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Ricardo Marques Jornalista

Depois de ti, Tony…

14 de Setembro de 2017

Depois de ti, vem tudo.




gente a morrer à fome nas Caraíbas, gente a ser morta em Myanmar. Há uma discussão séria em curso na União Europeia, outra ainda mais séria no Reino Unido, um louco com aspirações nucleares na Coreia do Norte e uma situação explosiva na Catalunha. Há um autarca debaixo de fogo em Lisboa e não há muitos enfermeiros a trabalhar por estes dias. Há tanta coisa a acontecer. O Porto perdeu em casa, o Ronaldo marcou dois golos…




Mas antes de tudo isto estás tu, Tony.




Ontem não houve rádio nem televisão que não dedicasse uns valentes minutos à notícia que “marca a atualidade”: Tony Carreira foi acusado pelo Ministério Público dos crimes de usurpação e contrafacção. Em causa estão 11 musicas de autores estrangeiros. Diz a acusação que o cantor romântico e o compositor Ricardo Landum, também arguido, se "arrogaram autores de obras alheias" após modificarem os temas originais.




Tony Carreira reagiu, numa entrevista à SIC, já depois de a empresa que o representa, a Regiconcerto, ter feito o mesmo através do Facebook. A tese é que o assunto não é novo, já foi resolvido com os visados e que tudo não passa de um ataque. Pode ouvir aqui, cortesia da Blitz, o antes e depois de alguns temas.




Não deixa de ser irónico.




Há uns meses foi publicada uma reportagem no Expresso sobre Tony Carreira. O maior artista português atualidade nos ensaios, na estrada e num concerto esgotado em Guimarães. Ninguém por cá consegue o que ele consegue, ninguém tem fãs como ele. Lembro-me de escrever que se Tony alinhasse os discos todos que já vendeu numa estrada não chegavam 480 quilómetros… O homem tem tudo, menos o reconhecimento.




Queixava-se de não passar nas rádios e de haver um preconceito contra ele. Sobre os plágios e os processos, que o acompanham há anos, já o tinha dito numa entrevista ao Expresso, em 2009, e não se quis alongar. “As notícias sobre mim vendem, falsas ou verdadeiras. E eu deixei de responder, não alimento novelas. Se houver matéria para processar, processo, como já fiz, e o assunto resolve-se em tribunal. Caso contrário, fico sossegado e deixo andar.” Pelos vistos, o sossego acabou e não se fala de outra coisa.




Retive ainda uma outra frase. “Nunca me arrependo de nada. Pode ser mal interpretado, mas é verdade. Não me arrependo de nada do que fiz, coisas boas e coisas más. Voltaria a fazer tudo igual, com todos os erros…”




Tony, nesta hora difícil, dedico-te estas linhas (e prescindo desde já de quaisquer direitos de autor)




Eis o lamento do coração:

a doce voz do amor,

acusada de usurpação

no tom seco do magistrado.

E o povo chora de dor,

Incrédulo, horrorizado.

Como se do céu caísse uma gaivota

e morta ficasse na rua…

Ó despacho, ó despacho

Onde se lê que Tony fez

Sua

A canção de ‘O Idiota’

… e mais outras dez

OUTRAS NOTÍCIAS


De volta à realidade, segue a habitual lista de assuntos de que provavelmente vai ouvir falar durante o dia de hoje.


Começamos pela ausência. A greve dos enfermeiros, que pretendem a introdução da categoria de especialista na carreira e um horário de 35 horas, só termina à meia-noite de sábado. Por isso, é previsível que se mantenham os constrangimentos nos hospitais. Há vigílias em Santa Maria da Feira (às 08h30) e em Aveiro (às 12h00). Ontem, houve uma reunião no Ministério da Saúde, com um sindicato que não aderiu à greve, mas acabou sem conclusões.




Passamos para a omnipresença. Fernando Medina, e a história do apartamento que comprou, está em todo o lado. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa e candidato do PS apresentou uma série de documentos sobre o processo de negociação e compra do imóvel (a fazer lembrar as negociações naqueles programas de agentes imobiliários em Nova Iorque…) e o Ministério Público (além de acusar Tony Carreira) confirmou que "a matéria relativa à compra do imóvel é referida numa denúncia anónima recebida na Procuradoria-Geral da República em finais de agosto" e que a participação foi remetida ao Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, "onde se encontra em investigação”.




Em sentido contrário, Miguel Relvas (lembra-se dele?) falou com a Cristina Figueiredo depois de saber que tinha sido arquivado o processo Tecnoforma.




Caminhamos para a luz, ao encontro da EDP, uma empresa de que certamente vai ouvir falar. Soube-se ontem que a Direcção-Geral de Energia e Geologia notificou a EDP para devolver ao Estado 72,9 milhões de euros por sobrecompensação nas centrais eléctricas. O Miguel Prado enquadra o plano do Governo que irá atingir os lucros da elétrica. E o Público traz o tema para a manchete.




Com um pé na pátria, estendemos o outro até aos Estados Unidos da América. No pressuposto de que tudo isto existe mesmo - a pátria, a América e os pés - fique a saber que termina hoje a visita oficial do ministro da Defesa à terra de Trump. Azeredo Lopes viajou a convite do secretário da Defesa dos EUA, James Mattis, com quem se encontrou (pode ler aqui a versão americana da reunião - no último parágrafo o americano congratula-se por Portugal ter assumido que vai gastar 2% do PIB na Defesa…)




Quando regressar, como contam a Luísa Meireles e a Mariana Lima Cunha, Azeredo Lopes terá à sua espera um pedido de informação da Comissão de Defesa Nacional sobre as averiguações em curso ao estranho caso de Tancos. “Perguntámos alhos, o ministro respondeu bugalhos”, disse ao Expresso Marco António Costa, presidente da comissão. O pedido é secundado por todos os grupos parlamentares.




O resto do Governo senta-se hoje à mesa para a reunião de Conselho de Ministros (às 09h30). Horas mais tarde, pelas 15h00, vão ser anunciados os projetos vencedores do Orçamento Participativo Portugal. Houve mais de 600 projetos a votação neste primeiro ano da medida e a meio da tarde deverá haver novidades.




Destaque ainda para a entrevista do ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, que diz ao Público e à Renascença que o Governo pode estar a ser vítima do seu próprio sucesso. E, em plena época de greves e exigências sindicais, deixa um alerta: "Pode ter-se criado a ideia de que há uma espécie de folga".







Menos certa é a data de regresso do avião C-130 que voou até as Caraíbas para garantir o repatriamento dos emigrantes portugueses atingidos pelo furacão Irma. De acordo com os relatos que vão chegando das zonas afetadas, a situação é crítica: falta comida e, pelos vistos, ainda falta muito para se perceber a real dimensão dos estragos. E o número de vítimas indiretas.







O “The New York Times” escreve que a Coreia do Norte voltou ao trabalho nas instalações nucleares e, ao mesmo tempo, a Coreia do Sul divulgou o teste bem sucedido com um novo míssil.




A pouco mais de uma semana das eleições na Alemanha, vale a pena perder alguns minutos a ler este artigo sobre as relações perigosas entre a industria automóvel e a política alemã. Fala da Volkswagen e, por isso, falamos também da Autoeuropa: o novo modelo da marca vai ser mesmo produzido em Palmela.




A paragem na Alemanha é um bom pretexto para falar do estado da União Europeia. A Luísa Meireles resume as ideias-fortes do discurso de Jean-Claude Juncker acerca da Europa, num artigo que começa um detalhe que irritou alguns portugueses.




Já os ingleses deviam reparar noutra coisa: na indiferença com que o presidente da Comissão Europeia abordou a questão do Brexit. Num artigo no Guardian, o presidente do think tank Bruegel sugere que Londres talvez deva começar a pensar noutras coisas. A Europa já começou a fazê-lo, diz Guntram Wolff.




Na Catalunha, a Justiça mandou prender os autarcas que colaborem com o referendo de independência, e está em curso uma guerra que não promete nada de bom para o dia do referendo. O El Mundo conta como a Guardia Civil desligou o site do referendo, apenas para o governo catalão o voltar a ligar, num endereço diferente.




No Brasil começa a ser difícil acompanhar todas as diligências da polícia e todos os casos em que surge o nome do presidente Temer.




António Guterres, secretário geral da ONU, classificou ontem de “catastrófica” a situação da minoria muçulmana em Myanmar.




Um dos assuntos de que deve ouvir falar hoje é o início de um mega-exercício militar da Rússia e da Bielorússia junto à fronteira da União Europeia. A BBC tem aqui um bom resumo sobre a enorme deslocação de tropas que está a deixar muita gente nervosa.




Frederico Morais está nos quartos de final do Hurley Pro, em Trestles, na California. Ontem de madrugada, o surfista português bateu o líder do circuito mundial, o sul-africano Jordy Smith, e o australiano Adrian Buchan. Morais deve voltar à água esta tarde e pode assistir à prova em direto aqui.




Já se sabia, mas agora tornou-se oficial: Paris vai receber os Jogos Olímpicos de 2024.




O Porto perdeu em casa na estreia na Liga dos Campeões. O resultado acabou em 1-3 para o Besiktas - a primeira derrota dos azuis e brancos esta época e, já se sabe, há um dia inteiro para analisar e concluir e projetar. Esta noite jogam o Guimarães, contra o Salzburgo, e o Braga, contra o Hoffenheim, para a Liga Europa.





MANCHETES




Correio da Manhã: “Tony acusado de copiar 11 músicas"




Jornal de Notícias: “Duplicam queixas de praxes abusivas”




Diário de Notícias: “Governo vai proibir jogos de futebol em dias de eleições"




Público: “Famílias vão poupar 170 milhões em eletricidade”




i: “Desconhecia até às notícias publicadas a relação acionista ou outra da vendedora com a Teixeira Duarte”




Visão: “Manual da traição em política”




Sábado: “A miragem dos negócios milionários na Net"




O QUE ANDO A LER




Não vou sugerir que vá a correr comprar o livro de Hillary Clinton sobre as eleições presidenciais americanas do ano passado, ainda que não seja má ideia começar a pensar nisso. Basta espreitar esta lista de 10 pequenas histórias que o Guardian encontrou https://www.theguardian.com/us-news/2017/sep/13/ten-things-we-learned-from-hillary-clintons-book-what-happened .




O livro fala também da interferência russa nas eleições, um daqueles assuntos de que ouvimos falar há uma série de meses e nunca percebemos bem como é que acontece. Pois bem, a sugestão é essa. Este longo artigo do “The New York Times” demonstra como acontecem as coisas e conclui, com base nas coisas demonstradas, que os russos estão a ganhar a guerra da informação.


Se despachar tudo até ao fim de semana, concentre-se nas palavras e delicie-se com este artigo (menos longo) sobre as aventuras mais estranhas de uma das editoras de dicionários mais famosas da língua inglesa. É delicioso e, provavelmente, fará com que queira ler “Word by word” antes do livro de Hillary.




Por falar em palavras, há uma música de Tony Carreira chamada “Vou-te esquecer” e nessa música há uns versos que são assim:


“Dentro de mim há um vazio / Que ela deixou ao me deixar / Meu coração ficou com frio / Trago no peito o seu olhar”


Deixe para lá. Esqueça-se de tudo, mas lembre-se que hoje a temperatura vai descer.


Expresso Diário às 18h00 e informação todo o dia no site do expresso.


Tenha um bom dia.

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