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Expresso

João Silvestre Jornalista

No, woman, no cry

25 de Setembro de 2017

Bom dia,

As palavras do título são de Bob Marley e não foram escritas para Angela Merkel. Nem podiam. A música foi gravada pela primeira vez em 1974, quando Merkel 20 anos e vivia na Alemanha de Leste onde estudava Física na universidade de Leipzig. Estava longe de sonhar que viria a ser chanceler de uma Alemanha unificada e logo com quatro mandatos consecutivos. A vitória de ontem abre-lhe caminho para ser a chanceler com mais anos no cargo de sempre. Esta é a boa notícia e o grande motivo de felicidade para Merkel que chegou a ser dada como uma líder transitória. A parte má da história é que foi um dos piores resultados de sempre da CDU/CSU e o parceiro de coligação – o SPD – quer desfazer o atual casamento. A solução à vista é uma coligação inédita com os Verdes e os liberais do FDP, uma coligação com as cores da bandeira da Jamaica.

Mas vamos aos resultados. A CDU/CSU ficou nos 33%, perdeu oito pontos e vai ter 246 dos 709 deputados do Bundestag. O SPD ficou em segundo lugar, com um trambolhão para 20,5%, e apenas 153 deputados. Em terceiro lugar aparece a extrema-direita do AfD (12,6%), seguido do FDP (10,7%), a Esquerda (9,2%) e dos Verdes (8,9%).

A noite eleitoral foi acompanhada a par e passo por toda a imprensa. Para perceber o que está em causa pode ver o que foi escrito no Expresso, no Público, no Observador ou no Diário de Notícias cá dentro. Ou, lá fora, no Financial Times, no El País, na versão inglesa da Spiegel, no New York Times ou no Guardian. Há análises e visões para todos os gostos. Mas há também pontos comuns: a subida da extrema-direita, o fim da grande coligação com o SPD ou a perda de deputados da CDU/CSU.

Como habitualmente em eleições, os resultados não agradaram a todos da mesma maneira. Dentro e fora da Alemanha. Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional francesa, congratulou-se pela subida da extrema-direita na Alemanha que classificou como “um resultado histórico”. Quem não gostou desta subida do AfD foram os muitos alemães que saíram à rua em protesto. Também o euro parece não ter gostado muito. Talvez pela incerteza sobre o futuro político da maior economia da zona euro.

Para ter um filme completo dos acontecimentos pode consultar o blogue do Financial Times que agregou ao longo de várias horas todas as informações, comentários, análises e resultados. Se quiser ter uma perspetiva do que pode ser este quarto mandato de Merkel e recordar o seu percurso deve ler o perfil de Teresa de Sousa no Público escrito ainda antes da eleição.

OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro

Um dos temas fortes do fim-de-semana foi o relatório das secretas sobre Tancos que o Expresso revelou na edição de sábado (link para assinantes). Houve uma série de reacções relevantes, desde Passos Coelho a queixar-se que tem que ler o Expresso para saber o que se passa no país, dos militares a desmentirem a existência do relatório, António Costa a dizer que não conhece e não existe documento e Marcelo Rebelo de Sousa que começou por ficar preocupado e depois deixou de estar.

Ontem, o ministro da Defesa falava em intenção política na divulgação de um relatório fabricado. No meio de tudo isto, o Expresso reafirmou a autenticidade do documento.

A campanha eleitoral autárquica continua a bom ritmo e os líderes dos partidos multiplicam-se em ações pelo país. Para saber o que andaram ontem a fazer António Costa, Passos Coelho, Assunção Cristas, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins pode acompanhar as autárquicas ao minuto do Público. Ou as reportagens dos jornalistas do Expresso que estão no terreno. Filipe Santos Costa está a acompanhar a campanha de Passos Coelho e ontem problematizava sobre o papel do porco no espeto na campanha eleitoral. Adriano Nobre, com António Costa, no Alentejo e no Algarve.

Morreu ontem D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, conhecido como o “bispo vermelho” pelo papel que teve na denúncia da pobreza e dos graves problemas sociais no distrito. Isso mesmo, aliás, foi sublinhado por António Costa na reacção à sua morte: “A melhor homenagem à sua memória é a ação pela erradicação da pobreza”. Para recordar o pensamento de D. Manuel Martins pode ler (ou reler) a entrevista que deu ao Expresso em 2014.

Notícias rápidas:

- João Ferreira Rosa, o fadista que cantou o “O Embuçado”, morreu aos 80 anos;

- A mãe e a namorada do irmão da criança que morreu em queda do 3ª andar foram detidas;

- Bastonário dos Médicos disse, em entrevista ao DN, que o ministro da Saúde está fragilizado e pediu que “cumpra o que é a sua missão principal, que é defender a saúde dos portugueses”

Manchetes dos jornais:”Instituto da Água arrasou entrega de barragens à EDP sem concurso” (Público); “Campanha eleitoral tira professores das salas de aula”(DN); “Jogo online: Gastamos 108 milhões e Fisco fica com 47 milhões”(JN); “Submarinos custam 8,5 milhões/ano” (Correio da Manhã); “Fim de semana quente no palácio do Grande Oriente Lusitano”(i); “Bancos exigem prioridade nos ativos do Novo Banco” (Jornal de Negócios); Fejsa chama vitórias: Talismã”(Recorde); “André Gomes: Jogar no Barcelona não é para todos”(A Bola); “João Moutinho: FC Porto joga sempre a pensar no golo”(Jogo)

Lá fora

Depois da troca de acusações com Kim Jong-un, Donald Trump comprou uma ‘guerra’ caseira com os jogadores de basquetebol, de futebol americano e até de baseball. Desde a eleição que Trump tem sido criticado por algumas das maiores estrelas do desporto norte-americano, principalmente pela sua retórica próxima do racismo ou, pelo menos, pela sua não condenação. O caso mais recente foi a recusa de Stephen Curry a estrela dos campeões da NBA Golden State Warriors, em ir à tradicional visita à Casa Branca. Em resposta, o presidente retirou o convite à equipa. A partir daí têm sido uma escalada: apoios a Curry e muitos atletas – principalmente na liga de futebol americano (NFL) - a ajoelhar-se durante o hino ou até a não entrar em campo enquanto se ouve o Star Spangled Banner. Enquanto isto, a Casa Branca alargou a lista de países abrangidos pelas restrições de entrada nos EUA. Venezuela e Coreia do Norte são dois dos países incluídos.

Na Catalunha vivem-se momentos de alta tensão a menos de uma semana para o dia anunciado do referendo da independência. O governo de Madrid tem tomado várias medidas para travar a preparação do referendo mas, nas ruas, os protestos continuam. Para amanhã, está agendada a primeira reunião de coordenação entre Diogo Peréz de los Cobos, que está a chefiar as várias forças de autoridade na Catalunha, e Josep Lluíz Trapero que está à frente dos Mossos d´Esquadra.

Ontem surgiram notícias a dar conta da ingerência russa no processo através da comunicação social, colocando em paralelo o independentismo catalão com outros casos como a Crimeia ou o Curdistão. Sobre o referendo catalão, o El País publicou um extenso artigo com 10 afirmações frequentes de apoio à soberania da Catalunha e que, diz o periódico, não são verdadeiras. Dos EUA, chegaram apoios a Mariano Rajoy e à sua posição contra o referendo, como conta o jornal digital El Espanol.

No Myanmar continua o drama dos rohingya que vivem “dias de horror”, como conta a reportagem do Washington Post – publicada pelo Público – com relatos da fuga de um grupo de pessoas que fugiu da aldeia de Maung Nu.

De regresso aos EUA com um tema completamente diferente na edição de fim-de-semana do Financial Times: “Campus wars: has liberalism gone too far?” (em tradução livre: Guerra no campus: o liberalismo foi longe demais?). Centra-se na discussão sobre os limites à liberdade de expressão no meio universitário norte-americano que, sendo aparentemente distante, remete para alguns casos recentes em Portugal.

FRASES

Genti con repichuchi. António Costa êhta con Barrancu”, Cartaz de campanha do PS em Barrancos a apoiar Costa durante a sua visita

Estou convencido que se vão enganar aqueles que têm vaticinado que o dia 1 de Outubro vai ser um dia menos agradável para o PSD. Tem estado na moda bater no PPD/PSD, Pedro Santana Lopes, Provedor da Santa Casa da Misericórdia e ex-primeiro-ministro

O QUE ANDO A LER (E A OUVIR)

É praticamente consensual que a política económica e a própria teoria falharam, e muito, na antevisão da crise que estourou há dez anos e da qual muitos países – como Portugal – ainda tentam recuperar. Houve alertas de alguns economistas, é certo, mas as autoridades não viram a tempestade a formar-se, desvalorizaram os primeiros sinais e a ‘bomba’ rebentou-lhes no colo.

“The End of Theory” de Richard Bookstaber é um livro sobre a crise da teoria económica que ficou a nu depois da crise financeira por usar modelos desfasados da realidade que, na maior parte dos casos, nem sequer contemplam a possibilidade de as crises ocorrerem.

O diagnóstico de Bookstaber é arrasador: “A teoria económica assume um nível de consistência e racionalidade que não apenas deixa as cascatas e a propagação durante as crises inexplicáveis mas que afirma também que são inexplicáveis”. Uma teoria onde “tudo é racional até que deixa de ser”, em que “a Economia funciona, até que deixa de funcionar” e em que “o modelo dominante apresenta um mundo em que todos estamos enrolados num indivíduo representativo que começa a sua vida produtiva tendo mapeado a sua trajetória futura de investimento e consumo com conhecimento total de todas as futuras contingências e a sua probabilidade de ocorrência”. É um “mundo de fantasia” onde nem sequer há sistema financeiro ou bancos.

E qual a solução? Bookstaber propõe o recurso a modelos de agentes: modelos económicos com base na computação onde, vez de sistemas simplificados da realidade, é possível ter comportamentos heterogéneos e simular ‘mundos’ mais complexas. São modelos usados em diversas áreas e que a Economia também tem progressivamente incorporado. Serão suficientes para evitar crises futuras? Provavelmente não. Mas ajudam.

Enquanto se reflete sobre as causas e a natureza das crises económicas nada como ter uma boa banda sonora. E, nos últimos tempos, tem havido uma série de novos lançamentos que merecem atenção. Sem falar nos óbvios – e tão badalados - regressos dos National, dos Queen of the Stone Age ou dos LCD Soundsystem, ficam apenas duas sugestões muito recentes que acompanharam a escrita deste Curto: “Science Fiction”, o último álbum dos Brand New, e a coletânea Jack White Acoustic Recordings 1998-2016.

Tenha um excelente dia. Siga toda a actualidade no Expresso online e confira os principais temas do dia no Expresso Diário.

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