Siga-nos

Perfil

Expresso

Os Comandos como nunca os viu: o homem que a dor não educa será sempre uma criança

7 de Setembro de 2017

Aquilo começa e ouve-se o Richard Anthony a cantar “donne moi ma chance, donne moi ma chance encore”, há um rapaz a dormir deitado costas no chão sobre a mochila que tem às costas, e vê-se uma frase afixada como um provérbio nos azulejos azuis das casas de província que diz “os Comandos são duros, flexíveis e amorosos… sobretudo amorosos”.

E o Richard Anthony continua a cantar “ne me dis pas que c’est trop tard” enquanto dois rapazes rastejam na gravilha ou na lama à frente de um homem que lhes berra. Outros põem à vez graxa na cara devidamente rapada, outros, ainda, marcham e correm, apontam, limpam e disparam armas, tomam duches vestidos da cabeça aos pés com água que ferve ou gela o orgulho, o mesmo orgulho ferido pela bursite no joelho teimoso que faz demorar ainda mais as horas - oito horas, precisamente - passadas dentro da camarata enquanto os camaradas estão a cumprir a prova de 42 quilómetros a pé, passo a passo, mais um passo até ajeitar a boina na cabeça.

O que está acima, título incluído, são instantâneos de um trabalho notável do Expresso, escrito, filmado e editado pelo João Santos Duarte. O João chamou-lhe, simplesmente, “Comandos” [veja-o AQUI] e é algo que nunca foi feito por cá. Dentro dele encontram-se as fotografias do Tiago Miranda, também ele um viajante no tempo e no espaço desta reportagem de oito meses que se divide em cinco capítulos (Fim da Inocência, As Duas Mortes, Aprender a Matar, O Meu Filho Está Vivo?, Metamorfose), mais um documentário de 67 minutos.

Os jornalistas do Expresso acompanharam um grupo de rapazes desde que entraram no curso até o acabarem, os que o acabaram, e a história que eles documentam atravessa a ingenuidade e a inocência iniciais, as mortes dos dois jovens que deixou o país em suspenso, e regista, sobretudo, a transcendência do homem que reconhece o limite e está disposto a rasgá-lo, e a rasgar a sua carne, em nome de algo em que acredita, do orgulho, do sentido de honra ou do dever.

Ou apenas porque tem algo a provar.

“Eu já entreguei a minha alma há muito”, dirá, às tantas, um deles.

OUTRAS NOTÍCIAS
Noutros contextos, o acto da entrega é um acto de abandono perante circunstâncias que não podem ser alteradas. Por exemplo, no Atlântico, especificamente nas Caraíbas, o furacão Irma deixa os que lá vivem num estado desarmante de impotência à sua passagem. O Irma transporta ventos de categoria 5, de quase 300 quilómetros por hora, que arrancam lugares inteiros pela raiz - cinco mortos, pelo menos, dois nas ilhas Saint-Bathélémy e Saint-Martin, um em Anguila, um em Antigua/Barbu, um em Porto Rico; Barbados foi devastada; em Porto Rico, 600 mil pessoas ficaram sem luz e 50 mil sem água, e 14 hospitais foram forçados a ligar os geradores [está no NYT]. As palavras mais comuns nos sites internacionais são “cenário apocalíptico”, “catástrofe” e “histórico”, porque nenhuma supertempestade sobre o Atlântico teve esta consistência, potência e dimensão. Enquanto o Irma avança furiosamente rumo à Flórida [siga-lhe o rasto aqui], os EUA preparam-se para o pior, uma semana depois do Harvey, e há quem esteja a pôr-se em fuga. Como a portuguesa Ana Sousa, que ontem recebeu instruções para sair de Miami: “Estamos a tentar resolver isso”. À Agência Lusa, José Luís Carneiro, secretário de estado das comunidades, falou em “centenas” de turistas portugueses que podem ser afetados pelo Irma.

Da imprevisibilidade da natureza para a natureza imprevisível de certos homens: a propósito dos insistentes lançamentos de mísseis nucleares da Coreia do Norte e das péssimas recordações que nos trazem episódios de malta com o dedo do gatilho leve e arsenal mortífero à mão, continuam as reuniões e telefonemas para acalmar os supostos cabeças-quentes. O presidente da China, Xi Jinping, ligou a Donald Trump e ambos conversaram sobre o tema. Os chineses dizem que só há uma via e essa é a das conversações, e Trump garante que a intervenção militar não está entre as suas primeiras opções. Mas Trump também é o tipo que assegurou que ia acabar com o DACA (que garantia, entre outras coisas, escolaridade a crianças que tinham entrado ilegalmente nos EUA) para, horas depois, afirmar no Twitter que, afinal, não era bem assim. As últimas destes assuntos estão resumidas aqui e aqui.

Das coisas mal explicadas para as que têm de ser explicadas, em Portugal a PGR revelou que vai investigar as viagens pagas pela Oracle a “altos quadros do Estado português” aos EUA. Episódios semelhantes que envolvem a NOS e a Galp também andam a ser investigados.

Por fim, as histórias inexplicáveis da nossa bola.

Primeira, a que travou a transferência de Adrien Silva para o Leicester. Todos os documentos entraram no sistema TMS antes da hora; todos, menos um que terá entrado 14 segundos fora do tempo permitido. 14 segundos. Numa realidade cada vez mais tecnológica como é a do futebol profissional, alguém se atrasou e um jogador ficou agora a meio caminho de qualquer coisa que ele não sabe bem o que é.

Segunda, a da venda de Mitroglou ao Marselha: o empresário Paulo Teixeira acusou Luís Filipe Vieira de querer favorecer Jorge Mendes, o que fez com o que o Benfica perdesse muito dinheiro com a saída do grego e apresenta documentos; o Benfica desconfia da credibilidade de Teixeira e garante que Mitroglou não saiu em fevereiro porque a mulher estava grávida.

Terceira, a da proposta que nunca existiu, ou que existiu, depende do ponto de vista, do West Ham por William Carvalho. A Sky Sports revelou um email alegadamente enviado pelo dono do clube londrino para Alvalade e o Sporting respondeu com uma ameaça de processo.

E, agora, as manchetes e principais notícias dos jornais de hoje:
JN: “Só oito vistos gold criaram emprego”, e “a esmagadora maioria dos 5243 estrangeiros comprou imóveis”
DN: “MP quer suspensão imediata dos PSP da esquadra de Alfragide”
I: “Viagens da Microsoft abrem guerra no PSD”
Público: “Banco de fomento vai financiar solução para crédito malparado”
Jornal de Negócios: “Santander vai reduzir funcionários na fusão com Popular”

FRASES
A guerra nunca acabou. Apenas existeHan Kang, escritora sul-corena sobre as duas Coreias, em entrevista à Cristina Margato, aqui, no Expresso Diário.

Se não mudarem de atitude nas próximas semanas, devemos considerar tomar o último passo dos processos por infração e levar Polónia, Hungria e República Checa ao Tribunal Europeu de JustiçaDimitris Avramopoulos, comissário europeu para a pasta das Migrações. Contexto: o Tribunal da UE rejeitou os recursos de Hungria e Eslováquia, países contra as quotas obrigatórias para a distribuição de candidatos a asilo. Orbán, primeiro-ministro húngaro, falo mesmo na construção do Muro e “irresponsabilidade”

“O Governo procurou empurrar para terceiros explicações que, de certa maneira, também poderia dar. Mas, enfim, é uma maneira que já nos vamos habituando de ver o Governo responderPedro Passos Coelho, sobre os donativos às vítimas de Pedrógão Grande. Catarina Martins também abordou o assunto

Considero encerrada a minha vida política autárquica. Não voltarei a ser candidato a nenhuma autarquia, seja em que circunstâncias for e, muito provavelmente, daqui a dois anos encerrarei a minha vida política” Francisco Assis, do PS

“Só para que conste: eu luto e desgasto-me por vocês!!! Pelo Clube que amamos!!! Pela verdade e transparência que será a única forma de podermos ser campeões!!!” Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, no seu estilo inconfundível no Facebook, a propósito das críticas que recebeu nas redes sociais após a tal entrevista à SportingTV

O QUE ANDO A LER
Ou que andei a ler durante as férias.

Dois livros de crónicas e/ou contos: o “Ouro e Cinza”, de Paulo Varela Gomes, e “Pequenos Mistérios”, de Bruce Holland Rogers, ambos perfeitos para a leitura descomprometida e aleatória, uma história aqui, outra acolá.

A obra de Paulo Varela Gomes [1952 - 2016], editada pela Tinta da China, é uma colectânea de histórias que o autor escreveu para algumas publicações - “Público”, sobretudo - entre 2002 e 2012. E nela cabem o amor de Paulo aos bichos, à Índia, a Espanha, à Arte, e a Portugal, não como um todo, mas àqueles pedaços esquecidos que ficam no interior e no sul. Em “Ouro e Cinza” encontram-se críticas mordazes aos costumes da portugalidade. Como aquele hábito irritante de dizer trivialidades usando palavras complicadas. Por exemplo: “possuir” e não “ter”; “veículos velocípedes simples” e não “bicicletas”. Está aqui, e chama-se “E falar português: vai desejar?”.

Já “Pequenos Mistérios”, da Livros de Areia, é outra coisa. Bruce Holland Rogers conta contos em que a realidade se misturam com a ficção e com o fantástico. Há uma mulher que se vinga de um ex-namorado com fatias de tortas de laranja, um pai de uma família falida e remendada que cruza um continente com a mulher e os filhos só para que estes sintam o mar e o sol; e há figuras mitológicas, homens-golfinho, pássaros - e amor.

Por hoje é tudo. Vá passando os olhos pelo site do Expresso, pela Tribuna, pela Exame e Exame Informática, Blitz e, às 18h, espreite o Expresso Diário.

Partilhe esta edição