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Expresso

Ricardo Marques Jornalista

Na saúde, a doença

9 de Novembro de 2017

“Tenho sonhos cruéis; n'alma doente

Sinto um vago receio prematuro.

Vou a medo na aresta do futuro,

Embebido em saudades do presente...”

Bom dia,

Sabe aquelas gripes violentas que atiram até o mais forte dos humanos para a cama dois ou três dias? Toda a gente conhece a sensação, mas não haverá muitos capazes de descrever o preciso momento em que começaram a sentir-se mal – porque a partir daí é sempre a piorar.

Hoje acordei assim, ainda que perfeitamente saudável. A gripe que se adivinha é de outro, não é minha.

Já reparou que, tirando a Web Summit, andamos há três dias a falar de saúde e dos problemas dela?

Ontem, o dia começou com a notícia das dívidas a fornecedores e com a insuficiência do orçamento do ministério a Saúde. “A dívida aos fornecedores do Serviço Nacional de Saúde (SNS) já é superior a mil milhões de euros, referiu o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Jorge Simões.

À tarde, Simões voltou a ser falado. O bastonário da Ordem dos Médicos quer vê-lo fora do CNS, depois de o responsável ter admitido que algumas tarefas exercidas por médicos podem ser entregues a outros profissionais de saúde. O bastonário Miguel Guimarães não aceita e já avisou: ou sai Simões ou saem os médicos.

Ao início da noite, foi conhecida a adesão à greve dos médicos de ontem: 80% a 85% nos hospitais e 85% e 90% nos cuidados de saúde primários. O Diário de Notícias adianta hoje que mais de 100 mil doentes ficaram com exames adiados. Em simultâneo, soube-se da vontade de os médicos voltarem à greve antes do Natal.

Em fundo, claro, o surto de legionella no Hospital de São Francisco Xavier, que já não é apenas um problema de saúde pública e está mesmo a ganhar dimensão de problema político. Há 38 casos conhecidos, duas mortes e cinco pessoas internadas nos cuidados intensivos. À noite, na SIC Notícias, António Leitão Amaro, do PSD, deu mais um passo nessa direção ao referir, no debate com a bloquista Mariana Mortágua, na mesma frase o caso da legionella e o incêndio de Pedrógão (a sigla de que se fala agora não é SIRESP é SICO e está relacionado com o caso dos velórios interrompidos. Os funerais das duas vítimas serão realizados hoje de manhã.

E como se isto tudo não chegasse ainda houve um incêndio, sem gravidade, na Aula Magna do Hospital de Santa Maria.

Adalberto Campos Fernandes, o ministro que se tornou omnipresente nos noticiários, deve estar a sentir uma pequena impressão na garganta e um arrepio de frio. A gripe anda por aí.

OUTRAS NOTÍCIAS

Esta é fresquinha como uma manhã fria de outono: Nicolas Maduro anunciou durante a noite eleições presidenciais na Venezuela no próximo ano. Ou melhor, proclamou: "Em 2018, chova, troveje ou relampeie, teremos as eleições presidenciais, como manda a nossa Constituição, e confio no voto do povo, na sua consciência. Confio na democracia e na liberdade como valores supremos da nossa pátria”. Nada disse, ainda, sobre se se recandidatará

Conselho de Ministros daqui a pouco - começa às nove e meia, em Lisboa.

Meia hora depois, decorre no Parlamento a audição do Conselho de Finanças Públicas, de Teodoro Cardoso, no âmbito da apreciação na especialidade do Orçamento do Estado: não haverá provavelmente grande novidade no que vai ser dito, até porque já foi escrito.

O Expresso resume o OE em dois minutos e 59 segundos.

À mesma hora, a Comissão Europeia publica as previsões económicas de outono, que abrangem os anos de 2017, 2018 e 2019 e incluem dados sobre o crescimento do PIB, a inflação, o emprego… Pierre Moscovici, responsável pelos Assuntos Económicos e Financeiros, Fiscalidade e União Aduaneira, fala às 10h00 e este será certamente um dos assuntos da manhã. Mário Centeno disse há dias que estava muito otimista.

Já o ministro da Defesa está muito satisfeito. Azeredo Lopes encontra-se em Bruxelas, numa reunião com os seus homólogos da NATO, e contou aos jornalistas que o secretário-geral da organização se mostrou, também ele, satisfeito com os desenvolvimentos do caso de Tancos. E contou-o de forma eloquente.

"… Ainda há pouco, no fim da reunião, o secretário-geral veio falar comigo e especificamente dizer do contentamento dele por algo que não é muito comum, que é justamente, perante um roubo ou um furto grave de material militar, ter sido possível recuperá-lo (…) é esse aspeto que ele sobretudo destaca: que as instituições funcionaram e que foi restabelecida a segurança, no sentido em que tudo foi feito para que não houvesse consequências que pudessem resultar desse furto. É sempre importante verificar que, desse ponto de vista, foi restabelecida a dimensão de segurança, que é sempre posta em causa, evidentemente, qualquer que seja o furto de material militar".

Isto a propósito, como se lia há semanas nas notícias, do “material de guerra que foi encontrado em caixas deixadas escondidas num terreno a céu aberto na Chamusca”. A reunião em Bruxelas acaba hoje.

Ainda no capítulo de titulares de cargos políticos que se encontram ausentes do país em deslocação oficiais é provável que ouça falar de Ferro Rodrigues. O presidente da Assembleia da República está na Grécia e na agenda está um encontro com Alexis Tsipras, alguém de quem já pouco ouvimos falar – embora os temas de conversa por lá sejam ainda os mesmos (alívio da dívida, reformas, credores…).

Ao início da tarde, perto das duas, começa a leitura do acórdão do julgamento da Operação Fenix, em Guimarães. Entre os 57 arguidos estão o presidente do Futebol Clube do Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, e um administrador da SAD do Porto, Antero Henrique. O Ministério Público pediu a absolvição de ambos. No centro do caso está a empresa de segurança S.P.D.E., suspeita de fornecer serviços de segurança à margem da lei e de associação criminosa.

Outra história de que vai ouvir falar está na manchete do Público. “PGR arrasa decisão do Governo de Passos que custaria 42 milhões”. O caso envolve uma empresa de Carlos Pimenta, membro de um think thank liderado pelo então ministro do Ambiente, e uma autorização concedida a dois dias das eleições.

“Vai declamando um cómico defunto.

Uma plateia ri, perdidamente,

Do bom jarreta... E há um odor no ambiente

A cripta e a pó — do anacrónico assunto.”

Juro que não tem nada a ver. O poema é sobre outra invenção diabólica, e bem mais antiga, mas fica aqui bem porque vamos falar dessa espécie de Natal antecipado em que se transformou o Web Summit.

Acaba hoje, mas acaba em grande: com Al Gore (que o Expresso entrevistou na semana passada), a modelo Sara Sampaio e a atriz Rosario Dawson, além do resto.

Se já sente uma certa nostalgia, os meus parabéns. É definitivamente um cidadão deste novo mundo. Caso contrário… provavelmente somos apenas demasiado velhos para tanta novidade. Fazemos parte dessa espécie que, sem fitinha ao pescoço nem pulseira colorida, assiste, entre o maravilhado e o incrédulo, às notícias que chegam do Parque das Nações.

Ontem andava por lá a ser entrevistado um robot chamado Sophia, , a quem a Arábia Saudita concedeu a nacionalidade, e uma série de pessoas humanas (nunca, como hoje, fez tanto sentido escrever isto) a falar de carros voadores.

A ironia de tudo isto é que, à mesma hora, na rua, havia uma espécie de manifestação de condutores da Uber, Cabify e Chofer – as plataformas digitais que os taxistas odeiam – que se queixam de perseguição por parte da polícia. Estou quase disposto a apostar que, daqui a uns anos, no Web Summit de 2022, os homens do volante, uns e outros, farão novo protesto contra os carros voadores e os que não tem condutor.

A melhor notícia de ontem é que alguém subiu ao palco para garantir que os robots não vão roubar o trabalho às pessoas. Humanas. Desculpa ai, Sophia…

Numa cimeira em que tanto se tem falado de inteligência artificial, foi também possível ouvir ontem Brad Prascale, o diretor digital da campanha presidencial de Donald Trump.

Passou um ano e um dia desde aquele 8 de novembro de 2016. O mundo não acabou com Donald na Casa Branca – ainda que, por estes dias, ele esteja na China e a perder eleições em casa. Se está melhor ou pior? Decida. O New York Times foi falar com alguns dos eleitores que deram a vitória a Trump. Prefere ler algo a criticar violentamente o presidente? Está aqui. Um artigo que enumere todas as promessas por cumprir? Também temos. Os momentos mais marcantes? Por aqui, por favor. É um dos melhores presidentes de sempre? Claro que . Deus no céu e Trump na terra? Teremos sempre o Breitbart...

Já esta senhora ciclista que conduziu alguns metros só com uma mão no volante está garantidamente pior do que há um ano.

Na Catalunha, ninguém sabe se a situação melhorou, piorou, melhorou antes de piorar ou piorou antes de melhorar. Ontem foi dia de greve geral e hoje é dia de audiência de deputados regionais. São seis, entre eles a presidente do Parlamento da Catalunha, Carme Forcadell, e vão ser ouvidos em tribunal, em Madrid. Em causa estão delitos de delitos de rebelião, má gestão e outros relacionados com o processo da declaração unilateral de independência, proclamada após uma votação secreta no parlamento local.

No país do Brexit, há uma baixa no governo. A ministra para o Desenvolvimento Internacional, Priti Patel, encontrou-se várias vezes em segredo com dirigentes israelitas, na presença de um grupo de lobby pró-Israel. A senhora Patel encontra-se agora fora do governo de Theresa May.

Fernando Madureira, o líder dos Super Dragões, vai estar seis meses sem poder entrar em recintos desportivos. Promete recorrer.

Ou seja, assistir ao vivo ao Portugal – Arábia Saudita de amanhã está fora de questão (este jogo na semana em que vem a Portugal uma robot saudita deve ser só uma coincidência). Como a lotação está esgotada, e a receita reverte para as vítimas dos incêndios, o super-dragão pode sempre ver o jogo na televisão: há transmissão em direto nos três canais generalistas.

Gostou do Halloween? A sério? E que tal o thanksgiving? É aquele dia do peru assado que vemos nos filmes dos americanos. Tem aqui uma receita imperdível.

Bom, não é? E a qualidade da imagem? Se por acaso está a ler estas linhas no iPhone aproveite e descubra a história secreta dos offshore da Apple. É mais um capítulo dos Paradise Papers, a mega investigação jornalística à escala global da qual o Expresso faz parte e que está a deixar bastante nervosa bastante gente poderosa. No fim, claro, pagamos nós.

É provável que não conheça Andrew Cotton. É um surfista inglês de ondas grandes, presença habitual na Nazaré. E é também aquele minúsculo ponto preto a voar à frente da onda neste vídeo captado ontem na Praia do Norte. Uma bala no canhão.

Fica para último a notícia do início das comemorações dos 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha. É hoje no Porto. (a partir das 15h00 no Instituto D. António Ferreira Gomes, no Palacete Villar D'Allen). Lê-se na biografia que é considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa. Nasceu em Coimbra a 7 de setembro de 1867, morreu em Macau no dia 1 de março de 1926. São seus os dois poemas que recheiam este Expresso Curto (“Caminho” e “Fonógrafo”, por esta ordem).

Manchetes

Correio da Manhã: “General cobra luvas em dinheiro vivo”

JN: “Novos Multibancos à prova de bomba”

DN: “Apenas um terço das entidades do Estado revelam contas de 2016”

i: “Revolta de professores preocupa deputados do PS”

Visão: “Leonardo da Vinci, os segredos do génio”

Sábado: “As casas mais caras”

O QUE ANDO A LER

Foi anunciada ontem à noite queda do último bastião do daesh na Síria, a cidade de Albu Kamal.

Tinha acabado de espreitar este trabalho da Vice sobre a cidade de Alepo, uma série de postais de uma cidade destruída por anos de uma guerra cuja violência estamos longe, muito longe, de imaginar.

Ainda mais difícil de imaginar é que, durante todo esse tempo, uma menina de oito anos contava ao mundo através do Twitter o que via da janela. “Bom dia de Alepo. Ainda estamos vivas”, escrevia ela.

Bana Alabed tornou-se um sinal de esperança para centenas de milhares de pessoas que seguiam a sua conta. A escritora britânica J.K. Rowling era uma delas e, quando soube que a menina lia os seus livros para se distrair de destruição, enviou-lhe, em formato digital, as histórias de Harry Potter.

Foi publicado este mês “Querido Mundo, A História de uma Menina Síria Vítima da Guerra”, o livro escrito por Bana Alabed e que conta quatro anos de tweets numa cidade que a reportagem da Vice ajuda a descrever.

Tenho livro ao meu lado. Vou abrir uma página ao acaso, mas na parte que ainda não li.

“E depois foi como se alguém me tivesse dado um murro muito forte que me derrubou. Tudo ficou escuro e em silêncio, como se eu estivesse morta, mas ainda não estava.”

Há notícias às seis no Expresso Diário. A qualquer hora no site do Expresso. E mais um curto, o último da semana, amanhã bem cedo.

Tenha uma boa quinta-feira.

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