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Expresso

Valdemar Cruz Jornalista

4’ 33’’ ou o silêncio do mundo

8 de Setembro de 2017


Em 1952 o compositor John Cage escreveu uma peça musical em três movimentos, para um ou mais instrumentos, composta apenas por silêncio, intitulada 4’ 33’’. Confrontados com o desconforto de um ou vários músicos com os seus instrumentos silenciosos, os eventuais espectadores escutam apenas os ruídos do ambiente circundante. A peça dura quatro minutos e trinta e três segundos. Não há uma única nota musical, mas há algo de dramático nesta solidão gerada pela aparência da ausência de som. Ao ver nas televisões imagens da calamidade provocada pelo furacão Irma, e por muito a despropósito que isso possa parecer, impôs-se um desafio: imaginarmo-nos numa daquelas ilhas das Caraíbas, apenas durante 4’ e 33’’, a suportar ventos com velocidades por vezes superiores a 300 km por hora e a ver o inverosímil. Carros a voar, casas arrasadas, pesados contentores soprados como plumas, árvores quebradas como se fossem palitos. O medo, o horror, o pânico, a sensação de apocalipse, podem conjugar-se num só instante. Num só olhar.


Os últimos números conhecidos apontam já para entre 13 e 15 mortos. Miami está no olho da tempestade e ordenou a maior transferência de população da sua história. São 650 mil pessoas à procura de um lugar mais seguro, mais protegido. Há neste momento seis milhões de homens, mulheres e crianças em perigo. As previsões apontam para que Miami seja o local de maior impacto do furacão Irma, que está há vários dias a devastar as Caraíbas. A partir de amanhã, sábado, poderá ultrapassar os níveis de impacto e destruição da pior tempestade alguma vez registada pela Florida. O The New York Times apresenta um muito elucidativo e impressionante mapa com o percurso e a evolução do Irma. No Expresso podemos ver uma fotogaleria com imagens impressionantes do desolador rasto deixado pelo mais poderoso furacão que atingiu o Atlântico. No El País podemos seguir ao minuto a evolução do Irma, que à hora a que escrevo, 6h45 da manhã, está já a afetar a ilha La Española e dirige-se para as ilhas Turcas, Cuba e região sul da Florida. As últimas notícias dão conta, também, de um forte tremor de terra no sul do México, com magnitude 8 e epicentro situado ao norte do estado de Chiapas. O Centro de Alerta de Tsunamis do Pacífico emitiu um alerta para o México, Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Nicarágua, Panamá, Honduras e Equador.


A tempestade que deu origem ao Irma começou ao largo de Cabo Verde. Em trinta e seis horas atingiu a Categoria 3 na classificação dos furacões. Rapidamente chegou ao nível máximo, o 5, e os especialistas começaram a dizer que nunca fora registado uma tempestade com tamanha violência.


O problema é que a cada novo furacão começa a haver um novo recorde batido. Se percebermos que a energia lhe é fornecida pelas elevadas temperaturas das águas do mar – andam pelos 30 graus – e que o olho de um furacão, como explica Alan Burdick na New Yorker, num trabalho sobre a espetacular evolução dos sistemas de previsão, “atua como uma chaminé, enviando ar quente para a atmosfera”, fica cada vez mais nítida a necessidade de assumir uma discussão séria e consequente sobre os efeitos das alterações climáticas no planeta Terra. Esse será, de resto, o tema do próximo Fórum do Futuro, a organizar no Porto no início de novembro.


O problema é que o futuro é já hoje. Está a acontecer e faz-nos ver como o planeta Terra é, afinal, um "ser" tão frágil, tão necessitado de ser protegido das ações nefastas dos seus principais usuários e beneficiários: os humanos.


Quando o mundo parece desabar e no horizonte só se divisa a desgraça, quatro minutos e trinta e três segundos não são quatro minutos e trinta e três segundos. São uma cruel eternidade onde, face à indignação por quanto está a suceder, o silêncio é uma impossibilidade absoluta.


OUTRAS NOTÍCIAS


CÁ DENTRO


Dois meses após ter sido conhecida a acusação de 18 agentes da PSP, ligados à esquadra de Alfragide, pelos crimes de tortura, discriminação racial, sequestro e injúria contra seis jovens da Cova da Moura de ascendência cabo-verdiana, em fevereiro de 2015, o Ministério Público (MP) da Amadora requereu ao tribunal de Sintra que ordene a suspensão imediata destes polícias das suas funções. Isto conduz-nos a uma questão fulcral. Há um problema de racismo em Portugal? Num artigo de opinião publicado ontem no Público, Mamadou Ba, dirigente da SOS Racismo, fala de uma cruzada pela “defesa da excecionalidade lusitana quanto ao racismo. Os seus combatentes enfileiram-se na defesa de uma narrativa segundo a qual Portugal não é um país racista. Um verdadeiro exercício de negação”. Também ontem, na Visão, o investigador António Pinto Ribeiro dizia:“Há focos de racismo em Portugal. Já haver uma estrutura ideológica e um Portugal racista, recuso-me a aceitar”.


Realizou-se ontem a primeira reunião entre os sindicatos e a administração da Autoeuropa após a greve de 30 de agosto contra o trabalho obrigatório aos sábados motivado pela produção do novo modelo da Wolkswagen, o SUV T-Roc. O coordenador do Sitesul - Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Sul afirmou que a reunião com a administração da Autoeuropa realizada esta quinta-feira à tarde foi muito produtiva, até por terem ficado abertos canais de diálogo “com vista a uma solução para os novos horários de laboração contínua que agrade a todas as partes".


A PJ está a investigar uma empresa mistério chamada Yupido, sem funcionários ou receitas, mas cuja plataforma tecnológica terá sido avaliada em 29 mil milhões de euros. Constituída em julho de 2015, tornou-se um estranho fenómeno. Tem um capital social de 28,8 mil milhões de euros, mais do que qualquer gigante da economia portuguesa, incluindo a Galp Energia, da qual a Yupido é “vizinha” nas Torres de Lisboa.


LÁ FORA


Esperam-se dias difíceis em Espanha. Na Catalunha há um forte movimento determinado a caminhar até a independência. O “Parlament” aprovou a “Magna Carta” provisória da República da Catalunha. O Tribunal Constitucional suspendeu o referendo. Foi ordenada a requisição de urnas, boletins de voto e qualquer outro instrumento destinado a viabilizar o referendo. Os principais partidos, PP e PSOE, mas também o Ciudadanos, estão a demarcar-se do referendo. Muitos “alcaides” soberanistas estão a proclamar o seu apoio à consulta marcada para o próximo dia 1 de outubro. Há poderosas forças a puxar em direções opostas. Irá a corda rebentar?


Alguns dos membros da célula terrorista responsável pelo atentado em Barcelona no passado dia 17 de agosto viajaram dois dias antes até Paris e estiveram pelo menos três vezes frente à Torre Eiffel. As autoridades francesas e espanholas estão a tentar perceber se mantiveram alguma relação com os detidos esta semana em Villejuif, após a descoberta de um andar com material explosivo.


O que pode levar alguém a morrer por uma causa? A questão, hoje muito centrada nos bombistas suicidas do DAESH, tem toda a pertinência – como o teve antes noutras circunstâncias políticas e históricas - , e foi colocada pelo antropólogo Scott Atran. O ponto de partida assenta na ideia de que para vencer o inimigo é preciso conhecê-lo intimamente. Atran e a sua equipa andaram dois anos a entrevistar combatentes do chamado estado Islâmico e seus opositores. O resultado do estudo foi agora publicado na Nature Human Behavior. Em entrevista à revista Science, Atran diz que, há basicamente duas razões para responder à pergunta: a entrega a um ideal comum de grupo, ou o comprometimento com valores sagrados. Porventura pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a questão dos valores religiosos surge à frente da ligação a um ideal de grupo e de camaradagem, ao contrário do que tem sido a perceção de toda a sociologia e psicologia militar.


Uma nova e grave acusação está a pender sobre a indústria de bebidas. Um estudo agora revelado sublinha, segundo o Guardian, que estarão a ser minimizadas deturpadas as relações entre álcool e cancro, em particular o cancro da mama, com o objetivo de não afetar os lucros.


MANCHETES


Tancos Polícia sem pistas sobre armas, acusação em risco – Público


Lista de pedófilos tem mil nomes novos – JN


Fraudes na saúde custaram 300 milhões desde 2011 – DN


Afinal há dezenas de livros no mercado pró menino e prá menina – I


3482 escutas contra Sócrates – Correio da Manhã


11% é a previsão de subida do lucro das cotadas este ano – Negócios


FRASES


É preciso estar-se com pressa para nos lembrarmos do que esquecemos”. Miguel Esteves Cardoso, escritor e jornalista, no Público


“O facto de Seul contar com os EUA como ‘escudo protetor’ face a Pyongyang não nos garante uma atitude comum nos passos a dar face ao Norte”. Francisco Seixas da Costa, embaixador, no JN


“Farei o necessário, sem renunciar a nada, para evitá-lo (o referendo na Catalunha”. Mariano Rajoy, Primeiro Ministro de Espanha


“Espanha não é um regime democrático e protestaremos com as ruas cheias”. Charles Puigdemont, presidente da Generalitat da Catalunha em entrevista à TV3


“Nunca senti ventos tão fortes em toda a minha vida. Nada resta de pé na ilha”. Lyonel, habitante da ilha Saint-Martin, citado pelo Libération


“A menopausa é a mais dura professora que alguma vez conheci. Mais dura que a fama”. Tori Amos, cantora norte-americana, citada pelo The Guardian.


O QUE ANDO A LER


A Coreia do Norte é um problema sério, já o sabemos. Não obstante o simplismo contido na tentação de resumir tudo a uma questão de mais ou menos loucura dos seus dirigentes. Como se fosse possível esquecer a dimensão política sempre contida nos comportamentos e relações entre os países. A Coreia do Sul, a outra metade de um país artificialmente dividido, tem passado entre os pingos da chuva. O Sul progrediu de um modo radicalmente diferente do Norte. Construiu uma sociedade já incapaz de se identificar com o vizinho/irmão, mas foi, ao longo de décadas terreno fértil para ditaduras brutais e inomináveis massacres convenientemente silenciados. Não por distração. É tão só a geopolítica a funcionar. Han Kang, notável escritora sul-coreana, autora de um assombroso livro já publicado em Portugal, “A Vegetariana”, surge agora com “Atos Humanos”.


É uma obra cuja ficção surge ancorada numa realidade tremenda: o massacre de Maio de 1980 perpetrado nas ruas de Gwangju, terra natal da autora, contra quantos reclamavam uma democratização do país e o fim da lei marcial. Foram dizimados, com recurso a lança-chamas, baionetas, ou bastões, estudantes, civis, crianças e todos quantos surgissem à frente das tropas do ditador de serviço, o general Chun Doo-hwan. Foram dias consecutivos de violência infame e nunca até hoje foi possível alcançar um consenso sobre o número de vítimas mortais. Han Kang não escreve um livro de história. Serve-se da literatura para construir uma série de capítulos que se vão interligar, cada um deles com uma nova personagem como protagonista. Se tudo começa com o jovem Dong-ho, que procura o seu amigo morto enquanto se ocupa da catalogação de cadáveres que se amontoam no ginásio municipal, há depois uma perturbante viagem através de outras histórias construídas a partir de um selecionado grupo de vítimas ou sobreviventes, situados em tempos diferentes.


Somos assim conduzidos até o prisioneiro que, em 1990, é convencido, em benefício de uma tese académica, a reviver os horrores sofridos durante dias de tortura. Uma operária, em 2002, recupera a memória da brutalização a que foi submetida e o modo como isso afetou toda a sua personalidade. São váriashistórias de perda, de sofrimento, de horror, com a autora a assumir um epílogo para dar o seu próprio testemunho. Tinha nove anos quando aconteceu o massacre. O acaso fizera com que a sua família tivesse saído da cidade uns meses antes. Ainda criança, como descreveu em entrevista ao Expresso Diário, descobre, escondido em casa, um livro de fotografias tiradas por jornalistas estrangeiros. “Como é que seres humanos podem fazer isto a outros seres humanos?”, foi a questão que lançou a si própria e talvez este livro seja, tantos anos depois, uma forma de tentar uma resposta para o inominável, para a brutalidade contida no absurdo quotidiano.


Fica por aqui este meu Expresso Curto. Tenha um bom dia e aproveite o fim de semana para descansar e desfrutar de passeios ou da leitura do semanário Expresso. Na Revista E vai encontrar, entre outras matérias, uma grande entrevista a Ana Paula Vitorino, que há quase ano e meio se tornou ministra (do Mar) e doente oncológica. O título da reportagem assinada por Joana Madeira Pereira e Raquel Moleiro, com fotos de Luís Barra é “A minha preocupação foi dizer a António Costa que tinha cancro e estava disponível para sair”.

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