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Martim Silva Diretor-Executivo

O fim de Passos no PSD. E uma vitória esmagadora do PS (tão esmagadora que até ameaça a geringonça)

2 de Outubro de 2017

Bom dia,
Hoje, 2 de outubro de 2017, três temas marcam intensamente o ritmo da atualidade.
1. O rescaldo das eleições Autárquicas de domingo
2. O referendo na Catalunha
3. O rescaldo do Sporting-Porto da última noite.
Estes são os pratos fortes que vai encontrar nesta newsletter. Boas leituras

Autárquicas. O tombo do PSD. E a vitória do PS (que esmaga o PCP com um abraço de urso)
Não sei se António Guterres é o mais marcante político nacional das últimas décadas (apostaria mesmo que não), mas é seguramente aquele que deixou as mais marcantes frases após resultados eleitorais. Foi o pedido de demissão do governo na sequência da violenta derrota autárquica do PS em 2001 para "evitar que o país caísse no pântano". E foi, uma década antes, a reação ao resultado socialista nas legislativas contra o PSD de Cavaco Silva, confessando que "estes resultados deixam-me em estado de choque". Meses depois avançava contra Sampaio e roubava-lhe a liderança do partido.

Ora, em estado de choque ficou o PSD na última noite. Literalmente.
O mote foi dado por Manuela Ferreira Leite logo no início da noite, ao dizer-se atónita chocada e dizendo que Passos não tem condições para continuar (uma vingança servida fria pela antecessora de Passos no PSD). E a catástrofe foi seguindo noite fora, até culminar na intervenção de Passos Coelho, em que reconheceu ter sido este um péssimo resultado do partido, recusando no entanto demitir-se, embora admita que vá fazer uma reflexão para saber se volta a candidatar-se a líder no início do próximo ano.

O resultado com a demissão agora, ou a não recandidatura daqui a uns meses, é mais ou menos o mesmo, parece-me. O ciclo político de Passos à frente do PSD chegou muito provavelmente ao fim. (Nas próximas semanas vai ouvir falar muito de Montenegro e Rangel e Rio e José Eduardo Martins e Sarmento e Mauro Xavier e outros mais).

Do outro lado da montanha, António Costa teve, como o próprio disse, uma das maiores vitórias eleitorais de sempre do PS. Mais câmaras, mais votos, mais mandatos, mais freguesias. Mais tudo do que há 4 anos, e aí já o resultado tinha sido ótimo.

Mas, paradoxalmente, este resultado também traz potencialmente mais problemas, pelo menos a curto prazo. É que a vitória foi tão grande, tão gorda, tão esmagadora, que pelo meio espezinhou também o PCP. Que perde uma dezena de câmaras (um terço do seu peso). Problema para a geringonça: em vez de ficar mais forte com esta vitória do PS fica no imediato mais fraca com a possibilidade crescente do PCP saltar fora (afinal de contas foi penalizado nas urnas). E com a possibilidade de nova liderança laranja dentro de poucos meses.

Resumindo,
de uma penada Costa fica mais perto da maioria absoluta, mas também mais perto de uma crise política. Não por acaso, na sua intervenção e nas respostas aos jornalistas, Costa foi sublinhando que esta foi uma grande vitória do PS (e uma derrota do PSD), e que essa vitória é positiva para toda a atual solução de apoio ao governo.
O choque foi à direita mas também houve choque à esquerda.

Vale a pena ler a análise de Ângela Silva, que anda nisto há muito tempo e sabe cheirar a temperatura da política nacional como poucos. Aqui tem os comentários de Ricardo Costa, Pedro Santos Guerreiro, Miguel Sousa Tavares e Bernardo Ferrão.


Vencedores:
António Costa (já expliquei)
Fernando Medina (ganhou a legitimidade que precisava, nas urnas)
Assunção Cristas (duplica a votação do CDS em Lisboa, 'matou o pai' Paulo Portas e torna-se líder incontestada do partido. Ganhou mais uma câmara);
Rui Moreira (ganha sem espinhas no Porto, com maioria absoluta, mas faz um discurso bizarro de vitória atacando Paulo Rangel e Rui Rio),
Ricardo Robles (eleito vereador do BE em Lisboa - bloquistas que podem sorrir mas não conseguiram o objetivo de conquistar uma câmara).
Inês de Medeiros (ganhou Almada à CDU e simboliza bem o resultado do abraço de urso que os socialistas deram aos comunistas nesta eleição)
Paulo Cafôfo (repete a vitória no Funchal. Não se admirem se o PS tiver encontrado o homem para chegar à liderança na região num futuro próximo).
Isaltino Morais (ganhou. Custa horrores colocá-lo nos vencedores. Dá mesmo vontade de colocar quem nele votou nos perdedores da noite. Enfim...

Derrotados:
Teresa Leal Coelho
(foi ultrapassada pelo CDS em Lisboa. Fez uma campanha paupérrima.)
Passos Coelho (a derrota do PSD nestas eleições era tida como provável mas a hecatombe superou as expetativas mais negativas. Prometeu que não se demitia na sequência das eleições e cumpriu. Mas não deverá ter condições para continuar à frente do partido. Teve um papel tremendo no período da troika mas nota-se que o país e o PSD já viraram a página. Falta o próprio Passos virar também)
Jerónimo de Sousa (desta vez os comunistas não ganharam e disseram que não ganharam. Quem tem 34 câmaras e perde um terço - entre as quais as simbólicas Almada e Beja - é um claro derrotado)
Dinossauros (é certo que Isaltino regressou, mas além dele só José Maltez, que regressou à Golegã e Luís Pita Ameixa a Ferreira do Alentejo, conseguiram voltar. Não foi uma boa colheita para os ex-autarcas que pretendiam voltar. Narciso Miranda e Valentim Loureiro são bons exemplos).


Aqui tem os gráficos todos atualizados para perceber os resultados autárquicos. Dos resultados globais, até à sua freguesia. E aqui nestes dois mapas pode perceber a evolução do país pelas cores partidárias (se não é fã de rosa não vai querer ver isto)

FRASES
"O resultado global que temos é muito claro: uma vitória do PS, a derrota da direita e em particular do PSD, e um reforço da mudança de orientação politica que iniciámos há dois anos", António Costa

"Se Passos não sair, a sua vida vai ser um inferno", Marques Mendes

"Passos Coelho não tem condições para continuar", Manuela Ferreira Leite

"A perda de presidenciais, que pode atingir nove ou 10, é sobretudo uma perda para as populações que não demorarão a perceber o quão errada foi essa opção", Jerónimo de Sousa

"Comunicarei a minha reflexão logo que for oportuno, e não costumo demorar muito tempo", Passos Coelho

O referendo independentista na Catalunha
Ontem foi o dia do referendo que não foi bem um referendo e que realizou sem bem se realizar. Para quem foi seguindo o que se passou, foi sobretudo um dia marcado pelas cenas de violência, e pelas cargas policiais, que causaram mais centenas de feridos e que, sobretudo, mostram que provavelmente se ultrapassou algures um ponto de não retorno.

Como será agora possível Rajoy e Puigdemont negociarem? Como podem Madrid e Barcelona sentar-se à mesma mesa?

Dificilmente. Aliás, ao final do dia, depois de Mariano Rajoy ter vindo dizer que não tinha havido referendo nenhum na Catalunha, foi a vez do líder da Generalitat vir publicamente dizer que o ‘sim’ à independência tinha ganho com mais de 90 por cento dos votos. E que agora vai ser iniciado o processo formal que levará à independência da Catalunha e sua transformação numa república.


Ao longo do dia, aliás ao longo dos últimos dias, ouvi muitos argumentos a favor e contra o referendo, a favor e contra a independência da Catalunha. Num país em que todos adoram ter certezas definitivas sobre tudo e anunciá-las ao mundo, eu confesso: tenho muitas dúvidas sobre isto tudo. Muitas mesmo. E cada vez mais. Parece-me um disparate que num mundo global, moderno e aberto e em que a mobilidade é cada vez maior haja quem queira criar novas fronteiras que não parecem fazer sentido. Custa-me, por outro lado, que não se deixe votar livremente quem o quer fazer.

Enfim... Eis um tema que seguramente vai ainda dar pano para mangas. E que pode ter consequências devastadoras. Para a Espanha. Mas também para a Europa.

Aqui no El Pais pode ler um resumo chave dos acontecimentos.

Aqui pode ler o live blog que fomos alimentando no site do Expresso ao longo do dia. Se não quiser ler tudo, tudo, as últimas entradas, mais recentes, escritas pelo Pedro Cordeiro, ajudam a perceber como estamos agora.

Aqui o texto do correspondente do Expresso em Espanha, Angel Luis de la Calle, que está em Barcelona.

Esta é a reportagem da enviada do Público, que fala no dia em que a Espanha perdeu a Catalunha.

E aqui a análise do Jorge Almeida Fernandes, no Público, em que explica como para os independentistas o que contava ontem era a propaganda, e não os votos, e que foi por isso que ganharam claramente.

E se esteve distraído aqui pode recuperar algumas das imagens mais fortes do dia de ontem.

O Sporting-Porto da luta pela liderança na Liga (e mais uma escorregadela do Benfica)
Jogo renhido, bem disputado, sem grandes casos, com o Porto globalmente melhor (o melhor do Sporting foi Rui Patrício) mas nenhuma das equipas a conseguir superiorizar-se claramente.
Resultado final: zero a zero e tudo na mesma com os nortenhos a manterem os dois pontos de vantagem sobre os leões.
Atrás deles, o Benfica não evitou novo tropeção (empate com um forte Marítimo, na Madeira) e mantém-se três pontos atrás do segundo classificado.

Leituras:
A crónica do Sporting-Porto na Tribuna, pelo Diogo Pombo
Rogério Casanova olha um a um para os jogadores do Sporting (e para Jonathan Silva)
A convicção de Sérgio Conceição de que vai ser campeão
As declarações de Jorge Jesus no final da partida
A crónica do Marítimo-Benfica na Tribuna, pelo Pedro Candeias
O Azar do Kralj, a comparar os jogadores do Benfica a figuras do PSD
Rui Vitória, a recusar baixar os braços


OUTRAS NOTÍCIAS
Depois da crise com a Ryanair, agora é outra companhia aérea envolvida em problemas e com cancelamentos maciços de voos. A Monarch.

Há relatos de tiroteio num casino em Las Vegas. A notícia tem poucos minutos e deverá ser atualizada nas próximas horas. Há pelo menos dois mortos e as notícias falam em dezenas de feridos.

Trump diz que negociar com a Coreia do Norte é uma perda de tempo. E ficou sem o seu ministro da Saúde, que se demitiu no fim de semana.

Um ataque terrorista à facada em Marselha fez duas vítimas mortais

A última temporada de A Guerra dos Tronos já tem realizadores confirmados.

O.J. Simpson está em liberdade condicional, depois de nove anos na cadeia.

A Áustria decidiu proibir a burka.

O QUE ANDO A LER
Tinha pensado reservar este espaço desta newsletter para um conjunto de livros sobre a Revolução Russa, que faz agora 100 anos (em absoluto rigor será em novembro e não em outubro), mas a chegada recente do livro de Hillary Clinton sobre a sua frustrada e frustrante candidatura presidencial de 2016 contra Donald Trump nas presidenciais norte-americanas de 2016 trocou-me as voltas.
"What Happenned" (o que passou-se, em luísfilipevieirês), da Simon&Schuster, 2017, é um retrato cru dos sucessivos erros e falhas que levaram a ultra-favorita Hillary a perder a eleição para a Casa Branca para Trump. Hillary fala de forma aberta sobre as desilusões e frustrações da campanha, sobre os bastidores, sobre a forma como foi assistindo ao crescimento da campanha de Trump, sem a conseguir travar. Fala de política, mas também da sua vida e da forma como superou a mais inesperada e amarga derrota da carreira.
Aguardo pelo dia que um político em Portugal consiga fazer um livro assim sobre uma candidatura sua.


Uma última nota. Passam nesta altura 25 anos da criação de Football Manager (antes CM). Uns ao lerem isto perguntarão de que estou eu a falar. Outros, muitos, ficarão automaticamente a lembrar as noites e noites perdidas na tentativa de levar o seu clube à glória universal. Faz um quarto de século da criação de um dos mais poderosos, viciantes e globais jogos de computador de sempre. Ah e tal, isso não interessa a ninguém. Pois, mas olhem o artigo que o Financial Times fez a este respeito.

Tenha uma grande segunda-feira.

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