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Expresso

Donald Trump: 365 dias de inteligência artificial

8 de Novembro de 2017

E, no entanto, aconteceu.
Contra as previsões de todos os inquéritos, especialistas de sondagens e do comentário, jornalistas e colunistas não só de lá nem apenas daqui, mas de todo o lado, Donald Trump tornou-se o 45.º presidente do EUA. Foi a oito de novembro de 2016, há precisamente um ano, portanto, e a única pessoa com legitimidade certificada para dizer “eu tinha-vos avisado” não é humana – é o Homer.

Calha bem, tendo em conta que Donald Trump reabilitou a sua imagem junto de um público peculiar num reality show de televisão, passando de superempresário especialista em falências a patrão de aprendizes de entrepreneurs, e daí a candidato republicano às eleições presidenciais até chegar a President Of The United States of America.

Pois então, 365 dias depois da mais improvável história de uma eleição livre, ainda por cima num país que não só um país e sim a maior potência deste planeta, o que há para contar? Muitas coisas, é melhor segmentá-las em três gavetas: as que ele fez, as que ele não fez, e as que ninguém acreditava que faria e acabou por fazer.

Comecemos por estas últimas e pelo início, sendo que a rábula do número de pessoas presentes 24 horas após a tomada de posse foi o prenúncio de tudo o que viria depois. Se bem se lembram, Sean Spicer, já despachado, entretanto, acusou os media de falsearem e manipularem imagens. E isto é o quê? Fake News.

A partir daí, foi uma enxurrada: nomeou um diretor de um site de extrema-direita para estratega principal (Steve Bannon) e um analista pró-Nazi (Sebastian Gorka) para seu conselheiro de segurança - nota: já foram ambos afastados; despediu o diretor do FBI (Steve Comey) por se recusar a parar de investigar o conselheiro para a Segurança Nacional (Michael Flynn) que por sua estava metido com os russos, quando, na realidade, todos os que importavam ou passarinhavam à volta desta Administração estariam metidos com os russos numa conspiração internética para quebrar Hillary Clinton – além de praticarem outros crimes, como lavagem de dinheiro.

Os mais citados são Paul Manafort – em tempos, consultor de Mobutu Sese Seko, Ferdinand Marcos ou Viktor YanukovychRick Gates, Georges Papadopoulos e Jared Kushner, genro de Trump visado nos Paradise Papers por alegadamente ter recebido milhões de gente próxima de Vladimir Putin. Nesta categoria das coisas impensáveis, cabem ainda a gestão infantil e precipitada das tensões raciais em Charlottesville e da saída (reentrada?) dos Acordos de Paris e da UNESCO. Aposto que me estou a esquecer de alguns episódios, mas a Joana Azevedo Viana resumiu-o tudo aqui

Depois, o que Trump não fez e prometera fazer, e que ao prometer fazer lhe garantira votos: o tal muro na fronteira com o México, o fim da Obamacare e a reforma fiscal que beneficiaria sobretudo os mais ricos e os mais poderosos, onde ele e os seus amigos se incluem. Talvez por isso a sua taxa de aprovação esteja um nadinha mais baixa do que a medida politicamente saudável.

Finalmente, o que fez ele? Bom, aqui entramos num plano metafísico, porque a questão não é o que ele fez, até porque Trump não fez nada de verdadeiramente palpável e mensurável, mas o que ele representa. Provavelmente, Trump banalizou, normalizou e, no limite, tornou aceitáveis e toleráveis a inconsistência, o disparate, a irresponsabilidade nas redes sociais, as constantes (1) guinadas no discurso (2) e o vazio ideológico. Quantos de vós já pensaram “pronto, lá está ele outra vez”? É quando se deixa de levar a sério um tipo que está constantemente a mostrar quem manda e se torna uma caricatura de si próprio que isto se torna perigoso. Sobretudo, se o tipo em questão tiver o poder para decidir, pelo menos, a vida de 300 milhões de pessoas.

OUTRAS NOTÍCIAS
33 em cada um milhão de pessoas são assassinadas a tiro nos Estados Unidos da América e no fim de semana passado morreram 26 após o ataque a uma igreja no estado do Texas. Este trabalho notável do NYT desmonta algumas teorias e aponta para uma causa única: a relativa facilidade com que qualquer um pode comprar armas. Não é um problema de crime, raça ou de saúde; a culpa é da legislação que potencia uma cultura onde a posse de armas é encarada como um direito inalienável.

Num estado de direito no século XXI ainda se morre com surtos de Legionela dentro de hospitais públicos como o São Francisco de Xavier, que fica em Lisboa. Não lá em cima nem ao canto, no interior; é no centro, em Lisboa. A Ordem dos Médicos queixou-se há dias da falta de manutenção, ontem à tarde o Ministro da Saúde rejeitou essa teoria, e à noite a PSP foi recolher o “corpo de uma vítima mortal” para autópsia a meio do velório. “Dizer que é uma situação muito sensível é pouco e foi difícil de gerir. Foi desconfortável, mas teve de se cumprir”, disse a PSP.

Teodora Cardoso nunca sentiu desconforto em criticar publicamente A, B ou C, mesmo que C (de Centeno) seja um potencial candidato à presidência do Eurogrupo. É isto que transparece da análise do Conselho das Finanças Públicas ao Orçamento do Estado. O João Silvestre deu-lhe este título – “Os 5 puxões de orelhas de Teodora a Centeno” – e lá dentro há o seguinte item: “Contas para enganar Bruxelas no Saldo Estrutural”.

E foi por contas mal saldadas que 15 agentes das autoridades francesas e portuguesas estiveram na SAD do FC Porto. Em causa, a transferência de Lucho González para o Marselha, em 2009, por €18 milhões. A Tribuna Expresso escreveu sobre este caso, e também sobre o que se anda a passar na Web Summit.

Nos jornais de hoje,
O “Correio da Manhã” faz manchete com uma denúncia na PGR sobre o presidente do Sporting: “Intermediário pede dinheiro para Bruno” na transferência de Tanaka.
O “Jornal de Notícias” diz que a “Seca piora a qualidade da água do Douro” e a fotografia que ilustra a notícia é assustadora.
No “Público” fala-se de uma “suborçamentação crónica”: “Conselheiros do ministro da Saúde garante que faltam mil milhões no SNS”.
O “DN” titula: “Confusão na Força Aérea acaba em tribunal”, após a FA ter avançado com “cursos para o quadro permanente sem esperar que o governo dissesse o número de vagas

FRASES
Falo aquilo que penso e no futebol quando tu falas aquilo que pensas já és o bad boyRicardo Quaresma, jogador de futebol, em entrevista

Tentei falar com o presidente da Soares da Costa, que não me atendeu. Só depois procedemos à rescisão do contrato, avisando que procederíamos à ocupação do espaçoMário Ferreira, empresário, a propósito de uma “Monumental bronca com um hotel no Porto” que envolve a construtora, salários em atraso e uma manifestação laboral

Pessoalmente, acompanho o percurso da Obra [Opus Dei], e desta obra, há muitas décadas. Não quis o destino que partilhasse tão intensamente quanto algumas amigas e alguns amigos meus teriam gostado. Mas tenho, um pouco por toda a parte, muitas amigas e muitos amigos, parte dos quais aqui presentes, que continuaram essa caminhadaMarcelo Rebelo de Sousa

A Quantum Global foi selecionada pelo seu desempenho exemplar em mandatos anteriores com as autoridades angolanas, pela sua disponibilidade para executar programas de capacitaçãoComunicado do Fundo Soberano de Angola enviado ao consórcio ICIJ, do qual o Expresso faz parte, que investiga os Paradise Papers. Em causa, está a criatividade financeira do Fundo que terá usado as Ilhas Maurícias para negócios lucrativos

O QUE ANDO A LER
Como muito boa gente, devo ter visto duas mãos cheias de filmes produzidas por Harvey Weinstein sem saber quem era Harvey Weinstein. E agora que todos sabemos quem é Harvey Weinstein, ficamos surpreendidos por nunca termos sabido nada sobre Harvey Weinstein durante anos e décadas. Porque, enfim, o homem é corpulento e poderoso, perigosamente poderoso, e manipulador – e um predador. E Weinstein também é diligente e cínico, como mostra este artigo da “New Yorker” intitulado “Harvey Weinstein’s Army Of Spies”.

Sucede que este produtor tinha, digamos, avenças com agências de detetives privados - a Black Cube e a Kroll - para investigar as actrizes que o acusavam de violação e os jornalistas que iriam escrever sobre a mesmas. Rose McGowan, por exemplo, recebeu em casa uma detetive que se fez passar por advogada ativista que a espiou continuamente enquanto ganhava a sua confiança. O artigo discorre sobre os métodos de monitorização e de suave intimidação que desmonta a realidade de um mundo que vive da ficção realizada e patrocinada por homens como Weinstein.

Por hoje é tudo. Passe os olhos pelos sites do Expresso e da Tribuna Expresso, ouça o novo episódio do podcast Comissão Política ,e não se esqueça disto: os tweets de 280 carateres estão a chegar e Donald Trump estará por aí para vos relembrar que agora tem o dobro do espaço para se exprimir em banalidades.

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