabalhar”. Faltam viaturas, luvas, fatos, telemóveis, computadores e camas ao Grupo de Intervenção, de Proteção e Socorro. A lei orgânica da ANPC está atrasada (o ministro Eduardo Cabrita chegou a dizer ao Expresso que era para o fim de março). As medidas de melhoria do sistema de comunicações SIRESP ainda não estão a funcionar. E os meios aéreos? A 1 de maio deviam estar prontas 20 aeronaves de combate a incêndios e só há três helicópteros operacionais. O i também noticia que, desde 2006, Portugal não tem em maio tão poucos aviões disponíveis para combater incêndios.

Tudo atrasado. Luís Marques Guedes disse ontem ao ministro da Administração Interna: “Que São Pedro nos proteja!” Neste caso seria porém mais eficaz esperar proteção de São Bento.

Outras notícias

Há outros assuntos verdadeiramente importantes que nos deviam ocupar a atenção. O país está em contagem decrescente para o festival da Eurovisão, que desta vez, ao que parece, voltará à normalidade, ou seja, não é suposto haver uma surpreendente vitória portuguesa. Depois da comoção da história da doença de Salvador Sobral o ano passado, agora é a vida da israelita Netta Barzilai sobre bullying que condimenta o favoritismo que partilha com a concorrente de Chipre.

E agora, outro momento fundamental da democracia portuguesa: quando tem o “tetra” ameaçado por investigações judiciais, o Benfica também ameaça impugnar a vitória do Futebol Clube do Porto, que o clube da Luz classifica como um “campeonato sujo”, avança o Correio da Manhã.

Voltamos aos temas mais sérios, mas nada maçadores, porque de maçador Marcelo não tem nada. A Ângela Silva explica no Expresso Diário a evolução do discurso do Presidente da República. Em cinco pontos-chave da entrevista que deu ao Público e à Renascença, evidencia o que Marcelo Rebelo de Sousa disse nos últimos meses e mostra a nova formulação presidencial para os problemas. Um exemplo? Marcelo começou por afirmar que os fogos eram a prioridade do seu mandato e agora dramatiza para dizer que se o verão voltar a correr mal, não se recandidata. É uma forma de arrastar o Governo para a responsabilização, pois António Costa já tinha dito que não se demitia mesmo que as tragédias se repetissem. Nota: António Costa disse ontem que o PR não manda recados ao Governo pelos jornais. A formulação é airosa. Costa revela que já sabia de tudo: “O sr. Presidente da República não manda recados ao Governo pelos jornais. Dialoga diretamente com o Governo, porque como é normal num país que funciona civilizadamente, os órgãos de soberania relacionam-se com toda a normalidade.”

Nas viagens dos deputados, há evoluções e complicações. No Parlamento, o PS garantiu ontem que quer rever todo o regime das viagens dos deputados. Depois da notícia do Expresso sobre a acumulação de subsídios dos deputados das ilhas, a subcomissão de ética aprovou um parecer com 19 pontos, em que apenas um não foi aprovado por unanimidade. Os socialistas são acusados pelos outros partidos de quererem tornar o documento “mais confuso e genérico” Um assunto para continuar a acompanhar.

O animal feroz volta a atacar. O Expresso escreveu na edição de sábado que a saída de José Sócrates do PS era só o início da luta do ex-primeiro-ministro. Hoje ficamos a saber pelo i que o ex-militante socialista vai fazer um almoço no Parque das Nações, no dia 20 de maio, cinco dias antes do Congresso do PS. Para atacar António Costa? Para atacar o PS e os seus dirigentes? Para fazer uma demonstração de força com apoiantes? Para criar um movimento? Veremos a adesão e que figuras socialistas comparecem.

Se o caso de Manuel Pinho desencadeou o distanciamento do PS em relação a José Sócrates, a investigação quer apertar a malha em relação à mulher do ex-ministro da Economia. O Correio da Manhã faz manchete com alegadas suspeitas que recaem sobre Alexandra Pinho, que era curadora do BESart - Banco Espírito Santo Collection. Os procuradores querem analisar todas as transferências bancárias do BES para a mulher de Pinho.

Manchetes do dia

Público: “Grupo especial de ataque a fogos sem meios básicos para trabalhar”

Diário de Notícias: “Estado contrata 200 pessoas para resolver atrasos nas pensões”

Jornal de Notícias: “Maioria das câmaras sem planos contra tragédias”

I: “Desde 2006 que Portugal não tem em maio tão poucos aviões para combate a incêndios”

Correio da Manhã: “Mulher de Pinho sob investigação”

Jornal de Negócios: “Estudo ambiental viabiliza Montijo”

O que ando a ler

Imagine que tem uma pessoa qualquer sentada à sua frente. Agora pense: esta pessoa seria capaz de matar? É amigável? É de desconfiar? Esta pessoa seria capaz do quê? Já nos aconteceu a todos. Temos incorporado no nosso cérebro um certo sentido que nos dá informações, perceções, intuições sobre quem está sentado diante de nós, sobre quem passa ao nosso lado, sobre um colega, um amigo, um político. E como em tudo, há um desvio padrão. Há quem tenha esse sentido mais apurado, uma espécie de ouvido absoluto para olhar para os outros e perceber: pode matar, pode trair, é ótima pessoa, é péssima influência, representa um perigo? Agora imagine esse dom ao serviço dos serviços secretos. É disso que tratam os três volumes e as mais de 1.200 páginas da triologia “O Teu Rosto Amanhã” que ando a ler, do romancista espanhol Javier Marías - colunista do El País. É injusto: tratam de muitíssimo mais.

O primeiro volume (Febre e Lança) foi lançado em Portugal, em 2003, pela D. Quixote. Li e esperei. Mas não foram traduzidos os outros dois volumes até 2017, quando a Alfaguara resolveu editar a triologia. Só recentemente li os números dois e três e estou agora a meio do livro inicial, a relê-lo mais de 10 anos depois, como se fosse uma prequela da qual já só recordava um esboço essencial.

O título lança o tema de forma direta: cada um de nós poderá cometer atos no futuro que hoje parecem impossíveis - atos de violência, por exemplo -, mas dentro de cada um está a semente que germinará nesse rosto, amanhã. E nós sabemos? Sim, em princípio sabemos daquilo que somos capazes, embora possamos nunca lá chegar. O segredo de Jácobo, Jacques ou Jaime, o protagonista espanhol a viver em Londres e que estudou em Oxford com personagens inspiradas em gente real que o próprio Javier Marías conheceu na mesma universidade, é este: um dom extraordinário para “interpretar pessoas” que o leva a ser recrutado por uma organização secreta do Estado britânico e fazer perfis através da mera observação dos alvos.

Ao mesmo tempo que procura perfilar os outros, o protagonista sofre com a dificuldade de se perfilar a si mesmo e com as limitações de usar o dom para olhar e ver aqueles que lhe são mais próximos. Quanto mais próxima a imagem, mais difícil é de definir.

Não, não são três livros de espionagem. São uma narrativa sobre a nossa humanidade, com muitas deambulações filosóficas pelo meio. Sobre as guerras e aquilo em que as pessoas podem transformar-se: na guerra civil espanhola, na II Guerra Mundial, nas guerras da vida quotidiana. A espionagem é um pretexto de fundo para uma narrativa violentíssima para com o seu próprio país: muito ligado à cultura anglo-saxónica, Javier Marías apresenta poucas personagens espanholas com traços positivos ao longo dos três volumes. Faz um retrato absolutamente negativo de Espanha e dos espanhóis imprudentes, cheios de bravata tauromáquica, emotivos, excessivos e inconsequentes.

Portugal entra no romance com algumas referências curiosas (mais positivas), como uma recordação - certamente uma experiência do autor - de um relógio despertador que viu um dia por trás do vidro de um jazigo ao passear pelo Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Símbolo do tempo finito em vida, ou da eternidade da morte, o velho despertador do morto prova que o nosso rosto amanhã só terá um fim. O que a todos nos resta.

Fica por aqui este Expresso não muito curto, mais estilo abatanado: longo e diluído. Tenha um bom dia!

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