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Rui Cardoso Editor

Allende, a História e os discursos

13 de Setembro de 2017

O dia de hoje é marcado, no plano desportivo pelas competições europeias de futebol. Ontem, sem prejuízo da acção de um árbitro pouco competente, o Benfica confirmou estar a atravessar uma crise estrutural subsequente ao desmantelamento da defesa da época anterior. Já o Sporting resolveu de forma exemplar uma das mais difíceis deslocações de um calendário que já de si não é fácil.

Com o pormenor significativo de a história recente de Jorge Jesus sugerir que, pelo menos até agora, a Liga dos Campeões não era propriamente a sua especialidade. Veja o que a este propósito dizem A Bola e o Record. Logo será a vez do Futebol Clube do Porto receber os turcos do Besiktas em casa, num jogo onde só a vitória interessa.

O que as partidas de ontem também mostraram foi a dimensão do abismo que se está a cavar entre as super-equipas da Europa e os outros. Basta atentar na dimensão das vitórias do PSG, Manchester United ou Barcelona.

O dia de hoje é também marcado pela discussão no Conselho de Segurança da ONU da perseguição à minoria muçulmana rohingya na antiga Birmânia (Myanmar) e pelo encontro entre o presidente dos EUA Donald Trump e o governo dos Emirados Árabes Unidos por causa da crise diplomática com o Qatar.

Já lá iremos mas antes disso vamos recuar uns dias na História até porque às vezes andar para trás é o que nos dá balanço para andarmos para a frente. Façamos então de conta que esta newsletter chegava ao leitor não hoje dia 13 mas a 11 de Setembro. Evoquemos então essa data marcada pelo atentado às Torres Gémeas em 2001 mas também pelo golpe de estado de Pinochet no Chile. E é por aqui que começaremos.

Com o Palácio de La Moneda cercado pelos tanques dos golpistas, o presidente chileno Salvador Allende fez, aos microfones da rádio Magalhães, uma das poucas que ainda tinha sinal, um discurso que ficou para a História. Sabia que estava condenado e deixou as suas últimas palavras. Era o culminar de um processo de desestabilização de um governo democraticamente eleito feito pelos falcões da Casa Branca, a começar por Kissinger, o mesmo que dois anos depois daria luz verde à ditadura indonésia para invadir Timor Leste.

“Outros virão para superar este momento cinzento e amargo em que a traição parece levar a melhor. Tenham presente que mais cedo do que tarde voltarão a abrir-se as grandes alamedas por onde hão-de passar os homens livres para construírem uma sociedade melhor.”

É um discurso para História feito num momento de desespero, ao nível de outros que aqui lembrarei. A 18 de Junho de 1940, com a França derrotada pela guerra relâmpago alemã e com o governo francês a recusar a proposta de Churchill de unir os dois países e de prosseguir a luta a partir dos respectivos impérios coloniais, um general quase desconhecido chamado Charles De Gaulle lia aos microfones da BBC aquilo que ficámos a conhecer como o apelo do 18 de Junho de 1940. Poucos o ouviram em directo, tanto que uma versão condensada em cartaz foi afixada nas ruas da capital britânica e depois enviada clandestinamente para França.

“Governantes de circunstância capitularam. Cederam ao pânico e esqueceram a honra, entregando o país à servidão. Porém nada está perdido (…) No universo livre forças imensas ainda não entraram em acção (…) Apelo aos franceses onde quer que estejam para que se juntem a mim na acção, no sacrifício e na esperança. Suceda o que suceder a chama da resistência francesa não deve apagar-se e nunca se apagará!”

Dias antes, a 4 de Junho, já com a batalha de França a caminhar para o seu trágico desfecho o primeiro-ministro britânico Winston Churchill marcava também encontro com a História ao discursar na Câmara dos Comuns.

“Muito embora grandes extensões da Europa tenham caído ou possam vir a cair sob os golpes da Gestapo e da odiosa máquina de guerra nazi, não podemos desanimar (…). Lutaremos em França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança e determinação crescentes no ar. Defenderemos a nossa ilha, custe o que custar. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de aterragem, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nos montes mas nunca nos renderemos!”

A oratória de De Gaulle é empolgante mas o seu tom tem algo de pomposo. A retórica de Churchill é brilhante mas literária. Já a intervenção de Franklin Roosevelt no Congresso após o ataque japonês a Pearl Harbor é um modelo de concisão e de pragmatismo. Em apenas sete minutos o presidente dos EUA estilhaçou anos de isolacionismo e levou o Senado e a Câmara dos Representantes a votarem quase por aclamação a declaração de guerra. Em poucos minutos se resolveu o que na I Guerra Mundial demorara perto de dois dias

“Ontem, dia 7 de dezembro de 1941 - uma data que viverá na infâmia - os Estados Unidos foram repentina e deliberadamente atacados pelas forças navais e aéreas do Império do Japão (…) Uma hora depois das esquadras japonesas terem começado a bombardear a ilha americana de Oahu, o embaixador japonês nos Estados Unidos e o seu colega, entregavam ao nosso Secretário de Estado a resposta formal a uma mensagem recente da América. Dessa resposta resultava que era inútil prosseguir com as negociações diplomáticas em curso mas a mesma não continha nenhuma ameaça, alusão a guerra, ou ataque armado. (…) Peço ao Congresso que perante este ataque cobarde e sem motivo do Japão, no domingo, 7 de dezembro de 1941, os Estados Unidos declarem guerra ao Império Japonês.”

O que vem a seguir é ficção mas não deixa de ser um grande discurso, concebido para combater o isolacionismo americano. Na cena final de “Correspondente de Guerra” filmado em 1940 por Alfred Hitchcock nos EUA, John McCrea, interpretando o jornalista John Jones, fala aos microfones da BBC numa transmissão em directo para os EUA enquanto a cidade é bombardeada. É uma peça brilhante de propaganda pró-aliada, ao nível do soar de A Marselhesa em “Casablanca”

“Vou continuar de improviso porque não há luz para ler aquilo que tinha escrito. O que ouvem em fundo não é estática mas a morte a cair sobre Londres. São as bombas a cair nas ruas. Oiçam-me porque está é uma grande reportagem e tem a ver convosco. Aqui é tarde demais para fazer outra coisa senão ficar à espera no escuro. É como se as luzes se tivessem apagado em todo o lado menos na América. Mantenham essas luzes a brilhar. Protejam-nas com aço. Rodeiam-nas de uma muralha de barcos e aviões. América, faz brilhar a tua luz porque é a única que resta no mundo…”

Passemos ao outro 11 de Setembro, o do massacre nas Torres Gémeas em Nova Iorque, apenas para registar um facto tantas vezes esquecido. Dos 19 sequestradores dos quatro aviões, 15 eram sauditas, dois dos Emirados Árabes Unidos, um era egípcio e outro um libanês. Iranianos e iraquianos nem um. No entanto, o Iraque viria a ser invadido dois anos depois e no famoso diploma de Trump sobre o controlo da imigração, Egipto e Arábia Saudita ficam de fora das restrições e Irão não. Se os caminhos do Senhor são por vezes ínvios, que dizer dos da política norte-americana?

Agrava-se a crise birmanesa

A primeira-ministra de Myanmar (antiga Birmânia) anulou uma deslocação à sede da ONU na sequência do agravamento da crise com a minoria muçulmana rohingya. É um êxodo em massa para o vizinho Bangladesh que tem cada vez maior dificuldade em acolher o fluxo de refugiados, estimado em 300 mil pessoas. A Prémio Nobel da Paz Aung Sam Suu Kyi parece ter perante si um caminho cada vez mais estreito, entre as pressões dos generais com quem é forçada a coexistir, e a rápida erosão do seu capital ético e político. Leia a análise no diário francês “Le Monde”.

O dia seguinte ao da passagem do furacão Irma na costa da Florida é dramático como conta o diário norte-americano The Washington Post. Se aqui há um fenómeno meteorológico extremo, no caso do furacão Harvey no Texas, o desordenamento urbanístico e a construção em leito de cheia explicam uma boa parte da dimensão da tragédia na região de Houston.

Entretanto, há sempre quem brinque com o fogo ou neste caso com o vento. O cronista ultra conservador Rush Limbaugh sempre proclamou que as mudanças climáticas eram “fake news”, pelo que o Irma só podia ser uma conspiração dos media liberais. Até anunciar que fazer o seu show de sexta-feira ia ser “problemático” e “legalmente impossível”, quem sabe se por pressão dos advogados do furacão. Uma história hilariante contada pelo “Miami Herald”.

Transportes públicos e justiça para todos

Por cá o Público conta-nos que os transportes públicos encetaram uma longa marcha para recuperar os passageiros perdidos, movimento geral ao qual só a Carris parece escapar. Já o Jornal de Notícias puxa à primeira página a história da estudante de Direito portuguesa Alexandra da Silva que defendeu com sucesso, numa acção cível, uma pessoa com problemas de saúde contra um gabinete de advogados de uma grande seguradora.

Leituras recentes

Para terminar, duas sugestões de leitura. Uma é de uma revista que muito aprecio “Guerres et Histoire” (do grupo Science et Vie). No seu número 38 saído em Agosto conta com poderia ter sido a Guerra Fria na Europa se porventura tivesse chegado a aquecer. Em 1975 o Pacto de Varsóvia estava no zénite e o material da NATO estava a envelhecer e o prego era que, perante uma blitzkrieg soviética o comada da NATO se sentisse tentado a recorrer à arma atómica, mesmo táctica.

Em 1985 deu-se o caso oposto quando a decadência do Pacto prefigurava já o afundamento da URSS. Foi nessa altura que os generais da NATO descobriram que com a rede de estradas secundárias da Europa era mais barato e eficaz investir em blindados com rodas que em carros de lagartas.

Para concluir, os clássicos. Nunca me canso de reler Camilo Castelo Branco e as “Novelas do Minho” em particular, disponíveis em múltiplas e acessíveis edições. A minha favorita é a descrição da romaria de Cavez, entre Mondim de Basto e Ribeira de Pena, por alturas da romaria de São Bartolomeu (24 de Agosto).

O grande Camilo descreve o cortejo das endemoinhadas trazidas monte abaixo para serem benzidas. E observa que “à vista daqueles peitos e daquelas pernas só se pode concluir que o maligno não ia escolher um corpo qualquer para se lá meter”.

Depois, os fradalhões que procediam aos exorcismos, quando o espírito imundo não cedia a rezas e injunções, pegavam na imagem em pedra do santo taumaturgo e davam com ela no toutiço dos possessos, ataque ao qual não havia diabrete que resistisse. Os Monty Phyton não inventaram nada…

Amanhã será a vez do meu camarada Ricardo Marques vos servir este Expresso Curto que, pela parte que toca, atrasou uns minutinhos, pecado do qual me penitencio perante os estimados leitores.

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