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Expresso

Luísa Meireles Redatora Principal

Futebol, iPhone e o futuro de Portugal

12 de Setembro de 2017

São três acontecimentos de primeira grandeza para o leitor. A escolha da ordem é minha, mas aposto que se as audiências não enganam e o saber de experiências confirma, o desporto, melhor, o futebol, vai levar a palma.

Ao fim da tarde começa a primeira jornada da Liga dos Campeões e entra logo a matar. Às 19h45, o Sporting vai até à Grécia defrontar o Olympiacos CFP, que todos conhecem pelo primeiro nome mas cujo denominação completa é “Clube Olímpico de Fãs do Pireu”. Fundado em 1925 a partir de dois clubes do Pireu, é o mais popular da Grécia. Os seus fundadores quiseram que o novo clube expressasse “poder, superioridade, ética e espírito olímpico” (as coisas que eu aprendo, leitor, para lhe servir um Curto culto!). O Sporting está “confiante”, embora anteveja dificuldades. Jesus ironiza. O costume.

À mesma hora, é a vez do sofrimento benfiquista: em casa, na Luz, enfrenta o CSKA de Moscovo, um clube historicamente conotado com o Exército Vermelho, soviético e agora russo, assim reza a pequena enciclopédia do clube. Serão 11 a jogar mas vieram 19 apanhar Sol nos treinos. Boa! Aqui no Expresso, poderá desfrutar da crónica do jogo na Tribuna.[A propósito, sabia que Ronaldo despediu os seus advogados, porque o amigo Jorge Mendes foi implicado no processo de fuga ao fisco?]

E para agendar para quarta-feira: o Porto defronta o turco Besiktas, à mesma hora, no “Dragão”. Nota: os turcos poderão jogar... sem turcos, nas bancadas, claro. Serão assim duplamente castigados, primeiro porque jogam fora de casa, depois sem qualquer apoio. Quem os manda portar mal?

Passemos assim ao segundo acontecimento mais popular: o lançamento de mais um mítico iPhone, o 8. Para os ifónicos em particular é motivo de particular interesse, para a comunidade tecnológica nem se fala. As expectativas são altas, como conta quem sabe. O 8 ou X (é o outro nome possível) marca os dez anos do lançamento do primeiro modelo mas também porque se espera uma das maiores evoluções de sempre, que é como quem diz, uma revolução. Há uma década foi assim. Será hoje, pelas 18h (de Lisboa) no novo auditório Steve Jobs, na sede da Apple. E pode um smartphone, que é como quem diz um telefone inteligente, valer mais de mil euros? interroga o Público.


O terceiro acontecimento (e se calhar o mais relevante para a nossa comunidade futura, digo eu) é de ordem política: o Governo arranca hoje com o plano zero dos grandes investimentos pós-2020 com uma reunião com o Conselho Económico e Social. Será na sala do Senado da Assembleia da República, às 15h. “Estes debates não serão para discutir as medidazinhas ou os programazinhos a financiar pelos fundos, mas os grandes objetivos do país”, disse o ministro do Planeamento Pedro Marques, a propósito do que o Governo quer que seja “a grande negociação”. O Governo quer um grande consenso, mas o PSD já enjeitou a proposta. Passos Coelho acusou o governo de "esperteza saloia" porque já estava tudo previsto antes, e diz que quem não tem futuro é o Governo. Quanto aos parceiros BE e o PCP, não apreciaram o rapapé que o Primeiro-ministro fez ao partido da oposição. Releia-se Catarina Martins: “a proposta teria ficado bem esquecida”. Para preparar a estratégia, o Governo reuniu ontem todo o dia em conselho de ministros extraordinário.

OUTRAS NOTÍCIAS

A greve mais polémica dos últimos tempos, a dos enfermeiros, vai no segundo dia de cinco e teve ontem pela primeira vez a intervenção do PM, que reuniu com o ministro da Saúde para preparar a reunião que este vai ter com o Sindicato dos Enfermeiros Portgueses, o terceiro do setor, e que se manteve à margem do protesto. O assunto é sério e toca uma vasta população sensível, para mais em véspera de eleições. Foram 14 mil os enfermeiros que saíram de Portugal desde o início da década. A greve foi marcada pelo Sindicato Independente dos Profissionais de Enfermagem (SIPE) e pelo Sindicato dos Enfermeiros contra a recusa do Ministério da Saúde em aceitar a proposta de atualização gradual dos salários e de integração da categoria de especialista na carreira. Os profissionais ainda reclamam a aplicação do regime das 35h semanais de trabalho a todos os enfermeiros. O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, o terceiro do setor, manteve-se à margem e reúne hoje no Ministério. Ao meio dia, o balanço da greve era de 85% e os setores mais afetados as consultas e as cirurgias. Os serviços mínimos estão garantidos, bem como as cirurgias urgentes. “Ilegítima, ilegal e imoral” é como o ministro da Saúde a qualifica.

A não menos polémica entrevista do ministro da Defesa continua a dar que falar. Militares e políticos (socialistas incluídos) ficaram perplexos com alguma das afirmações, como a hipótese de nem sequer poder ter havido furto nos paióis de Tancos, mesmo tendo sido uma suposição. “Um ministro não pode fazer suposições, tem de dar respostas”, é o resumo das críticas, que no CDS leva ao limite, exigindo a demissão. Quando se começa a falar de remodelação, eis que Azeredo Lopes se coloca de novo na berlinda. O PR fez saber que quer apuramento de responsabilidades o mais cedo possível, mas nada disse sobre as declarações do MDN. Supõe-se que há recados que só se dão em privado... Mas estará a perder a paciência, opina o Paulo Baldaia, no DN.

Escândalo a sério é aquele que se vai repetir pela segunda vez: em dia de eleições, há de novo jogos de futebol, nada menos do que quatro, sendo que um é o clássico Sporting-Porto e outro Benfica-Marítimo. Pedro Proença é presidente da Liga Portuguesa de Futebol há dois anos e pela segunda vez marcou jogos para dia de eleições. Nas legislativas de 2015, houve protestos até do então PR Cavaco Silva e a Comissão Nacional de Eleições desaconselhou, desta vez, a CNE nem sabia do assunto. Adivinhe quem lhe deu a notícia: a jornalista do Expresso! Reúne hoje mesmo para discutir o assunto. Eu, cidadã me confesso: sou contra e acho inaceitável. Não pode valer tudo. Quanto às eleições autárquicas propriamente ditas, saiba que 10% das Câmaras concentram 40% dos pagamentos em atraso (é a manchete do Público) e que já há 405 queixas por causa das autárquicas (DN). Até o Presidente da República foi apanhado por elas (pela campanha, não pelas queixas).

Então e Centeno? Nas Finanças, uma pequena notícia perdida no meio de um texto sobre o futuro presidente do Banco Central Europeu: o italiano Draghi está de saída em Fevereiro de 2019 e Merkel quer cozinhar as coisas de modo a ter um alemão (Jens Weidmann, segundo parece) a pilotar o BCE numa altura-chave da União Económica-Monetária e um espanhol (De Guindos) como vice. NOTÍCIA: para a presidência do Eurogrupo, perfila-se o ministro da Economia e Finanças francês Bruno le Maire. Era do grupo republicano, juntou-se ao En Marche de Macron este ano. O grupo socialista, que reclama o lugar, não dirá nada? A história vem contada pelo El Mundo e reproduzida pelo Negócios.

Ainda no plano económico, vai haver novidades para os grandes depósitos bancários, vão passar a ter proteção semelhante à que gozam os que estão abaixo dos 100 mil euros em caso de liquidação ou resolução bancária. Bloco e PCP já deram o seu acordo de princípio.

Na comunicação social, a notícia agora é a Cofina, proprietária de títulos como o Correio da Manhã, Jornal de Negócios, Sábado, Record e CMTV. Não é só a reunião das redações no mesmo espaço, como já tinha sido noticiado. É a aposta no digital (criar uma grande redação online com jornalistas de todos os títulos) e em mais canais de televisão. No papel investimento zero. Aiii...

O mundo em português o perdeu ontem um homem bom, o bispo do Porto, D.António Francisco dos Santos. Saiba porquê.


LÁ FORA

Furacões e salvamento. O Irma perdeu gás mas deixou um rasto de destruição atrás dele. Até ontem ao fim da tarde tinha feito 40 mortos, dos quais 10 em Cuba. São muitos milhões de prejuízos, mais de seis milhões de pessoas retiradas, milhares estão sem casa, sem luz e rodeados de água por todos os lados. Na Flórida teme-se uma crise humanitária. Portugal enviou um C-130 ontem, que aterrou durante a noite em Belém do Pará (Brasil) para recolher portugueses. Mas a retirada pode prolongar-se até domingo.

Espanha, Catalunha são dois nomes que ontem não rimaram nas ruas de Barcelona, no dia da “Diada”. Na capital catalã uma grande manifestação reuniu centenas de milhares de pessoas, segundo a imprensa. Foi “a Diada da desobediência”, diz o El Mundo. Estão a favor do referendo à independência que foi marcado pelo Governo catalão e contestado pelo Governo espanhol, que levou a decisão a tribunal. Rajoy joga aqui o seu futuro. A União Europeia está silenciosa. O "I" diz que é a marcha antes da guerra.

Coreia. Sanções. O Conselho de Segurança aprovou novas sanções a este país, com o acordo da Rússia e da China. E por falar em ONU, Guterres abrirá a Assembleia Geral com um apelo à paz (fará hoje o seu primeiro grande discurso desde que chegou ao cargo, em janeiro) e confirma-se que no dia 19 o Presidente Trump se estreia na Assembleia Geral da ONU. Outro estreante de peso será o novo Presidente francês, Emmanuel Macron, que enfrenta também as primeiras manifestações sérias em França. Acontecem, hoje, em Paris, e são o seu primeiro teste social. O Presidente Júpiter arrisca-se a deixar de sê-lo antes de o ser - leia aqui a opinião de Nuno Garoupa, que sabe sempre bem ler.

Alemanha. Eleições. O candidato social-democrata, Martin Shulz, dado como perdedor nas eleições de 24 de setembro (está 13 pontos atrás de Angela Merkel) não perdeu o bom humor e convidou a atual chanceler para sua vice. O SPD, todavia, já disse alto e bom som que não quer outra grande coligação. Contradições...

Brexit. O Governo britânico está a investigar queixas de que cidadãos europeus estão a ser vítimas de discriminação na compra ou aluguer de propriedades e mesmo no preenchimento de postos de trabalho. As negociações sobre a saída do Reino Unido da União Europeia nem sequer começaram a sério, ao mesmo tempo que no sábado milhares de pessoas voltaram a desfilar nas ruas de Londres pedindo a renúncia ao Brexit. Ontem, foi discutido o projeto de lei que deve por fim à supremacia do direito europeu, matéria que está no coração da pertença à UE. No Parlamento Europeu a influência britânica já começou a declinar...

União Europeia. Por falar em Brexit, é já amanhã o muito anunciado discurso do estado da União do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, em que este dirá o que pensa sobre o futuro da EuropaEstá tudo a postos em Estrasburgo para o receber, apesar de ter havido algum sobressalto de que muitos eurodeputados poderiam não estar presentes, em sinal de protesto pelas afirmações de Juncker que acusou o PE de ridículo quando o plenário ficou quase vazio para ouvir uma alocução do primeiro-ministro de Malta. Depois dos cinco cenários sectoriais que a Comissão apresentou, fala-se agora num sexto (aquele que verdadeiramente será aplicado). Entretanto, hoje, o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, também faz o seu primeiro discurso de não-estado de União. É às 11h.30 (hora de Lisboa). Diz que será curto, não mais do que cinco minutos, e exporá a sua visão sobre a Europa. É o Politico que o anuncia e nós veremos como consegue tal proeza. Depressa e bem...


FRASES

"Acho que o Governo tem tardado nas respostas e o minsitro da Saúde tem sido desasjustado nas suas declarações", Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda

"Os médicos são 14% dos funcionários e ganham 87% da massa salarial total", José Correia Azevedo, presidente do Sindicato dos Enfermeiros, ao I.

"A República da Catalunha que nos propõe é uma ameaça geopolítica direta à França e indireta a toda a Europa", Lluis Bassets, El Pais


O QUE ANDO A LER

Depois daquele magnífico “O Ministério da Felicidade Suprema”, de Arundhati Roy (Asa), que vários colegas meus já elogiaram e me encheu as medidas, ataquei uma espécie de ensaio.

Não quero parecer snob, mas o livro está escrito em francês e é ótimo. Alguma editora portuguesa devia pegar-lhe porque faria um serviço público. Trata-se do “Les Salauds de l'Europe” (“Os estafermos da Europa” seria uma bela tradução), uma guia para uso dos eurocéticos, da autoria daquele que eu acho um dos melhores especialistas sobre a Europa na versão jornalista, o francês Jean Quatremer. A ideia foi pegar em todos os argumentos dos eurocéticos, capítulo a capítulo, contar a versão eurocética e depois a outra, a real. Exemplos: “A Europa foi feita nas costas do povo”; “A Europa é a UERSS”; “A Europa não é democrárica”; “A Europa é ultraliberal”, “A Europa mete-se em tudo”; e por aí fora, dez magníficos capítulos. Está editado pela Calmann Lévy. Se é daqueles que ainda sabe francês e se interessa pelo tema, garanto-lhe que não perde o seu tempo.

Se não tem tempo para (quase) nada e é fluente em inglês, recomendo-lhe uma leitura mais curta, na plataforma digital do New York Times: “Facebook wins, democracy loses”. Se ainda por cima é usuário do fb, vai arrepiar-se com o que esta rede social propicia (e já propiciou) em termos políticos a quem sabe lidar com ela.

E por hoje é tudo. E tenha um bom dia, se possível na nossa companhia. É fácil: www.expresso.pt

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