Siga-nos

Perfil

Expresso

Luísa Meireles Redatora Principal

Uma notícia de raiva e reflexões depois do regresso a casa

6 de Dezembro de 2017

É o que nos espera no mundo, que desde hoje vai ficar ainda mais perigoso. O Presidente americano prepara-se para anunciar a mudança da embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém, reconhecendo esta como a capital, em vez de Telaviv. Jerusalém é a cidade sagrada das três religiões monoteístas (se quiser saber porquê, leia aqui). Os avisos e sinais de perigo chovem de todo o lado. O risco de incêndio deste gesto de Trump já tinha ficado patente em Bruxelas, onde o secretário de Estado americano Rex Tillerson, ao contrário dos seus antecessores, foi recebido com frieza. A razão é a mesma. Não há explicações que façam entender o gesto de Trump, porque plano de paz não é de certeza. Assustemo-nos.

Mário Centeno já voltou a casa, depois da sua vitória para a presidência do Eurogrupo na segunda-feira. Agora, chegou a altura de pôr o termómetro e tirar a temperatura. Entre parceiros de “solução governativa” e entre Governo e oposição. Será logo à tarde, no habitual debate quinzenal na Assembleia da República (o programa é este). Não é estranhar que o Primeiro-ministro valorize o facto, que Centeno sorria (e muito), e que Bloco de Esquerda e PCP minimizem, ou mesmo deitem abaixo – será alta temperatura, no caso. Ver-se-á como falará a oposição, que saudou mas pouco, depois de longo tempo a apequenar o facto.

O leitor terá a sua ideia, aqui lhe proponho algumas reflexões: o próprio já tinha garantido no mesmo dia que não ia mudar nada na política interna (hummm) e Ricardo Mourinho Félix, sucessor de Centeno na cadeira de Portugal no órgão mais opaco de todos quantos existem na Europa, fez saber que está pronto a criticar as decisões que forem contra o interesse português, mesmo que ao leme esteja o seu patrão. Ontem, aqui no Expresso, o Pedro Santos Guerreiro adiantou que “A direita não sabe perder e a direita não sabe ganhar” e o Henrique Monteiro não teve dúvidas: “O grande golpe é na direita”. De um ponto de vista de esquerda, Rui Tavares faz o ponto da situação. É o fim de dois mundos, escreve.

Quanto à direita propriamente dita, o Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, aposta que nada ficará como dantes (“A redefinição política imposta por Centeno”) e o Rui Ramos, cético e cáustico, diz que tudo isto só serve para o Governo marcar pontos contra a oposição (“Outro ministro socialista de um país pequeno?”). Pelo PSD, Duarte Marques, pensa que "Centeno foi eleito... com a agenda de Passos Coelho". É assim a vida, feita de opiniões.

E isto, porque não chamei aqui a imprensa lá de fora, uns a favor, outros contra. Em primeiro lugar, aqui ao lado, os elogios são transbordantes. Conhecida pela sua diplomacia esmagadora, Espanha cita agora Portugal como exemplo de "buena diplomacia". O Presidente Marcelo dá uma ajuda, afirmando que nós - sim, nós, os morenos - somos "os nórdicos do século XXI". Está tudo no jornal de hoje. Le Monde também acha que foi virada uma página no Eurogrupo e o New York Times opina que Centeno é o “anti-Schauble”. No polo oposto, cito o Financial Times, agreste, “Fica em espera a revolução no Eurogrupo”.

No meio disto tudo, a coisa mais engraçada foi a iniciativa de um engraçadinho, que resolveu criar uma conta falsa no twitter em nome do ministro português. A conta viveu 24h antes de ser apagada pelas Finanças, que prometeu uma conta genuína. A falsa ainda teve tempo de noticiar a morte de Christine Lagarde, a diretora do FMI, o que obrigou este a intervir. Coisa pouca, ora então.

Quanto ao mais, matemos já o assunto, porque hoje é dia de discutir futebol e eu já não luto contra moinhos de vento. Surpresas à parte, as esperanças do Sporting lá se esfumaram, apesar de o “extra-terrestre” Messi não ter jogado o tempo todo, tal como previra o já-não-tão-super-Jesus. Seja como for, o Barcelona era páreo grande para os leões, que lutaram como tal, mas que, além disso, ainda tinham de esperar por um milagre, o do grego Olimpiacus ganhar à Juventus. Não houve milagre e o Sporting sai da Champion. Segue para a Liga Europa – é já só no que fala Jesus. Aqui está tudo explicadinho.

O Benfica já não é o que era (digo eu, de saber de ouvido). Ficou afastado de tudo depois de mais uma derrota (mais uma – seis jogos, seis derrotas). Foi o pior Benfica da história da Champions e limito-me a citar. Fim do calvário, dizem outros.

Quanto ao Porto, só hoje se vai saber se morre de morte súbita no confronto com o Mónaco. Tem esperança de se manter vivo. O treinador português dos monegascos disse que vão ao Porto “com o objetivo de dar a oportunidade aos jogadores que jogaram menos, para que possam ganhar experiência e somar minutos”. Não é brilhante, como incentivo. Até eu dou por isso.

É a rotina portuguesa no seu esplendor.

OUTRAS NOTÍCIAS

Em primeiro lugar, do Presidente Marcelo. Eutanásia e defesa europeia foram os temas escolhidos para os seus comentários de ontem. Pediu consensos em ambos.

Quanto à eutanásia e suicídio assistido, deixou antever que não se ficará por uma apreciação estritamente jurídica dos diplomas que chegarem a Belém (está previsto que irão três a votos).

Quanto à defesa europeia, disse preto no branco que será um “erro histórico” se o Parlamento não apoiar adesão à defesa europeia. O Governo vai aderir, isso é certo, o problema são os partidos, que preferem perder-se em manobras táticas em vez de procurar debater o assunto. A ver se o apelo do Presidente faz eco, ontem estava ainda tudo muito rígido. O Governo lamentou. O PSD não contemporizou. Saber-se-á mais logo como as coisas acabaram quando se discutir a Europa no final do debate quinzenal.

Depois, a concertação social. Não há consenso, outra vez. O Governo disse o que se esperava: 580 euros, sem contrapartidas, os patrões reservaram-se e as centrais sindicais não gostaram. A UGT quer 585, a CGTP 600. Com algum esforço pode ser que ainda se chegue lá. Vamos ver. Interessante a entrevista de António Saraiva, no I: "A CGTP está a por um vírus na Autoeuropa" (lamento, mas vai ter que comprar o jornal, se quiser ler mais). A próxima reunião é a 19. Ficámos entretanto a saber que 21,6% dos trabalhadores recebem salário mínimo: 713,2 mil por conta de outrem no privado.

Economia, ainda. A lista negra de offshores da União Europeia complica as relações com Macau, que lá está incluído. Vem no Negócios (para assinantes, somente). A lista, aqui.

O Governo anunciou que daqui para a frente vai haver regras mais apertadas para contratar advogados externos. É o Público que anuncia. O objetivo é conter a despesa pública. Se for levada a efeito a medida vai ser uma boa poupança e um rombo em muitos escritórios. Aguardemos as próximas noticias. Em outro plano, o Eco faz uma listagem de tudo o que aumenta de preço em janeiro.

Se começa a preocupar-se com a sua futura pensão, leia o resumo deste estudo da OCDE sobre as “nossas” reformas que traça um retrato muito pouco animador: país envelhecido, poucos bebés, idade alta de reforma e onde as pensões somam 15% dos gastos públicos. A fotografia é tirada para 2050, mas o clic está pronto a disparar.

Já deve estar a par da polémica na Educação sobre os resultados da avaliação internacional PIRLS sobre a descida dos resultados dos alunos do 4º ano que envolveram o secretário de Estado João Costa e o ex-ministro Nuno Crato. Se não, pode ler aqui as críticas de um e aqui a resposta de outro. O Público vai mais longe e tenta perceber se os maus resultados são culpa dos professores ou dos currículos, e anuncia que o coordenador das más notícias já foi dispensado.

Leu a notícia sobre quem poderá ser o próximo presidente da EDP, agora que Eduardo Catroga está de saída? A imprensa alvitra que a alternativa é entre o ex-ministro Luís Amado e o atual membro administrador não executivo da TAP, mas se calhar o prémio não vai nem para um nem para outro. Assim como assim, pode ir lendo os prós e contras de cada um.

Ainda falando de casos, recordamos aqui o do CTT. Há quatro anos entrava em bolsa, era uma euforia, hoje, está de rastos. É um caso de estudo. Neste período de tempo, perdeu metade do seu valor. Efeitos da privatização.

No domínio da Justiça, haja justiça: os juízes do Porto que censuraram a vítima de violência doméstica vão ser alvo de um processo disciplinar (uma violência!). Também a Relação do Porto declarou ilegal a Uber, mas o acórdão não se aplica para já (a ANTRAL pediu 15 milhões de euros de indemnização, não é peca a pedir, pelos vistos)

Quanto às notícias sobre a vida dos partidos, o deputado socialista Ascenso Simões está em risco de sofrer um processo disciplinar imposto pelo presidente Carlos César, que não gostou da entrevista que aquele deu ao Sol, em que afirma que o PS devia ter pedido desculpa ao BE e ataca violentamente o presidente da bancada.


LÁ FORA

Não é bem o cantinho do Trump, mas também. Na capital americana o Comité de Intelligence vai ouvir Donald Trump Jr, filho do Presidente dos EUA, sobre a alegada intromissão russa nas eleições presidenciais em 2016.


Com um pé cá dentro é esta outra notícia: Porque é que o mundo não segue o exemplo de Portugal na luta contra a droga, pergunta o Guardian. É um grande tema com o país em modo de boas notícias. Portugal continua a impressionar o mundo.

Catalunha. Começou a campanha eleitoral para uma eleição que é um referendo que é uma eleição (cito o Ricardo Costa). Espanha, entretanto, retirou o mandado de extradição a Puigdemont, que continua a Bélgica e lá começou a campanha com um comício por vído-conferência. El Periódico explica porquê.

Uma notícia triste para os mais velhos, quando o rock & roll ainda cantava em francês. Morreu Johnny Hallyday, o ícone dos anos sessenta e setenta. Ele era assim, lembram-se? Tinha 74 anos e vendeu 110 milhões de discos.


FRASES

"As últimas autárquicas espoletaram qualquer máquina que estava adormecida", António Saraiva, líder da CIP, no I

"Quem fizer contas de quanto custa a democracia tem de as fazer bem", João Paulo Saraiva, vereador das Finanças e Recursos Humanos

"Aquilo [o rio Tejo] deita um cheiro muito forte, os bichinhos chegam lá e fogem, recusam-se a beber aqulea água", Artur Lopes, pastor, no Público

"Morre-se mal em Portugal. Em solidão, sem afeto e sem compaixão, longe daqueles de quem se gosta, muitas vezes em instituiç~eos mal preparadas", Jorge Soares, presidente do CNECV


O QUE COMECEI A LER

Retomei novas leituras, no registo “preciso de ler isto”. Desta vez é o último livro de Carlos Gaspar, “A balança da Europa” (Aletheia). Melhor que eu, que apenas parei aqui e ali, antes de começar a ler por atacado, como sempre costumo fazer, fala o próprio: “É um livro sobre o equilíbrio dos desequilíbrios”. Sem dúvida. Já não há ilusões na Europa e é disso que fala o autor quando diz que “o fim das ilusões tem a ver com as ilusões de que é possível ultrapassar a natureza da UE”. O livro foi oficialmente lançado ontem, eu recebi-o há uns dias (vantagens do trabalho jornalístico, não de jornalista). Escreverei sobre ele quando o tiver lido de modo mais sustentado.

Uma sugestão: se ainda se lembra quem foi David Ginola, um dos melhores jogadores franceses nos anos noventa, e que ultimamente se tornou famoso por ter morrido durante nove minutos e ter ressuscitado, leia esta entrevista. É bem interessante.

E um último recado: o Expresso, como sempre, elege todos os anos as suas figuras e acontecimentos nacionais e internacionais do ano. O leitor também tem direito a votar: aqui para acontecimento nacional do ano, aqui para figura nacional, aqui para acontecimento internacional, aqui para figura internacional. Vote bem no início de mais um dia, que esperemos corra bem.

Volte sempre!

Partilhe esta edição