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João Vieira Pereira Diretor-Adjunto

Olhe que não Sr. Ministro, olhe que não…

26 de Setembro de 2017

A política é suja. Não é para meninos. Vencem os campeões da retórica. Ganha quem mais consegue brincar com as palavras.

E quando se trata de tentar explicar o inexplicável, o melhor é mesmo puxar de todos os truques. Três meses depois do roubo de material de guerra de um paiol de Tancos ainda tudo está por esclarecer.

Azeredo Lopes tem sido mais do que inábil a tentar justificar como é possível passar tanto tempo sem que haja uma pista, um culpado, um responsável. Mas tem sido muito hábil em lançar a confusão sobre o que se passou. ‘No limite, pode não ter havido furto nenhum’, chegou a ser uma das suas jogadas.

Passaram mais de 40 anos desde que um debate de mais de 3 horas e meia imortalizou a expressão ‘Olhe que não… olhe que não’. Perfeita para responder ao ministro da Defesa. O material não ganhou pernas e saiu sozinho das instalações militares. Tão pouco o caso foi empolado por questões políticas. Não há uma tentativa de derrubar o ministro, ele faz isso muito bem sozinho. O roubo apenas é demasiado importante e grave para ser esquecido.

E agora que o Expresso divulgou um relatório dos serviços de informação militares que tece graves críticas ao ministro da Defesa e ao Chefe do Estado-Maior do Exército, Azeredo Lopes insiste em disparar para o ar pólvora seca para ver se retira as atenções do que é verdadeiramente importante.

Olhe que não, Sr. Ministro… Olhe que não. Ao contrário do que o Governo diz, o relatório existe, não foi forjado e coloca a nu o que Azeredo Lopes não quer que se veja: o que aconteceu em Tancos é uma vergonha!

Passos Coelho tem feito deste triste dossier uma das suas bandeiras e voltou a atacar Azeredo: “O ministro tem dito imensas coisas sobre Tancos, menos qualquer coisa que seja esclarecedora”, afirmou o líder do PSD em resposta às acusações de que o relatório tinha sido "fabricado" com "propósito políticos”.

Sobre esta polémica não perca a opinião de Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso, e de Miguel Sousa Tavares.

Ainda sobre retórica e mal entendidos, mais um episódio que mostra que as relações entre o Ministério das Finanças e o Banco de Portugal estão longe de estarem boas.

Carlos Costa disse numa conferência, a respeito do papel do BCE na salvaguarda da independência dos vários bancos centrais, a seguinte frase: “Para ser claro, as tentações de reduzir a independência dos bancos centrais não são uma característica só dos países do Sul. Países do Norte têm o mesmo problema. O que quer dizer que onde quer que esteja o tesouro, há sempre a tentação de o tirar”. Perante tal as Finanças, — que por alguma razão que desconheço acharam que o recado era para o Governo (porque será?) — enfiaram de imediato o barrete e fizeram saber que esperam um pedido de desculpas por parte do governador.

Um adepto de teorias das conspiração diria que se prepara uma nova investida sobre os dividendos do Banco de Portugal.

OUTRAS NOTÍCIAS
Eis a primeira guerra declarada via Twitter
. De Trump e Kim Jong-un já sabemos que se pode esperar tudo. E mais uma vez parece que a realidade conseguiu ultrapassar a ficção — desta nem John le Carré se teria lembrado.

E assim começa um especial Trump, a não perder.

Em Nova Iorque, o Ministro dos Negócios Estrangeiros norte coreano afirmou que o seu país reserva o direito de abater qualquer avião americano mesmo em espaço aéreo internacional. Para Ri Yong-ho, foram os EUA que declararam guerra à Coreia do Norte no passado domingo, quando Trump escreveu na sua conta do Twitter que “eles não estariam por cá muito mais tempo”. A Coreia do Norte considera estas palavras uma declaração de guerra: “Last weekend Trump claimed that our leadership won’t be around much longer, and hence at last he declared war on our country”.

A administração norte americana veio negar, numa declaração, que tenha sido declarada guerra à Coreia do Norte. O melhor é Trump escrever no Twitter para não haver dúvidas.

Apenas mais um episódio na conturbada curta vida de Trump como Presidente mas bem que pode ser um dos mais icónicos. Começou com o convite, e subsequente ‘desconvite,’ à equipe da NBA Golden State Warriors para serem recebidos na Casa Branca. Tudo porque a estrela da equipa, Stephen Curry disse que se recusava a ir por não respeitar Trump.

O caso escalou quando vários jogadores de futebol americano e de basebol começaram a ajoelhar-se, darem as mãos ou simplesmente não aparecerem durante o tradicional hino americano, sempre tocado no início de cada partida. Esta forma de protesto contra os casos de violência policial ou injustiça racial não é nova, mas ganhou nova força com quase todos os jogadores, técnicos e até alguns dos donos das equipas a acompanharem ou apoiarem o gesto.

Desde então Trump sugeriu que os atletas que protestaram sejam despedidos e que os fãs boicotem os jogos. A NFL veio defender os jogadores afirmando que “everyone should know, including the president, that this is what real locker-room talk is”, uma referência à gravação divulgada antes das eleições onde Trump se gabava de agarrar e beijar mulheres. Na altura o agora presidente desculpou-se dizendo que aquilo era “locker-room talk”.

Novo assunto, mesmo protagonista. Trump emitiu uma ordem de banir por tempo indefinido todos os viajantes que venham de sete países. Esta ordem é mais restritiva que a primeira já que tem efeito permanente. Os países são: Irão, Líbia, Síria, Iémen, Somália, Chade e Coreia do Norte. Também os cidadãos iraquianos e venezuelanos têm restrições severas quando viajarem para o EUA.

Trump pode ter sofrido mais uma pesada derrota no caminho para acabar com o Obama Care depois de a senadora republicana Susan Collins afirmar que vai votar contra os planos do Presidente.

E finalmente o Presidente dos EUA falou sobre a devastação provocada pelo furacão Maria na ilha de Porto Rico. Mas em vez de solidariedade pelos 3,4 milhões de americanos que ali vivem, Trump passou ao ataque afirmando em três tweets que a culpa era… deles.

No recém rescaldo das eleições alemãs Merkel começou a construir o puzzle para conseguir uma maioria. Enquanto ondas de choque varriam o país, e o mundo, com os 13% obtidos pelo AFD, um partido nacionalista, a chanceler perdia a cabeça com as possíveis combinações para formar governo. Depois de o SPD, aliado até agora da CDU de Merkel, ter dito que o seu lugar é agora na oposição, sobram poucas alternativas. Na realidade sobra apenas uma, a coligação com os liberais da FDP e os Verdes. Um aliança nunca testada a nível federal e que muitos dizem ser de difícil execução.

Merkel admitiu que a sua política em relação à imigração e aos refugiados polarizou a Alemanha assumindo responsabilidades pelos resultados que levaram, pela primeira vez desde o nazismo, um partido com ligações à extrema direita ao parlamento alemão.

Para conhecer melhor o ‘Alternativa para a Alemanha’ (AFD) vale a pena ver esta reportagem em vídeo do Financial Times.

Em Espanha continua a polémica sobre o referendo na Catalunha com uma posição de força do líder dos Mossos. O comissário José Lluís Trapero, num ato simbólico, mandou o seu número dois à reunião com um elemento do ministério do Interior para preparar a segurança para o próximo fim de semana.

Esta terça feira é o dia da tomada de posse de João Lourenço como o novo Presidente de Angola. A partir de hoje vamos poder ver até que ponto as coisas mudam. Se Lourenço é de facto Presidente ou se é apenas uma figura comandada por outros poderes. Marcelo Rebelo de Sousa vai à tomada de posse. António Costa, que até tinha previsto ir, — em entrevista ao Expresso em agosto disse “provavelmente irei à posse do próximo Presidente da República [de Angola]. Terei de acertar isso com o Presidente da República, mas é normal que a representação seja feita por mim” —não foi convidado. Em Luanda, Marcelo é Marcelo e não perdeu oportunidade para ir a banhos e tirar selfies.

As relações com Angola estão longe de estarem pacíficas. O jornal i diz que o governo angolano ameaça romper as relações diplomáticas com Portugal por causa do processo do Ministério Público que envolve Manuel Vicente.

Entramos na reta final das autárquicas. Umas eleições sem história onde a grande incógnita, que só será respondida no domingo, é a amplitude da derrota do PSD. É claro que vai haver resultados e análises para todos os gostos, mas esse será o dado para onde todos vão olhar, da esquerda à direita.

Quem não parece querer esperar é Rui Rio que diz que vai avançar para a liderança do PSD, independentemente do resultado.

Em Loures, António Costa saiu ao ataque num discurso muito duro contra o PSD. O primeiro-ministro defendeu que Loures foi um “balão de ensaio” de uma estratégia populista do principal partido da oposição.

Há sítios onde nada muda, onde a fidelidade a um partido parece eterna, e neste jogo quem ganha é o PSD que é de longe o partido que há mais tempo conserva em seu poder vários municípios. Pode consultar aqui a lista dos municípios que há 36 anos não mudam de cor política, só do PSD são 15.

Os precários a tempo parcial também vão poder entrar na função pública, diz o Público.

A venda da pílula está em queda há 5 anos. Outro tipo de contracetivos e a distribuição gratuita nos centros de saúde explicam a notícia do Jornal de Notícias.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
$59 é o valor do preço do petróleo, o mais alto dos dois últimos anos. Maior procura e um referendo sobre a independência da região do Curdistão estão a puxar o preço para cima.

4500 é o total de novos lugares de estacionamento em Lisboa sujeitos a parquímetro que vão entrar em funcionamento, mas só depois das eleições. Pode consultar aqui onde tem de passar a por moedinha…

€1.901 milhões foi quanto melhorou o défice face ao mesmo período de 2016, segundo o Governo. Para este resultados contribuíram o aumento da receita de 4,3% e o crescimento da despesa de 0,4%. O Diário de Notícias escreve que um dos impostos que mais subiu foi o IMT. Mais 24% até agosto por causa da melhoria no mercado imobiliário.

FRASES
Sabemos bem que dos 200 mil novos postos de trabalho criados nestes dois anos, restam ainda mais de 400 mil portugueses no desemprego. Isto significa que não nos podemos dar por satisfeitos com aquilo que conseguimos”, António Costa.

“O BE pode ser a grande surpresa destas eleições autárquicas”, Catarina Martins, ao Público.

Peço desculpa pelos erros que cometemos. Vamos apelar da decisão [revogação da licença para operar em Londres] em nome de milhões de londrinos, mas fazemo-lo com o conhecimento que também temos de mudar”, Dara Khosrowshahi, CEO da Uber

O QUE EU ANDO A LER
“Este livro destina-se a ser desmentido”. É assim que começa o novo livro de José Gomes Ferreira, “A Vénia de Portugal ao Regime dos Banqueiros”. Uma viagem à relação histórica entre bancos e poderes políticos. Logo no início são levantadas algumas das perguntas, pertinentes, a que a obra tenta responder. José Gomes Ferreira não consegue responder a todas. Algumas nem sequer terão resposta, mas ao longo dos capítulos sucedem-se as histórias que colocam a nu as estranhas coincidências das relações entre a banca e o poder político.

Talvez a mais importante seja a possível interferência de Ricardo Salgado no rasgar de Paulo Portas da sua demissão irreversível.

Muito do que lá está escrito não é novidade, muito menos para mim e para os que durante anos acompanharam os últimos anos dos bancos, não é uma historia bonita, nem pretende ser. É uma visão crua da realidade. De como os bancos se serviram do poder político durante anos e anos. Falta a outra parte. O reverso da medalha e de como os políticos se serviram dos bancos para o exercício do seu poder durante anos e anos.

Das duas, não sei qual a que terá custado mais dinheiro aos contribuintes.

Este Expresso Curto fica por aqui. Tenha uma ótima terça-feira.

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