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Expresso

A Outra Terra

13 de Março de 2018

No filme “Another Earth” (ou “A Outra Terra”), de Mike Cahill, surge no nosso céu um planeta idêntico à Terra, um planeta espelho do nosso. Esse planeta contém um segredo, que já revelaremos sem estragar o enredo. Mas ontem, num artigo da Astronomical Journal, soubemos que foram identificados 15 planetas fora do sistema solar, dos quais uma “Super Terra” onde poderá existir água e, portanto, vida. É o planeta K2-155d. Imaginemos agora o contrário: que cientistas do planeta K2-155d descobriram a existência da Terra. E que, tentando conhecer-nos, intercetaram o Expresso Curto de hoje:

Planeta K2-155d. Relatório de um dia solar no planeta Terra, a 200 anos-luz.
No Planeta Terra, há um homem que é notícia todos os dias: Donald Trump. Na última rotação da Terra, este homem travou um negócio de 142 mil milhões de dólares, o equivalente a 70% da riqueza gerada num ano num país chamado Portugal. A compra da Qualcomm pela Broadcom, de um país chamado Singapura, foi bloqueada com a justificação de pôr em causa a segurança nacional.

Neste planeta, as grandes empresas pagam cada vez menos impostos. Mas Donald Trump parece ser um homem preocupado com a sua nação, os Estados Unidos, onde dois pacotes-bomba explodiram nas últimas horas na localidade de Austin, provocando um morto e dois feridos.

A verdade é que o senhor Trump está envolvido em polémicas constantes. Na mesma rotação da Terra, uma atriz pornográfica de nome-fantasia Stormy Daniels, que terá sido paga por Trump para se calar sobre um caso que ambos mantiveram, disse estar disposta a devolver os 130 mil dólares que diz ter recebido para pôr fim ao silêncio. (Naquele país, os Estados Unidos, há um próspero negócio de pornografia. Próspero e letal: em três meses morreram cinco atrizes pornográficas. “Os atores e atrizes pornográficos têm de lidar com ataques todos os dias”, diz uma neurocientista e investigadora chamada Nicole Prause.)

Trump é Presidente daquele país, depois de ganhar uma eleição que se suspeita ter sido influenciada por outro país grande, a Rússia. A Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes esteve um ano a investigar e concluiu agora que houve mesmo cidadãos russos que tomaram “medidas ativas” em redes sociais nas eleições de 2016 mas, contrariando a opinião dos serviços secretos, não encontraram provas de conluio dos russos com Trump.

O Presidente deste país, Vladimir Putin, anunciou que a Rússia tem uma nova arma nuclear invencível. E sua intervenção numa região muito sensível do planeta Terra é de tal forma que se diz que “Putin está a tomar conta do Médio Oriente”. Nesta região, há um país em guerra, a Síria, onde morreram 511 mil pessoas em sete anos, incluindo 350 mil civis, dos quais perto de 20 mil são crianças.

O senhor Putin não é amado em muitas regiões. Nesta rotação da Terra, a primeira-ministra de outro grande país, o Reino Unido, fez-lhe um ataque duríssimo. A governante, de nome Theresa May, exigiu informações a Putin sobre um ataque com um gás nervoso chamado Novichok contra um espião, Sergei Skripal. A senhora May disse que é “altamente provável” que Moscovo tenha responsabilidades no ataque, declarando que “a Rússia tem currículo de assassínios patrocinados pelo Estado”.

Theresa May recordou outras atrocidades do regime do senhor Putin, acusou-o de “montar uma campanha continuada de ciberespionagem e perturbação, incluindo ingerência em eleições e pirataria digital contra o Ministério da Defesa dinamarquês e o Parlamento alemão”, e de fomentar conflitos numa zona de outro país, a Ucrânia, e de ter feito a “anexação ilegal” de um Estado, a Crimeia, há quatro translações da Terra, naquela que foi “a primeira vez desde a II Guerra Mundial que uma nação soberana tomou território à força a outro país na Europa”, um continente que atravessa um período invulgarmente longo de paz. O Presidente russo negou o envolvimento no assassinato do espião e um representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo fala em “circo” em Londres.

(É uma linguagem que se usa neste Planeta. Até no desporto. O presidente de um grande clube, o Benfica, que está a ser investigado por um alegado acesso ilegal a um processo com emails, que foram entretanto escondidos pela justiça, também diz que “acabou a paródia”. É estranho, mas este desporto chamado futebol tem jogadores como um senhor André Gomes que deu uma entrevista a dizer que tem vergonha de sair à rua porque é assobiado pelos adeptos. Há pior: o presidente de um clube de um país chamado Grécia, o Paok, entrou em campo com uma pistola e ameaçou o árbitro de morte. Os terráqueos têm uma estranha noção de desporto).

A Rússia vai organizar um campeonato do mundo de futebol daqui a uns meses. Um pivot de uma televisão estatal russa acusou o Reino Unido de ser ele a estar por detrás do assassinato do espião, para gerar um boicote ao mundial.

Qual das notícias é verdadeira? Não se sabe bem. Neste planeta circulam velozmente notícias falsas em redes sociais, o que levou um grupo de especialistas da Comissão Europeia a pedir uma coligação contra as “fake news” e a criar mecanismos de financiamento do jornalismo de qualidade. Nestas redes, o senhor Trump está em todo o lado, como diz um intelectual quase nonagenário chamado Noam Chomsky, que numa entrevista diz que o Presidente americano é “um demagogo e showman consumado que sabe como manter ativa a sua base de adoradores”, afirmando que “as pessoas já não acreditam nos factos”, o que relaciona com “o descrédito das instituições”. “Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. Os média caíram na estratégia traçada por Trump. Todos os dias ele dá-lhes um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro das atenções. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.”

Fim de relatório de hoje. Não é fácil compreender este Planeta Terra. Equipa de K2-155d pede apoio.

Este exercício só tem um fim: ver de forma distanciada alguns acontecimentos quotidianos pode ser esclarecedor sobre a nossa loucura coletiva. Ou enlouquecedor quanto à nossa capacidade de esclarecimento individual.

No filme “Another Earth”, a Outra Terra é uma réplica do nosso planeta da nossa mas tem uma descontinuidade temporal, o que permite viajar para lá viajando também no tempo, para o passado. É, pois, uma possibilidade de nos redimirmos dos nossos erros, evitando aquilo de que arrependemos. Se pudesse voltar ao passado, que erros evitaria, que culpas dissolveria? Talvez uma possibilidade de entendimento esteja noutro filme, “Melancolia” de Lars von Trier, em que um outro planeta irá chocar com a Terra, destruindo-a. Neste filme, os depressivos são os mais calmos ante a tragédia iminente. Os outros, se calmos estivessem, veriam no tempo de vida a escala correta: se soubéssemos que o mundo acabaria amanhã, veríamos num ápice o que e quem é verdadeiramente importante para nós. É um desperdício de vida atermo-nos em menoridades, por graves que pareçam. Melhor é viver pelo grande, pelo bem, pelo que e com quem nos move e comove. Neste planeta.

OUTRAS NOTÍCIAS
Aqui na Terra, há quem promova “uma viagem a Marte, sabendo que terá uma grande vitória chegando à Lua”, como escreve Paulo Baldaia, no DN. Refere-se a Assunção Cristas e à ambição medida ou desmedida (depende dos analistas) no rescaldo do Congresso do CDS, que o Expresso Diário aqui explica: o CDS quer ser popular, deixar de ser visto como o partido “dos quadros e dos ricos”, e assim abrir as suas possibilidades eleitorais. “Cristas está a ocupar o espaço deixado vazio na oposição pelo PSD”, analisa Miguel Sousa Tavares na SIC.

Como? A explicação é dada por Adolfo Mesquita Nunes, convidado desta semana da Comissão Política, podcast do Expresso. O vice-presidente do CDS não se compromete com ver Cristas como primeira-ministra já em 2019, mas explica o crescimento verificado, a ascensão desejada e o percurso pela frente. No final do episódio, revolta-se com as críticas de Estrela Serrano a Nádia Piazza, presidente da Associação de Apoio às Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande que, como independente, vai ajudar o CDS a construir o programa eleitoral. A crítica de Estrela Serrano, que acusa Nádia Piazza de orientação política contra o governo, é, diz Adolfo, “indigna” e “torpe”.

Como vamos de greves? Vamos em 13 este ano, número que vai aumentar com as paralisações já anunciadas por médicos, enfermeiros e professores. Na greve de ontem dos trabalhadores da infraestruturas de Portugal, os comboios sobrelotados nas horas de ponta provocaram caos em Lisboa.

Mais de metade das linhas de comboio está em mau estado, noticia o Público em manchete. Nos últimos quatro anos houve vinte descarrilamentos.

Estamos a dois dias da data limite para os proprietários limparem terrenos. Mas calma, não vai haver caça à multa. Haverá pelo menos um mês e meio de tolerância para quem mostre disponibilidade para ainda cumprir a missão.

A criminalidade nas escolas de Lisboa aumentou 10%, avança o DN em manchete. No ano letivo 2016/17 registaram-se 1797 crimes, entre os quais furtos, roubos, agressões e tráfico de droga.

Há cada vez mais vestígios de droga nos esgotos de Lisboa. Os de Ecstasy aumentaram 40%. João Goulão, presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, relaciona este aumento com o facto de as amostras em Lisboa serem recolhidas na estação de tratamento de águas residuais de Alcântara, que serve a maior zona de diversão noturna de Lisboa, o Bairro Alto.

Marcelo está em visita de Estado à Grécia, acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Hoje tem encontro marcado com Presidente da República Helénica, Prokopios Pavlopoulos, e com o primeiro-ministro, Alexis Tsipras.

Esta semana cumpre-se o quinto aniversário da eleição do cardeal arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, para Papa. A revolução de Francisco é uma “Igreja cada vez mais próxima das pessoas”, explica a Renascença.

A cimeira empresarial entre Portugal e Angola, que estava prevista para 27 de março, como o Expresso adiantara, foi adiada, avança o Negócios. O que assim se adia é uma operação de charme ao mais alto nível para pacificar as relações entre os dois países.

Esta semana, uma equipa do FMI está em Angola a rever projeções macroeconómicas e em diálogo com as autoridades nacionais do setor económico e financeiro.

E por falar em banca: o negócio está quase fechado, escreve o Eco, a Santa Casa e outras IPSS pagam 50 milhões por 2% do Montepio. Confirmando-se, o Montepio tem o inacreditável valor de 2,5 mil milhões de euros. Isto depois de ter fechado 2016 com capitais próprios negativos em 250 milhões… e de receber uma prenda das Finanças, um crédito fiscal de 800 milhões. Pedro Sousa Carvalho, no Eco, é contundente: chama “martelar as contas” a uma engenharia financeira com a ajuda do governo. Está bonito, isto.

Entretanto, as penhoras de contas bancárias ultrapassam mil milhões, contabiliza o Jornal de Notícias.

A Altice vai vender os negócios de voz internacional da PT à Tofane Global. Aliás, vai vender todos os negócios grossistas de voz internacional que detém em Portugal, França e República Dominicana. Tudo para baixar uma dívida à volta de 50 mil milhões de euros. Hoje, a Altice Portugal vai apresentar a estratégia organizacional da sua operação no nosso país.

O Sporting ganhou 2-1 ao Chaves. “Só há amor com Bas Dost”, escreve a Lídia Paralta Gomes na crónica do jogo da Tribuna. Na contra-crónica, Rogério Casanova diz que aquela bola “vai ter um bebé daqui a nove meses”.


FRASES
“Já ninguém neste país aguenta mais políticos a inventar habilitações que não têm e a passearem um penacho académico obtido de forma fraudulenta. Que Rui “Banho de Ética” Rio não tenha percebido isso é apenas mais uma prova de que a nova forma de estar na política que ele prometeu ao país é extremamente parecida com a antiga.” João Miguel Tavares, no Público, sobre o currículo aldrabado de Feliciano Barreiras Duarte.

“O presidente do Benfica, ao sublinhar um aspeto - “não nos conseguem defrontar pela competência e quiseram vencer-nos ao manchar o nosso nome” -, está a arranjar uma cortina de fumo.” Martim Silva, no Expresso Diário.


O QUE EU ANDO A LER
A ler, a ouvir, a ver, porque há (sempre) tanto se encontrarmos por onde nos podemos perder.

Dois livros ainda com tinta fresca, ambos de Natália Correia (1923-1993), editados pela Ponto de Fuga. “Entre a Raiz e a Utopia” é um conjunto de escritos inéditos em livro sobre António Sérgio (1883-1969) e o cooperativismo, que “correspondem a pelo menos doze anos (1946-1958) de uma relação de profunda cumplicidade e de luta pelos ideais universais, vivida entre a poeta e o pensador”, como escreve a investigadora Ângela de Almeida na introdução; “Descobri que Era Europeia” é uma terceira edição, revista e aumentada, que parte de “Impressões Duma Viagem à América”, escritas em três viagens aos Estados Unidos (em 1950, 1978 e 1983). Na primeira, Natália tinha apenas 26 anos e quando mostrou o manuscrito, alguém que o leu fez-lhe notar “um acentuado egocentrismo da primeira à última página”, como relata a própria Natália Correia no prefácio. “É bem possível. Não sei fazer as coisas de outra forma. Sou uma ave que só sabe voa a toda a amplitude do espaço que o seu amor criou. Este livro sou eu.”

O texto sobre a primeira viagem (o principal deste volume) relata uma América de contrastes (ou os contrates da América). “É tão impossível gostar da América como não gostar. Isto traduz-se num sentimento abstrato: o da fascinação.”. Uma fascinação por um país em “puberdade física e mental que convive, no seu âmago, com os fantasmas das coisas irreveladas”, em que os americanos transmitem "a angústia do inacabado”.

Falando em Estados Unidos, mas 2018: “Onde está Barack Obama?”, pergunta Julian E. Zelizer na Atlantic. Autor do livro “A Presidência de Barack Obama” (o livro pode ser encontrado aqui), Zelizer dá voz aos que questionam o silêncio do antigo Presidente, justificando que Trump está a ter uma ação tão radical que merecia que o seu antecessor também rompesse a tradição de líderes de administrações anteriores saírem de cena. O seu silêncio “está apenas a prejudicar o seu partido”.

E já que estamos em entrevistas, passe pela imperdível rubrica semanal “A Casa às Costas”, da Tribuna Expresso. A desta semana é com o antigo jogador Luís Filipe Andrade: “Chamavam-me o pé de chumbo. Tinha ranho no nariz, mordia a língua e ninguém passava por mim, mas não tinha técnica”.

Na música, o Luís Guerra esteve no (maravilhoso) concerto dos Slowdive em Lisboa na semana passada e explica aqui como reconciliou 2018 com 1993. (falando em regressos, leia também como a baixista ex-Pixies Kim Deal estará em Portugal com as Breeders: noutras vezes que cá esteve, achou deprimente ser assobiada na rua). No Porto, hoje há concerto de Yann Tiersen no Coliseu, às 21:30. Em Lisboa, prossegue o Cumplicidades, Festival Internacional de Dança Contemporânea.

Quer fechar em beleza? Então veja esta reportagem multimédia do Expresso, acabadinha de publicar: “Não caias em tentação”.

Daqui do Planeta Terra, por agora é tudo. Tenha um excelente dia.

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