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Miguel Cadete Diretor-Adjunto

Morreu Belmiro de Azevedo, o empresário “que fazia o chão tremer”

30 de Novembro de 2017

A imprensa portuguesa homenageia hoje com grande destaque o empresário que ao longo das últimas quatro décadas construiu um dos maiores e mais relevantes grupos empresariais do país. A Sonae chegou a estar presente em cerca de 70 países, contando mais de 50 mil trabalhadores.

Em 2007, ele era apresentado como o “senhor 4% do PIB”. Na tabela dos mais ricos do mundo, compilada pela revista “Forbes” e revelada já este ano, ocupava a 1376ª posição, sendo a sua fortuna avaliada em mais de 1,26 mil milhões de euros. Há dez anos, estava em 407º.

Belmiro Mendes de Azevedo, 79 anos, faleceu esta quarta-feira, no Hospital da CUF do Porto onde estava internado desde domingo, vítima de complicações pulmonares que o atormentavam desde há meses. Esteve pela última vez em público quando da apresentação de resultados de 2016 do grupo que ergueu.

Hoje, a imprensa portuguesa não poupa tinta nem bytes para celebrar uma figura que é unanimemente considerada como central na economia portuguesa, sobretudo desde que em meados da década de 1980 se tornou sócio maioritário da Sonae, construindo desde então um império que se estendeu aos mais diversos ramos da indústria e dos serviços e cujas marcas mais “populares” são o Continente, NOS e Worten.

A tentativa de comprar a PT, num processo espectacular que ainda hoje chega aos jornais por via da Operação Marquês, terá sido a jogada mais ousada do grupo que liderava. À época, o Expresso escreveu em parangonas a resposta que ofereceu a essa ideia inicial do filho: “isso é uma pipa de massa”. Terá sido uma das pouca derrotas que averbou no seu currículo.

A Assembleia da República aprovou, esta quarta-feira, o pesar pelo empresário do Norte ainda que
com o voto contra do Partido Comunista Português. O Bloco de Esquerda absteve-se. Ana Augusto de Azevedo, a sua irmã mais velha, viria a falecer também ontem, poucas horas depois do empresário português, vítima de doença prolongada.

O Expresso publicou online
uma detalhada biografia de Belmiro de Azevedo além de uma cronologia do homem “que entrou na Sonae a ganhar 7500 escudos” e das empresas fora daquele grupo que ajudou a criar. Uma fotogaleria com imagens que percorrem mais de 40 momentos marcantes da sua vida pública e duas dezenas de factos pouco conhecidos da sua carreira pouco conhecidos do grande público são outros conteúdos da extensa homenagem.

Também o
“Público”, título de que era proprietário, o “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Jornal de Negócios”, jornal “i”, “Correio da Manhã” e “Observador” deram à estampa dedicados obituários.

As televisões, por seu lado, prestaram também grande atenção, como sucedeu com a
SIC, RTP e TVi. O funeral realiza-se hoje, na Paróquia do Cristo Rei, no Porto, a partir das 16 horas, em cerimónia que está reservada à família.

Ousado, frontal e inovador, senão mesmo arrogante, eram alguns dos adjetivos facilmente utilizados para o qualificar. “Pode enriquecer-se de forma honesta e não tenho quaisquer remorsos” disse, em 2008, ao Expresso. Na mesma ocasião,
em entrevista a Margarida Cardoso, deixou claro ser “um homem de fé”: “Acredito num Deus criador (…) creio na existência de algo sobrenatural. Já quanto à fé religiosa, sou mais cauteloso (…). Culturalmente sou católico”.

Muitas das suas frases ainda hoje são citadas como boutades, como puro bom senso ou tão só sabedoria.
Há muito por onde escolher:

“Podemos ser agressivos uns com os outros na Sonae. Quando se é polido em excesso, corre-se o risco de a mensagem não passar como deve. Um grau correto de pressão é importante. Não conheço ninguém que tenha batido recordes no treino” (Financial Times, 1994)

“(…), tanto eu como a Sonae comportamo-nos sempre não tanto como contrapoder, mas como não próximos do poder. É bom para a democracia e para o funcionamento do governo que os empresários sejam independentes e discordem” (Público, 2005)

“(A Sonae) sempre perdeu nos negócios que dependiam do Estado português” (Apresentação de contas da Sonae, 2007)

“Compro os sapatos há 30 anos no mesmo sítio, pelo telefone, e cinco ou seis pares de cada vez para não perder muito tempo” (Expresso, 1999)

“Os salários só podem aumentar quando um trabalhador português fizer igual a um alemão ou inglês” (TSF, 2014)

“Se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém” (Clube dos Pensadores, 2014)

“Um hipermercado tem de ser uma máquina eficiente e barata. No fundo, um grande barracão bem decorado, que seja eficiente e tenha bons acessos” (Marketing e Publicidade)

“Não aceito a pátria europeia. Aceito, sim, a organização política e económica da Europa. Penso que se pode integrar quase tudo, mas não as culturas, nem os comportamentos sociais” (Expresso, 1991)

“Sair do Euro seria regressar à Idade Média” (RTP, 2011)

“Tenho muito respeito pelos funcionários públicos, mas sei que há talvez uns 200 mil a mais” (Conferência no Clube de Negócios, 1989)

“A maior parte dos competentes não tem currículo partidário” (RTP, 2011)

Os políticos seriam, aliás, um dos seus alvos preferidos. Na mesma
colectânea de citações coligidas pelo Expresso e abundantemente usada até aqui, podem ler-se violentos ataques dirigidos a Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, António Guterres, Cavaco Silva, José Sócrates e Passos Coelho.

Diria ainda na sua biografia, “Belmiro - História de uma Vida”, publicada em 2001: “Afinal, o mais importante (…) nesta curta passagem pela Terra, é procurar manter o estar e o ser em harmonia no máximo de tempo possível ao longo da vida. E quando tivermos de partir, desejar serenamente deixar de estar antes de deixar de ser. Isto é, ver lucidamente a última etapa da vida”.

Esse equilíbrio levou a que o processo de sucessão, nem sempre fácil ou linear em empresas familiares, decorresse com alguma tranquilidade. Belmiro de Azevedo deixa três filhos. Paulo (51 anos, o filho do meio) é CEO do grupo Sonae desde 2005, Claúdia (a mais nova) tornou-se líder da Sonaecom sendo Nuno (o mais velho) o único que hoje não segue a carreira do pai nos negócios.

Essa é apenas uma das sete razões por que Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso, considera Belmiro de Azevedo
o melhor empresário português de sempre.

O diretor Pedro Santos Guerreiro, por seu lado, escreve na pedra
os dez mandamentos que levaram à criação do Homem Sonae, perfil do gestor que tem “a cabeça nas nuvens e os pés firmemente no chão”. “No chão que tremia à passagem de Belmiro de Azevedo”. Paz à sua alma.

OUTRAS NOTÍCIAS

Suicídio em directo.
No Tribunal da Haia, enquanto escutava a sentença que o condenava a crimes de guerra por 20 anos, o ex-militar Slobodan Praljak, bósnio-croata, ingeriu um copo com um veneno que o levaria à morte pouco depois.

Fim do corte de 10% nos subsídios beneficia 91 mil desempregados já em janeiro. Pode ler-se na manchete do “Diário de Notícias”. Reversão da medida imposta pela troika custa cerca de 40 milhões de euros.

Tabu de Centeno conhece hoje um fim. Termina esta quinta-feira o prazo para a apresentação de candidaturas à liderança do Eurogrupo. Saber-se-á se o nome do ministro das Finanças de Portugal, Mário Centeno, faz parte da lista no dia seguinte. A votação terá lugar segunda-feira. Mas há muitos concorrentes para o mesmo cargo.

Trabalhadores da AutoEuropa rejeitam novo acordo. Mais de 63% dos trabalhadores da Autoeuropa rejeitaram o segundo pré-acordo sobre os novos horários de trabalho na fábrica de Palmela. 3.145 trabalhadores (63,22%) rejeitaram o pré-acordo e só 1.749 (35,16%) votaram a favor do documento negociado previamente com a administração da empresa e que tinha merecido o voto favorável de todos os elementos da atual Comissão de Trabalhadores.

Marcelo vacinado contra a gripe. O Presidente da República esteve ontem no Centro de Saúde de Sete Rios com o ministro da Saúde para seguir os conselhos da Diretora Geral da Saúde. Vacinou-se e disse: “mais vale prevenir do que remediar. Eu estou aqui a prevenir”.

Bob Dylan em Lisboa. O trovador chegará pela oitava vez a Portugal, desta vez para cantar na Altice Arena no dia 22 de março.

Desconvocada greve dos comboios. As organizações sindicais do sector ferroviário desconvocaram ontem a greve que estava marcada para esta quinta-feira, véspera de feriado. A circulação efectuar-se-á com “normalidade”, asseverou a CP.



FRASES (ESPECIAL BELMIRO)

“Quero homenagear o Eng.º Belmiro de Azevedo, figura marcante do nosso meio empresarial e da sociedade portuguesa, em termos de liderança, determinação, visão de futuro e empenhamento social e cultural ao longo de mais de 40 anos”. Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

“Uma personalidade marcante e uma voz livre”. Cavaco Silva, ex-Presidente da República

“Com uma notável capacidade de trabalho, (que) soube compatibilizar a sua dedicação aos negócios com o interesse pelas áreas da Cultura, da Educação, das Artes e da Solidariedade, que expressou através da constituição da Fundação com o seu nome, em 1991”. Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura

“Perdemos o maior empresário pós-25 de Abril”. Daniel Bessa, ex-ministro da Economia

“Era um grande empresário, um homem de visão e de ação, corajoso, num país que tantas vezes maltrata quem é desassombrado, quem tem espírito de iniciativa e capacidade empreendedora”. Alexandre Soares dos Santos, empresário do grupo Jerónimo dos Santos

“Um homem de uma capacidade invulgar”. António Mota, empresário da Mota Engil

“É um exemplo em Portugal para todos os empresários, que procurou trabalho e procurou dar trabalho. Foi um grande criador”. Rui Nabeiro, empresário da Delta

“Não deixo de recordar com muita saudade e muita estima a relação que tivemos e que permitiu que o Público fosse criado” Vicente Jorge Silva, fundador do “Público”

“O Grupo Sonae é hoje um dos mais proeminentes empregadores nacionais e um centro de criação de riqueza e de promoção do desenvolvimento social e económico nacional”.
Comunicado do PSD

“Demonstrou sempre que acreditava nas empresas portuguesas, demonstrou sempre uma fortíssima aposta na internacionalização da economia, na inovação, na qualificação dos seus quadros”. Luís Pedro Mota Soares, CDS



O QUE ANDO A LER

A edição inglesa da revista “Esquire” não tem o garbo daquela publicada desde 1933 nos Estados Unidos da América. O design gráfico fica a milhas do praticado na casa mãe e os artigos têm metade da graça dos que são impressos numa revista que, na sua versão original, já contou com colaboradores como André Gide, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Norman Mailer, Gay Talese ou Tom Wolfe.

O tom, very british, da versão made in UK encaixa bem naquela ideia dos bifes, popularizada por João Magueijo: o próprio director a define como pornografia de consumo e, na verdade, não há muito mais do que isso no último número, aquele que traz na capa o actor Oscar Isaac (que aparece no próximo episódio “Star Wars”) vestido com um sobretudo Prada que custa 2450 libras esterlinas.

Mas em qualquer revista - como em qualquer jornal, de resto - há sempre pérolas por descobrir. Na edição de dezembro da “Esquire” britânica, o tesouro é um texto assinado por Tom Dyckhoff, historiador de arquitetura e design que ficou popular na Grã Bretanha pelos seus programas na BBC.

O artigo dedica-se a tentar perceber a razão por que as revistas ditas masculinas não incluem artigos sobre design de interiores, ou decoração, na versão portuguesa mais rasteira. E avança para essa demanda a partir de um outro texto, publicado numa outra revista masculina, a “Playboy”, assinado por esse outro esteta que era Hugh Hefner.

Segurem-se: em setembro de 1956, o Hefner já tinha assinado o primeiro artigo de decoração alguma vez dado à estampa em publicações desta cepa para definir o lar perfeito como algo em que se passa o seguinte: “a man enjoys good living, a sophisticated conoisseur of the lively arts, of food and drink, and congenial companions of both sexes. A man very much, perhaps, like you”.

Na década de 1950, “a casa” era domínio territorial das mulheres
- os homens, no pós-guerra dispunham de aposentos afastados para as suas aventuras mais ou menos misóginas mas o que Hefner procura criar é uma nova ideia de casa, onde os homens encontrassem a sua liberdade, suspensa devido ao domínio do lar conquistado pelas mulheres.

Essa casa não era senão um recreio (“playground”, no inglês do texto), e por isso não previa divisões fechadas (“células”) mas sim diversas “áreas” onde a espécime masculina podia atuar para uma plateia de admiradores.

Essa performance incluía, entre outras coisas, saber cozinhar tanto quanto demonstrar interesse por design de interiores. Tudo para criar o tal espanto na tal plateia. Ou para fixar a atenção das suas presas, num jogo de sedução que apesar de pretender alcançar objectivos diversos ou mesmo antagónicos, é aquele que hoje se tornou comum entre os homens das nossas cidades com um grau de cosmopolitismo dois graus acima das personagens de Magueijo.

Será caso para dizer que os extremos se tocam? Não sei. Mas este texto da versão british da “Esquire” ocorreu-me quando ontem os canais de televisão noticiavam a morte de Belmiro de Azevedo sublinhando inevitavelmente a austera sentença: “A diferença entre o nascer e morrer é um fatinho e um par de sapatos”, que terá dito numa entrevista ao “Diário Económico”, em 2005.

Sei que Belmiro nunca teria investido numa revista como a “Playboy”.

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