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Expresso

Cristina Figueiredo Jornalista da secção Política

O primeiro dia do resto da vida do PSD

3 de Outubro de 2017

Quem tem estado atento ao que se passa no PSD desde que, faz amanhã dois anos, Pedro Passos Coelho ganhou as legislativas sem maioria absoluta (e, em pouco mais de um mês, passou de primeiro-ministro reeleito a inconformado líder da oposição), há muito que esperava este dia. Escrevo "esperava" no sentido puramente fatalista do verbo: como ato de aguardar por algo que há-de acontecer, dê lá por onde der. Para alguns já tardava, para outros (poucos) talvez fosse desejável que ainda demorasse um pouco mais. Mas "a hecatombe, o descalabro, o arraso, o terramoto, o tsunami" eleitoral do PSD nas autárquicas de domingo - na lista infindável de sinónimos que o Filipe Santos Costa coligiu num texto onde se propõe dissecar o que aconteceu - , ultrapassando os prognósticos mais pessimistas, tornou inadiável o que há muito se sabia inevitável: Passos, o resiliente, o teimoso, o obstinado (escolha o cognome que entender mais adequado), haveria de perceber um dia que chegara ao fim da linha; hoje é o dia.

O Conselho Nacional do PSD - orgão máximo entre congressos - está marcado para depois do jantar e aguarda-se que o presidente social-democrata vá lá comunicar que não será de novo candidato
nas diretas que precederão a realização do próximo congresso ordinário do partido, em inícios de 2018. Os sinais de que a sua continuidade à frente do partido é, agora sim, insustentável, multiplicam-se: se logo na noite eleitoral se começaram a ouvir destacados sociais-democratas a pedir mudanças (Público), ontem ao final do dia soube-se que "Rui Rio junta barões numa reunião em Azeitão" (Expresso), que "PSD aquece: Rangel cancela agenda em Estrasburgo" (Observador) e que o passismo está "à espera de Montenegro" . Ao DN, Rio fez uma única declaração: "Notícia era se eu não falasse com ninguém nesta altura". Claro que Passos Coelho ainda pode (ser convencido a) dar luta, a ir a votos mais uma vez (na perspectiva interesseira de alguns dos seus ditos "apoiantes", mais preocupados com a sua própria sobrevivência), mas essa é uma hipótese em que verdadeiramente já ninguém acredita, sobretudo depois do próprio ter pré-anunciado a saída (ainda no domingo) com a notícia de que iria reflectir sobre se tinha ou não condições para continuar. A secção política do Expresso ajuda-o a guiar-se neste labirinto no 2º episódio do novo podcast "Comissão Política": 30 minutos de conversa divertida sobre coisas sérias.

A intervenção de Passos no Conselho Nacional do PSD há-de ser o "highlight" deste segundo dia depois das autárquicas, eleições que na essência são locais mas estão a ter repercussões nacionais em vários quadrantes partidários. No PCP, por exemplo. Ontem, o antigo dirigente comunista Carlos Brito deu uma entrevista à TSF onde confessou o receio de que os maus resultados do partido possam reavivar a chama, que se cria (e queria) extinta, da ala mais ortodoxa, aquela que deve estar a maldizer a hora em que se deixou convencer a apoiar o PS no Governo. Mas esse é um cenário que, aparentemente, não atemoriza os socialistas: ontem ao final da tarde, à saída da audiência com o Presidente da República (entre ontem e hoje, Marcelo recebe em Belém todos os partidos com assento parlamentar), o líder parlamentar do PS, Carlos César, mostrou-se confiante que os resultados das eleições de domingo não só não afectem a solução governativa como até a reforcem. Uma convicção que será posta à prova muito em breve, com a negociação do Orçamento do Estado (que António Costa já prometeu que entregará até sexta-feira da próxima semana). Do outro lado, não vai demorar a perceber-se as orientações vindas da Soeiro Pereira Gomes (sede nacional do PCP): o Comité Central reúne-se hoje e do encontro deve sair fumo (branco ou negro, é o que resta saber) sobre a possibilidade de os dois vereadores eleitos da CDU em Lisboa se juntarem ao vereador do BE e, replicando no governo do município a 'geringonça' parlamentar, ajudarem Fernando Medina a conseguir a maioria absoluta que fugiu ao PS nas urnas.


OUTRAS NOTÍCIAS, CÁ DENTRO...


No dia em que os 4800 trabalhadores da AutoEuropa elegem a sua nova Comissão de Trabalhadores, a administração da empresa faz saber que está a tentar negociar os horários alargados de trabalho (que estiveram na origem da greve do mês passado) caso a caso. O Diário de Notícias diz que a empresa está, sobretudo, a procurar soluções para os casais de trabalhadores com filhos.

Apesar de o diploma com as novas regras para as reformas antecipadas continuar em Belém, a aguardar promulgação, o Governo já deu instruções aos serviços para que todos os pedidos que dêem entrada (a partir de 1 de outubro) sejam já apreciados à luz da nova lei, avança o Público.

Sabe bem acordar todos os dias sob um céu azul, mas a fatura vai-nos ser cobrada: com 80% do território nacional em situação de seca (que pode agravar-se nos próximos meses), o Governo pondera pedir a alguns agricultores que substituam as culturas que exigem o consumo de muita água por outras, diz a Renascença.


... E LÁ FORA


Desta vez, o que aconteceu em Vegas não ficou em Vegas, pelo contrário, diz(-nos) respeito a todos. Ainda ninguém percebeu exatamente o que aconteceu a não ser que morreram 59 pessoas e há 527 feridos (várias dezenas em estado grave), no mais mortífero tiroteio da história recente dos EUA. O assassino, Stephen Paddock, 64 anos, foi abatido pela polícia no seu quarto, no 32º andar de um hotel, de cuja janela disparou sobre a multidão que assistia a um concerto. No quarto foi encontrado um autêntico arsenal: 42 armas, explosivos e milhares de munições. O Daesh reinvindicou o ato (porque não?), mas o FBI garante não ter encontrado provas de ligação do homem, um norte-americano viciado no jogo, aos terroristas islâmicos. Donald Trump, sempre tão incendiário, veio desta vez garantir que nada quebrará a união dos norte-americanos e, sim, falou de "amor" como a resposta a dar à situação. O debate sobre a venda livre de armas nos EUA, mais uma vez, reacende-se.

Na Catalunha é dia de greve geral e as principais vias da região estão encerradas, em protesto contra Madrid e a violência das cargas policiais que causaram centenas de feridos (400, diz a Moncloa; quase 900, nos números do governo regional) durante o referendo de domingo. O assunto continua, é claro, a estar na "portada" de todos os jornais, espanhóis e não só, numa altura em que, segundo o diário online El Español, já há setores dentro do próprio PP (o partido do presidente do Governo Mariano Rajoy) a concordarem com os Ciudadanos de Alberto Rivera e a admitirem novas legislativas já na primavera. Se o assunto lhe interessa (e como não?, "a Catalunha é um problema nosso", diz Manuel Alegre ao Diário de Notícias, pondo o dedo na ferida: o que se passa na Catalunha é um problema de democracia e liberdade), passe os olhos pela imprensa hermana: só aqui e aqui, já tem muito que ler. O jogador catalão do Barcelona, Gerard Piqué, adepto da causa independentista, confessou no domingo (depois da sua equipa ter defrontado o Las Palmas, para a primeira liga espanhola, num Camp Nou sem público - a forma que o clube encontrou para protestar contra o facto de não ter sido autorizado a adiar o encontro em dia de referendo) que o jogo de domingo foi "o pior" da sua vida. Ontem foi vaiado no treino da selecção espanhola, em Madrid.

Morreu Tom Petty. O músico, 66 anos, sofreu um ataque cardíaco - uma mórbida ironia a marcar o fim do líder dos "the Heartbreakers". A Rolling Stone elenca as "50 greatest songs" daquele a que o Público chama "um dos últimos americanos".


AS MANCHETES DOS JORNAIS


"Poupança liberta 1749 presos", Correio da Manhã
"Estado deu quase 2500 milhões em benefícios fiscais em 2016", Público
"Cinco novas cadeias para renovar sistema prisional", Jornal de Notícias
"Rui Rio ao DN: Notícia era se eu não falasse com ninguém nesta altura", Diário de Notícias
"PCP teve o pior resultado de sempre em autárquicas", i
"Fidelidade vende 277 imóveis", Jornal de Negócios
"Special Conceição", A Bola
"O miúdo vai à baliza", Record
"São duas locomotivas", O Jogo


O QUE ANDO A LER E A VER


Juro que não me inspirei nas autárquicas nem em Passos Coelho para finalmente concretizar uma decisão há muito tomada no meu íntimo e me atirar às 800 páginas (na edição da Editorial Presença) de Anna Karénina. O "projeto" vinha desde o início do ano, quando assisti a "Como ela morre", uma peça de teatro de Tiago Rodrigues (atual diretor do Teatro Nacional Dona Maria, dramaturgo que há muito admiro pela inteligência dos textos que leva a cena) que se socorre do romance de Tolstói como pedra angular para construir o enredo. Escreve o Tiago: "Quando lemos, fazemos escolhas. Traduzimos o que lemos para a linguagem das nossas vidas. As páginas são iluminadas pela vela da nossa experiência e essa chama estremece e muda de cor por causa do que lemos. E sabemos que um livro pode transformar-nos". Anna Karénina é um desses livros mágicos. Não se esgota na história que conta, mexe connosco, obriga-nos a pensar, a questionar e com isso, a compreender melhor muito (e muitos) do que nos rodeia(m). E ainda me faltam 500 páginas!

A nova temporada do D.Maria abriu com Lear, uma adaptação de João Paulo Esteves da Silva e encenação de Bruno Bravo da peça (para muitos "a" peça) de Shakespeare, Rei Lear. Só a vou ver amanhã, pelo que ainda não me posso pronunciar, mas a minha colega Cristina Margato convenceu-me quando li na sua apreciação do espectáculo que o encenador se focou sobretudo nestas perguntas: "O que é o homem quando nada tem? O que é o homem quando tudo perde? A verdade na política é possível?" (A peça está em exibição até dia 15, Dr. Pedro Passos Coelho!)

E o Expresso Curto fica por aqui. Sem pretensões de lhe dar respostas a perguntas tão complexas como as que suscita a leitura de Lear ou Karénina, mas apenas de lhe antecipar o que de mais importante se prevê que vá passar neste 3 de outubro. Para mais antecipações, confirmações ou pura e simplesmente descrições do que ocorre no país e no mundo, é ir clicando no site do Expresso.

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