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Expresso

Valdemar Cruz Jornalista

“Estás a apontar? Dispara!”

13 de Abril de 2018

Hoje é sexta-feira. Dia de Marcha pelo Direito ao Retorno, em Gaza.


Há um campo árido naquele longe constituído pela fronteira da faixa de Gaza. Percebem-se movimentações de figuras humanas. Do lado de cá, do lado de quem observa através de uma mira telescópica, ouvem-se vozes. Procuram a melhor oportunidade. O que se presume ser uma voz de comando, pergunta: “estás a apontar? Dispara!”.


O tiro não sai de imediato. Aparece uma criança. Uns segundos depois, um só tiro, uma só bala na cabeça de um jovem desarmado e está mais um palestiniano morto na fronteira da Faixa de Gaza. Ouvem-se gritos de celebração dos soldados israelitas. Um dos francoatiradores grita: “Oh, que vídeo. Yess! Filho da puta”. Outra voz diz que estão a correr para evacuar a vítima. De novo uma voz: “Deu-lhe na cabeça. Que grande vídeo”.


Lembram-se das últimas palavras proferidas pelo coronel Kurtz no final de Apocalipse Now? “The horror. The horror”. Ali era o Vietname. Aqui é o eterno terror, o constante massacre consentido pela comunidade internacional. Israel goza de um estatuto único no mundo de absoluta impunidade.


Aquele vídeo está a desencadear ondas de choque. Terá sido feito em dezembro do ano passado, mas contém cenas que poderão repetir-se hoje, sexta-feira, mais um dia de Marcha pelo Direito ao Retorno, iniciada no passado dia 30 de março, por ser o Dia da Terra Palestiniana. A Marcha vai prolongar-se, com especial incidência às sextas-feiras, até 15 de maio, dia que marca a expulsão das suas terras, em 1948, de centenas de milhares de palestinianos durante o conflito que desembocou na criação do estado de Israel. A data é denominada Nakba (catástrofe em árabe).


“Independentemente de o vídeo ter sido gravado há um mês ou há uma semana, todos os que servimos em territórios da Palestina sabemos que mais de 50 anos de ocupação conduziram a uma grande corrupção moral, ao ponto de se disparar contra civis desarmados”. As palavras são da ONG israelita Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio), composta por antigos militares que se opõem á ocupação da Palestina.


O exército israelita já confirmou que o vídeo é autêntico, e anunciou que vai abrir um inquérito.


No vocabulário israelita, um palestiniano é um terrorista. Talvez por isso, o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman afirmou, depois de ter visto as imagens, que “o francoatirador de Gaza merece ser condecorado, e o que fez as imagens despromovido”.


Num longo e bem documentado artigo, de leitura indispensável, publicado quarta-feira no Expresso Diário, intitulado “O Governo de Israel insulta a história dos judeus”, Daniel Oliveira sublinhava que as sociedades israelita e palestiniana estão doentes de tanta dor e tanta guerra.


Este texto e o seu conteúdo são chocantes? Infinitamente mais chocante é a continuada prática de crimes de guerra na faixa de Gaza ter entrado no banal quotidiano, perante a indiferença mediática e o silêncio cúmplice da comunidade internacional.


“Estás a apontar? Dispara!”.


OUTRAS NOTÍCIAS


Num artigo de opinião ontem publicado no jornal Público, Francisco Assis defendia que, face às declarações do ministro das Finanças, Rui Rio devia manifestar de imediato a disponibilidade para viabilizar a próxima proposta de Orçamento de Estado. Como o caminho se faz caminhando, o mesmo jornal revela hoje que na próxima semana será assinado o assinado o primeiro acordo formal “ao centro desde 2006. PSD e Governo terão tudo pronto para assumir uma posição conjunta na negociação de fundos estruturais para a próxima década. Este acordo determinará os princípios de negociação a assumir pelo executivo nas conversações que a partir de maio decorrerão com a União Europeia.


Aquela notícia não pode ser dissociada desta: o Governo entrega hoje na Assembleia da República o Programa de Estabilidade 2018-2022. Os parceiros parlamentares, PCP, BE PEV já manifestaram as maiores reservas e até oposição, com exigências de um recuo na revisão em baixa do défice para 2018 e a manutenção da meta acordada no orçamento. Há uma semana, Eco e Jornal de Negócios divulgaram que, naquele documento, o Governo pretende rever em baixa as metas orçamentais para este ano, de modo a fixar o défice orçamental em 0,7% do PIB, o que seria o défice mais baixo da democracia portuguesa. Ou seja, €800 milhões a menos em relação ao que ficou definido para o OE de 2018, aprovado pelo PCP, BE e PEV. Começa a notar-se indignação à esquerda e nos Sindicatos, pelo objetivo rasgar de um acordo feito e face à constatação de que a subida da folga orçamental não tem tradução em mais investimento público, aumentos salariais na função pública ou no fim das penalizações nas reformas de trabalhadores com longas carreiras contributivas.


Afinal Rui Rio criou ou não um “Governo sombra”? O presidente do PSD diz que não. A generalidade dos jornais não tem outro nome para o gabinete com os 32 nomes que compõem o conselho estratégico nacional (CEN) do PSD. Rio assegura que embora a lógica do CEN seja inspirada num Governo, não se trata de um Governo. O presidente do PSD recorreu a antigos ministros do Governo de Durão Barroso (Luís Filipe Pereira e Maria da Graça Carvalho) e de Cavaco Silva (Silva Peda e Arlindo Cunha). Ângelo Correia, mentor político de Pedro Passos Coelho, é um dos eleitos de Rio. A média de idades do Governo sombra que não o é anda pelos 60 anos.


O Sporting fez do jogo uma festa. Construiu mesmo, em longos momentos, um saboroso festival de futebol. Do outro lado tinha uma equipa competente e segura, mesmo se ontem teve uma jornada muito abaixo do seu rendimento habitual. O golo ainda na primeira parte deu esperança. Os sportinguistas acreditaram na possibilidade de virar o resultado. Os jogadores tudo fizeram para tornar o sonho realidade. No final impôs-se a dura realidade dos números. O Atlético de Madrid venceu por 2-1 no conjunto das duas mãos e segue para as meias finais. Na Tribuna fala-se do Sporting e do admirável novo mundo das vitórias morais.


É inaugurada hoje à noite na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, a exposição “Os Universalistas – 50 Anos de Arquitetura Portuguesa". No Expresso já se escreveu sobre esta mostra, que começou por ser apresentada em Paris, e chega agora a Portugal. A partir das 21 horas, para lá da visita guiada pelo curador, arquiteto Nuno Grande, há a divulgação de um testemunho de Eduardo Lourenço, e uma conversa com os arquitetos Alexandre Alves Costa e João Belo Rodeia.


Os bispos portugueses admitem referendo sobre a eutanásia, mas preferem aposta nos cuidados paliativos


Vai haver uma nova ponte sobre o Douro, destinada a aliviar a pressão sobre os centros históricos de Porto e Gaia


A Plataforma pela Reposição das SCUT vai realizar hoje uma marcha lenta , que parte da Covilhã e Castelo Branco e termina na Lardosa


LÁ FORA


A Síria, o que se passa na Síria, o que se presume que se passa na Síria, as muitas narrativas construídas sobre a situação na Síria (e vale a pena seguir com atenção esta leitura alternativa) , continuam a dominar o noticiário internacional. Com ameaças, avanços e recuos de Trump. Com endurecimento de voz do presidente francês, Emmanuel Macron, com Theresa May a esforçar-se por construir pontes que não a deixem isolada e atolada na questão do Brexit, com Putin a deixar claro que a escalada belicista não ficará sem resposta. Definitivamente, o silêncio não é uma das virtudes humanas.


O ex-director do FBI James Comey, demitido pelo Presidente norte-americano em Maio de 2017, lança na próxima terça-feira nos EUA o livro A Higher Loyalty: Truth, Lies and Leadership, no qual compara Donald Trump a um chefe da Mafia. Quem já leu passagens do livro, como a Associated Press ou o Wahshinton Post, sustenta que se trata de um presidente cujas ações são dominadas pelo seu ego e conduzidas por questões de lealdade pessoal.


Ontem recebi um Tweet que dizia assim: “A vida é uma coisa demasiado importante para falarmos seriamente sobre ela”. Pouco antes tinha recebido um outro no qual se escrevia: “a beleza, com o seu poder, levaria menos tempo para transformar a honestidade em alcoviteira do que esta em modificar a beleza à sua imagem”. O primeiro é assinado pelo senhor Oscar Wilde. O segundo é enviado em nome do senhor William Shakespeare e sai diretamente do Ato III, Cena I, de Hamlet, a mesma cena onde é dito o célebre “ser ou não ser, eis a questão”. A minha questão é mesmo esta: porque é que em vez dos inenarráveis Tweets do senhor Trump, não optamos por dar outra cor à vida com a presença no nosso quotidiano de gente que, estando fisicamente morta, continua a ser uma grande e insubstituível inspiração? É possível. Basta subscrever os tributos materializados nas contas Twitter de gente como Shakespeare, Wilde, Virginia Woolf, Silvia Plath e tantos outros que por aí continuam à nossa espera.


FRASES


"Os compromissos que o Governo assume em Bruxelas são compromissos do Governo. Em Portugal o Governo tem que cumprir o que está no Orçamento do Estado". António Filipe, deputado do PCP No programa da TSF Política Pura


O BE e o PCP sabem bem que, se as nossas contas públicas correrem mal, isto vai tudo por água abaixo”. Carlos César, presidente do PS


Sempre dissemos que tem de ser aceite um Estado palestiniano com a capital em Jerusalém. (…). Não mudaremos a nossa embaixada para Jerusalém”. Marcelo Rebelo de Sousa na Universidade de al-Azhar, no Egito


No que respeita ao acolhimento de refugiados, a atitude da União Europeia e da Hungria não são assim tão diferentes”. Pedro Neto, diretor-executivo da Aministia Internacional Portugal no Expresso Diário


O intuito (eventual bombardeamento da Síria) não é abrir caminho a uma democracia pluralista. Essa é uma ilusão conveniente para a opinião pública ocidental. O objetivo é substituir um regime autoritário de tipo secular por um governo islamita sunita, que será opressor de uma forma talvez ainda mais odiosa”. José Pedro Teixeira Fernandes, investigador, Professor de Relações Internacionais e Estudos Europeus no Público


PRIMEIRAS PÁGINAS


Pacto a dois – Governo e PSD já têm acordo sobre fundos da EU – Público


GNR – Quatro anos e meio por torturar detidos – JN


Lisboa vai ter 120 câmaras em semáforos e mais radares – DN


Défice – Costa totalmente inflexível com Bloco e PCP – I


Pensões com novo aumento extra – Correio da Manhã


Só 9% das cotadas têm mais de metade do capital em bolsa – Negócios


Leão caiu de pé – O Jogo


Leões encostaram Atlético às cordas - Record


Leão merecia mais - A Bola


O QUE ANDO A LER E A VER


Daqui a doze dias comemoram-se os 44 anos da Revolução de 25 de abril de 1974. Passado quase meio século, faz ainda sentido insistir nas diversas facetas da resistência à ditadura de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano? Como é que se explica, hoje, a um jovem de 18 ou 20 anos que, se tivesse nascido umas décadas antes, nesta altura estaria a lidar com os medos, as revoltas ou as indignações suscitadas pela necessidade de ter de abandonar a família, o trabalho, os estudos, para pegar em armas e ir combater numa guerra colonialista em África?


Nunca foi pacífico, entre a esquerda portuguesa, o modo como lidar com aquele dilema. Os movimentos de extrema-esquerda defendiam abertamente a deserção, com consequente exílio. Na área do PCP era incentivada a incorporação nas Forças Armadas, desde logo para que os militantes aprendessem a manejar armas e fizessem propaganda contra a guerra junto dos soldados. As deserções eram aplaudidas e incentivadas, se efetuadas num contexto de movimento coletivo de abandono dos quartéis.


Foram milhares os que se viram forçados a abandonar o país e construir uma nova vida no exílio. Por estarem contra a guerra. Por terem uma atividade oposicionista. Por defenderem o derrube do regime fascista. Por terem uma atividade que os deixava rotulados como traidores à pátria. As suas fotografias eram colocadas nos postos fronteiriços, como se de vulgares criminosos se tratasse.


Partiram para países de acolhimento tão diversificados como o Brasil, Bélgica, França, Suécia, URSS, Roménia, Marrocos, Argélia e outros. Uns passaram a fronteira a salto, outros partiram em comboios vigiados ou em barcos improvisados, nos quais deixavam a vida em suspenso e dependente da linha ténue que separa a sorte do azar.


Viveram vidas duras, marcadas por enormes sacrifícios pessoais e familiares. O exílio é uma marca, uma dor que fica para a vida, como se percebe em “Memórias do Exílio”, o comovente livro de Ana Aranha, jornalista da Antena 1, e Carlos Ademar, mestre em História Contemporânea e professor na Escola da Polícia Judiciária.


Recolhem, no que foi primeiro um programa da Antena 1 aqui disponível, doze depoimentos de homens e mulheres um dia confrontados com a urgência e a necessidade absoluta de abandonarem o seu país.


São relatos atravessados por uma emoção na qual se roça a eminência da tragédia, o humor, o quase inverosímil, a coragem, a dor, o sofrimento, o questionamento pessoal, a divergência, o reposicionamento político e ideológico. Ninguém sai incólume de um exílio forçado, como se percebe das palavras de, entre outros, Hélder Costa, Luísa Tito de Morais, Cláudio Torres, Manuel Pedroso Marques, Margarida Tengarrinha, Helena Cabeçadas, uma das mulheres mais jovens (aos 17 anos) a exilar-se por motivos políticos, ou Teresa Rita Lopes, que diz: “o exílio é sempre dolorosíssimo. Basta não poder vir ao seu país. A privação dessa possibilidade já é terrível e sobretudo não saber quando é que isso viria a ser possível. Até podia não ter sido possível na minha vida”.


De forma telegráfica, duas sugestões para o fim de semana. A primeira é uma fantástica viagem pela história da arte, narrada através de três cores: dourado, azul e branco. São três episódios imperdíveis da BBC. Por fim, uma sugestão musical com forte componente estética: A Sagração da Primavera, de Stravisnky, num bailado com coreografia de Jean-Claude Gallota, gravada no Théatre national de Chaillot, em Paris, com transmissão no próximo domingo a partir das 18h40, no Mezzo HD Live. É uma boa alternativa ao Benfica- FC Porto.


Tenha um bom dia e um excelente fim-de-semana. Com ou sem chuva.

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