Siga-nos

Perfil

Expresso

João Silvestre Jornalista

Os mortos da legionela e os mortos do Panteão

14 de Novembro de 2017

Bom dia,

Uma morte é demais, cinco são muitas mais. Subiu ontem para cinco a contagem das vítimas mortais da legionela. Cinco cidadãos desconhecidos - com exceção do vetereno advogado Simão Santiago - num surto com 50 infetados, dos quais 34 ainda internados.

No Panteão, há escritores, políticos, futebolistas, fadistas. Doze ilustres que o país escolheu distinguir: Garrett, Amália, Aquilino, Eusébio, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel de Arriaga, Carmona, Sidónio, Sophia e Teófilo Braga. Quase todos reconhecidos pelo nome próprio. Todos juntos num espaço que, sabemos todos agora, tem sido usado para jantares e festas.

A indignação é geral e a surpresa parece que também. Mas será que ninguém sabia? O site da Direção-Geral do Património Cultural não faz grande segredo disso:

Eventos permitidos; Banquetes, recepções, conferências, recitais de música ou poesia, lançamento de livros, actos solenes, actividades de índole cultural, mostras, exposições. Mediante consulta prévia e condições a acordar.”

Surpresa das surpresas, até estava no programa oficial da Web Summit, a mesma por onde andaram vários políticos – com e sem gravata – durante a semana passada. Ninguém autorizou, ninguém sabia, mas estava lá aos olhos de quem quisesse ver. No Expresso Diário de ontem, o tema dominou as colunas de opinião. Henrique Monteiro escreveu sobre matilha politizada e a reacção em carneirada a este caso, Daniel Oliveira criticou o pensamento dominante da rendibilidade e Nicolau Santos pôs lado a lado o caso dos velórios interrompidos e o jantar do Panteão.

Já o PSD decidiu deixar um interrogatório de 8 perguntas a António Costa sobre o que realmente sabia do assunto, principalmente depois de terem sido conhecidos vários outros eventos no Panteão. Que não é sequer o único local onde tais coisas acontecem. Como bem explicou o Rui Tavares no Público de ontem.


Nas vítimas do São Francisco de Xavier não há escritores nem políticos, fadistas ou futebolistas. Apenas 50 cidadãos anónimos apanhados por uma bactéria perigosa à solta na rua e num hospital público. E, como escrevia o Expresso no último sábado, só não foi pior porque o vento ajudou e empurrou-a para Monsanto. Mas são cinco mortos. Um é demais, cinco são muitos mais.

Não é por acaso que o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, aproveitou para pedir desculpa ontem no Parlamento onde esteve a apresentar o Orçamento da Saúde para 2018. E onde também anunciou mais dinheiro para os hospitais. Ficou também a saber-se que o governo foi buscar Maria de Belém, ex-ministra da Saúde, para rever a lei de bases da Saúde, escreveu ontem à noite o DN.

Se quer saber o que é a legionela e quais os seus sintomas, leia o guia que a Maria João Bourbon preparou no Expresso. É sempre útil. Mesmo que a bactéria apareça sem infetar ninguém, como aconteceu no centro de Saúde de Mangualde.

OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro

O caso Tecnoforma, que envolve Miguel Relvas e Passos Coelho, regressou à agenda mediática. Ontem o Público fazia manchete com o facto de o Ministério Público português ter arquivado o caso com um entendimento contrário à avaliação da Comissão Europeia que pede a devolução de quase sete milhões de euros em fundos. Passos Coelho ainda não se pronunciou. Já Relvas diz que é "malicioso" associar o seu nome a este caso que foi arquivado pelo Ministério Público.

Marcelo Rebelo de Sousa promulgou ontem o diploma com as medidas de apoio às vítimas dos incêndios de junho mas pediu a sua reapreciação, nomeadamente em relação aos feridos graves. Até porque é anterior à tragédia de outubro.

Os professores tem uma greve agendada para amanhã que, promete a Fenprof, será “a maior greve da década”. E os protestos vão continuar até ao final do primeiro período.

O BCP regressou aos lucros nos primeiros nove meses do ano. Menos provisões e melhor margem financeira ajudaram a compor as contas que já estavam positivas no final do primeiro semestre. Mas não vai distribuir dividendos.

O filho de um português que morreu no atentado de Paris, em 2015, esteve com Macron e recusou-se a cumprimentar o presidente francês. Acusa-o de esquecer as vítimas.

O casal de portugueses condenados em Timor-Leste fugiu de barco para a Austrália. A fuga tem tanto de potencial cinematográfico como de polémica diplomática. Augusto Santos Silva, no entanto, desvaloriza a polémica e recusa a possibilidade de um incidente diplomático.


O bebé que foi encontrado abandonado em Odemira acabou por morrer.

No rock, ontem o dia foi também de muitas notícias. O site da Blitz esteve frenético a anunciar novos concertos para 2018: Marilyn Manson, LCD Soundsystem e Iron Maiden. It´s only rock n´ roll (but I like it)!

Manchetes dos jornais: ”Casas de Lisboa e Porto estão a ser transformadas em apartamentos T0 e T1” (Público); “Professores: greve geral amanhã e protestos diários até final do primeiro período”(DN); “Diabetes: mais de 200 novos casos por dia”(JN); “Aumento máximo para 1,8 milhões de pensionistas” (Correio da Manhã); “Tensão na geringonça: Bloco e PCP apertam governo para dar mais direitos aos professores”(i); “Almofada da Segurança Social dispara” (Jornal de Negócios); “Bryan Ruiz: Perdoado”(Record); “Seferovic pronto para ir à luta”(A Bola); “Missão Óliver”(Jogo)

Lá fora

Donald Trump com Duterte nas Filipinas. Que dois. Nada como ver a canção que o durão Duterte ‘Harry’ dedicou ao presidente americano. Curiosamente, conta o Financial Times, os doze meses que se seguiram à eleição de Trump foram os menos voláteis nos mercados financeiros deste a década de 60. Precisamente após o assassinato de JFK. Vá-se lá perceber os investidores e os mercados.

A Itália está fora do Mundial-2018 depois de empatar a zero com a Suécia com quem tinha perdido por um golo na primeira mão. Há 50 anos que a squadra azzurra não falhava uma fase final. A Bola dá-lhe conta de tudo o que aconteceu e do desalento dos jogadores italianos no final.

O número de mortos do terramoto que assolou o Irão e o Iraque já leva mais de 400 mortos com o britânico The Guardian. O abalo de magnitude 7.3 na escala de Richter teve epicentro próximo da fronteira dos dois países e a última contagem aponta para 407 vítimas e 6700 feridos.

Os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros acordaram ontem dedicar mais recursos a vigiar e impedir a propaganda russa depois de ser cada vez mais clara a evidência de intervenção russa na crise da Catalunha.

A Standard & Poor´s colocou a Venezuela em default depois de o país ter falhado dois pagamentos de juros.

FRASES

Sabemos que vêm aí tempos melhores para a economia europeia. Mas os tempos melhores virão associados a um ciclo de taxas de juro mais elevadas”, Mário Centeno, ministro das Finanças, na conferência anual da Ordem dos Economistas sobre o Orçamento do Estado para 2018

Vamos deixar de ter primavera em Portugal, Pedro Matos Soares, Geofísico e investigador do projeto Cenários de Alterações Climáticas, desenvolvido na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

O QUE ANDO A LER

Vamos falar sem papas na língua sobre comércio internacional. Não é o título do livro mas é, pelo menos, o espírito que o seu autor Dani Rodrik, economista de origem turca e professor em Harvard nos EUA, lhe quis dar.

"Straight Talk on Trade - Ideas for a Sane World Economy” acabou de sair e vem com a promessa de abrir algumas mentes mais desconfiadas sobre um tema que, sendo intrinsecamente económico, tem fortes implicações políticas. E, claro, que se presta facilmente a utilizações populistas. Quando Donald Trump aponta baterias a fábricas de empresas americanas no México ou dispara contra a política cambial chinesa, é de comércio que está a falar.

Há muito que alguns dos ‘pais fundadores’ da Economia, como Adam Smith ou David Ricardo, defendem as virtudes da abertura das fronteiras ao comércio. Mas isso tem consequências e nem todas são boas, pelo menos para toda a gente. Reconhecê-lo não é defender o encerramento das fronteiras nem a autarcia.

É mais ou menos isto que Rodrik nos diz neste livro. A globalização e a abertura das fronteiras trazem ganhos mas estes ganhos são distribuídos de forma assimétrica pela população. Há quem ganhe e quem perca. Quando uma empresa norte-americana fecha uma fábrica nos EUA para produzir na China, os acionistas tem maiores lucros, os consumidores ganham porque podem comprar mais barato mas todos os que trabalhavam na fábrica perdem o emprego. É natural que o entusiasmo não seja idêntico.


Continue connosco no Expresso online e com os principais temas do dia às 18 horas no Expresso Diário. Tenha um excelente dia.

Partilhe esta edição