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Ricardo Costa Diretor de Informação da SIC

Jerusalém já está a arder

7 de Dezembro de 2017

O título não é verdadeiro, mas escrevo-o para ficar guardado. Porque já foi válido no passado – demasiadas vezes – e porque pode ser válido no futuro próximo. Há coisas com que não se brinca e Jerusalém é uma delas. A cidade que mais disputas militares e religiosas motivou ao longo da história aí está, de novo, nas manchetes de todo o mundo, por uma razão simbólica. Como todo sabemos, as razões simbólicas em Jerusalém não são metáforas, são rastilhos.

A ideia de mudar a embaixada dos EUA de Telavive (onde estão todas as embaixadas em solo israelita) para Jerusalém não é propriamente nova. Foi, aliás, aprovada pelo Congresso norte-americano em 1995 numa tentativa de condicionar o então Presidente, Bill Clinton.

Como a transferência sempre foi considerada uma medida radical, perigosa e provocatória – e contrária às Nações Unidas -, tanto Clinton, como Bush e como Obama, todos os seis meses assinavam um documento a suspender a transferência. Era assim desde 1995 na Casa Branca. Trump resolveu fazer o contrário.

A ideia do Presidente americano não é uma surpresa. Disso ninguém o pode acusar. Durante a campanha eleitoral, ele afirmou e repetiu várias vezes que mudaria a embaixada dos EUA para Jerusalém e nunca recuou perante os protestos dos países árabes – que não reconhecem a soberania israelita da cidade – e de todos os aliados ocidentais, que seguem as recomendações das Nações Unidas e consideram que parte de Jerusalém está ilegalmente ocupada por Israel.

A questão não é simples, porque nada é simples no Médio Oriente e muito menos em Jerusalém. Mas a decisão está a ser contestada em todo o mundo, de forma veemente nos países árabes, está à beira de provocar um corte de relações entre a Turquia e Israel, numa escalada diplomática perigosa.

A única boa notícia é que até o Departamento de Estado dos EUA defende que a transferência de Telavive para Jerusalém demora pelo menos três anos. E três anos em Jerusalém são uma eternidade. Vamos a coisas mais terrenas.

OUTRAS NOTÍCIAS
O Banco de Portugal está nas manchetes quase todas. Mas não se assustem já, desta vez não é por causa de um buraco num banco que acabaremos todos a pagar, apesar de nos dizerem que não pagamos nada. A questão agora é outra e está ligada à concessão de crédito bancário.

No Jornal de Negócios, o destaque é dado ao facto de o Banco de Portugal não considerar que esteja a existir uma bolha no imobiliário, nem sequer uma sobrevalorização dos preços das casas, prevendo que os preços na habitação possam continuar a subir. Ok. Mas é tudo? Não, não é tudo.

Esta visão tem um “outro lado”, que faz manchete no Público. E esse outro lado pode levar o regulador a intervir para travar os bancos que estejam a facilitar demasiado o crédito à habitação, que tem crescido muito depressa, quer graças às descidas dos spreads quer ao alargamento dos prazos.

No Correio da Manhã, a mesma história tem como título “Banco de Portugal trava crédito à habitação”, acrescentando que os prazos vão ser mais curtos nos empréstimos. No DN, escreve-se que Carlos Costa lançou um aviso à banca para travar o crédito à habitação.

Não é preciso ser bruxo para se perceber o que está em causa: 1) O regulador não está preocupado com o preço das casas, mas sim 2) com a exposição da banca a 3) casas compradas com demasiado esforço, 4) por prazos muito longos e 5) a contar com juros baixos. Basta os juros subirem para poder acontecer o quê? Isso mesmo, a alínea 1 desliga-se das 2, 3, 4 e 5 e temos um pequeno/grande problema.

Por falar em problemas, o conflito laboral na Autoeuropa não tem ainda um fim à vista. Neste momento, tudo indica que administração avance na próxima semana com o novo horário, que não teve o acordo da maioria dos trabalhadores.

O Jornal Económico escreve que um Tribunal de Lisboa contraria a Relação e defende que a Uber é legal em Portugal. Esta decisão contraria uma outra, da Relação, que considerou o serviço ilegal. A batalha legal promete continuar.

A UNESCO classificou hoje como Património Cultural Imaterial da Humanidade os Bonecos de Estremoz, uma arte popular com mais de três séculos. A decisão foi tomada esta madrugada na Coreia do Sul e foi muito celebrada pela comitiva portuguesa.

#MeToo é a Figura do Ano 2017 da revista Time. O movimento que denunciou milhares de casos de assédio sexual e violação pelo mundo, num processo incrivelmente rápido e global, conquistou o júri e vai fazer a capa da Time como personalidade do ano.

Não fiz nada, mas o pouco que fiz, fiz de cabeça erguida”. Lembra-se de Tiririca, o célebre político brasileiro que chegou ao Parlamento com o magnífico slogan “Vota Tiririca, pior do que está não fica”? Pois bem, ficou muito pior e o Tiririca está de saída da política após 7 anos em que só conseguiu aprovar um (1!) projeto de lei. Sobre a atividade circense, claro. Vai Tiririca, sem você, pior não fica!

O Porto venceu de forma categórica o Mónaco, de Leonardo Jardim. Com este 5-2, a equipa de Sérgio Conceição segue em frente na Liga dos Campeões com uma carreira muito boa, recheada de golos. Venham os oitavos.

Em Madrid, o Real venceu o Dortmund por 3-2 e Ronaldo marcou um golo extraordinário. Mas o mais importante é que o português foi o primeiro jogador de sempre a conseguir marcar em todas as jornadas da fase de grupos da Champions. Mais um recorde para Ronaldo.

E por falar em Ronaldo, hoje há Bola de Ouro e, claro, se há bola de ouro há Ronaldo outra vez. A cerimónia é transmitida na SIC Notícias a partir das 18h e o craque português deve ganhar o troféu pela quinta vez.

Para terminar as linhas sobre futebol, hoje, o Braga entra em campo na Liga Europa às 18h, com o jogo em direto na SIC.

Se gosta do Zorro e anda pelas redes sociais, então vai dar de cara com o “nosso“ Paulo Fonseca, que ontem deu uma conferência de imprensa vestido de Zorro que está a correr mundo. O treinador tinha prometido aos adeptos ucranianos que se o Shakthar passasse a fase de grupos aparecia vestido de zorro. E apareceu mesmo. Já agora, podia ir assim vestido ao Banco de Portugal a ver o que acontecia...

FRASES
É tempo de reconhecer oficialmente Jerusalém como capital de Israel”. Donald Trump, Presidente dos EUA“

"A probabilidade de que os preços da habitação continuem a aumentar no futuro é bastante elevada”. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal

O sonho só se conquista indo à procura dele”. Sérgio Conceição, treinador do F.C. Porto, depois do apuramento para os oitavos da Champions

A minha inquietação interior impede-me de ser feliz”. António Lobo Antunes, escritor, em entrevista ao Jornal de Negócios

O QUE EU ANDO A LER
Acabei de ler um pequeno livro francês, que ganhou este ano o Prémio Goncourt. L’ordre du jour é um pequeno conto, comprado por impulso num aeroporto, trazendo por recomendação o Prémio, uma bonita capa, e nada mais. Normalmente, corre mal, mas este livro valeu muito a pena.

Éric Vuillard, um escritor que não conhecia, traça um retrato implacável da complacência com a ascensão do nazismo, a forma como os grandes industriais ajudaram a conquista do poder por Hitler, o processo de anexação da Áustria, a militarização desenfreada e uma caminhada inevitável para uma guerra que devastaria (de novo) a Europa.

A capa do pequeno livro traz uma foto de Gustav Krupp, um dos maiores industriais da Alemanha desses tempos, e é com ele com o livro começa e acaba, num aviso claro de que a história se repete, que muitas guerras não se evitam e que os benefícios do momento impedem muitas pessoas de ver o que aí vem.

L’ordre du jour é sobre isso, uma ordem do dia, com industriais e políticos à mesma mesa, a tratar de coisas que pareciam triviais mas iam mudar o mundo para sempre.

Amanhã há Expresso nas bancas. Até lá, a ordem do dia estará sempre no Expresso Online e, pelas 18h, bem arrumada e explicada no Expresso Diário. A minha agenda diz-me que ainda tenho que escrever um texto para edição do fim da tarde e outro para amanhã de manhã. Fico, então, por aqui a ver o que Trump tira mais da manga . Bom dia.

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