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Expresso

Rui Gustavo Jornalista de Sociedade

400

9 de Abril de 2018

Para mim, que adoro futebol e heróis do povo, este foi um fim-de-semana duro: o presidente do Sporting, num gesto inédito (que eu me lembre, mas nasci em 71 e só sigo os campeonatos desde a época 77/78), declarou guerra ao próprio plantel depois de ter criticado no Facebook os jogadores que falharam na derrota contra o Atlético de Madrid. Bruno de Carvalho recuou na intenção de suspender todos os jogadores que protestaram no instagram contra o post presidencial, mas a poucas horas do jogo contra o Paços de Ferreira voltou ao Facebook para acusar os jogadores de o envergonharem e de plantarem notícias falsas nos jornais.

Depois do jogo que acabou com uma vitória do Sporting por 2-0, Bruno de Carvalho foi assobiado, insultado e saiu do campo em braços com uma aparente crise de dor nas costas. Deu uma conferência de imprensa para falar da família, acusou os adeptos e jogadores de ingratidão e deixou no ar insinuações sobre os jogadores que andam a tentar sair do clube “há anos” numa óbvia alusão aos capitães Rui Patrício e William de Carvalho, que deram a cara pelo plantel. Jorge Jesus pôs-se do lado dos jogadores e confessou que nunca tinha “passado por uma coisa destas”. Nem nos sonhos mais irrealistas os adversários do Sporting poderiam imaginar um cenário destes.


Lula da Silva, o operário metalúrgico que lutou contra a ditadura no Brasil, foi preso e torturado; tentou e conseguiu ser eleito presidente da República à quarta tentativa; que lutou e conseguiu vencer, ou pelo menos minorar, a pobreza endémica do país, foi preso no fim-de-semana para cumprir a pena de 12 anos a que foi condenado por corrupção. Polícia, Ministério Público e pelo menos dois tribunais confirmaram as suspeitas contra o ex-presidente, que num discurso notável entregou-se às autoridades no meio de uma multidão de apoiantes que se envolveram em confrontos contra manifestantes que festejavam a prisão do herói caído. Se for culpado, é triste. Se estiver inocente é trágico. Os confrontos dos manifestantes são o retrato perfeito de um país a preto e branco, como notou a SIC.

Por isto tudo, prefiro começar com um tema mais pacífico.

Na madrugada de 9 de abril de 1918, faz hoje precisamente cem anos, o Corpo Expedicionário Português, enviado para as trincheiras da 1ª guerra mundial por vontade do Governo de Afonso Costa e do Partido Democrático contra a vontade dos militares e das suas famílias que chegaram a organizar manifestações em Lisboa, era esmagado, desbaratado e chacinado (podia continuar com verbos semelhantes) pelo exército alemão na batalha de La Lys. Na iminência de uma derrota que não demorou muito a concretizar-se, os alemães tentavam um contra-ataque desesperado na Flandres e lançaram a operação Georgette que apanhou os inexperientes, mal preparados e desmoralizados portugueses de frente. Desde as guerras napoleónicas que o exército português não participava numa guerra na Europa, não tinha qualquer experiência de guerra nas trincheiras e o resultado foi desastroso.


A segunda divisão portuguesa, comandada pelo General Gomes da Costa (futuro presidente de Portugal), com cerca de 20 000 homens, perdeu cerca de 300 oficiais e 7 000 homens, mortos, feridos ou presos, ao resistir ao ataque de quatro divisões alemãs, de 50 000 homens, do VI° exército alemão comandado pelo general von Quast.


Pelo menos 400 soldados portugueses morreram e foram sepultados no cemitério militar português em Richebourg, no norte de França. Hoje, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro António Costa, os comandantes do país, estarão em França para homenagear os 400 portugueses vítimas, essencialmente, da estupidez.

Ainda pertenço à geração que foi ensinada (não por todos os professores, justiça seja feita) com uma visão mais ao menos heróica da nossa história: Os portugueses, valentes, foram derrotados por uma força alemã claramente superior em número, mas bateram-se como leões. A verdade é um pouco menos romântica: “Escapuliram-se em tal confusão que impediram as nossas reservas de avançar para enfrentar o inimigo. Alguns até descalçaram as botas para correr mais depressa e outros roubaram bicicletas do Corpo de Ciclistas que tinha sido enviado para aguentar a frente em La Couture e na sua periferia, ”escreveu o general Haking, do exército britânico.

Costa Gomes escreveu que os portugueses resistiram oito horas: “Não podendo vencer, pôde apenas morrer, o que fez, deixando 50% do seu efetivo no campo de batalha”. Para o general, a 2.ª divisão “fez tudo o que dela se podia esperar”. “Forçada a recuar, fê-lo em ordem razoável, salvando-se o grosso da formação graças ao sacrifício de muitos que lutaram até ao último cartucho”. Um soldado citado num novo livro sobre a batalha é claro: "Por aqui sempre fixe, pois o cagaço não me deixa adoecer, o que nesta ocasião estimava bem, que isto por aqui é muito lindo e muito patriótico mas só para quem lá ficou, pois esses figurões, os patriotas, não fazem a menor ideia".

Para trazer alguma luz sobre o assunto (e não falo da chama do monumento ao soldado desconhecido que Marcelo reavivou em Paris) há um livro do historiador Filipe Ribeiro de Menezes “De Lisboa a La Lys”, que não li mas acredito que seja ótimo (Li “Salazar” e fiquei rendido); e ainda o primeiro filme português sobre a primeira guerra mundial, "OSoldado Milhões" de Jorge Paixão da Costa, que estreia a 12 deste mês. A fita conta a história do soldado Milhões, o herói (não é mito dos livros escolares) que enfrentou sozinho as tropas alemãs para cobrir a retirada dos camaradas. O soldado Milhais (era esse o seu nome) andou dias perdido até reencontrar as tropas e foi condecorado com a Ordem da Torre e Espada, o único soldado português a consegui-la. Espero mesmo que o filme seja bom.

OUTRAS NOTÍCIAS

Cem anos depois a barbárie continua: 80 pessoas morreram na Síria depois de um ataque das tropas governamentais de Bashar Al Assad. Forças no terreno acusam as tropas de terem usado armas químicas, uma evolução do gás usado pelos alemães na 1º guerra. Mas o Governo sírio e os seus aliados dizem que se trata de uma “montagem” das forças rebeldes que ainda resistem em Duma. A organização Capacetes Brancos divulgou várias imagens de crianças atingidas no ataque que nos deixam, mais uma vez, sem palavras para descrever uma guerra civil que já dura há sete anos e matou 400 mil pessoas. Donald Trump ameaçou os responsáveis pelo ataque: “Vão pagar caro.”E chamou “animal” a Assad. O Papa Francisco constatou que “nada” justifica um ataque como este e António Guterres, secretário geral da ONU apelou ao “diálogo” porque “só a negociação” pode resolver a guerra.

A notícia está na primeira página do Diário de Notícias, Público, Jornal de Notícias e Correio da Manhã (só é superada pelo Bruno de Carvalhogate): O Governo apresenta hoje o programa “Aldeias Seguras” e “Pessoas Seguras”, uma medida concreta para prevenir e combater os fogos de verão que vai abranger 189 municípios. Vai haver abrigos antifogo, planos de fuga e oficiais de segurança em permanência no terreno que terão a missão de treinar a população e delinear planos de fuga. O DN conta a história de um deles: Silvério Teixeira, ex PSP de 61 anos, oficial de segurança de Vale Florido, onde nunca houve um grande incêndio.

Viktor Orbán venceu as eleições na Hungria com 41% dos votos. É a quarta vez que o primeiro-ministro húngaro vence as eleições neste país com base num programa nacionalista e anti-imigração. Em segundo lugar ficou o partido Lobbik, de extrema direita.

Um jovem de 18 anos morreu num acidente em Nisa quando regressava com os colegas de uma semana de férias em Espanha. Este ano não vai haver piadas sobre viagens de finalistas e a destruição provocada pelo nossos estudantes.

Na Alemanha foram detidos seis homens suspeitos de estarem a planear um atentado para a meia maratona de Berlim. A detenção ocorreu um dia depois de um ataque em Munster que matou duas pessoas e terá sido cometido por um alemão com perturbações mentais e sem qualquer ligação a grupos terroristas. Suicidou-se.

Em Londres há uma vaga de homicídios à facada. Numa hora e meia houve cinco ataques com facas em crimes que parecem estar relacionados com tráfico de droga, gangues de jovens e simples desordens.

Até às sete da manhã de hoje, e em apenas 24 horas, a TAP cancelou 19 voos de médio e longo curso. A companhia justifica os cancelamentos com “razões operacionais” que, na verdade, estão relacionados com o aumento do número de rotas que não foi acompanhado pelo aumento do número de pilotos e de aviões.

O FC Porto venceu o Desportivo das Aves por 2-0 e ficou a um ponto do Benfica. No próximo domingo, às seis, os dois rivais disputam na Luz o jogo do título.

Um mistério realmente preocupante: este ano há mais papoilas violetas do que vermelhas, pelo menos nos parques de Lisboa. Porquê?

Frases, especial Bruno de Carvalhogate

“De 11, em vez de 22, como queria, fomos 9 muitas vezes”

Bruno de Carvalho, depois da derrota contra o Atlético de Madrid marcada por dois erros dos defesas Coates e Mathieu

“Por esta razão, em nome de todo o plantel do SCP, espelhamos neste texto o nosso desagrado, por vir a publico as declarações do nosso Presidente, após o jogo de ontem, no qual obtivemos um resultado que não queríamos a ausência de apoio, neste momento, daquele que deveria ser o nosso líder”

Publicação no instagram assinado por 19 jogadores do Sporting

“Já estou farto de atitudes de miúdos mimados que não respeitam nada nem ninguém”

Post de Bruno de Carvalho a anunciar a suspensão dos jogadores.

“O Presidente chegou à conclusão que a suspensão imposta aos atletas, não teria efeito de castigo mas apenas serviria para ser mais uma desculpa para que não pudessem cumprir as suas funções e as obrigações para que são pagos”

Post de Bruno de Carvalho a cancelar a suspensão dos jogadores

“Bruno C… pede a demissão”

Adeptos do Sporting

“Vão chamar nomes às vossas famílias”

Bruno de Carvalho

“Nunca passei por uma situação destas”

Jorge Jesus, treinador do Sporting

“Estive sempre ao lado dos jogadores”

Jorge Jesus

“Essa pergunta é despropositada. Também podia perguntar: tem condições para ser jornalista da RTP? Eu acho que não”

Bruno de Carvalho para o jornalista que lhe perguntou se vai continuar á frente do Sporting.

O que ando a ver

Mural, Vihls

A nova obra de Vilhs foi inaugurada no final de março numa zona requalificada do Barreiro. Mostra rostos de antigos trabalhadores da União Fabril, máquinas que já não trabalham e multidões de operários. O artista que na verdade se chama Alexandre Farto, tem obras espalhadas pelo mundo inteiro e decidiu fazer a maior a uma distância de 15 minutos de barco de Lisboa.

Handmaid’s Tale, de Bruce Miller

Série americana baseada no livro com o mesmo nome da canadiana Margaret Atwood. Grande vencedora dos Emmys, a série imagina um futuro distópico em que a taxa de fertilidade humana baixou drasticamente e as poucas mulheres que ainda podem ter filhos são aprisionadas numa sociedade religiosa extremista e obrigadas a viver como concubinas de casais inférteis. Grandes papéis de Elisabeth Moss e Joseph Fiennes.

O que ando a ouvir
Floresta Encantada, SBSR


Belíssimo programa de rádio que divulga rock psicadélico dos anos 60 e 70. Desconhecia a quase totalidade das bandas apresentadas por Ana Farinha e Tiago Castro e agradeço a banda sonora dos últimos dias. Para hoje recomendo “Aries, the Fire Fighter”, the Zodiac que pode ouvir enquanto acompanha a atualidade no site do Expresso e na edição de hoje do Diário.

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