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Expresso

Cristina Figueiredo Jornalista da secção Política

4 3 2 1. Estamos em contagem decrescente para a guerra?

5 de Setembro de 2017

'4 3 2 1' é o nome do último romance do norte-americano Paul Auster. Tomei-o de empréstimo para intitular este Expresso Curto, quando dei de caras com a notícia de que o escritor esteve ontem em Madrid, a apresentar a obra (que nada tem de política), mas na conferência de imprensa classificou Donald Trump como "um psicopata, um maníaco, uma ameaça para o mundo". Não há grande originalidade na análise de Auster, nem os adjetivos são os mais rebuscados, mas há valor intrínseco no facto de um nome consagrado (neste caso da literatura) dizer em voz alta aquilo que tantos de nós pensamos por estes dias enquanto assistimos a esta espécie de "contagem decrescente" para um "conflito nuclear" (expressão que julgávamos caída em desuso mas que readquiriu uma inesperada atualidade) entre os EUA e a Coreia do Norte .

O assunto motivou uma reunião (a segunda, no espaço de uma semana) do Conselho de Segurança da ONU, ontem à tarde, um dia depois de mais um (poderoso) teste nuclear por parte de Pyongyang, e não há site informativo que não chame à "primeira página" esta escalada que ninguém sabe se/quando/onde vai parar: "Kim Jong-un está a pedir guerra", escreve o The New York Times, citando a embaixadora norte-americana nas Nações Unidas. Mais subtil que o POTUS (Trump escreveu domingo no twitter que "conversas de apaziguamento não funcionam, eles só percebem uma coisa!"), Nikki Haley recorreu a uma sugestiva metáfora para confirmar que os esforços diplomáticos não estão a resultar: "Andamos a pontapear a lata há tempo demais pela estrada abaixo; agora já não há mais estrada". O The Washington Post prefere destacar a intervenção do ministro da Defesa da Coreia do Sul, que sugeriu que os EUA repensem a colocação de armas nucleares na pensínsula coreana, o que foi logo interpretado (pudera!) por analistas como "um passo que poderá aumentar enormemente o risco de conflito". Ontem ainda, os presidentes de ambos os países conversaram longamente ao telefone e discutiram uma série de medidas destinadas a reforçar o poderio militar sul-coreano, anunciou a Casa Branca.

Por cá, o Observador recorreu à ferramenta online Nukemap (criada por um historiador norte-americano exatamente para que os seus estudantes percebam do que se está a falar quando 'brincamos' à guerra atómica) para calcular os efeitos em Lisboa de uma detonação nuclear idêntica à do teste de domingo na Coreia do Norte. Concluiu que poucas seriam as zonas de Lisboa que escapariam e que o impacto direto de uma ogiva de 60 quilotoneladas provocaria 52 mil mortos.


OUTRAS NOTÍCIAS, CÁ DENTRO...


O Orçamento do Estado para 2018 é cenário de outras "guerras", ainda assim menos devastadoras do que a ameaça que vem do Pacífico. Governo e parceiros parlamentares continuam a negociar os dinheiros da República para o próximo ano e o Público noticia que o Bloco de Esquerda exige que Mário Centeno reveja a sua politica de cativações, sob pena de o ver feito "à força" durante o debate na especialidade. Uma tarefa que o ministro das Finanças pode ver facilitada pelo crescimento económico: o Jornal de Negócios fez as contas e concluiu que cada ponto a mais no PIB significa uma folga de 600 milhões no Orçamento do Estado. O que fazer com ela? é a pergunta para a qual quer BE, quer PCP tem ideias muito próprias, nem todas coincidentes (e muito menos conciliáveis) com os propósitos do Executivo. Para ajudar ao debate, o jornal online Eco foi ouvir opiniões sobre se "a austeridade" acabou, como dizia ontem, em entrevista ao El Pais, o ministro da Economia, Caldeira Cabral.

Se este é o principal braço-de-ferro de que os diários dão (e darão) conta, outro há a preocupar muita gente, sobretudo grávidas prestes a dar à luz nos hospitais públicos: a greve dos enfermeiros-parteiros continua marcada de 11 a 15 de setembro, mas o Governo veio agora dizer a greve é irregular já que a marcação não respeitou o pré-aviso de 10 dias úteis exigido por lei, algo que os sindicatos contestam. Os enfermeiros que prestam assistência aos partos reivindicam um aumento nos salários, a introdução da categoria de especialista na carreira e a aplicação das 35 horas semanais.

A RTP revelou ontem que os autarcas de Pedrogão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos suspeitam de desvios nos donativos feitos para ajudar as populações vítimas dos incêndios de junho na região. O jornal i acrescenta, na sua edição de hoje (link ainda não disponível), que os presidentes das três câmaras municipais têm prevista uma reunião conjunta hoje para decidirem como enfrentar a situação, mas já terão decidido solicitar uma investigação ao Ministério Público.

Os jornais só dão más notícias? Há excepções que confirmam a regra e, hoje, a manchete do Diário de Notícias é uma delas: conta-nos que, ao longo de seis meses ao serviço da Agência Europeia da Guarda Costeira e de Fronteiras, a Guarda Nacional Republicana e a Polícia Marítima já resgataram perto de 1500 migrantes ao largo das ilhas gregas de Samos, Kastellorizo, e Lesbos (a PM).

Passou ontem um ano sobre a morte de Hugo Abreu, no decurso das provas do curso de Comandos. O meu colega João Santos Duarte passou os últimos oito meses a acompanhar o Curso 127 e a extensa reportagem multimédia do que viu por lá foi publicada ontem no Expresso Diário. "Estamos aqui para formar animais de combate", chama-se. Pode vê-la (basta introduzir o código que vem na capa da revista E deste sábado) aqui.

Uma mulher nas secretas. Graça Mira Gomes é diplomata de carreira, licenciada em Direito, e foi o nome escolhido por António Costa para a secretaria-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa. A escolha foi comunicada ao líder do PSD mas, "dadas as circunstâncias", não tem o aval de Passos Coelho, disse à Lusa fonte do gabinete do presidente social-democrata. Passos, recorde-se, queria discutir este nome em conjunto com o Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações.

Um Presidente em Tancos (outra vez). Marcelo voltou ao "local do crime" para voltar a sinalizar a sua preocupação com a falta de informações sobre como aconteceu ali o roubo de armas em junho. "Não só é importante apurar factos e eventuais responsabilidades, como apurar num tempo que seja um tempo o mais curto possível, por um lado, para o prestígio da instituição militar, e por outro lado também para a própria actuação interna da instituição militar", afirmou o chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas.

Um Príncipe na Madeira. Alberto II do Mónaco chega esta tarde ao Funchal, onde vai descerrar uma placa toponímica que dá o nome do seu tetravô (Alberto I), um oceanógrafo que fez várias campanhas nos mares do arquipélago, a um largo da cidade. O regente do Mónaco será recebido por Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional.


... E LÁ FORA


Em Espanha, outra contagem decrescente, esta para o referendo de 1 de outubro na Catalunha. O presidente do governo regional catalão, o independentista Carles Puigdemont, reitera a intenção de levar por diante a consulta popular, apesar de Madrid o estar a acusar de tentar um golpe de Estado. "Nas urnas nunca se dão golpes de Estado", diz o líder catalão, retorquindo que quem quer impedir a ida a votos é que está cometendo um golpe de Estado.

Mas como para 1 de outubro ainda faltam alguns dias, os espenhóis celebram para já outras conquistas: Rafa Nadal garantiu ontem a passagem aos quartos de final do Open dos EUA, o que acontece pela primeira vez desde 2013.

A quarta ronda negocial para a saída do Reino Unido da União Europeia, prevista para 18 de setembro, pode ser adiada. Quem o diz é Guy Verhofstadt, o coordenador das conversações para o Brexit. O belga antecipou que se aguarda uma importante comunicação de Theresa May sobre o assunto, a 21 de setembro, pelo que não faz sentido prosseguir as conversas antes de se saber o que ela tem a dizer.

Das terras de Sua Majestade vem ainda a notícia de que os duques de Cambridge, William e Kate, estão à espera do seu terceiro filho. O novo bebé real ocupará o quinto lugar na sucessão ao trono, depois do avô, Charles, do pai, William, do irmão, George, e da irmã, Charlotte. O anúncio surgiu quatro dias depois de assinaladas duas décadas sobre a morte de Diana, princesa de Gales, mãe de William.


AS MANCHETES DE HOJE


"OE 2018: Esquerda e direita cercam Centeno para travar cativações", Público

"GNR e Polícia Marítima salvaram 1500 migrantes na Grécia em seis meses", Diário de Notícias

"IRS: Famílias perdem 90 euros por cada filho na escola", Jornal de Notícias

"Donativos dos incêndios em parte incerta", i

"Vivo rende 8 milhões a Sócrates", Correio da Manhã

"Folga no Orçamento pode chegar aos 600 milhões", Jornal de Negócios

"Piccini: Não temos medo de ninguém", A Bola

"Jesus psicólogo de William", Record

"Danilo: motor revisto", O Jogo


O QUE ANDO A OUVIR, A LER E A VER


A dois dias do "regresso às aulas" (eufemismo para "fim de férias", "despertador às 6h30", "já faltou mais para o inverno", e outras más notícias do género), e como mãe de uma aluna do 9º ano, interessou-me a entrevista de Teresa Dias Mendes, jornalista da TSF, a Jorge Rio Cardoso, autor do livro, acabadinho de sair do prelo, "Do secundário à universidade com sucesso". A conversa foi emitida ontem de manhã e, à tarde, passei os olhos pelo livro, uma espécie de manual de bons conselhos aos estudantes de 10º, 11º e 12º. Não é o caso (ainda) da minha, pelo que voltei à obra, esta sim dedicada aos alunos do 3º ciclo, que aquele professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa publicou no ano passado: "Este ano vais ser o melhor aluno!". Num e noutro são vários os truques e as técnicas apresentados para ajudar os adolescentes a encontrar a tão procurada (e nem sempre encontrada) motivação no estudo. O problema é o mesmo de todos os livros de auto-ajuda: passar "das musas ao teatro" é sempre mais difícil do que parece. Mas não se perde nada em tentar.

Se levantou dinheiro numa caixa multibanco por estes dias, talvez já tenha reparado no convite que o Governo lhe faz (na publicidade institucional que aparece nos visores dos ATM) para entrar na discussão do Orçamento do Estado para 2018. Não é exatamente uma extensão das conversas entre os parceiros da 'geringonça' ao cidadão anónimo, mas o cumprimento (pelo segundo ano consecutivo) de uma promessa constante do programa eleitoral deste Executivo: o Orçamento do Estado Participativo (à semelhança do que já fazem muitas autarquias). Como explica a minha colega Joana Beleza, são cerca de 600 propostas (399 de âmbito regional e 202 de âmbito nacional) em que poderá votar até 10 de setembro. Como, por exemplo, a que propõe a criação de campos de férias para crianças e adolescentes para as sensibilizar para a necessidade de preservação da floresta. As ideias com mais votos serão inscritas no documento que Mário Centeno vai entregar ao Parlamento a 13 de outubro, dispondo de 5 milhões de euros (este ano foram 3 milhões) para a sua concretização. Pode consultar a lista, e saber como pode exercer o seu direito de voto, em opp.gov.pt.

E se a participação na democracia (essa construção imperfeita e inacabada que tantas vezes, erradamente, damos por adquirida) lhe interessa, deixo-lhe mais uma pista para explorar: o site hemiciclo.pt, ontem tornado público. Foi criado por Luís Vargas, designer industrial, e David Crisóstomo, estudante de economia, com o objetivo de incentivar o “escrutínio mais rigoroso dos representantes eleitos”. Os dois cruzaram dados do site do Parlamento, da Comissão Nacional de Eleições ou do Portal do Governo e colocaram tudo disponível de forma acessível (e gratuita), a quem queira acompanhar o que faz a Assembleia da República.

E quem queira acompanhar o que se vai fazendo (e desfazendo) no país e no mundo é só passar pelo site do costume: expresso.sapo.pt. Tenha um bom dia de Santa Teresa de Calcutá (a missionária católica albanesa, fundadora da Congregação das Missionárias da Caridade, prémio Nobel da paz em 1979, e santificada fez ontem precisamente um ano), hoje que se cumprem 20 anos sobre a sua morte.

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