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Assim como quem não quer a coisa (mas quer a coisa…)

11 de Janeiro de 2018

Assim como não quer a coisa (mas quer a coisa…), Miguel Relvas diz em entrevista ao Público e à Renascença que “vamos ter um líder para dois anos”. Vamos, isto é, vai o PSD. “Se não ganhar, será posto em causa”. Ainda nenhum ganhou e já há no partido quem fale do que acontecerá quando o vencedor de agora perder depois. Não é só Relvas.

Antes de ganhar ou não “daqui a dois anos”, nas legislativas de 2019, é preciso ganhar o partido na eleição de sábado. A frase de Relvas representa muitos dos que, no PSD, pensam que o próximo líder é de transição, escolhido para perder contra António Costa, abrindo então caminho para a disputa seguinte. Para essa putativa sucessão, não faltam candidatos a candidatos: os que não avançaram agora.

Agora avançaram Rui Rio e Pedro Santana Lopes, que ontem à noite realizaram o segundo debate e esta manhã se encontram no terceiro e final. O debate de ontem foi diferente do primeiro, até porque começou por falar muito… do primeiro. Mas, como no primeiro, houve muito passado e pouco futuro; muitas provocações e recortes de jornais, desta vez dos dois lados. O Expresso Diário tinha dado uma ajuda, com uma seleção de recortes antigos de jornais que um e outro poderiam usar. Usaram.

O relato do debate está neste texto do Expresso, com um título de final elucidativo: “Diz um: ‘O vento mudou e ele voltou’. Diz o outro: ‘Contigo temos de pôr tradução simultânea’. Foi isto”. Rio “defende que o PSD se aproxime de Costa para afastar o BE e o PCP do poder”, Santana “diz que não há acordo possível com este PS”; Rio recusou comentar a polémica sobre a PGR e falou da “corte”; Santana garantiu que reconduziria Joana Marques Vidal.

Uma das acusações frequentes feitas aos candidatos é de que são velhos (na antiguidade partidária), mas os debates têm tido (muitos) momentos de crianças. Ontem, criança pareceu Santana, interrompendo Rui Rio sucessivamente. Se o primeiro debate foi um combate de boxe em que Santana encostou Rio às cordas, no de ontem Santana fez como os pugilistas que abraçam o adversário durante todo o combate para não o deixar lutar: não o deixou falar. Foi impossível ouvir uma ideia completa a Rio. Talvez seja por isso que desta vez se fala em empate. Um empate pela neutralização. Só por isso, um juiz poderia dar a vitória a Rio. Não deixar falar é só… não deixar falar.

Se Rio é um Dupont, quem é o Dupond? O jogo de palavras tem sido usado desde o princípio da campanha, para dizer que Rio e Santana não se distinguem, pela falta de ideias novas ou diferentes. Rio ajudou quando disse que o que os distingue é sobretudo “o estilo e a personalidade” (escolhendo uma palavra neutra e outra venenosa). Santana demarcou-se dizendo que o Dupond não é ele, mas António Costa, colando o adversário ao líder do PS. Mas, quando se olha para o programa e para as ideias políticas, talvez a comparação seja outra, como notava o Filipe Santos Costa no episódio desta semana do nosso podcast Comissão Política: o Dupond do Dupont Rui Rio é Passos Coelho.

Entre comentários sobre a corte, os cortes de comentários e os recortes comentados, pouco de novo se ouviu. A campanha tem sido pobre e o último debate é esta manhã, na rádio, nas antenas da Antena 1 e da TSF. Como escreve Manuel Carvalho no Público, “O pesadelo do PSD está quase a chegar ao fim”.

OUTRAS NOTÍCIAS
Marcelo Rebelo de Sousa só fala sobre a PGR em outubro. Foi a forma de o Presidente da República não alimentar a polémica sobre a sucessão ou não de Joana Marques Vidal, precipitada por declarações da ministra da Justiça. Segundo a SIC, Marcelo não gostou de ouvir Francisca Van Dunen. “O mandato longo e único do PGR não está na Constituição. Mas devia estar”, escreve Daniel Oliveira no Expresso Diário. João Miguel Tavares discorda: “Portugal precisa que Joana Marques Vidal continue até 2024”, escreve no Público, “doze anos de magistrados livres para investigar a corrupção que há décadas sufoca o país não é muito — é muito pouco.” O PS votou em 1997 contra mandato único dos procuradores-gerais da República, recorda a Angela Silva no Expresso Diário.

Mas “Marcelo está mais preocupado com Angola do que com decisão sobre a PGR”, noticia o Público em manchete. É o caso do julgamento que pretende sentar Manuel Vicente no banco dos réus, e que se inicia daqui a menos de duas semanas. O Presidente de Angola, João Lourenço, já disse que considera este julgamento “uma ofensa”, solicitando que o ex-vice-presidente do país, Manuel Vicente, seja julgado no seu país e não em Portugal. Mas Costa e Marcelo estão de mãos atadas, escreve ainda o diário. Na entrevista já citada, Miguel Relvas coloca-se do lado de João Lourenço: a Justiça portuguesa, diz, tem “visão neocolonial sobre Angola”.

João Lourenço exonerou Filomeno dos Santos do Fundo Soberano de Angola. Era o último dos filhos do ex-Presidente José Eduardo dos Santos que ainda tinha importantes responsabilidades na hierarquia do país.

A comissão parlamentar que analisou as alterações à lei de financiamento dos partidos não tem dúvidas: cumpriu as regras e agiu com “lisura completa”. Afinal, a culpa foi dos líderes, escreve a Rosa Pedroso Lima no Expresso.

O ministro da Saúde reiterou no Parlamento que o aniversário do SNS é “oportunidade histórica” para lançar nova lei de bases da Saúde. Adalberto Campos Fernandes referiu-se ainda às fotografias que circulam nas redes sociais, tiradas em vários hospitais, que mostram doentes internados em quartos cheios de macas e em aparentes más condições. “Estamos a entrar no domínio de um ambiente que não é próprio da democracia. Não são precisas câmaras ocultas”, disse.

A ADSE propõe pagar menos a privados da saúde, diz o Negócios. O alargamento do sistema pode beneficiar mais de 100 mil pessoas.

Concurso para médicos recém-especialistas será aberto nos próximos dias.

O Parlamento debate hoje propostas, do BE e do PAN, para a legalização do consumo de canábis para fins medicinais. As propostas estão em risco de chumbar, analisa o Diário de Notícias, com os votos contra do PCP, PSD e CDS. A Ordem dos Médicos aceita prescrição de canábis como medicamento e não em forma fumada, escreve o Observador. “A canábis de hoje não tem nada a ver com a canábis dos hippies”, explica o médico João Goulão na SIC.

O secretário de Estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, desdisse-se e garante ontem no Parlamento que não sugeriu um perdão de multas a empresas como a Uber e a Cabify. Os partidos fizeram saber que a legislação que enquadra estas empresas deverá estar aprovada no próximo mês.

O Provedor da Santa Casa quer o negócio com Montepio fechado no início deste ano, como afirmou ontem no Parlamento. Edmundo Martinho esclarece que o único limite fixado para que a Santa Casa entre no Montepio são os 10% da valor do banco mas diz que essa avaliação não está definida e aponta três condições para que o negócio se faça. No Expresso Diário, o João Vieira Pereira põe em causa o preço da operação. O Montepio diz que cumpre rácios de capital impostos pelo BdP.

Lisboa e Porto querem fechar descentralização até Março e pedem mais ambição”, titula o Público. Representantes das duas das áreas metropolitanas querem trabalhar nos próximos dois meses um acordo para apresentar ao Governo para a descentralização de competências. Os transportes são uma das prioridades desta negociação. “Isto ou se faz com alguma rapidez, ou não se fará”, afirma Fernando Medina.

António Costa defende o reforço da convergência económica na Zona Euro. Na cimeira dos países do sul da União Europeia, em Roma, o primeiro-ministro insistiu na importância do aprofundamento da união económica e monetária.

Os países do sul da Europa querem peso do fluxo migratório compartilhado a nível comunitário.

O braço-de-ferro na Autoeuropa continua, com greve no horizonte. Os trabalhadores da empresa mantêm as exigências.

A seca poderá custar 50% da produção de azeitona no Alentejo, noticia a SIC.

Estrangeiros compraram 25% das casas vendidas em 2017, avança o Diário de Notícias. Sobretudo franceses e brasileiros.

O Sporting venceu o Cova da Piedade por 2-1 e está nas meias-finais da Taça de Portugal. Mas teve muitas dificuldades, escreve a Lídia Paralta Gomes na crónica na Tribuna Expresso.

Foram registados 400 atropelamentos com fuga em menos de um ano, avança o Jornal de Notícias. Entre janeiro e novembro do ano passado, aqueles condutores atropelaram peões e fugiram, causando cinco mortos.

A maioria dos que experimentam um cigarro torna-se fumadores diários, afirma Peter Hajek, que conduziu uma investigação que analisou dados dos anos 2000 a 2016 relativos a 215 mil pessoas do Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.

Os irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus venceram o concurso aberto pela Câmara de Toulouse, França, para a extensão e nova entrada do Musée des Augustins. Manuel Aires Mateus, recorde-se, foi eleito há um mês Prémio Pessoa, uma iniciativa do Expresso com o apoio da Caixa Geral de Depósitos.

FRASES (ESPECIAL DEBATE POUCO ESPECIAL)
Santana: “Se hoje tivesse de tomar uma decisão como líder da oposição, diria que é adequado renovar o mandato da PGR”
Rio: “Eu não devo alimentar isto dizendo que sim nem dizendo que não”.
Santana: “Portanto, tu passas a vida a dizer o contrário daquilo que pensas. É uma maçada isso”.
Rio: “Isso passa-se relativamente a ti”.
Santana: “Passamos a vida contigo a ter de por tradução simultânea - ele disse isto mas não era isso que queria dizer”
Rio: “Ando sempre a dizer a mesma coisa. (…) Até sou maçador”
Santana: “Não sejas sensível. (…) Não podemos ser vidrinhos”.
Rio: “Judite, tem de se impor senão ele não me deixa falar”.

OUTRAS FRASES (OU FRASES DE OUTROS)
“Novo Banco não era um banco bom. Era um banco que conseguiu manter as portas abertas com outro nome”. Mário Centeno, citado no Eco.

“Se os governos e os partidos intrigam e manobram o poder judicial e se as leis não são aplicadas a todos, não há divisão de poderes.” Fernando Sobral, no Negócios.

O QUE EU ANDO A LER

“Volto-me para ti ou antes
para o teu lugar (…)

era o ar a árvore voltar-me
para ti é como procurar
no mar os afogados”

Eis um excerto de um poema de “Existência”, o novo livro de Gastão Cruz, editado pela Assírio & Alvim, que o apresenta como sendo “uma poderosa reflexão sobre a vida, a memória, o envelhecimento e o espetro da morte”.

Ainda ontem Carlos Vaz Marques falou sobre este livro na TSF: “um cruzamento poético de reflexões, memórias e interrogações, cujo alcance está expresso no título lapidar. A presença da morte neste livro é uma forma de questionar a vida, aquela que ainda se tem pela frente e aquela que já se viveu”. Ou, como escreve Gastão Cruz, “a inquietante interrogação sobre o que será de facto estar na vida.”

“Não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio”.

Gastão Cruz é um enormíssimo poeta, de poemas construídos pela perícia paciente do trabalho, que talvez também por tanto se reservar tem notoriedade tão menos ampla do que admiração dos que o leem. Não é um defeito dele, é um conselho a que queira ler.

“O momento mais belo trará
o fim do tempo”.

Está frio. Mas tenha um dia quente; tenha um dia bom.

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