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Miguel Cadete Diretor-Adjunto

No futebol e na política, há derrotas para todos os gostos

28 de Setembro de 2017

As eleições autárquicas estão, naturalmente, a marcar a agenda política mas não ocupam espaço que se veja nas páginas dos jornais portugueses, apesar de faltarem apenas três dias para o sufrágio.

Muito provavelmente com toda a razão: o municipalismo já teve melhores dias. E nem mesmo a abertura de um novo ciclo político, que todos os comentadores já adivinharam, comove os editores e diretores.

Em rigor, nas eleições para as autarquias, os níveis de abstencionismo são assustadores, ainda que inferiores aos da eleição para o Parlamento Europeu. Há quatro anos atrás, em seis concelhos, a abstenção foi igual ou superior a 60 por cento. Em Sesimbra (62,2%), Cascais (62%), Palmela (61,5%), Setúbal (61,3%), Seixal (61,1%) e Montijo (60%) – concelhos nos subúrbios de Lisboa, foram menos de 40% os eleitores que se dignaram a ir às urnas. A média nacional andou pelos 47,4%.

Nem mesmo as sondagens, algumas capazes de irritar certos candidatos, como sucedeu com Rui Moreira (independente, Porto) que abriu um conflito com a Universidade Católica que se sentiu obrigada a responder entusiasma o suficiente. “Rui Moreira acusa Católica de fraude nas sondagens mas universidade nega”, encontra-se na primeira página do “Jornal de Notícias”.


O rocambolesco tem muito mais força e aí Assunção Cristas (CDS, Lisboa) tem ganho aos pontos: a lide da casa e uma contravenção que levou ao bloqueamento da sua viatura são glosadas desta forma: “Cristas apresenta-se como ‘Anita que sabe aspirar’ lê-se no jornal “i”. Ou “Cristas vítima da EMEL” pode ler-se no “Correio da Manhã” que ainda acrescenta uma nota pitoresca sobre os candidatos a Samil, em Bragança: “Três enfermeiros lutam pela mesma junta de freguesia”.

No “Jornal de Notícias”, por baixo da polémica das sondagens há um pequeno espaço para Viseu não muito entusiasmado: “Água e economia são preocupações principais dos candidatos”. E o “Público” resume “A campanha está a terminar e já cheira a fim de festa”, salientando que Fernando Medina (PS, Lisboa) e Teresa Leal Coelho (PSD, Lisboa) estão a fazer balanços, destacando ainda a controvérsia das sondagens para o Porto que dão um empate entre Rui Moreira e Manuel Pizarro.

O “Diário de Notícias”, publica uma declaração de Rui Rio, que estranha o destaque dado neste momento à sua provável candidatura à liderança do PSD: “em cima de eleições e com o PSD em sérias dificuldades”.

Mas também dá nota da campanha de Assunção Cristas (“com Portas em defesa da ‘melhor opção’ para Lisboa”) e do que vai pelo Alentejo (“que é do Partido Comunista ou que já o foi”).

A noite europeia dos clubes de futebol não tem mais fulgor, muito possivelmente devido aos maus resultados de Benfica e Sporting na Liga dos Campeões. A Tribuna do Expresso fala do Benfica (jogo, contra-crónica e conferência do treinador) aqui, aqui e aqui. E do Sporting aqui, aqui e aqui.

Nos desportivos, a conversa é outra: n’”A Bola” recorre-se à indignação, à história e à aritmética para descrever o colapso do Benfica, que mantém a chaga da crise aberta: “Vergonha – águias sofrem a pior derrota de sempre na Europa”. Os cinco golos sem resposta que o Benfica sofreu em Basileia têm ressonância: “Há 54 anos que a equipa não perdia por 0 – 5 (Dortmund)” ou “Só os 0 – 7 de Vigo superam humilhação na Suíça”.

Em Alvalade não houve humilhação perante o Barcelona de Messi, Iniesta e Suarez mas o número de pontos conquistados foi igual. A derrota por 0 -1, devido a um autogolo de Coates, esconde a falta de ambição perante um colosso mundial. Mas há queixas de um penálti por marcar (falta de Rakitic sobre Bas Dost). O Sporting ainda mantém alguma esperança quanto à qualificação para a próxima fase. Já o Benfica, com duas derrotas em dois jogos na fase de grupos, tornou mais complicada a continuação nesta prova.

OUTRAS NOTÍCIAS

O “Correio da Manhã” faz manchete com José Sócrates, o que não é novidade. A notícia está no anúncio de que a investigação ao ex-primeiro-ministro está fechada. Segundo aquele diário, o despacho deverá ser conhecido no final de outubro e contém mais de quatro mil páginas.

No Expresso Diário dá-se notícia de uma exposição no Palácio da Ajuda, um dos monumentos mais icónicos do património português, onde aliás funciona o Ministério da Cultura. A mostra das peças de Sonia Falcone abriu a 16 de setembro, mas só agora, depois de notícias vindas a lume na imprensa boliviana, se descobriu que a artista é mulher de um conhecido traficante de armas, Pierre Falcone.

Mais de dez mil estudantes garantiram colocação no ensino superior na segunda fase. Isabel Leiria conta que ainda há mais quatro mil lugares que podem ser disponibilizados numa terceira fase.

Bruxelas vai investigar preço dos combustíveis em Portugal é a manchete do “Jornal de Notícias”. “Governo pede à União Europeia para saber se há concertação das petrolíferas face a desvios em relação a outros países”.

Ainda os combustíveis. No “Jornal de Negócios” pergunta-se se o tempo do petróleo barato está a chegar ao fim.

No “Público” lê-se a notícia de que o Inspector-geral do Trabalho foi alvo de processo disciplinar. Pedro Pimenta Braz terá divulgado junto de todos os funcionários da Autoridade para as Condições do Trabalho dados pessoais de uma funcionária, incluindo aqueles que se referiam à saúde.

Morreu Hugh Hefner. O fundador da “Playboy” morreu ontem, aos 91 anos, na sua mansão em Beverly Hills, na Califórnia. Hefner será enterrado no Westwood Memorial Park, em Los Angeles, num mausoléu que o próprio adquiriu e que fica sao lado daquele onde estão os restos mortais de Marilyn Monroe.

Schäuble deixa o governo alemão. O temido ministro das Finanças de Angela Merkel não fará parte do próximo executivo. A prevista saída é dada como sendo um dos efeitos do resultado das eleições do passado fim de semana que levaram pela primeira vez ao Parlamento uma força da extrema-direita. Schäuble não deixa a política e passará a desempenhar o cargo de deputado.

Marcelo preocupado com as relações com Angola. O julgamento do ex-vice-presidente Manuel Vicente está marcado para janeiro, segundo o “i”. A tensão, porém, é desanuviada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Augusto Santos Silva, que desvalorizou a não referência a Portugal no discurso de tomada de posse de João Lourenço, o novo Presidente de Angola. E considerou os assobios que se ouviram quando Marcelo foi nomeado entre os convidados uma “ovação”.



FRASES


“Este é um momento complicado”. Rui Vitória, treinador do Benfica

“Há um claro agravamento na desigualdade do acesso à educação”. Vasco Teixeira, diretor da Porto Editora, ao jornal “i”

“Tudo devia ter o seu tempo”. Rui Rio, no “Diário de Notícias”

“É preciso que a nossa Justiça siga o seu curso”. João Soares, sobre as relações de Portugal com Angola, no “Público”

“Educação e tributação de heranças são receita para a desigualdade”. Branko Milanovic, economista e professor na Universidade de Nova Ioque, no “Jornal de Negócios”



O QUE ANDO A (RE)LER

Mais de um ano após ter sido publicado, o artigo de Luciana Leiderfarb que esta semana conquistou o Prémio Gazeta Imprensa – o mais importante no jornalismo português - mantém toda a relevância do dia em que foi dado à estampa e que, estou certo, continuará a manter por muitos e muitos anos.

Li pela primeira vez “O Nome do Pai” quando, o ano passado, regressei de férias. A ideia de que se trata de uma peça de jornalismo que podia ter sido publicada em qualquer dos melhores jornais ou revistas do mundo não me abandonou desde então. Foi capa da Revista do Expresso naquele querido mês de agosto, mas podia ter sido em qualquer mês ou em qualquer dia do ano, em qualquer parte do mundo.

Porque é jornalisticamente irrepreensível, narrativamente bem construído, usando fontes que dispõem de toda a credibilidade e escrito com requintes de relojoeiro e amor que só sabe quem fabrica joias. Pura filigrana, nada disto seria minimamente importante caso não nos pusesse defronte daquele que foi o maior drama da Europa moderna e que ainda hoje nos persegue. Como é ser filho de um nazi assassino? A que sabem os morangos que crescem amaciados pelas cinzas vindas das chaminés dos fornos crematórios? Nada disto diz mais do que esta abertura:

“Os morangos não escolhem onde nascem. Se escolhessem, talvez a história de Rainer tivesse perdido alguma da sua ironia. E o jardim com piscina dos seus avós, tratado com zelo por 30 jardineiros, perdesse para os que ali passaram a infância parte do seu encanto. Os morangos cresciam livremente junto à sebe e eram arrancados e devorados pelos cinco irmãos da casa, num ritual diário em que a mãe lhes dirigia sempre o mesmo aviso: que lavassem os frutos com cuidado para remover qualquer vestígio de cinzas. Nenhum deles parecia importar-se com a enorme chaminé do forno crematório que, a escassos 200 metros, emoldurava o lado direito do jardim. Ou com a pacatez do cenário bucólico no qual acordavam todos os dias — conhecido por Auschwitz, a maior fábrica de morte da Alemanha nazi.”

Se ainda não leu, aproveite a republicação, feita no Expresso Online, de um dos melhores textos da imprensa portuguesa, porque nenhum de nós “como os morangos, escolhe onde nasce. Mas alguns podem escolher onde, porquê e como querem morrer.”

Esta semana, o Expresso passou a produzir um novo podcast. Chama-se Comissão Política, tem periodicidade semanal (sai às terças) e trata, em formato radiofónico, os assuntos que agitam a política portuguesa. O primeiro aborda a questão do desaparecimento de armamento militar dos paióis de Tancos e, sem muita surpresa, chegou ao primeiro lugar da tabela dos podcasts mais ouvidos em Portugal ultrapassando os humoristas e outros programas de debate político. Em “Vamos Ser Francos sobre Tancos” fala-se das eleições autárquicas do próximo domingo, da reforma do Serviço Nacional de Saúde proposta por António Arnaut e João Semedo e, claro, de um caso que abala a instituição militar e o Estado português já lá vão três meses. E ainda há um fungagá da bicharada. A não perder.

Fico por aqui. Acompanhe toda a atualidade, em permanência, no Expresso Online. Logo, pelas 18 horas, chegará mais um Expresso Diário. A edição semanal é antecipada 24 horas, devido ao ato eleitoral, e chegará às bancas na sexta-feira.

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