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Expresso

Ricardo Marques Jornalista

Pássaro de guerra

12 de Abril de 2018

É como chover no molhado num dia de tempestade, mas é acima de tudo um sinal dos tempos.


Ontem, quase à mesma hora em que um dos homens mais poderosos do mundo admitia não ter controlo absoluto sobre a rede social que criara, um outro homem, presidente dos Estados Unidos da América, usava uma rede social para empurrar o mundo rumo ao que parece ser o descontrolo absoluto.


Eis o que Donald Trump escreveu no Twitter:


“Russia vows to shoot down any and all missiles fired at Syria. Get ready Russia, because they will be coming, nice and new and “smart!” You shouldn’t be partners with a Gas Killing Animal who kills his people and enjoys it!”


O passarinho azul foi o mensageiro da desgraça.


À hora a que lê estas linhas, os jornais e televisões norte-americanas já não discutem se haverá um ataque norte-americano na Síria, mas o que poderá acontecer após esse ataque e que papel poderão os Estados Unidos da América desempenhar .


Madeleine Albrigth, a antiga secretária de Estado, afirmou que não existe qualquer estratégia da administração e António Guterres, dirigindo-se ao Conselho de Segurança da ONU, pede aos seus membros que façam tudo para evitar que a situação fique "fora de controlo".


A Casa Branca, já depois da mensagem de Trump, insiste que todas as hipóteses estão em aberto, e o The New York Times põe as coisas em termos nada animadores: um ataque cirúrgico pode não ser suficiente, um ataque mais amplo pode fazer o conflito subir um nível no espectro da guerra e envolver russos e iranianos.


Os sinais de que algo pode estar prestes a acontecer são mais do que muitos. Após o aviso do Eurocontrol, que alertou para o perigo de ataques de mísseis, várias companhias aéreas já estão a reajustar as rotas que atravessam a região do Médio Oriente.


Ao mesmo tempo há navios militares norte-americanos a caminho do Médio Oriente. A Marinha dos EUA alega que a partida do grupo de batalha do porta-aviões “USS Harry S. Truman”, que deve chegar à região no início de maio, já estava agendada. Na segunda-feira tinha partido de Chipre o destroyer "USS Donald Cook", que leva a bordo os mesmos mísseis Tomahawk que os americanos usaram, há um ano, para bombardear a Síria pelos mesmo motivos.


Entrevistado ontem à noite na CNN, Nicholas Burn, o vice-secretario de Estado de George W. Bush, reconheceu que Donald Trump tem razão em tudo, menos no mais importante. “Espero que seja bem sucedido e que consiga debilitar as capacidades de Assad, que no último ano usou armas químicas nove vezes contra o seu povo.”. O problema, avisou Burns, foi a forma como o presidente usou o Twitter. “Irresponsável”, disse, porque está em causa um choque que pode evoluir rapidamente para um confronto nuclear.




É assim o mundo de Trump: se está em casa é investigado por ligações perigosas com os russos antes das eleições, se vai à rua fica a quase nada de lhes declarar guerra.


A Rússia não perde tempo e, de acordo com a Reuters, está a seguir com toda a atenção as movimentações militares americanas. Além disso, Moscovo refuta todas as acusações de envolvimento do regime sírio no uso de armas químicas, sugerindo que os ataques dos EUA têm um propósito mais obscuro. E esta manhã, o regime de Damasco assumiu o controlo de Ghouta e há soldados russos no terreno.


Em Londres, Theresa May, que abriu uma guerra diplomática com Moscovo nas últimas semanas (agora parece que uma equipa de televisão russa invadiu o hospital onde está o espião envenenado), convocou para hoje uma reunião de emergência do Governo para discutir os passos seguintes na questão Síria, dando conta de que “todos indícios” parecem confirmar que o regime de Assad usou armas químicas contra as populações.


A Bloomberg elege o presidente francês como o grande aliado de Trump no que quer que seja que vá acontecer. Macron é esperado nos Estados Unidos ainda este mês e uma coligação do eixo Paris-Londres-Washington é cada vez mais real.


Lembra-se dos post do Twitter com que começámos? A frase que se segue tem quase o mesmo número de caracteres:


“Enquanto não tiver batido o adversário mantenho-me receoso de que ele me abata. Eu não sou senhor dos meus actos, visto que o adversário me dita a sua lei, como eu lhe dito a minha”, Carl von Clausewitz.




Lembra-se do Expresso Curto de ontem? Aquele em que a Luísa Meireles perguntava “E se não acordarmos amanhã?”. Se chegou aqui é bom sinal. Para si, para mim e para todos. Acordámos.




Mas a pergunta não só se mantém - e se não acordamos amanhã? - como se tornou muito mais difícil arriscar uma resposta.

OUTRAS NOTÍCIAS

Claro que a mera possibilidade do fim do mundo não deve ser suficiente para nos distrair dos restantes assuntos de que é feita a atualidade. Eis a lista de temas de que provavelmente vai ouvir falar. Outras guerras.

O Conselho de Ministros aprova hoje o PE(C) - Plano de Estabilidade (anteriormente conhecido como Plano de Estabilidade e Crescimento), com a meta do défice a ser revista em baixa. O documento deve chegar ao Parlamento amanhã. O assunto anda a ser discutido há dias. O Bloco de Esquerda (aqui e aqui) e o PCP voltaram a manifestar-se contra as opções do Governo e já avisaram que não estão de acordo com as opções.

O CDS anunciou que vai insistir para que o PE (C) seja votado na Assembleia da República e o primeiro-ministro, de visita a Londres, mantém o otimismo, afirmando-o com um "não". Vale também a pena ler e ouvir o que disse Carlos César ao almoço. E o que respondeu Luis Montenegro.

Marcelo Rebelo de Sousa, um admirador moderado do otimismo do chefe do Governo, mostrou-se preocupado com a tensão política nacional decorrente do PE(C). ”Uma crise política é indesejável e uma crise política envolvendo o OE é duplamente indesejável”, afirmou. O Público avança na manchete de hoje que a crise pode já estar mais avançada: “Centeno não cede e Marcelo avisa que sem OE marca eleições”



O Presidente da República, que chegou ontem ao Egipto para uma visita de dois dias, abordou também outros dos temas quentes da atualidade: as condições de tratamento de crianças com cancro no Hospital de São João, e para colocar pressão no Governo, garantindo que o problema "vai ser resolvido".



No Parlamento, o tema foi o assunto principal da intervenção da dupla Mário Centeno e Adalberto Campos Fernandes, numa audição conjunta das comissões de Saúde e Finanças. Conclusão: somos todos qualquer coisa.



Uma outra guerra em curso é que está instalada no Sporting Clube de Portugal. Nas últimas horas foi declarada uma espécie de trégua. A Tribuna publicou uma espécie de guia para os próximos dias. Claro que, à velocidade a que tudo vem acontecendo, o mais prudente será esperar pelo jogo de logo à noite com o Atlético de Madrid para ver o que sucede. É às 20h05. A revista Sábado traz o assunto na capa. O título: “O incrível Bruno de Carvalho”.



Por falar em futebol, daquele de que vale a pena falar e ver e rever, o Real Madrid bateu a Juventus naquele que terá sido um dos mais emocionantes jogos da presente edição da Liga dos Campeões. Os espanhóis, a jogar em casa, partiam com uma vantagem de três golos; os italianos responderam com outros tantos golos e, no fim, com um penálti no último minuto do jogo, ganhou a equipa que tem o alemão. Ou melhor, Toni Kroos nem jogou mal, mas a grande estrela do Real Madrid foi o sujeito do costume: Cristiano Ronaldo.



Amanhã, no sorteio das meias-finais estarão as seguintes equipas: Real Madrid, o Bayern de Munique, o Liverpool e a Roma.



Manchetes

Correio da Manhã: “Lúcia já tem 1600 sinais de milagre”

Diário de Notícias: “PS recusa eutanásia para doentes que fiquem inconscientes”

I: “PS é um partido estalinista”

JN: “Casas em leilão pagas a pronto”

Visão: “Guerras de heranças”



Na Argélia, começa agora o trabalho para perceber o que aconteceu com o avião militar que se despenhou, provocando a morte de 257 pessoas - o acidente aéreo mais grave da história do país.



O Papa Francisco pediu desculpa por ter defendido um bispo suspeito de abusos sexuais no Chile e convidou as vítimas a viajarem até Roma para lhes pedir perdão.



Seguem-se quatro noticias vindas da América, apresentadas em versão minimalista, e que têm potencial como bons assuntos de conversa



  1. Facebook: Retomando o início deste Expresso Curto, Mark Zuckerberg cumpriu ontem o segundo dia de esclarecimentos sobre o uso indevido de dados de utilizadores do Facebook. Depois de afirmar no Congresso que há uma ciberguerra em curso com a Rússia, esteve na Câmara dos Representantes e admitiu que a sua própria conta tinha sido ‘apanhada’;

  1. Stephen Bannon, o estratega-mor da Casa Branca que deixou a Casa Branca, entrou em contacto com a Casa Branca para apresentar um plano capaz de destruir a investigação em curso à intervenção russa nas eleições de 2016, em que se decidiu o inquilino da Casa Branca. Uma investigação do "Washington Post";

  1. Paul Ryan, o republicano que preside à Câmara dos Representantes onde Zuckerberg esteve, anunciou que não vai voltar a candidatar-se. Aos jornalistas explicou que, ao fim de 20 anos, tinha alcançado quase tudo aquilo a que se propusera e que estava pronto para voltar a ser pai a tempo inteiro;

  1. Michael Cohen, o advogado de Donald Trump, foi alvo de buscas pelo FBI.


A lula continua. Ou melhor, a luta por Lula não abranda, como conta a Christiana Martins, a enviada do Expresso a Curitiba, no Brasil. E esta noite a defesa do ex-presidente chega, outra vez, a Lisboa .



Há novidades na administração do Montepio e termina o prazo para os lesados do papel comercial do BES/GES aderirem ao fundo que pagará as indemnizações.



Em jeito de rima, saltamos para as promoções - anunciadas ontem para a PSP pelo Ministério da Administração Interna, horas depois de o principal sindicato da polícia ter admitido novas ações de luta, em conjunto com os militares.



Entretanto, se andar para os lados de Santa Margarida, não se assuste se ouvir tiros e explosões. É fogo real, sim, mas é só uma demonstração para assinalar a primeira visita oficial do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas ao Exército. É às 10h00



O QUE ANDO A LER

Com os playoff da NBA mesmo aí à porta, e sem grandes leituras para recomendar, atrevo-me a sugerir dois artigos sobre basquetebol. Ambos valem pelas histórias improváveis que contam.



Começo pelo mais breve: a aventura de um jogador que chegou à NBA aos 32 anos e que teve uma estreia de sonho. A noite de Andre Ingram em Los Angeles foi tão especial que, como conta o "Washington Post", ninguém parece ter ligado muito ao facto de os Lakers terem perdido o jogo (o adversário não era o mais fácil).



Por fim, quero falar-lhe de Becky Hammon, a primeira mulher treinadora na NBA. O artigo da "The New Yorker" é longo, mas a história que conta faz com que valha a pena. E tem o aliciante de revelar o que as pessoas estão dispostas a fazer por um sonho. Hammon, que diz ser não poder ser mais americana, jogou pela seleção da Rússia.



Saiba que hoje, com muita chuva prevista para Portugal e muitos nervos espalhados pelo mundo, é dia do cosmonauta, para assinalar o primeiro voo espacial tripulado.



A 12 abril de 1961 - seis meses antes de ter sido publicada a primeira notícia conhecida sobre Donald Trump (o atual presidente tinha 15 anos e, contava o “Democrat and Chronicle’s”, fora eliminado de um torneio de golfe) - o russo Yuri Gagarin olhou para baixo e tornou-se o primeiro ser humano a contemplar esta gigante bola de basquete azul em que vivemos.



Agasalhe-se e tenha um bom dia de mau tempo.



estaremos para o manter informado.

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