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Nicolau Santos Diretor-Adjunto

Passos sai vencido mas não convencido; Jerónimo endurece

4 de Outubro de 2017

Bom dia. Este é o seu Expresso Curto, servido depois de uma noite tempestuosa do ponto de vista político.

No Conselho Nacional do PSD, Passos Coelho confirmou aquilo que já tinha adiantado de manhã e à tarde: não será candidato a um novo mandato como presidente dos sociais-democratas, cargo que ocupa há quase oito anos.


Na sua intervenção, de quase meia hora, Passos Coelho apresentou sempre a sua decisão não como a consequência do esgotamento da sua liderança ou de erros cometidos – que nunca reconheceu -, mas como a melhor forma de preservar o partido.

Assim, sai porque não quer que o acusem de estar agarrado ao poder, sai por causa dos resultados das autárquicas, mas faz questão de notar 1) que não se demitiu; 2) que se decidisse candidatar-se a um novo mandato não lhe "faltariam apoios” e até “poderia sair vencedor” da contenda. Ora tomem lá e embrulhem.

Garantiu depois: “não ficarei cá a rondar ou a assombrar”. Contudo, tinha dito antes que o facto de não se recandidatar não significa que se vá "calar para sempre". "Não desisti de nenhuma das minhas ideias sobre o país”. O processo eleitoral que se abre agora logo mostrará se Passos quer que o passismo continue por interposta pessoa.


Para já, assegurando que não se envolverá na disputa, Passos deu liberdade aos membros dos órgãos nacionais para apoiarem quem entenderem. Mas falou nos nomes de Paulo Rangel e do líder parlamentar, Hugo Soares, os únicos que referiu. “De um lado com o Hugo, do outro com Rangel, aproveitaremos bem o tempo para dizer que o PSD é um pilar de estabilidade e de construção do futuro”, rematou. E o certo é que Paulo Rangel fez levantar o Conselho Nacional do PSD ao recusar qualquer possibilidade de reinventar o Bloco Central, no que foi entendido como uma resposta às posições que Rui Rio vem defendendo.

Antes, na SIC Notícias, Pedro Santana Lopes respondia assim a Clara de Sousa quando esta lhe perguntou se estava a ponderar candidatar-se: “Obviamente. Temos de ponderar quando há uma situação destas”. Numa indireta aos que dizem que já há consenso para Rui Rio ser o próximo presidente do partido, disse: “consensos fabricados antes do tempo nunca gostei nem gosto. Não há consenso rigorosamente nenhum”. E depois lembrou que a escolha será feita em eleições diretas e por votação dos militantes. Ah, também revelou que tem recebido muitas mensagens a incentivá-lo a avançar.


Quem está a ser pressionado para avançar é Luís Montenegro, o herdeiro mais notório de Passos, mas não deu qualquer sinal de que essa seja a sua intenção. Hoje, o jornal "i" revela que o polémico candidato do PSD em Loures, André Ventura, está disponível para se candidatar à liderança do PSD se mais ninguém avançar contra Rui Rio. Era mesmo o que faltava ao PSD e ao país: um líder partidário racista e xenófobo.

À tarde, na Rádio Renascença, o ex-ministro de Durão Barroso Nuno Morais Sarmento tinha defendido que no PSD há três figuras incontornáveis quando se pensa em eleições internas: Luís Marques Mendes, Pedro Santana Lopes e Rui Rio. “É necessário conhecer a vontade destes três nomes que serão, à partida, os primeiros candidatos [às diretas] caso se confirme que Passos Coelho não se recandidata”, afirmou. Quanto a ele, Morais Sarmento, coloca-se fora da disputa.

Entretanto, o Conselho Nacional pegou na “disponibilidade para sair um pouco mais cedo” de Passos Coelho e marcou de imediato uma reunião para 9 de outubro, para decidir sobre a data das eleições diretas e do congresso.

Mas não foi só no PSD que o dia foi agitado. Da Soeiro Pereira Gomes vieram notícias inquietantes para o Governo e para a coligação parlamentar que o apoia. Na prática, o Comité Central do PCP considera que a perda de nove câmaras para os socialistas, várias delas bastiões dos comunistas desde há muito, resultam do apoio parlamentar que têm dado ao Governo.


Jerónimo de Sousa disse taxativamente: “Estamos perante um governo minoritário. Não existe nenhum acordo parlamentar”. E os portugueses a julgarem que havia, a acreditar no que tem acontecido nos últimos dois anos e nas fotos que retrataram a assinatura de uns papelinhos por parte de Jerónimo e António Costa e depois entre Costa e Catarina Martins.

Nesse sentido, deram o primeiro sinal de que vão endurecer a sua posição em relação ao PS: nas câmaras que perderam, os socialistas podem tirar o cavalinho da chuva porque não terão o apoio dos comunistas. Em Lisboa, Fernando Medina não contará com João Ferreira no governo da capital. Inês Medeiros não terá a vida facilitada em Almada (“assustada não diria, mas tenho em Almada uma tarefa grande”, diz ao DN a presidente surpresa), nem no Barreiro ou em Alcochete, os novos autarcas socialistas podem contar com o apoio dos vereadores eleitos nas listas da CDU.


As mazelas que este resultado vai ter no funcionamento da maioria parlamentar de esquerda ainda está por determinar. O líder comunista não avançou muito por este território. Mas deixou pistas. Por várias vezes, e em resposta a perguntas dos jornalistas, o secretário geral do PCP fez questão de se referir ao Executivo como "o governo minoritário do PS", sublinhou que "não existe nenhum acordo parlamentar" e mesmo quanto à posição conjunta assinada com os socialistas, garante que não há "nenhum fixismo" e que os comunistas "não estão amarrados a nenhum acordo".

Com o PSD a ganhar um novo fôlego com um novo líder e o PCP a endurecer a sua posição em relação ao Governo, António Costa tem razões para se preocupar. O cumprimento da legislatura está agora mais tremido. Mas à esquerda sabe-se que quem romper o acordo será o mais penalizado. Vêm aí tempos interessantes no jogo político.

Hoje há debate quinzenal no Parlamento com a presença do primeiro-ministro e do Governo. António Costa propõe-se falar sobre política de habitação. Mas com tantas casas arrombadas nos últimos dias, o mais certo é que se fale sobretudo das consequências políticas das eleições autárquicas.

OUTRAS NOTÍCIAS

Em Espanha, aconteceu algo inédito: o Rei Filipe VI desferiu um duríssimo ataque contra as autoridades regionais da Catalunha, que acusou de “deslealdade inadmissível” para com o Estado, do qual são representantes na região. Segundo o monarca, “certas autoridades catalãs” — referência ao Governo de Carles Puigdemont e ao parlamento regional — violam “de maneira reiterada, consciente e deliberada” a Constituição e o Estatuto de Autonomia da região, com o objetivo de proclamar “ilegalmente” a independência. Ao fazê-lo, acusa Filipe de Borbón, “quebraram os princípios democráticos de todo o Estado de Direito, além de desrespeitarem “a unidade de Espanha e a soberania nacional, que é o direito de todos os espanhóis a decidir democraticamente a sua vida em comum”. Como é natural, a declaração mereceu encómios sobretudo à direita e a crítica cerrada das forças que na Catalunha lutam pela independência.

Contudo, o presidente do governo regional da Catalunha (Generalitat) não se intimida. Carles Puigdemont disse ontem à BBC que vai declarar a independência daquela região "numa questão de dias". E durante o dia entre 300 e 700 mil pessoas manifestaram-se na Catalunha contra a violência policial, na sequência do apelo a uma greve geral, que levou ao corte de muitas estradas. A situação é explosiva e o seu exemplo pode levar ao recrudescimento de tentativas independentistas idênticas noutras regiões europeias.

Os EUA decidiram ontem expulsar 15 diplomatas cubanos do país. Na semana passada, os Estados Unidos anunciaram a saída de mais de metade dos seus diplomatas de Havana, devido a um alegado “ataque sónico” que, nos últimos dez meses, causou tonturas, perda de audição, dores de cabeça, fadiga, dificuldades cognitivas e dificuldade em dormir em 22 diplomatas norte-americanos (o mais recente caso ocorreu em agosto). Washington considera que Havana não tem feito o suficiente para garantir a segurança dos seus diplomatas.

O Prémio Nobel da Física foi para dois cientistas americanos e um alemão que observaram em setembro de 2015, pela primeira vez, o fenómeno antecipado por Einstein há 100 anos. Einstein estava certo de que as ondas gravitacionais existiam, mas nem o próprio acreditava que fosse possível registá-las. "Este é um testemunho de tecnologia moderna e ciência. Acho que isto não poderia ter sido feito há 50, 20 ou 30 anos", disse Barry C. Barish, de 81 anos, um dos galardoados. A par do americano, o Comité Nobel sueco distinguiu o alemão Rainer Weiss, de 85 anos, e o americano Kip S. Thorne, de 77, pelo estudo e "observação das ondas gravitacionais".

O secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, anunciou ontem no Parlamento que em maio o Executivo vai apresentar um pacote de medidas para assegurar a “promoção da igualdade salarial entre mulheres e homens por um trabalho igual ou de valor igual prestado no mesmo empregador”. Excelente! Mas porque é preciso esperar até maio? E se é em maio, porquê fazer o anúncio com sete meses de antecedência?

A China Three Gorges (CTG), maior acionista da EDP, adquiriu um bloco de 1,9% por 208 milhões de euros e reforçou assim a sua participação no companhia elétrica para quase 23,3%.

As notícias de que o próximo Orçamento do Estado pode trazer alterações ao regime dos residentes não habituais (RNH) já estão a travar os planos de estrangeiros que equacionavam mudar-se para Portugal e beneficiar de um regime que lhes permite não pagar IRS sobre as suas reformas, diz o DN. Fiscalistas e consultores dizem ter conhecimento de vários estrangeiros que já desistiram e os que já cá residem acompanham esta situação com preocupação.

A lista E, liderada por Fernando Gonçalves, ganhou as eleições para a Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, tendo assegurado quatro eleitos num universo de 11 lugares. A lista C, com alguns elementos afectos à CGTP-In, assegurou a eleição de três trabalhadores e a lista D garantiu a eleição de outros três elementos, a que se junta mais um eleito pela lista A.

O encerramento súbito da operação de todas as empresas do grupo turístico britânico Monarch deixou um rasto de dívidas que os hoteleiros algarvios avaliam em 36 milhões de euros.

A Federação Nacional dos Sindicados dos Enfermeiros (FENSE), que junta o Sindicato dos Enfermeiros e o Sindicato Independente dos Profissionais de Enfermagem, vai avançar com uma greve por tempo indeterminado a partir do dia 23 deste mês. O pré-aviso segue hoje para o Ministério da Saúde.

FRASES

“Ficar seria oferecer a caricatura de que estamos agarrados ao poder”. Pedro Passos Coelho, Público. Pois, e as eleições autárquicas também não ajudaram nada.

“Não estamos amarrados e condicionados a nenhum acordo”. Jerónimo de Sousa, Jornal de Negócios. E descobriram isso no final da noite de domingo, certo?

“Mesmo que cada um comece a apresentar-se em nome de barões e baronetes, quem vota são os militantes”. Pedro Santana Lopes, Expresso, que sabe falar muito melhor ao coração dos militantes do que dos barões e baronetes.

“O país um dia fará justiça a Passos Coelho”. Camilo Lourenço, colunista, Jornal de Negócios. Já começou a fazer, Camilo, já começou. No domingo passado.

O QUE ANDO A LER. E O QUE HEI DE OUVIR.

Na semana passada estive em Coimbra para o lançamento de “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa”, com a chancela do Círculo de Leitores e o apoio da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta. Trata-se de uma edição de 80 livros que, em 30 volumes, reúnem, pela primeira vez documentos de humanidades e ciências. A edição, dirigida por Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, é uma coleção dos primeiros livros e textos publicados em português, entre os séculos XII e XVIII, sobre física, química, anatomia, farmácia ou engenheira, mas também teatro, retórica, história, gramática, filosofia, educação, viagens, cozinha ou guerra. Para já estão publicados apenas dois volumes: “Cantigas trovadorescas, prosa literária e documentação instrumental” (que provam que a Idade Média em Portugal não foi um tempo de trevas e que as artes e a escrita eram presença regular nas cortes dos reis) e “Primeiro tratado de Física” (que demonstra que a língua portuguesa foi também uma língua científica).

Claro que fui ver se havia alguma coisa de economia. Há. Os primeiros escritos de economia encontram-se no volume 18. Há três textos: um de Luís Mendes de Vasconcelos (1546-1623), outro de Manuel Severim de Faria (1583-1655) e um terceiro de Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680), intitulado “Discurso sobre a introdução das artes no reino”. No resumo, refere-se que para Severim de Faria “importava compreender que o único meio para evitar o dano da dependência do exterior pelas importações seria impedir que o dinheiro saísse do reino, introduzindo nele artes ou manufaturas, de que resultariam benéficas consequências: a introdução das artes evitaria o dano que faziam ao reino o luxo e as modas; tirar-se-ia a ociosidade do reino; far-se-ia o reino mais povoado de gentes e frutos; resultando, como corolário, o aumento das rendas reais”. Uma receita ainda aplicável nos dias de hoje.

Para Carlos Fiolhais, as três dezenas de volumes a publicar, durante três anos, constituem "uma biblioteca fundamental, é como que o ADN da cultura portuguesa, que conta como tudo começou", permitindo aos portugueses acederem a obras pioneiras e "aperceberem-se do extraordinário brilho e antiguidade" da história do país. Para já, contudo, a obra só estará acessível aos sócios do Círculo de Leitores.

Quanto a música, no último Expresso Curto que fiz referia “Spain Again”, de Tomatito e do Michel Camilo. Alguns leitores e amigos escreveram-me a dizer que se gostei desse, então não posso perder “Spain Forever”, dos mesmos, a que se junta o músico brasileiro Egberto Gismonti. Dizem que é mesmo imperdível. Como confio muito em que me fez a recomendação, passo-a aos leitores, esperando que também gostem.

E pronto, chega ao fim este Expresso Curto, cheio da espuma dos dias e do creme da política. Enquanto o bebe, caro leitor, vá-nos acompanhando no Expresso online e não perca, às seis em ponto, o Expresso Diário. E tenha um grande dia, claro. De verão, porque vai estar outra vez muito quente.

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