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Expresso

Valdemar Cruz Jornalista

O Diabo das pequenas coisas

3 de Novembro de 2017

No Concílio de Toledo, realizado no século IV, os poucos bispos presentes ousaram, pela primeira vez, descrever a figuração do diabo. Apresentaram-no como um ser composto por chifres, pele preta ou avermelhada, com rabo e portador de um tridente. Mais tarde, em 1215, o concílio de Latrão, determinou que o diabo e os demónios eram criaturas criadas por Deus. Tanto quanto se consegue perceber, a existência do diabo jamais foi negada por qualquer Papa ou Concílio. Logo, estamos na presença de um dogma de fé, mesmo se já distante da visionária descrição dos bispos de Toledo. Aqui chegados, será do domínio da adivinhação saber se quando Passos Coelho introduziu a hipotética chegada do diabo no discurso político, o fez por uma questão de fé, ou tão só como muleta retórica. A verdade é que, desde então, o diabo, que não chega, mas anda por aí, tem perseguido o PSD, como o demonstrou ainda ontem o Primeiro-ministro durante a primeira parte da discussão do Orçamento de Estado para 2018. Costa foi implacável, ao responder a um deputado do PSD. Assegurou que “o diabo não está cá, os resultados são bons e o PSD não consegue esconder a sua frustração”.

Se o diabo está nos detalhes, deve assumir-se que anda por aí. É omnipresente, como decorre do seu estatuto. Afeta a todos, mesmo a quantos o invocam para apoucar o adversário. Eça de Queirós escreve, a abrir o conto “O Senhor Diabo”, que “o diabo é a figura mais dramática da história da alma. A sua vida é a grande aventura do mal”. A discussão de um Orçamento do Estado (OE), como a ontem iniciada, com continuação marcada para as 10 horas da manhã de hoje, é o espaço onde é possível encontrar toda a ideia de mal e o seu contrário. Depende dos olhos de quem olha.

Para o PS, o Governo e os partidos que lhe dão suporte parlamentar, PCP e BE, a proposta de OE pode ser caracterizada
por um desagravamento generalizado do IRS, por um aumento das pensões e pela concessão de novos apoios ao investimento por parte das empresas. Decorre daqui que serão mais os trabalhadores isentos de IRS, com a alteração dos escalões a beneficiar quem tem salários mais baixos. Todos os pensionistas que ganham até 588 euros mensais terão um aumento superior ao previsto na lei. As carreiras dos trabalhadores da Administração Pública vão ser descongeladas em Janeiro. Metade do aumento salarial é concretizado em 2018, a outra metade em 2019.


Ou outro olhar, lançado pelo PSD através de Maria Luís Albuquerque, constata o falhanço do documento “em todos os domínios para uma trajetória estrutural”, não obstante uma conjuntura internacional favorável. Com o Estado a apropriar-se de cada vez mais recursos, o OE, sublinha a deputada “desconsidera as empresas” e desencadeia um aumento dos impostos. Além disso, acentua, prossegue uma austeridade encapotada, em que o Governo finge que não corta, e o PCP e o Bloco fingem que não veem”. É o diabo nas suas múltiplas vertentes. Seja como anjo das trevas, seja como mafarrico.

O dianho manifesta-se ainda em detalhes como os apontados por João Almeida, do CDS, ao frisar que este “não é um Orçamento sério. Orçamenta despesa a mais e executa receita a menos”.

O excomungado revela-se, até na apreciação feita pelos partidos que viabilizam o Orçamento. Não por acaso, Pedro Soares, do BE, chamava a atenção para algumas limitações e contradições do Governo do PS, como a não resolução do problema dos recibos verdes, e afirma que o BE não desistirá da sua proposta de renegociação da dívida. Paulo Sá, do PCP, chamava a atenção para o que poderá vir a ser, a prazo, o calcanhar de Aquiles desta espécie de maioria. É que, disse, o PS “impõe a si próprio espartilhos” vários, seja por vontade própria, seja para seguir os ditames da EU. O resultado é a incapacidade de tocar em questões fundamentais como as leis do trabalho ou dar passos decisivos no investimento público. E, isso, um dia vai fazer toda a diferença. Mas o debate ainda vai a meio e a grande Arundhati Roy vai desculpar o trocadilho deste Curto, muito devedor do seu “O Deus das pequenas coisas”. É que com Deus ou com o diabo, o importante são os pormenores.

OUTRAS NOTÍCIAS

Os homens continuam a ganhar mais que as mulheres. Os mais recentes dados relativos às remunerações médias da população trabalhadora revelam que homens e mulheres passaram a ganhar mais, mas permanece inalterada a desigualdade de género em matéria salarial. A remuneração média mensal de base das mulheres situou-se nos €825 e a dos homens nos €990, diz a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego.

O Ministério Público está a investigar os episódios de violência ocorridos na madrugada de quarta-feira à porta do Urban Beach, em Lisboa. Um vídeo posto a circular nas redes sociais mostra vários seguranças daquele estabelecimento de diversão noturna a bater em dois rapazes. Multiplicam-se os relatos na internet de violência extrema na discoteca. Em português, mas também noutras línguas, sucedem-se os relatos de agressividade por parte dos funcionários e, em alguns casos, os testemunhos falam mesmo em cenas de violência. Em 2014, Nélson Évora foi vítima de racismo à entrada

Em entrevista ao Diário de Notícias, o Ministro da Agricultura, Capoulas Santos, admite que pode haver uma corrida à plantação de eucaliptal até fevereiro do próximo ano. Assegura, porém, estar apenas a cumprir a lei e nada poder fazer contra isso. Capoulas Santos remete para o Parlamento a decisão de adiar até 2018 a entrada em vigor da nova legislação que vai substituir a lei aprovada no tempo de Assunção Cristas.

A tragédia ocorrida com os incêndios continua a proporcionar novas revelações. Agora é o Público a assegurar que “falharam 537 chamadas na hora fatídica em Pedrógão Grande”. O registo hora a hora das falhas do SIRESP mostra que as duas antenas que estavam operacionais na zona do incêndio às 20h não aguentaram as comunicações.

As catástrofes naturais já custaram €571 milhões às seguradoras nos últimos dez anos em Portugal. Segundo o DN, as indemnizações previstas para cobrir os danos provocados pelos últimos incêndios são 1/3 das pagas na última década.

O Guimarães venceu o Marselha por 1-0 na quarta jornada do Grupo I da Liga Europa e continua a sonhar com a continuidade na prova. Foi um jogo em que o impensável aconteceu. 25 minutos antes do início da partida, uns 500 adeptos franceses invadiram o relvado e começaram a agredir alguns dos jogadores do Marselha. O Sporting de Braga empatou 1-1 na Bulgária e está agora mais perto dos quartos-de-final da Liga Europa.

LÁ FORA

Na Catalunha, é o diabo. Anda à solta, num espaço em que parecem estar a soltar-se todos os demónios. Metade do Governo foi mandado para a cadeia, com a juíza responsável pelo processo a ordenar prisão efetiva enquanto decorre a investigação. Puigdemont continua em Bruxelas e o que fará de seguida continua a ser uma incógnita. Espanha está com um problema terrível e uma questão começa a colocar-se. Os governantes presos são meros delinquentes, ou a sua prisão decorre de um delito de opinião? E isso é aceitável na União Europeia? E as eleições na Catalunha vão decorrer com todos aqueles políticos e possíveis candidatos presos? Entretanto, o governo de Mariano Rajoy deverá oficializar o mandado de detenção europeu contra Puigdemont, que exigiu a libertação dos membros do antigo Executivo autónomo.

Em Angola, o presidente João Lourenço “mexeu” na presidência da Empresa Nacional de Diamantes de Angola (Endiama). Exonerou Carlos Sumbula das funções de presidente da empresa diamantífera quatro meses depois de ter sido reconduzido para um novo um mandato de cinco anos pelo antigo presidente, José Eduardo dos Santos.

Em Berna, na Suíça, pode ver-se pela primeira vez uma exposição de “arte degenerada”, assim classificada pelos nazis e proibida por Adolf Hitler. As obras de artistas da vanguarda alemã dos anos 20 e 30 fazem parte da coleção Gurlitt apreendida há 5 anos num apartamento de Munique. As pinturas, litografias e desenhos tinham sido retiradas dos museus alemães para serem destruídas. Acabaram por ser adquiridas pelo colecionador Hildebrand Gurlit, cujo filho, no seu testamento, tinha legado a coleção ao museu de Belas-Artes de Berna.

O que acontece quando um artista decide abdicar da cor e foca a sua atenção no poder do preto, do branco e todos os matizes que possam estar no meio? Para dar resposta a essa questão está agora em Londres, na National Gallery, a exposição “Monochrome: Painting in Black and White”. É possível ver trabalhos de grandes mestres, como van Eyck, Albrecht Dürer, Rembrandt ou Dominique Ingres ao lado de artistas contemporâneos, como Gerard Richter, Bridget Riley

AS PRIMEIRAS PÁGINAS

Novo concurso dá última oportunidade a precários ignorados por chefes – Público

Mais de 80% dos terrenos rurais estão sem cadastro – JN

PSP chamada à Urban só registou agressões depois de vídeo ser público – DN

Costa trava ataque aos recibos verdes – Correio da Manhã

Lesados da PT já estão a receber - Negócios

“Título tem de ser esta época” (Danilo) – O Jogo

Sporting – Pity e Pavón voltam ao radar – A Bola

“Vieira fez-nos aprender nos momentos maus” (Rui Costa) - Record

FRASES

“É a terceira proposta apresentada por esta maioria e não está prevista a restruturação da dívida pública. Ainda bem. Infelizmente, não conseguimos encontrar mais pontos positivos”. Maria Luís Albuquerque, deputada do PSD

“Foi-se gerando a impressão de que este seria o Orçamento de um mar de rosas. É um Orçamento de habilidosos, dos truques”. Assunção Cristas, presidente do CDS

“Este não é o Orçamento da Rainha Santa, por isso não é um Orçamento só de rosas”. António Costa, Primeiro-ministro

“Chamam servir clientelas a recuperar salários e pensões. Não nos meçam pela vossa bitola”. Catarina Martins, coordenadora do BE em resposta ao PSD e CDS-PP

“O diabo não está cá, os resultados são bons e o PSD não consegue esconder a sua frustração”. António Costa, Primeiro-ministro

“Sendo hoje dia de finados, não estranhamos que o PSD e o CDS tenham trazido uma homenagem à sua política de cortes, empobrecimento e exploração”. João Oliveira, chefe da bancada parlamentar do PCP

“Os jornalistas só se indignam com o Sr. Orban ou a esquerda na América Latina. Quando são os judeus, não se vê grande sururu”. André Freire, politólogo, professor do ISCTE em entrevista ao Expresso Diário

“”Envergonha-me que no meu país se prendam opositores”. Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos a propósito da prisão da prisão de oito membros do destituído Governo da Catalunha

O QUE ANDO A LER E A VER

As narrativas históricas são por sistema moldadas pelos parâmetros ideológicos dos vencedores. Por vezes surgem, porém, outras visões, outras leituras capazes de proporcionarem uma visão diferente sobre acontecimentos que nos marcam de diferentes maneiras.

É o que sucede com o ambicioso projeto concretizado pelo catedrático catalão Josep Fontana, intitulado El Siglo de la Revolución. Una historia del mundo desde 1914. (Aqui as 30 páginas iniciais do Capítulo I). Em 800 páginas ancoradas num sólido trabalho, de leitura muito fluida, Fontana procede a uma desmontagem do edifício ideológico patente na historiografia dominante. Constrói, desse ponto de vista, uma versão alternativa da história do mundo desde o início da I Guerra Mundial (1914), até o final de 2016. Abrange todo um período de lutas de libertação, de confrontos de classe e permanentes ameaças da ordem estabelecida. A primeira e intensa metade do século XX ocupa os seis capítulos iniciais. As décadas seguintes (a partir de 1945) vão ocupar os restantes 11 capítulos. É, em grande parte, o tempo da “Guerra Fria”. São os anos durante os quais Fontana defende ter começado “uma nova ordem mundial”, marcada pela hegemonia dos EUA, primeiro em constante competição com a URSS, depois numa situação de terreno livre de qualquer rival. (Último capítulo aqui).

Fontana sustenta que após a derrota do fascismo, os progressos do estado social cumpriram a função de servir como antídoto contra a penetração dos ideais comunistas no chamado mundo ocidental. Assim é alcançada a excecional situação dos anos que vão de 1945 a 1975, quando nos países desenvolvidos se registaram os maiores níveis de igualdade até então conhecidos, e se reforça a esperança num mundo de progresso contínuo em que os grandes objetivos sociais dos revolucionários poderiam alcançar-se pacificamente pela via da negociação.

Sabe-se o que aconteceu, com a desmobilização e consequente derrota de importantes setores do movimento operário.

O desmembramento do bloco soviético, escreve Fontana, induziu a ideia de que o comunismo deixara de ser uma ameaça para o mundo capitalista, e daí decorreram mudanças radicais no estado social, nas leis do trabalho, nas relações sociais, com a abertura de caminho “à reconquista do poder pelas classes dominantes”, com a promessa de que viria a caminho uma nova era de progresso e igualdade.

Num outro registo, vi há dias o imperdível e muito premiado documentário “O Sal da Terra” (aqui), sobre a vida e a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. São quase duas horas de viagem através das fotografias e as, por vezes belas, por vezes perturbantes, histórias nelas contidas.

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