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Expresso

Rui Cardoso Editor

13 dias que abalaram o mundo

6 de Setembro de 2017

Ameaça de lançamento de mísseis nucleares põe o mundo à beira da guerra atómica. Falo da Coreia do Norte? Nada disso. Refiro-me à última vez em que a humanidade esteve de facto e não metaforicamente à beira da III Guerra Mundial: a Crise dos Mísseis em Cuba em 1962.


Entre 16 e 28 de Outubro desse ano o mundo esteve em suspenso quando os EUA reagiram à colocação secreta em Cuba de foguetes de fabrico russo capazes de transportar ogivas nucleares. De Havana a Miami são pouco mais de 300 km, o que significava escassos minutos de voo de um míssil balístico.


Ao longo de 13 dias repetiram-se situações de altíssima tensão: a esquadra americana interpôs-se no caminho de cargueiros russos que navegavam para Cuba, supostamente transportando armamento, criando riscos de incidentes navais armados.


Um avião-espião U2 fotografou a ilha e as provas recolhidas permitiram a Adlai Stevenson embaixador dos EUA na ONU cilindrar o seu homólogo soviético Valerian Zorin. Um segundo aparelho foi abatido e o piloto morreu o que, do ponto de vista das chefias militares americanas, era um casus belli.


John Kennedy fora oficial de Marinha na II Guerra Mundial e não era fácil de enganar com “conversa de general”. Do lado soviético também havia gente da linha dura a pressionar o secretário-geral Nikita Krutschev. Foi preciso montar canais paralelos de contacto entre a Casa Branca e o Kremlin para obter uma solução negociada: os mísseis saíam de Cuba e discreta e posteriormente os EUA desactivariam bases nucleares na Turquia.


Uma versão romanceada mas muito interessante dos acontecimentos, centrada nos bastidores da Casa Branca, é apresentada no filme “Treze Dias” de Roger Donaldson (2000). Com o pormenor picante de o protagonista Kevin Costner ter ido um ano depois a Cuba ver o filme ao lado de Fidel Castro…


Após a Crise dos Mísseis montaram-se canais directos de contacto entre as duas superpotências – o famoso telefone vermelho – para evitar que incidentes menores pudessem levar à guerra. E iniciou-se um ciclo de negociação de redução de armamentos nucleares.


Qual a diferença para hoje? Não há um conflito entre duas superpotências mas entre um estado-pária (do qual Rússia e China têm tido o cuidado de se demarcar) e as Nações Unidas. Em contrapartida Kennedy e Krutschev parecem a anos-luz de Trump e Kim Jong-un no que respeita a racionalidade.


Desse ponto de vista a retórica trumpiana de que há força militar para apagar a Coreia do Norte do mapa só serve para legitimar a política provocatória de Pyongyang, como se explica no diário francês “Le Monde”.


A capacidade balística e nuclear norte-coreana existe mas sobretudo no plano simbólico (ser uma arma de pressão), na linha da frase do chanceler Bismarck: “a diplomacia sem armas é como uma orquestra sem instrumentos”.


Ainda assim, sabendo-se que americanos e russos herdaram da Guerra Fria sistemas antimíssil capazes de interceptar disparos simultâneos de ogivas múltiplas por que razão o foguete norte-coreano que sobrevoou o Japão dia 28 de Agosto não foi abatido? Porque os EUA não quiseram pôr cartas na mesa ou porque não tinham capacidade para tal? O diário britânico “The Guardian” tenta deslindar este mistério.


Uma coisa é certa: o fim da Guerra Fria não afastou de vez a ameaça nuclear. Esta disseminou-se com a chegada ao clube atómico de países inimigos e com lideranças ou opiniões públicas instáveis como a Índia e o Paquistão que nunca subscreveram o acordo de não proliferação nuclear. Como não o fez Israel mas o tão criticado Irão fez.


O risco de aventureiros ou terroristas se assenhorearem de armas atómicas e fazerem do mundo refém é remoto mas não impossível. Algo que no agitado ano de 1962 o escritor israelita Mordecai Roshwald previra no romance “Os Amotinados do Polar Lion”.

Os mortos podem voltar

Em Abril de 2015 depois da ofensiva conjunta de forças da Nigéria, Chade, Níger e Camarões, com uso intensivo de mercenários sul-africanos e ucranianos, foi anunciado que o grupo jiadista nigeriano Boko Haram fora erradicado do norte da Nigéria. Na verdade, perdeu muito território e capacidade de o ocupar. Mas agora, segundo revela a Amnistia Internacional, reconverteu-se para uma escala que, sendo menor, não deixa de ser inquietante: emboscadas e atentados suicidas que fizeram mais de 400 mortos desde Abril, o dobro dos cinco meses anteriores.


Uma lição a ter em conta no que respeita à força inspiradora do grupo, o Daesh, que em finais de Agosto perdeu o seu último bastião no Iraque (Tal-Afar, a oeste de Mossul), está sob cada vez maior pressão na antiga capital síria do “califado”, Raqqa, e viu ontem as tropas de Assad romperem o cerco a Deir Ezoor. Vale a pena ler a análise de “Le Monde”.


Perdido o vasto território que chegou a ter em 2014 na Síria e Iraque que vai fazer o Daesh? Pode passar à clandestinidade e à guerrilha, sobretudo na “triângulo sunita” do oeste do Iraque, onde os saudosistas de Saddam ainda são muitos e as queixas contra os abusos do poder xiita de Bagdade se acumulam. E os “internacionais” do Daesh, que não são vocacionados para a luta clandestina, podem regressar à Europa e encorajar novos atentados?


Isto reconduz-nos aos atentados de meados de Agosto na Catalunha. Obra de células adormecidas do Daesh ou estertor daquilo a que o historiador francês Olivier Roy chama o “terrorismo dos falhados” (sangrento, cruel, virado contra civis indefesos mas amador e levado a cabo com meios rudimentares)?


Uma investigação do diário espanhol “El Pais” pende mais para esta segunda hipótese, ao descrever como internautas amadores ajudaram a caçar na Holanda os candidatos a terroristas vindos de Espanha.


Lugar às férias…

Nem é preciso rever a filmografia de Jacques Tati para nos divertirmos com o paradoxo das férias de Verão. É ver tantos portugueses direitos às zonas mais congestionadas do Algarve, frequentando praias cheias, engarrafamentos, discotecas iguais às de Lisboa ou do Porto e acotovelando-se com as mesmas pessoas que encontram no resto do ano.


Por alguma razão os monarcas lusos eram senhores do reino de Portugal e dos Algarves. Para quem queira uns dias diferentes, o Parque Nacional da Peneda Gerês tem muito para oferecer. Não há praia mas há cascatas, trilhos de montanha, piscinas naturais e uma paisagem que, apesar de tudo, não diverge muito da descrita por Miguel Torga nos anos 20.


Não temos todos que ter os mesmos gostos mas, para quem se sinta tentado pelo Gerês, sugiro a Casa dos Bernardos, a meio caminho entre Santa Maria do Bouro e Terras do Bouro, onde mais facilmente ouviremos os chocalhos do gado que um telemóvel a tocar, até porque a cobertura de rede não é famosa.

… e à leitura


Falar de paisagens não desfiguradas pelas perversões do turismo de massas dá vontade de reler o “Guia de Portugal”, essa monumental obra em oito volumes, produzida entre 1924 e 1969, primeiro sob a direcção de Raul Proença e depois de Sant’anna Dionísio.


Em 1995 no Expresso editámos o nosso próprio Guia de Portugal de que alguns leitores ainda se recordarão. Não tinha a escala da obra em boa hora editada pela Fundação Gulbenkian (e agora também existente na versão ebook) que teve entre os seus colaboradores figuras da dimensão de Orlando Ribeiro, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e tantos outros.


Mas o Guia Expresso de Portugal foi, apesar de tudo, marcante e acrescentou à descrição de sítios e monumentos sugestões práticas de percursos rurais ou urbanos, a pé ou de viatura e mil e uma sugestões em matéria de gastronomia, alojamentos, artesanato, feiras e romarias, etc. Nasceu de uma conversa entre o então director do Expresso José António Saraiva e eu próprio. O resto da história sabem-na os leitores mais fiéis.


Durante estas três semanas de férias reli pela enésima vez um dos meus livros favoritos, escrito por um outro Raul, neste caso Raul Brandão: “Os Pescadores”.


Não me canso da descrição da velha Foz do Douro, da ida dos poveiros para a faina ou dos pescadores algarvios que não tinham medo de nada, menos das bruxas. E eram as suas mulheres que, alta noite, os levavam ao barco, esconjurando à força de archotes medos ancestrais capazes de bloquear homens que não receavam ventos do Levante e ondas de cinco metros. Um livro existente em múltiplas edições de bolso e a preços simpáticos.


Por último mas não menos importante um livro que demorou anos a fazer ao seu autor, o coronel Francisco Sousa Lobo, e que esgota de forma magistral o tema das Linhas de Torres Vedras. Ler “A Defesa de Lisboa, Linhas de Torres Vedras, Lisboa, Oriente e Sul do Tejo” é saber tudo, forte a forte, quilómetro a quilómetro, planta a planta, sobre a cintura defensiva erguida a partir de 1809 nas colinas a norte de Lisboa e que foi decisiva para a derrota da III Invasão Francesa.


E com esta sugestão de leitura acabo de servir a minha versão do Expresso Curto. Amanhã será a vez do meu querido camarada de trabalho Pedro Candeias, um dos homens que mais sabe de futebol num raio de 300 km, a tratar do assunto.

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