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Expresso

Cristina Peres Jornalista de Internacional

Os EUA "tomarão conta do assunto"

29 de Novembro de 2017

A sofisticação do armamento e a agressividade da Coreia do Norte têm vindo a aumentar. Depois de dois meses passados sobre o último lançamento, ontem, Pyongyang lançou aquilo que os Estados Unidos identificam como um míssil balístico intercontinental, o qual voou durante 50 minutos e mergulhou no Mar do Japão a mil quilómetros de distância do ponto de onde foi lançado: Sair Ni, na Coreia do Norte.

Até agora, a Coreia do Norte não se tinha declarado um “Estado nuclear” como ontem prontamente o fez. Nunca um míssil balístico intercontinental norte-coreano tinha chegado tão alto e tinha tido a pretensão de poder alcançar qualquer ponto do território norte-americano.

O Pentágono confirmou ter detetado e seguido um projetil norte-coreano que mergulhou na zona de exclusão económica do Mar do Japão. Pyongyang voltou aos lançamentos uma semana depois de Washington ter voltado a incluir a Coreia do Norte na lista dos países que apoiam o terrorismo.
No comunicado emitido pelo Pentágono lia-se que a os relatórios iniciais da Coreia do Sul sugeriam que teria sido lançado de uma placa móvel às 3:00 da madrugada locais. O importante é que o míssil alcançou 4,500 quilómetros de altitude acima da Terra, dez vezes mais do que a órbita da Estação Espacial Internacional da NASA.
Minutos após o lançamento do míssil norte-coreano, o comando militar sul-coreano anunciou que Seul tinha procedido a um exercício envolvendo o lançamento de um míssil de precisão destinado a responder de imediato a qualquer ataque do Norte.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que terá sido informado dos acontecimentos quando o míssil norte-coreano se encontrava ainda no ar, respondeu que os EUA “tomarão conta do assunto”. Voltamos ao mesmo, se é que saímos de lá… Recorde aqui a análise que Miguel Monjardino fez de outro lançamento em julho deste ano.

OUTRAS NOTÍCIAS
Ainda o Orçamento do Estado: a taxa chumbada pelo PS permitiria poupar até €40/ano na fatura da eletricidade. O assunto faz a manchete de hoje do jornal Público: “Energia: Proposta chumbada pelo PS foi negociada com o Governo”. O jornal “i” escreve hoje na primeira página “Costa só soube do acordo das rendas de energia pelos sites dos jornais”. Aqui no Expresso: Governo deu ok a nova proposta do BE sobre taxa da energia 24 horas antes de mudar de ideias. O Bloco de Esquerda sustenta que as justificações do PS são contraditórias e há deputados do PS que criticam o volte-face do partido na votação sobre rendas na energia. Os socialistas justificam o recuo na nova taxa no setor energético com “impactos reputacionais e jurídicos” da litigaria com grandes empresas, que poderiam levar o Estado e os consumidores a pagarem indemnizações. O Miguel Prado, a Mariana Lima Cunha e o Adriano Nobre escreveram este texto para explicar.

As vítimas indiretas dos incêndios também vão ser indemnizadas, leia aqui. Os critérios para determinar o valor das indemnizações às famílias das 110 vítimas mortais dos incêndios de Pedrógão Grande e de 15 de outubro foram fixados em €70.000, mínimo. “O desgosto e a dor dos familiares das vítimas dos incêndios serão tidos em conta nas indemnizações”, faz manchete o “i”.

As execuções sumárias extrajudiciais ocupam o centro da mais recente investigação sobre direitos humanos em Angola feita por Rafael Marques, jornalista e ativista angolano. A investigação apurou 92 casos, o último dos quais datado de 6 de novembro. Leia aqui e veja os vídeos incluídos.

Tão pouco como $400 custa um africano vendido como escravo nos “novos” mercados da Líbia. O caso está a chocar, a Líbia reconhece que não é brilhante para a fama do país em pleno terceiro milénio, mas diz que o Ocidente tem de ajudar a controlar a situação. Este é o perigo mais sinistro que ameaça os africanos que procuram uma vida a norte. Reportagem da Al-Jazeera. Aqui estão 24 segundos de imagens dos leilões de homens disponibilizadas pelo Independent. Um tweet lembra como a história se repete, igualzinho ao tráfico de escravos de outros séculos. O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu de urgência para condenar a situação destes migrantes e refugiados que estão a ser torturados e tornados escravos. Uma reportagem da CNN lançou os holofotes sobre o assunto. O secretário-geral da ONU António Guterres manifestou-se “horrorizado” e disse que estes são atos contra a humanidade. A Joana Azevedo Viana explica.

Um em cada dez comprimidos nos países em desenvolvimento é contrafeito ou não cumpre os requisitos mínimos. Ou seja, é falso. É o que revela a Organização Mundial da Saúde (OMS) segundo dados fornecidos pelo seu sistema de controlo dos medicamentos. Usados para tratar doenças como a malária e a tuberculose, podem ser responsáveis pela morte de dezenas de milhares de crianças.

A OMS publica também hoje o Relatório Mundial da Malária 2017 no qual se verifica que a luta contra a doença está, senão parada, em regressão, e as razões não são muito claras. Aponta-se a hipótese de ter descido a desinfeção dos interiores das casas com inseticida capa de matar os mosquitos que posem nas paredes, mas há mais elementos em jogo. A Índia sozinha teve 6% dos novos casos de malária em todo o mundo .

Hoje e amanhã realiza-se em Abidjan, capital da Costa do Marfim, a 5ª Cimeira UE-África. É a primeira a realizar-se na África subsariana e vai reunir 80 chefes de Estado e de Governo, entre os quais o primeiro-ministro António Costa. A cimeira será ocasião para lançamento de um Plano Marshall para África e da criação de um programa Erasmus para jovens empresários, duas das várias propostas anunciadas em vésperas do evento. “Investir na juventude” é um dos temas do dia que reflete o desespero dos europeus para abrandar o fluxo de imigração em direção ao velho continente: metade dos jovens africanos poderão não ter emprego em 2025, diz o Banco de Investimento Africano.

Só imprensa escolhida a dedo foi autorizada a assistir à tomada de posse do Presidente Uhuru Kenyatta ontem à tarde. Jan Husar, um fotojornalista e documentarista que cobre o Quénia (com quem estou sempre em contacto e que estava ontem em Nairobi) não foi autorizado a assistir. Nem foi possível passar a barragem policial em torno do estádio Kasarani, onde o Presidente jurou perante 60 mil simpatizantes e uma vintena de chefes de Estado e ministros, que trataria do futuro no qual todos tinham votado. À volta do estádio era disparado gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes. Pelo menos três pessoas morreram nos confrontos com a oposição que decorriam à mesma hora nas imediações. Por enquanto, não há sinais visíveis de que a paz venha a manter-se neste país da África Oriental onde o líder da oposição, Raila Odinga, anunciou para 12 de dezembro a sua própria tomada de posse.

O “Zimbabwe depois de Mugabe” serve de chapéu a todas as notícias sobre o país dominado 37 anos pelo Presidente que teve o seu futuro garantido pelo, então número 2, e agora novo chefe de Estado, Emmerson Mnangagwa. Foi ele mesmo quem anunciou uma amnistia para pessoas e empresas que entreguem fundos pertencentes ao Estado que tenham sido ilegalmente desviados para o estrangeiro. Nestes três meses, os voluntários não sentirão o “longo braço da lei”. Depois de fevereiro, as “gigantescas somas de dinheiro e outros bens” que tenham sido “ilegalmente externalidades por certos indivíduos e empresas” terão outra sorte.

Apesar das expectativas criadas, o Papa Francisco evitou pronunciar a palavra proibida e que teria sido importante na sua visita a Myanmar e ao Bangladesh - “Rohingya”. O DN faz hoje manchete com o assunto escrevendo: “Birmânia: Papa fala da crise dos Rohingyas sem a palavra proibida”. O país vizinho, o Bangladesh, que acolheu dezenas de milhares de refugiados daquela etnia muçulmana, vai alocar €270 milhões na adaptação de uma ilha da Baía de Bengali para que possa alojar 100 mil deles, reporta a agência Reuters. Este foi o discurso do Papa de ontem, até 2 de dezembro andará com pinças em torno da questão.

Enquanto se espera que o Presidente Frank-Walter Steinmeier reúna com os líderes dos três partidos que fariam parte de uma eventual nova grande coligação para governar a Alemanha de 2017 a 2021 - Angela Merkel pela CDU, Horst Seehofer pela CSU e Martin Schulz pelo SPD - o presidente da câmara de Altena (Renânia do Norte-Vestefália) foi apunhalado com uma faca de cozinha na garganta. Conhecido por ser a favor da política de acolhimento de refugiados defendida pela chanceler, Andreas Hollstein acolheu mais refugiados do que os que foram distribuídos à cidade que lidera. Ficou seriamente ferido no ataque de que foi objeto por motivos políticos.

Ser imigrante começa a ser sinónimo de absoluta vulnerabilidade. Veja o que aconteceu a Paulette Wilson, uma mulher que chegou ao Reino Unido em 1968 e que se viu de um momento para o outro num centro de detenção em vias de ser transferida para o centro de imigração de Heathrow, onde embarcaria de volta à Jamaica, onde não regressou durante 50 anos. Leia aqui como é que o Home Office a classificou repentinamente como imigrante ilegal.

FRASES
“A Europa precisa de uma Alemanha forte, é desejável pôr depressa um governo a funcionar”, Angela Merkel, chanceler alemã citada pela agência noticiosa alemã DPA, sempre garantindo que o atual governo que lidera dá bem conta da tarefa

“Eu fui vendido”, Victory, cidadão nigeriano de 21 anos do estado de Edo citado na reportagem da CNN sobre os mercados de escravos na Líbia

“A América Latina é uma extensão natural da rota da seda marítima”, Zhao Bentang, chefe do departamento da América Latina do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês durante a visita de Estado ao Panamá, país que rompeu ontem “relações diplomáticas com Taiwan” em nome dos 19 acordos comerciais assinados entre os dois países

“Os trabalhadores é que vão decidir se este acordo é bom para eles ou não”, Fernando Gonçalves, coordenador da comissão de trabalhadores da Autoeuropa citado pelo Negócios

O QUE ANDO A LER
Chegada a época das listas de tops e das escolhas do ano, repesquei os best of 2016 dos Long Read do Guardian e sugiro um texto sobre o consumo de açúcar, que prova que há pessoas à frente do seu tempo. E que há lóbis, claro. Em 1972, um cientista britânico junta provas para argumentar que é o açúcar o mais lesivo para a saúde e não as gorduras e ninguém o leva a sério. As razões? No texto “The conspiracy of sugar” publicado em julho de 2016, Ian Leslie pergunta como foi possível tanta gente permanecer enganada durante tanto tempo?. E porque boas leituras nunca são demais, passe os olhos pela reportagem mais recente do jornalista do Guardian Gary Younge, que voltou aos EUA para ver como por lá floresce a extrema-direita: “My travels in white America - a land os anxiety, division and pockets of pain”.

Fim do café, vamos ao trabalho. Nós ficamos a tratar das notícias frescas e a preparar o Expresso Diário que lhe serviremos pelas 18h. O leitor, vá espreitando o www.expresso.pt. Passe uma ótima quarta-feira desta primeira semana mais “curta” do mês.

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