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Martim Silva Diretor-Executivo

Adolfo assume que é gay (os meus destaques do Expresso)

10 de Fevereiro de 2018

Bom dia,
Começo esta newsletter com um ensaio e cinco entrevistas publicadas na edição desta semana do jornal. O ensaio é do Henrique Raposo e é um perfil político e intelectual de um dos mais mordazes e ácidos cronistas portugueses das últimas décadas: Vasco Pulido Valente.

Além disso, temos entrevistas relevantes com o secretário de Estado do Emprego; com o antigo homem forte da Jerónimo Martins, Alexandre Soares dos Santos (que continua polémico como sempre); com Santana Lopes, agora que faltam poucos dias para o congresso do PSD; com Gonçalo Reis, presidente da RTP; e, finalmente, a entrevista com o vice-presidente do CDS Adolfo Mesquita Nunes. Este promissor político assume, na conversa com o Filipe Santos Costa, de forma natural e, acrescento, corajosa, a sua homossexualidade. Isto não devia ser notícia. Mas ainda é notícia no país que temos, e para mais tratando-se de uma figura de topo de um partido conservador em Portugal. Há uns meses fora Graça Fonseca, do PS, a fazer o seu coming out. Agora é Adolfo Mesquita Nunes. Um destes dias isto deixará de ser notícia. Já falta pouco...

Eis os meus destaques:

Adolfo Mesquita Nunes: “Acredito no mundo global e vivo muito bem nele”
Aos 40 anos, Adolfo Mesquita Nunes é vice-presidente do CDS e um dos rostos da renovação do partido. Foi deputado e secretário de Estado do Turismo, depois voltou à advocacia, agora é vereador na Covilhã, a cidade onde cresceu, apesar de ter nascido em Lisboa. Quando os pais se separaram, a mãe regressou à capital e Adolfo escolheu a serra e a casa dos avós paternos. Fez-se covilhanense, depois mudou-se para Lisboa, mas a morte do avô levou-o de volta ao lugar da sua infância e juventude. (...)
Foi na Covilhã que falou com o Expresso, na sua primeira entrevista de vida. Antes de pormos o pé na neve da serra da Estrela, percorremos as ruas da cidade, partindo do centro, assinalado pela Câmara Municipal, onde agora Adolfo tem reuniões a cada duas semanas para apresentar propostas que nunca vão a votos. (...)
Descemos para fazer uma fotografia ao pé da carcaça desbotada e abandonada da fábrica que foi da família. “As pessoas passam por estas fábricas e só veem o que cá está, o passado, as falências, a miséria. Não têm o distanciamento suficiente para ver o que isto podia ser, o potencial que tem para ser outra coisa.” Ele acredita que tem. Seja porque cresceu com horizontes além da serra, nas visitas frequentes a Lisboa, seja porque se mudou para a capital aos 17 anos e aí descobriu que havia mais mundo pelo mundo fora. Talvez por isso se assume multiculturalista num mundo global onde o primeiro valor é a liberdade. Entrevista com um político que não tem medo do rótulo de liberal, não esconde que é homossexual e se assume fanático pelo Festival da Eurovisão.


“Aqui, chamam-me mentiroso. Lá fora, não sou insultado”
Aos 83 anos, Alexandre Soares do Santos vai afastar-se de todos os órgãos de gestão do grupo Jerónimo Martins e da empresa que o controla (com 56,1% do capital), a Sociedade Francisco Manuel dos Santos. O empresário conta que inicialmente não gostou da atual solução governativa que levou o PCP e o Bloco de Esquerda a apoiarem o PS, mas elogia a estabilidade alcançada e o facto de quer António Costa quer Marcelo Rebelo de Sousa serem pessoas de consenso — algo que poderia ajudar a firmar um contrato a 10 anos para reformar Portugal.


Governo admite baixar a TSU para contratos permanentes
Com as medidas para combater a segmentação no mercado de trabalho no centro da agenda, Miguel Cabrita, secretário de Estado do Emprego, diz que a diferenciação das contribuições para a Segurança Social “é melhor atingida quando acontece nos dois sentidos”, ou seja, agravando a TSU para os contratos a termo e reduzindo para os contratos permanentes. Em entrevista ao Expresso, revela que o Governo “não tem como fechada nenhuma das possibilidades” e afasta uma reversão da legislação laboral ou a redução da proteção dos contratos permanentes.

“Nuno Artur Silva não criou condições para se manter”
Na primeira entrevista após ter sido convidado para cumprir um novo mandato na presidência da RTP, Gonçalo Reis aborda a polémica em torno da não recondução de Nuno Artur Silva. Assume que este “não criou as condições objetivas para resolver de maneira absolutamente transparente o potencial conflito de interesses”, identificado pelo Conselho Geral Independente (CGI), mas acredita que a escolha de Hugo Figueiredo permitirá manter a estratégia “diferenciadora e de qualidade”, que recusa a “busca sôfrega por audiência”.

Um retrato de Vasco Pulido Valente, por Henrique Raposo
Vasco Correia Guedes ainda nasceu no século XIX. O calendário cronológico marcava novembro de 1941, mas o calendário moral e social de Portugal ainda estava em Oitocentos. Portugal era uma máquina do tempo, uma ficção reacionária conhecida por “salazarismo”. Era este oitocentismo que dava a Portugal aquele ambiente exótico que impressionava os visitantes anglo-saxónicos. E repare-se que o exotismo do atraso era mais moral do que material. Na Lisboa de 1954, aquilo que mais impressionou a escritora Mary McCarthy não foi a pobreza material, os pés descalços e o rosto tisnado do marçano, mas sim as relações sociais marcadas por um snobismo que parecia de facto congelado no século XIX e imune à americanização e à democratização das sociedades europeias. O que espantava americanos, ingleses e até espanhóis era a brutal distância entre os senhores doutores e o povo. Era como se os senhores portugueses não fossem de facto portugueses, mas estrangeiros destacados para esta terra estranha e bárbara e com a incumbência de colonizar e educar estes pobres indígenas conhecidos por “portugueses”.

“Há legitimidade para discordar e não renuncio a ela”
Na primeira entrevista depois das diretas que elegeram Rui Rio, Santana Lopes vinca a divergência em relação à estratégia que chama de “subalternização face ao PS”. Numa conversa no escritório de advocacia onde voltou a estar “em full-time”, Santana considera a opção de Rio “errada” e com “grande risco”, acha importante que o novo líder clarifique exatamente até onde quer ir na aproximação ao PS e garante que não irá abdicar da sua “legitimidade para discordar”.


Além destes temas, temos reportagens sobre a situação dos sem-abrigo em Portugal; fomos ver o que se passa com a poluição no Tejo; revelamos como o Tribunal Constitucional se prepara para chumbar a lei das barrigas de aluguer. E contamos como a justiça portuguesa anda a investigar a alegada existência de uma toupeira do Benfica infiltrada no Campus da Justiça.

Está a ver o senhor na foto aqui em baixo? É Francisco Louçã, fundador e ex-líder do Bloco de Esquerda e um dos mais conceituados e respeitados economistas da nossa praça. Pois Louçã, a partir da próxima semana, passa a reforçar a equipa do Expresso. Vai ser colunista do nosso jornal, com uma crónica semanal no caderno de Economia. Mais um bom motivo para ler o nosso semanário. O seu semanário

Bom fim de semana

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