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Expresso

João Vieira Pereira Diretor-Adjunto

Dizem que é uma espécie de independência 

11 de Outubro de 2017

Por 56 segundos a Catalunha foi independente. Depois da declaração formal da constituição da república da Catalunha e a imediata euforia nas ruas, veio a expressão “suspensa” e o desalento. Tudo para que nas próximas semanas seja possível dialogar. A tática, a mesma usada pela Eslovénia quando declarou a sua independência, é a de ganhar tempo. Mas as circunstâncias eram então muito diferentes.

O mais provável é que poucos reconheçam a declaração de independência assinada (que pode ler aqui em Espanhol). Vários países fizeram saber que não vão reconhecer a república da Catalunha. Além da posição oficial da União Europeia, Estados Unidos, França, Itália, e México foram os primeiros a dar o apoio ao Estado de direito em Espanha.

E se de fora vieram más notícias, de dentro também. O partido de esquerda radical e independentista CUP já avisou que a suspensão da independência é uma traição inadmissível por parte de Puigdemont.

À hora que envio este Expresso Curto o Governo espanhol está reunido para preparar a resposta. As soluções a adotar, num conselho de ministros extraordinário, terão sido negociadas com Pedro Sanchez, líder do PSOE, e Albert Rivera, dos Ciudadanos.

Mariano Rajoy tem à sua disposição uma série de medidas coercivas para obrigar a Catalunha a recuar. O mais provável é usar o já famoso artigo 155 da Constituição espanhola. Se for esse o caso, poderão ser dados 3 dias a Puigdemont para voltar atrás, findos os quais Rajoy pode decretar o controlo de algumas ou mesmo de todas as competências do Governo da Catalunha.

Há outras soluções mais drásticas mas, qualquer que seja a escolhida, uma coisa é certa, a decisão de ontem lançou a Catalunha, e toda a Espanha, num perfeito estado de confusão e incerteza. Isso mesmo defendem os editoriais do El Mundo e do El País.

Por cá, continua a contagem decrescente para o Orçamento do Estado. Hoje, o Governo deverá apresentar aos partidos as linhas gerais do documento. Mais pensões, mais progressões, menos impostos. O Governo vai cedendo ao PCP e ao Bloco. Sempre na mesma direção, menos receita e mais despesa.

Só havia €200 milhões para o IRS e pouco mais do que isso para o descongelamento das carreiras. De um momento para o outro, há mais de €400 milhões para baixar impostos e muito mais do que isso para progressões. Sexta feira saberemos como, e quem, pagará isso tudo.

Os jornais de hoje escrevem que o investimento público no próximo ano será o mais baixo da Europa e inferior ao de 2015 (Negócios), que os salários até 670 euros ficam isentos de IRS (Público) e que quem ganha até 1785 euros vai pagar menos impostos (Correio da Manhã).

Com Madonna nas bancadas, Portugal está na Rússia. Depois de começar um apuramento com uma derrota contra a Suíça, carimbou o passaporte com uma vitória sobre a Suíça. Valeram os muitos golos marcados e os poucos sofridos. OS EUA estão fora do Mundial, depois da surpreendente derrota por 2-1 perante Trinidad e Tobago. A Argentina dentro, com três de Messi.

“Hoje é um dia de boas notícias. Portugal ganhou e eu sou candidato à liderança do PPD/PSD”. O tabu durou muito pouco tempo. Ontem de manhã o Expresso tinha noticiado que o ex-primeiro ministro era candidato à liderança do PSD. À noite, na Sic Notícias, Santana mostrou as cartas. Até já se demitiu da Santa Casa da Misericórdia, instituição a que preside. Recusa-se a ser visto como um candidato de transição e o seu objetivo, além de ganhar as primárias, passa por impedir uma maioria de António Costa em 2019.

Sobre Santana, há uma pergunta não consigo deixar de fazer: Porquê? A resposta mais verosímil pode ser ouvida aqui, no último podcast do Expresso, Comissão Política.

OUTRAS NOTÍCIAS
O FMI deu razão ao Governo ao rever o crescimento da economia portuguesa para 2,5%, longe dos 1,7% antes esperados. Portugal é a quinta economia com maior salto na previsão de crescimento estimada pelo Fundo. Mesmo assim, o PIB português ainda está longe do pelotão da frente, onde há 11 países da União Europeia que vão crescer mais de 3%.

A ERC deverá chumbar a compra da TVI pela Altice. Ou pedir remédios. Ou decidir que não decide. Ou defender que a sua decisão para nada serve. Confuso? Vamos lá tentar explicar uma embrulhada que em nada dignifica o regulador da comunicação social. Sabemos que existe um relatório técnico que diz que negócio TVI/Altice é suscetível de criar entraves sérios em matéria de pluralismo e diversidade no mercado de media português. Perante tal relatório a ERC deverá mesmo dizer não. Pedir medidas para diminuir esses entraves pode ser hipótese mas nem todos os membros da ERC estão de acordo. Pelo que pode nem haver deliberação. E para lançar ainda mais confusão surge agora a hipótese de o parecer, que era vinculativo, já não o ser. Começa a parecer que se preparar algo à medida de alguém.

Já há relatório da comissão parlamentar de inquérito sobre a gestão de António Domingues na Caixa. E o que diz? Que foi o gestor que percebeu tudo mal. “A saída de António Domingues deriva não de qualquer aspeto relacionado com a administração da Caixa Geral de Depósitos, uma vez que todos os objetivos a que se propunha haviam sido alcançados, mas sim de questões de relação com o acionista construídas com base em pressupostos que o próprio julgava por adquiridos, face ao entendimento que fazia do alcance da alteração do Estatuto do Gestor Público”. Acredita quem quer.

E já que estamos nesta onda, nota para o facto da China Three Gorges ter afirmado que “não está envolvida em qualquer tipo de discussão, com nenhuma parte, sobre potenciais alterações nos órgãos sociais relevantes da EDP para o próximo mandato". Isto depois de o Expresso ter noticiado que os chineses procuram alternativa a Mexia para liderar a EDP.

O PSD está disposto a ajudar o Governo a garantir que é possível avançar com a criação das entidades de gestão florestal, um dos pontos fundamentais da reforma florestal.

À semelhança de Portugal, a Califórnia arde todos os anos. Uma nova onda de fogos florestais já fez 17 vítimas mortais e obrigou à retirada de milhares de pessoas. Há mais de 100 pessoas desaparecidas e 2 mil casas e empresas destruídas. As imagens são impressionantes e os relatos de quem regressa aonde o fogo lhe roubou tudo são dramáticos.

Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow estão entre as muitas atrizes que dizem ter sido assediadas pelo produtor de cinema Harvey Weinstein. Estas novas revelações aparecem depois de a investigação do New York Times ter acusado Weinstein de ter pagado a pelo menos oito mulheres para que não o processassem, depois de terem sido vitimas de assédio sexual e contacto físico não desejado. A The New Yorker vai mais longe e publicou, esta terça-feira, a sua investigação ao caso onde três mulheres acusam o famoso produtor de violação.

E agora no cantinho Trump, que não podia faltar, o Presidente norte-americano desafiou o seu secretário de Estado para compararem testes de QI. Isto depois de ter sido noticiado que no verão, ao ameaçar demitir-se, terá dito ao vice-presidente Mike Pence que Trump era um “idiota”. E na questão dos insultos não perca este teste para saber se Trump já o insultou. Sim a si!

A rica e influente família Gupta está no centro de um escândalo de corrupção que lançou a África do Sul numa grave crise política. Além do envolvimento do Presidente Zuma, o escândalo apanhou também a KPMG, a McKinsey e a SAP.

FRASES
“O Brexit não é um jogo” — reação de Michel Bernier, negociador chefe da UE, depois de Theresa May ter afirmado que o Governo britânico se estava a preparar para um falhanço das negociações. Bernier já tinha avisado que um cenário de não acordo deixava na incerteza 4 milhões de cidadãos, problemas de fornecimento ao Reino Unido (incluído a suspensão de material nuclear), introdução desordeira de fronteiras e problemas no tráfego aéreo.

"Não visto a camisola de nenhum partido nem de nenhum candidato", Marcelo Rebelo de Sousa rejeitando qualquer envolvimento nas escolhas do PSD e um suposto apoio a Santana Lopes.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
44 mil quilómetros é a distância a que um asteroide do tamanho de uma casa vai passar da superfície da terra.

200 é o número estimado de trabalhadores da PT, que estando sem funções, foram notificados pela empresas que estão dispensados de se apresentarem no local de trabalho.

20% é, segundo o FMI, a probabilidade de ocorrer uma recessão na zona euro até ao final do terceiro trimestre de 2018. Em abril esse probabilidade era de 30%.

2,19% é quanto o fundo OMAM tem do capital da REN. Este fundo é detido em 25% pelo grupo chinês HNA que também são acionistas da TAP.

2000 é o número de despedimentos anunciados na BAE Systems, o fabricante de armas britânico devido à baixa produção do ‘eurocaça’ Typhon.

1,4 mil milhões de dólares é o total de dinheiro transferido por 81 clientes do banco Standard Chartered, da Indonésia para Singapura, nas vésperas de entrar em vigor um sistema automático de informação fiscal. As autoridades indonésias abriram uma investigação ao banco.

O QUE EU ANDO A LER
Se há algo que a teoria económica provou ao longo dos tempos é que não há melhor ciência a errar ao prever o futuro e a estar certa ao analisar o passado. Os economistas adoram dar palpites sobre o que vai acontecer. Para o fazerem consideram uma série de variáveis imutáveis. Com um ceteris paribus aqui e um ceteris paribus acolá, escolhem dizer que tudo o resto é constante para poderem simplesmente prever. Como o mundo roda e as pessoas não são máquinas o mais provável é falharem estrondosamente.

É aqui que entra Richard Thaler, pai da economia comportamental, e que esta semana foi distinguido com um Nobel. O economista foi pioneiro em questionar a decisão racional dos agentes económicos, presente em quase todos os modelos teóricos desta ciência amaldiçoada, defendendo uma aproximação mais realista à forma como as pessoas tomam decisões.

Acusando o ‘toque’, resolvi abrir Nudge, uma ode aos “arquitectos da escolha”. Pessoas que, segundo Thaler, têm a responsabilidade para definir o contexto em que as pessoas fazem uma escolha.

O laureado defende nesta obra, escrita com Cass R. Sunstein, que as pessoas podem ser induzidas a tomar uma decisão por questões que desafiam o aspeto puramente racional. Por exemplo, no Reino Unido ficou provado que os pensionistas gastavam mais em aquecimento das suas casas se recebessem um subsídio designado de ‘dinheiro para combustível de inverno’, mesmo que fossem livres para gastar essa verba da forma que bem quisessem.

Existem assim Econs e Humanos. Os primeiros são completamente racionais, têm toda a informação sempre presente, a memória de um super computador e a “força de vontade de Mahatma Gandhi”. Os humanos, esses são apenas pessoas comuns, como nós. Que estão longe de tomar as melhores decisões. Deixo aqui um dos exemplos descritos: se as contas associadas à poupança pagam menos juros do que os cobrados por cartões de crédito, porque escolhem muitas pessoas usar aquele cartão quando a escolha racional seria a de recorrer ao dinheiro guardado?

Os autores de ‘Nudge’ defendem que é possível ajudar as pessoas a tomarem melhores decisões através de pequenos empurrões e toques, ações que definem como ‘paternalismo libertário”. A não perder. Thaler tem ainda outro livro mais recente: Misbehaving – uma espécie de sequela de Nudge.

Este Expresso Curto fica por aqui. Amanhã regressa pelos dedos de Bernardo Ferrão. Tenha uma ótima quarta-feira.

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