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João Vieira Pereira Diretor-Adjunto

Pim Pam Pum… não escapa um

31 de Janeiro de 2018

Bom dia. Bem vindo a mais um Expresso Curto, este com uma novidade guardada mais lá para o final, pela mão de Henrique Raposo. Mas vamos às notícias.

Pode ter sido coincidência que o Governo, através da ministra da Justiça, tenha colocado na agenda, em janeiro, a substituição da Procuradora-Geral da República (PGR), o que só deverá acontecer em outubro deste ano. Ou descuido que António Costa tenha saído em defesa de Francisca Van Dunem na não recondução de Joana Marques Vidal. Pode ter sido por acaso que o tema tenha levado a um choque entre Belém e S. Bento, com Marcelo a defender publicamente o trabalho da PGR. Pode ter sido azar que tudo isto tenha sido feito antes do encontro entre António Costa e o presidente de Angola, país que critica fortemente a Justiça portuguesa por causa do caso Manuel Vicente.

E, agora sem ironia, de certeza que foi mesmo má sorte tudo isto ter acontecido nas vésperas de Mário Centeno ter sido envolvido numa investigação por causa de um pedido, muito parvo, de uns bilhetes para ir à bola, e um outro pedido de isenção de IMI para uns negócios ‘do filho’ do presidente do Benfica. Caso que já levou o Partido Popular Europeu a pedir uma discussão das ‘alegações contra o presidente do Eurogrupo’, para decidir se leva o assunto ao plenário da próxima semana em Estrasburgo. PS, PSD e PCP estão contra.

Se dúvida houvesse que a Procuradoria-Geral da República, pela mão da atual detentora do cargo, tem atuado independentemente de qualquer poder, essa ficaria sanada apenas pelo que aconteceu nos últimos dias. Não só a investigação a Mário Centeno, mas também a capacidade de enfrentar todos os outros poderes, os económicos, os judiciais e até o maior de todos, o do futebol. Pim Pam Pum… não escapa um!

Ontem o Benfica voltou a cair nas malhas da Justiça. E não caiu sozinho. Rui Rangel, juiz desembargador, que foi candidato à presidência do Benfica, é suspeito da prática dos crimes de tráfico de influências, branqueamento e fraude fiscal qualificada. Luís Filipe Vieira é arguido no caso, indiciado por tráfico de influências. No mesmo processo foi constituída também arguida a juíza desembargadora Fátima Galante, ainda casada com Rui Rangel.

A operação originou 33 buscas e foram detidas cinco pessoas: o advogado Santos Martins, o seu filho, um oficial de justiça, um outro advogado e a mãe de uma filha de Rangel, Rita Figueira.

Pode ler toda a informação sobre o caso aqui.

A notícia marca os jornais do dia. O Público escreve que ‘Rangel é suspeito de ter vendido decisões judiciais’. O JN diz que ‘Vieira foi apanhado na rede de juiz’. O Correio da Manhã também faz manchete com o caso: “Vieira paga cunha com tachos no Benfica” acusa o jornal, que adianta que escutas revelam que o presidente do Benfica pediu a intervenção de Rui Rangel num processo fiscal do seu filho. Só o DN não faz manchete com o caso.

Entretanto o Ministério Público (MP) também acusou dois secretários de Estado, do último Governo de José Sócrates, do crime de peculato por terem utilizado cartões de crédito atribuídos para fins públicos em benefício próprio. Em causa está o comportamento de José Magalhães e José Conde Rodrigues.

Agora Trump.

Naquela noite, pouco depois das oito, quando o impensável – que Trump poderia mesmo ganhar – estava quase confirmado, Don Jr. disse a um amigo que o seu pai, ou DJT, como lhe chama, parecia ter visto um fantasma. Melania, a quem Trump garantiu não ganhar, estava lavada em lágrimas – e não eram de alegria.

Houve, como notou um divertido Steve Bannon, num espaço de pouco mais de uma hora, uma transformação: de um Trump confuso para um Trump incrédulo e por fim para um Trump horrorizado. Mas ainda estaria para vir a transformação final: de repente, Donald Trump transformou-se no homem que acreditava merecer ser, e que era mais do que capaz de ser, o presidente dos Estados Unidos.


Este excerto (numa tradução livre) de ‘Fire and Fury’, — um livro obrigatório — é um dos meus preferidos. Resume a presidência de Trump: algo que não era suposto acontecer e que se transformou em algo para o qual ele pensa que estava predestinado.

E foi este Trump, triunfante e espantosamente conciliador, que falou ao Congresso no seu primeiro discurso do Estado da União. Para trás ficaram as posições radicais e nacionalistas e os ataques políticos. Em vez disso, pediu que “as diferenças fossem colocadas de lado” na procura de “entendimentos” e “unidade”. Foi neste mesmo tom que também pediu o apoio dos democratas às políticas de imigração e uma união em torno da plano de infraestruturas.

De fora ficaram os temas polémicos, nomeadamente o dossier russo. A Joana Azevedo Viana dá-lhe todos os pormenores.

Há novo documento na posse do FBI sobre as alegadas ligações de Trump à Rússia e como este país terá influenciado as eleições de 2016. O The Guardian conta-lhe tudo.

E já agora, mesmo que não goste de golfe, não deixe de se divertir com a revelação de que Trump é um batoteiro nato. Naquele desporto e não só.

OUTRAS NOTÍCIAS
Foi a estocada final em mais um grupo têxtil português. Os credores da Ricon aprovaram por unanimidade a sua liquidação. No entanto, pode ainda haver esperança para algumas empresas do grupo.

Quase todas as ambulâncias das seis associações humanitárias de bombeiros de Lisboa, cerca de 100, estiveram paradas porque a Câmara Municipal de Lisboa não pagou os seguros das mesmas como tinha prometido. Câmara promete resolver problema hoje.

As crises nos jornais são cíclicas e os leitores nem sempre conhecem as estratégias de cada título para ter receitas próprias. Há precisamente 100 anos, imprimiam-se 300 mil jornais por dia em Lisboa, e um diário da capital montou um serviço de recompra para fidelizar leitores, quando duplicou o preço de capa para fazer face à escalada do preço do papel que a I Guerra Mundial originou. Uma viagem de Manuela Goucha Soares pelo mundo dos jornais.

Francisco Pinto Balsemão, fundador do Expresso e principal acionista da Impresa, vai publicar as suas memórias. O livro tem publicação prevista para este ano.

O Porto empatou em casa do Moreirense. Para a história fica a entrevista rápida ao guarda redes de Moreira de Cónegos que pensava que tinha perdido o jogo. Hilariante.

Na Catalunha não houve investidura do Governo. A sessão do Parlamento não se realizou e horas depois Puigdemont falou através das redes sociais: “não há outro candidato possível”. Tudo adiado em Barcelona.

A Time inclui Puigdemont na lista dos cinco fugitivos geopolíticos mais procurados. Ao seu lado estão Fethullah Gulen, Julian Assange, Ramush Haradinaj e Mikheil Saakashvili.

Theresa May inicia amanhã uma visita de três dias à China e leva um recado no bolso, “joguem de acordo com as regras”.

A Volkswagen suspendeu um dos seus executivos de topo depois de ter sido revelada que a empresa fez testes com humanos e macacos para provar que não existia relação entre as emissões dos carros a diesel e doenças respiratórias.

A Amazon, Buffet e a JP Morgan vão juntar-se para tentar reduzir os custos médicos de centenas de milhares dos seus trabalhadores. Do acordo sairá uma nova empresa tecnológica focada em encontrar soluções médicas.

Sobre tendências de negócios não perca a história de como o pupilo ultrapassa o professor, ou como o CEO da gigante AT&T fez Carlos Slim sair do topo da lista dos mais ricos do mundo.

A Apple vai reduzir para metade a produção do novo iPhone X devido a uma procura menor do que a esperada.

E em Silicon Valley há uma nova corrida nos veículos autónomos. Desta vez, as entregas de encomendas sem condutor são a nova estrela.

Como os mercados são um pouco maníacos, agora está tudo a vender. Depois de terem sido as obrigações, os investidores resolveram começar a vender ações. O mais rápido possível e por todo o mundo.

A Blackstone anunciou que vai comprar a Thomson Reuters e o seu negócio de terminais de dados por 17,3 mil milhões de dólares.

Na Cidade do Cabo há água para três meses. A seca ameaça a população e o Governo já avisou que em abril poderá chegar o “dia zero”, aquele em que as torneiras só deixarão sair ar.

No Irão, duas mulheres deram o tiro de partida ao retirarem o véu em público, num protesto contra as regras severas de vestuário impostas pelos líderes religiosos. Muitas mais seguiram o exemplo.

Puck tinha desaparecido dos écrans quando a série Glee chegou ao fim. Agora foi Mark Salling, o ator que encarnava a personagem, a desaparecer. Mark, que enfrentava uma pena de prisão que podia chegar aos sete anos por posse de pornografia infantil, apareceu morto em Los Angeles.

Todos os dias 11 mulheres irlandesas viajam até Inglaterra, ou País de Gales, para fazerem um aborto. O número foi divulgado depois de ter sido marcado, para maio, um referendo na Irlanda para abolir a ‘eight amendment” e permitir a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
Negócios da China
- 60% do investimento angariado pelo programa dos vistos gold teve origem na China.

Desemprego em queda - A taxa de desemprego recuou 0,3 pontos percentuais, para 7,8%. O número de desempregados em dezembro ascendia a 401,5 mil pessoas. Há um ano era de 521 mil desempregados.

Governar pelo exemplo - George Weah, recém-eleito presidente da Libéria, decidiu cortar em 25% o seu salário e benefícios devido à situação económica do país. “A nossa economia está falida. O nosso Governo está falido. A nossa moeda numa queda livre. A inflação a subir. O desemprego nunca foi tão alto e as nossas reservas estrangeiras nunca foram tão poucas”, sublinhou.

Queda vertiginosa - €10,2 milhões foram os lucros do BPI no ano passado. O que contrasta com os €313,2 milhões de 2016. A queda foi justificada pelo programa de saídas voluntárias (saíram quase 600 trabalhadores no ano passado), pela venda de 2% e desconsolidação do Banco Fomento de Angola e os impactos extraordinários da atividade em Angola no último trimestre de 2017.

Hip hip hooray- 2,5% foi o crescimento da zona euro em 2017. O Eurostat deu a boa nova, o PIB fechou o quarto trimestre com um crescimento homólogo de 2,7% e um anual de 2,5%, o mais elevado desde 2007.

O QUE ELE ANDA A LER
Confesso que se torna impossível escrever “o que eu ando a ler” sem deturpar um pouco a verdade. Às vezes esta mini-rubrica devia chamar-se o que eu gostaria de andar a ler. Por isso resolvi pedir ajuda. Sugestões sobre o que outros andam a ler.

A primeira ‘vítima’ foi Henrique Raposo. Aqui fica:

“Ando a ler “Poemas Escolhidos” de T. S. Eliot, numa edição nova da Relógio D´Água. Por vezes, Eliot parece o homem que sabe que deve ter fé em Deus por oposição ao homem que acredita de facto em Deus. Seja como for, continua a ser um dos autores fundamentais para quem procura ver a modernidade através de um olhar cristão. Eliot mostra que o cristianismo é ao mesmo tempo um projeto ético e estético; as duas dimensões não se separam.

No romance, vou a meio da saga de Elena Ferrante “A Amiga Genial”, também da Relógio D'Água. Até agora, é um retrato notável, cru e violento da pobreza. Não há aqui falsas piedades neorrealistas: a pobreza não salva ninguém, ninguém é puro por ser pobre. Ferrante mostra como a pobreza cria uma cultura de violência que se torna numa identidade, um ethos que impede a libertação ou ascensão de quem é dali, um vórtice que puxa para baixo e que abole quase sempre a própria liberdade: o livre arbítrio está ativo, mas o perímetro da liberdade de escolha não existe. São notáveis e comoventes as páginas que relatam o primeiro contacto de Lenù com a burguesia da cidade.”

Este Expresso Curto termina aqui. Tenha uma ótima quarta-feira.

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