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Expresso

Cristina Figueiredo Jornalista da secção Política

"Dizes que queres uma revolução...

7 de Novembro de 2017

... pois, sabes, todos queremos mudar o mundo" (Lennon/McCartney)

Sim, é a segunda vez que me socorro dos Beatles para abrir um Curto. Desculpem se repito a referência musical, mas hoje, 7 de novembro de 2017, a efeméride pede mesmo "Revolution" (o lado B do single "Hey Jude", de 1968): "You say you want a revolution, well, you know, we all want to change the world (...) You say you got a real solution, well, you know, we'd all love to see the plan". É que passam exatamente 100 anos sobre o dia em que o Partido Bolchevique de Lénine mudou o mundo, ao tomar de assalto o Palácio de Inverno (sede do Governo Provisório que sucedera à deposição do Czar Nicolau II, alguns meses antes) e instituir o primeiro regime comunista da história, uma "revolução " que, na descrição que se pode ler no site do PCP dedicado ao centenário, foi "a primeira e única a empreender com êxito a gigantesca tarefa de construir uma sociedade sem exploradores nem explorados, em que os recursos, os meios e os instrumentos do Estado e do país são postos ao serviço do povo" . A história, como bem sabemos, não foi exatamente assim, mas concedamos que esse era, com efeito, o ideal do regime teorizado por Marx e Engels.

E se a Revolução Russa não tivesse acontecido?, pergunta (e responde) Simon Sebag Montefiore, o historiador britânico, autor das biografias de Estaline (já distribuída pelo Expresso) e dos Romanov, num artigo de opinião publicado na edição de ontem do New York Times que vale a pena ler, porque nos obriga a pensar. Só para abrir o apetite fique com esta frase lapidar: "Sem Lénine não teria havido Hitler". Montefiore chama ainda a atenção para o curioso facto de o atual presidente russo, Vladimir Putin, não ter querido quaisquer celebrações da data histórica - algo de que também Miguel Sousa Tavares deu nota ontem, no seu comentário semanal na SIC, e que o Diário de Notícias aborda igualmente. Por cá, pelo contrário, o Partido Comunista Português não vê senão motivos para festejar e, depois de ter vindo ao longo do ano a celebrar o centenário com várias iniciativas, assinala o dia com um comício (com intervenção do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, e vários momentos musicais) sobre "Socialismo, exigência de atualidade e do futuro". É no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com início marcado para as 21h00. "You say you'll change the constitution, well, you know, we all want to change your head. You tell me it's the institution, well, you know, you'd better free your mind instead".


OUTRAS NOTÍCIAS,

CÁ DENTRO...


A Direção-Geral de Saúde confirmou que a legionella - que se crê ter origem no hospital S.Francisco Xavier - fez dois mortos (uma mulher de 70 anos e um homem de 77) e reviu para 30 o número de casos diagnosticados. Ao final da tarde, o Presidente da República pediu apuramento do sucedido. Ao início da noite, o Ministério Público garantiu que irá averiguar qualquer indício de crime que surja na recolha de elementos que está a fazer. "O que é a legionella, quem é mais suscetível, o que fazer, como prevenir?", para estas ou outras perguntas, tem aqui as respostas.

Impossível passar ao lado do evento da semana (senão mesmo do mês ou do ano?): "Desde o momento em que chega, ao momento em que parte, Lisboa é a web summit e a web summit é Lisboa", escreve o enviado do site Politico, Ryan Heath. Todos os sites e jornais trazem abundante noticiário sobre a cimeira da tecnologia que reúne, até quinta-feira, mais de 60000 pessoas no Parque das Nações (e no rebatizado Altice Arena) para falarem e ouvirem falar do futuro. Mas se só tiver tempo (ou paciência) para ler um texto, leia este do acima citado Ryan Heath. "O meu reino por um unicórnio", intitula-se o artigo, escrito num registo entre o divertido e o sarcástico (pensando melhor, mais este do que aquele), que resume assim o que se passa por estes dias na nossa capital: "Tecnologia e política colidem numa orgia de entusiasmo digital". Se quiser saber o que disseram ontem, na abertura, Stephen Hawking e António Guterres, é só clicar nos respetivos nomes. António Costa, que também falou na conferência (tirou a gravata - para não destoar do casual look reinante - e colocou-a ao pescoço de Paddy Cosgrove, o CEO da web summit), aproveitou para anunciar um "visto rápido" para investidores que decidam apostar as fichas em Portugal. Até porque Portugal é "um ótimo sítio para se investir" jura o primeiro-ministro.

O caso Urban Beach continua a dar que falar. O Diário de Notícias conta hoje que "processos em tribunal não retiram licenças a seguranças". A lei está feita de maneira que queixas na PSP, reincidências no crime de agressão ou processos em tribunal não evitam que um segurança continue a exercer a profissão, nem a empresa fica sem alvará por casos de justiça que envolvam os seus trabalhadores. O governo admite alterar a lei, dizendo que as questões estão em análise. O Conselho de Segurança Privada foi convocado para uma reunião na sexta-feira. O tema é ainda tratado com destaque pelo Correio da Manhã e pelo jornal i.

Ainda os incêndios do verão. O Público revela que a Autoridade Nacional para a Proteção Civil tinha adquirido há dois anos um software para monotorizar o SIRESP que nunca foi utilizado porque... a secretaria-geral do ministério da Administração Interna (SGMAI) nunca lhe entregou a licença de utilização, nem mesmo depois de Pedrógão (quando o último pedido foi feito). O dito software "tem como função monitorizar em tempo real a cobertura da rede SIRESP, oferecendo dados técnicos que ajudam na tomada algumas decisões operacionais no combate aos incêndios, como por exemplo na instalação dos postos de comando ou no pedido e instalação das antenas móveis do SIRESP, em zonas que garantam melhor cobertura". A pergunta é óbvia (e terrível): e se o sistema estivesse a funcionar antes do fatídico 17 de junho?

Mário Centeno ainda não é formalmente candidato mas, oficiosamente, já se posiciona há meses para ser o próximo líder do Eurogrupo. A Bloomberg já fez uma short list que inclui o ministro das Finanças Português, segundo o jornal online Eco. Para lá chegar "só" tem de convencer a Europa que tem melhores condições para o exercício do cargo do que os seus homólogos francês, luxemburguês, italiano e eslovaco, também putativos candiatos.


... E LÁ FORA

Depois da Rainha de Inglaterra, é Lewis Hamilton que é apanhado nas malhas dos Paradise Papers. O campeão de Fórmula 1 comprou um jato de 27 milhões de dólares e conseguiu recuperar o IVA com a ajuda de uma sociedade de advogados especializada em offshores, revelam os documentos consultados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, de que o Expresso faz parte. Os esquemas de fuga ao fisco, através dos chamados paraísos fiscais, ficamos a saber (caso não desconfiássemos já), são usados por tutti quanti: de Donald Trump ao seu secretário do Comércio Wilbur Ross, de Isabel II ao principe herdeiro da Arábia Saudita, de Justin Trudeau (o primeiro-ministro do Canadá) a Madonna e, sim, também tu Bono? Mal comparado, o escândalo começa a parecer-se com o das acusações de assédio sexual que, por estes dias, dominam o noticiário sobre o mundo das artes: depois do tufão de revelações, sobrará alguém com a reputação intocada?

O presidente destituído da Generalitat da Catalunha, Carle Puigdemont, que se entregou no domingo após a emissão de um mandado de captura internacional em seu nome, está "livre". Mais ou menos: até os tribunais se pronunciarem, tem liberdade de movimentos, dentro da Bélgica, mas terá de apresentar-se nas autoridades belgas sempre que estas o solicitarem. Entretanto, hoje (dia em que termina o prazo para a apresentação de listas candidatas às eleições de 21 de dezembro), duas centenas de presidentes de Câmara catalães viajam até Bruxelas para fazer o ponto da situação na Catalunha às autoridades europeias. Segundo o diário online El Español, o Governo espanhol quer que Puigdemont pague do seu bolso todo o dinheiro público que a Autonomia gastou na realização do referendo de 1 de outubro.

Os jornais norte-americanos continuam a dar amplo destaque ao caso do atirador que, no domingo, matou 26 pessoas que participavam numa missa no Texas. Sabe-se agora que Devin Kelley, um ex-militar da Força Aérea, já tinha um cadastro de violência doméstica, o que lhe deveria ter tornado impossível aquisição da arma com que disparou no domingo. A Força Aérea assume a falha. E este assassínio em massa é pretexto para um editorial do New York Times a tomar posição contra a venda livre de armas: "Há uma previsibiidade nauseante nos assassínios em massa que regularmente horrorizam a nação", escreve o jornal.

Ainda nos EUA, é notícia em todos os principais orgãos de comunicação social: uma mulher de 50 anos, Juli Briskman, ia de bicicleta por uma estrada da Virgina quando foi ultrapassada por uma caravana de automóveis, entre eles aquele onde seguia Donald Trump. Ela não resistiu a mostrar-lhe "o dedo do meio", alguém fotografou o momento, a imagem tornou-se viral e ela (que usou a foto no seus perfis nas redes sociais)... foi despedida da empresa onde trabalhava.


AS MANCHETES DOS DIÁRIOS

"MAI comprou há dois anos sistema para vigiar SIRESP que não usou", Público

"Processos em tribuna não tiram licença a seguranças", Diário de Notícias

"Polícia romena ajuda PSP a apanhar carteiristas", Jornal de Notícias

"Polícia diz que não vai reforçar segurança à noite", i

"Discotecas reféns da Máfia da noite", Correio da Manhã

"Imóveis pagos em notas vão chegar ao fisco", Jornal de Negócios

"Uma honra igualar Eusébio", A Bola

"Em pé de guerra", Record"

,"Soares para as decisões", O Jogo


O QUE ANDO A LER E A VER


Tenho de confessar que ainda não consegui acabar de ler "Anna Karenina". Faltam-me pouco mais de cem páginas, que hei-de terminar por estes dias, quanto mais não seja embalada pelo contexto do centenário da Revolução (que Tolstoi já parecia antever, retratando a decadêndia da nobreza russa ao mesmo tempo que dava conta da subtil afirmação do campesinato). Entretanto deixei-me conquistar por outra leitura: "Societé et politique", diálogos do sociólogo francês Dominique Wolton com o Papa Francisco. O livro (por enquanto ainda não traduzido para português) resultou de doze encontros entre ambos, que tiveram lugar no Vaticano ao longo de ano e meio. Tenho particular curiosidade na dimensão política deste Papa que, e não é preciso ser católico para o afirmar, está indiscutivelmente a desempenhar um papel importantíssimo (revolucionário, sob alguns aspetos) no mundo (não apenas na Igreja). Despretensiosa e ritmada, a obra faz-nos sentir como se estivéssemos sentados no sofá a assistir à longa conversa por onde passam algumas das mais interessantes questões da atualidade: o poder do dinheiro, o rumo da Europa, os migrantes, a urgência do diálogo interreligioso, a política como exercício de proximidade (faz-me lembrar alguma coisa...).

No mês passado escrevi o Curto em véspera de ir assistir à peça em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II e a circunstância repete-se (juro que não faço de propósito): amanhã, vou até ao Rossio ver "Sopro"- em cena desde dia 2 e até dia 19 -, um texto original do Tiago Rodrigues (o diretor do TNDM), que também encena. Não posso fazer a crítica por antecipação, mas pelo que conheço dos seus trabalhos anteriores ponho, sem hesitar, as mãos no fogo. Este é uma homenagem a todos os que habitualmente não se vêem da plateia mas são essenciais para que o espetáculo aconteça (o que é, ao fim e ao cabo, uma metáfora da vida), na figura de Cristina Vidal, 61 anos, um dos dois únicos pontos profissionais que ainda existem em Portugal. Pela primeira vez em 39 anos de carreira, Cristina é ela própria protagonista de uma peça que, ainda assim, continua a "soprar" aos atores que com ela partilham a ribalta. Se quiser ter um vislumbre do que se trata é ler e ouvir este trabalho das minhas colegas Marta Gonçalves e Joana Beleza.

Porque o mundo é pequeno, o Tiago Rodrigues dá-me o pretexto para lhe dar mais uma sugestão de ida ao teatro. Ele foi o primeiro encenador a trabalhar, em 2011, com a Companhia Maior - que reúne cerca de duas dezenas de atores profissionais com a particularidade de serem todos "maiores" de 60 anos. Todos os anos, desde então, a Companhia Maior sobe ao Pequeno Auditório do CCB com uma peça, sempre dirigida por alguém diferente. E todos os anos eu estou lá a assistir. A produção deste ano estreia dia 18 e estará em cena até dia 21. Chama-se Humor Maligno, um texto de Pedro Penim (que também encena) e de Hugo van der Ding (o autor dos célebres sketchs da "Criada Malcriada"). No descritivo da peça escreve-se: "Em 1939, um ano em que parecia que ninguém queria / podia rir, André Breton publicou a primeira versão da Antologia do Humor Negro, cunhando assim um termo que permite que nos riamos da desgraça dos outros (da desgraça, ponto), dando a experimentar a gargalhada e o desconforto, muitas vezes em simultâneo.Rir dói. E é isso o Humor Maligno. É o humor do calabouço". Promete.

E o Curto fica por aqui, ao contrário das revoluções que seguem caminho, imparáveis, por esse mundo fora, em ritmos diferentes consoante a latitude. Se não lhes quiser perder o rasto é "ligar-se" ao site do Expresso e, ao final do dia, ao Expresso Diário. É que, como diz o provérbio (e até domingo,Tavira é a capital mundial da paremiologia, reunindo investigadores, professores, estudantes e adeptos da paremiologia - estamos sempre a aprender! - no Colóquio Interdisciplinar sobre Provérbios), "as palavras voam, a escrita fica".

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