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Expresso

Martim Silva Diretor-Executivo

Revolta militar. Ramalho Eanes. Justiça. Google. E o burlão de Belém (os meus destaques do Expresso)

3 de Fevereiro de 2018

Bom dia,
As minhas escolhas de textos e trabalhos desta semana incluem o nosso especial sobre os rankings das escolas, uma grande entrevista a Ramalho Eanes, o general que foi o primeiro Presidente da República eleito depois do 25 de Abril, a polémica e muito dura posição assumida pelos quatros chefes do Estado Maior contra o Governo. E ainda trabalhos de fundo sobre dois dos temas mais fortes dos últimos dias: a Operação Lex, que envolve Rui Rangel e Luís Filipe Vieira, entre outros, e a vinda para Portugal da mega-uber-super empresa Google.

OPERAÇÃO LEX
Juiz recebia subornos mas enganava corruptores

Uma fonte judicial que participou nas buscas desta terça-feira da ‘Operação Lex’ — que fez até ao momento 13 arguidos, entre eles Rangel, a desembargadora Fátima Galante (sua ex-mulher), o presidente do Benfica, Luís Filipe Viera, o seu vice, Fernando Tavares, bem como três advogados e um oficial de justiça da Relação — garante que o juiz fazia promessas que não podia nem pretendia cumprir para apressar ou influenciar processos, muitos deles em tribunais fora da sua esfera de influência. O que não invalidava que recebesse dinheiro, entre 300 a 400 mil euros. “Suspeitamos que fazia aquilo a que se chama venda da banha da cobra”, diz esta fonte ao Expresso, que garante não haver qualquer “rede de influências” no seio da magistratura a soldo do desembargador. Rangel e Galante foram suspensos pelo Conselho Superior da Magistratura.


(Des)construir Rui Rio
Poucos dias após a edição de um novo disco de Sérgio Godinho, apetece recuar uns anos e recuperar uma das suas canções míticas para perguntar se pode alguém ser quem não é. Há personagens políticas com todo um percurso ancorado num conjunto de ideias manipuladas até à exaustão, destinadas a fabricar uma imagem, umas vezes próxima, outras distantes da realidade. Rui Rio não escapa a esta dicotomia. Jogou sempre na ambiguidade. Alimentou os claros-escuros. Deixou escapar versões contraditórias sobre atitudes e comportamentos. Chega à presidência do PSD com um enorme lastro de dúvidas a propósito de um modo de ser e estar tido como conflituoso, pouco sociável e distante da vivência quotidiana do cidadão da rua. É um misantropo ou apenas um tímido com dificuldade em gerir o relacionamento social? Quando apresenta como principal cartão de visita o rigor nas contas, qual é o grau de adesão à realidade? Sob a capa de desprendimento do poder esconde-se, ou não, um homem ambicioso com tendência para o populismo a roçar a demagogia? É, como se diz, um forreta e um político imune aos interesses instalados? O modo como se relaciona com a comunicação social aponta para tiques autocráticos ou é apenas uma forma de rejeição do que considera ser a excessiva proximidade entre políticos e jornalistas?

Burlão faz-se passar por assessor de Marcelo
Há um burlão em ação em nome da Presidência da República. Ao que o Expresso apurou, trata-se de alguém que há um ano usa o nome de um membro da equipa de Marcelo Rebelo de Sousa, concretamente da sua Casa Civil, para tentar contactos em empresas e instituições e para pedir dinheiro para alegados apoios sociais. A Casa Civil da Presidência está há um ano à espera de uma decisão do Ministério Público (MP), a quem apresentou queixa mal o problema foi diagnosticado. O MP, entretanto, já fez saber que abriu uma investigação, que está a decorrer e se encontra em segredo de justiça.

Chefes das Forças Armadas protestam junto de ministro
Os quatro chefes das Forças Armadas portuguesas fizeram um protesto formal ao ministro da Defesa por considerarem insuficiente o aumento de 200 efetivos estabelecido para este ano pelo poder político. Em tom de aviso, alertam para o facto de aquele limite, além de não suprir as carências verificadas nas Forças Armadas, poder pôr em causa algumas missões e configurar um tratamento “de iniquidade” das FA, relativamente às outras forças de segurança.

Google coloca Governo sob pressão
O investimento da Google em Portugal pode vir a ser maior do que aquele que foi anunciado por António Costa em Davos e que prevê a criação de 535 postos de trabalho. Mas isso depende, entre outras coisas, da posição portuguesa na Europa face às novas regras sobre direitos de autor. O centro de serviços da tecnológica norte-americana que vai nascer em Oeiras poderá acolher quase 2 mil trabalhadores — como, aliás, assim parece indicar a ocupação dos 7 mil metros quadrados, distribuídos por quatro pisos do Lagoas Park. Contudo, esse cenário de ampliação do investimento estará dependente de algumas variáveis.
A começar pela posição do Governo português face à diretiva europeia que regula os direitos de autor no mercado único digital e que é lesiva dos interesses de plataformas digitais de partilha de conteúdos — como o YouTube (propriedade da Google), o serviço Google Plus ou o Facebook —, que podem vir a ter de pagar pela divulgação dos mesmos. Até aqui, estas plataformas têm amealhado milhares de milhões de euros em publicidade que não são repartidos com os detentores de direitos.

Rankings 2017. Qual a melhor escola? Quais as piores? E a sua escola está melhor classificada que a minha?
Durante semanas, a Isabel Leiria, a Joana Bastos e a Raquel Albuquerque, com a ajuda da Isabel Paulo e do departamento de infografia do Expresso, sem contar com os informáticos, andaram a trabalhar e estudar os rankings das escolas nacionais do básico e secundário. Estes foram revelados esta madrugada. E na edição de hoje do Expresso apresentamos um suplemento especial, destacável, de oito páginas, com textos, análises, reportagens e entrevistas que ajudam a perceber não só quais as melhores e piors escolas, como as razões dessas classificações. Os rankings este ano contam ainda com a novidade da inclusão pela primeira vez das escolas profissionais. E o suplemento temos ainda uma entrevista ao ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues.

Aqui pode consultar também a tabela completa das escolas e verificar em que lugar ficou aquela em que andou a estudar.

Hora agora de destacar dois dos grandes temas da Revista esta semana. Um deles faz a capa do jornal, o outro podia perfeitamente ocupar esse espaço também.

Ramalho Eanes: “Não há inevitabilidades, quem escreve 
o futuro 
são os povos”
D o homem público sabemos sempre mais o que é do que quem é. E se sabemos o que António Ramalho Eanes é, isso é também porque ele próprio não só não contesta as máscaras coladas pela sua ação política como também porque promove uma imagem institucional, que assume com gravidade no segundo em que o gravador é ligado — e desarma mal ele é desligado, para nos falar dos netos ou contar (muitas) histórias. No final da entrevista, há de acompanhar-nos à saída do prédio onde tem o seu gabinete, em Lisboa, ficando a acenar da porta. Foi Presidente da República logo a seguir ao 25 de Abril (de 1976 a 1986), ou melhor, logo a seguir ao 25 de Novembro, a que ficou indelevelmente ligado. Quando tomou posse, tinha apenas 41 anos. Fez na semana passada 83.

"Quando olho para o espelho, além de verificar que estou velho, entendo que estou em paz comigo mesmo. Posso ter cometido erros mas entendo que os cometi quase sempre com bom propósito, boa intenção, com uma correção ética preocupada”

Brasil, um futuro no pretérito
A 
oito meses da eleição presidencial, as atenções do mundo político brasileiro estão mais voltadas para os tribunais do que para os palcos tradicionais de conversas e disputas partidárias. Ao condenar por lavagem de dinheiro e corrupção passiva o candidato à Presidência da República apontado como favorito pelas sondagens — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) impediu a sua candidatura e embolou um tabuleiro que ainda levará muitas semanas para ganhar uma configuração definitiva.
Julgamentos de recursos que serão encaminhados para o próprio TRF-4 e para instâncias superiores da Justiça vão definir se Lula poderá ser candidato. A indefinição complica ainda mais um cenário que abriga 35 partidos — a grande maioria sem qualquer viabilidade ideológica — e que tem entre os atores principais mais de uma centena de políticos indiciados ou processados por corrupção.
Ao comentar a condenação de Lula a 12 anos e um mês de prisão, o sociólogo e ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) comentou: “O jogo começa agora”. Para continuar na metáfora futebolística, o mais provável é que tenhamos uma partida longa, violenta, cheia de interrupções, pontuada por protestos do público contra marcações da arbitragem. Um jogo pesado, que poderá terminar no ‘Tapetão’ — a gíria deriva dos tapetes que costumam cobrir o piso dos tribunais desportivos, locais frequentados por equipas que, derrotadas em campo, tentam um último recurso.



Finalmente, não esqueça que o Expresso continua esta semana a distribuir em livro um conjunto de textos inéditos de vários autores portugueses. Hoje temos duas mulheres talentosas, de duas gerações diferentes: Maria Teresa Horta e Patrícia Reis.

Boas leituras, motivos não faltam.

Bom fim de semana

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