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Expresso

Rui Gustavo Editor de Sociedade

A esperança é o nosso alimento

26 de Junho de 2017

Há uma história que não me sai da cabeça: no dia seguinte ao fogo que lhe destruiu as hortas e queimou tudo o que tinha plantado, Maria do Céu, uma mulher de 61 anos de Barraca da Boavista, no Pedrógão Grande, insistia em regar os cebolos calcinados: “Talvez a raiz tenha força. Parar é morrer.” Eu não estive lá, mas vi a cor da terra queimada coberta pelas cinzas e não é cinzenta, nem preta ou castanha. Não tem cor. É como se as chamas lhe tivessem sugado a vida. Mas Maria do Céu, cujo patrão morreu queimado e é uma das 64 vítimas confirmadas no mais mortífero incêndio florestal de que há memória em Portugal, tem razão: parar é morrer. Talvez seja desta que se ponha em prática as medidas já identificadas há décadas e que podiam ter, senão evitado, pelo menos minorado a tragédia: ordenamento florestal, limpeza das matas, profissionalização e maior formação dos bombeiros, organização correta do socorro, um bom sistema de comunicações. Mais ao menos tudo o que falhou desta vez. Não é uma opinião: basta ler a entrevista do comandante dos bombeiros do Pedrogão Grande ao Expresso desta semana. São medidas morosas, é certo, mas não é física quântica. É só matemática. Não se combatem fogos destes com meia dúzia de bombeiros voluntários e os incêndios são previsíveis e podem ser prevenidos.


Hoje é segunda-feira, das cinzas talvez e depois de amanhã que é quarta-feira haja fogo outra vez (desculpa a adaptação tosca, Sérgio Godinho). Daqui a dois dias o parlamento vai discutir a forma como vai conduzir a investigação ordenada pelo primeiro-ministro António Costa. Com sorte, a comissão de inquérito vai arrancar 15 dias depois da tragédia. O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, já avisou para não lhe virem com “mais comissões de inquéritos”. Começa bem. O Ministério Público anunciou a abertura de uma investigação criminal ao incêndio. O diretor nacional da PJ, Almeida Rodrigues, identificou um raio como a causa do fogo, mas o homem que deu o alerta para o 112 garante que não ouviu nada e Marta Soares, presidente da Associação Nacional de Bombeiros já garantiu que foi fogo posto. Tudo claro, portanto. Marques Mendes explicou ontem que só muito dificilmente não haverá uma acusação por homicídio por negligência e a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa já garantiu que tirará as ilações devidas caso seja provada alguma negligência. Ou seja, é uma questão de tempo.

Estamos em junho, hoje está de chuva e o calor a sério só chega no final de julho e agosto. Talvez seja falha minha mas para além dos pedidos de esclarecimento do primeiro-ministro e do presidente da República, não dei por uma única medida urgente para evitar que a tragédia de Pedrogão Grande se repita. Há algumas medidas do governo mas só vão começar no fim do ano, já depois da época dos incêndios. Também não sei se teria adiantado muita coisa: em 2013, da última vez que o país se comoveu com a tragédia dos fogos depois de oito bombeiros terem morrido em pleno combate, um estudo encomendado ao professor Domingos Xavier Viegas recomendou maior formação e coordenação dos bombeiros e alertou para a anarquia da coordenação. Quatro anos depois, está tudo mais ao menos na mesma. Mas pode ser que raiz ganhe força.

OUTRAS NOTÍCIAS



O fogo queima tudo à volta. É como se a vida parasse. Nesta semana parece que não aconteceu mais nada. E uma notícia importante passou quase despercebida: a lei de quotas de género nas empresas foi aprovada no Parlamento com o voto contra do PCP e com os votos favoráveis de PS, BE, PAN, Verdes e parte do CDS cuja líder, Assunção Cristas, foi a única deputada à direita do hemiciclo e aplaudir de pé a lei que obriga, em traços largos, empresas públicas e cotadas na Bolsa a terem um terço de mulheres nos conselhos de administração e nos órgãos de fiscalização. À partida sou contra a discriminação, mesmo a positiva, porque não se resolve uma injustiça com outra. Vai haver pessoas escolhidas em função do género, que é o que já acontece e que é considerado, e bem, injusto. Mas depois olha-se para os factos: das 46 empresas cotadas em bolsa só uma, a Galp Energia, é liderada por uma mulher, Paula Amorim, que herdou a posição do pai. A representação feminina nos órgãos decisórios das empresas ronda os 12 por cento. Alguma coisa está errada e não é certamente a formação ou a competência das empresárias portuguesas. É pena que a igualdade tenha de ser imposta desta maneira. A parte quase cómica da lei é que é só mais ao menos obrigatória: as empresas que cotadas que não a cumpram são multadas mas podem recorrer e no fim o castigo até pode passar pela divulgação pública do seu nome como incumpridoras. A esta hora os conselhos de administração das empresas já devem estar a tremer. Quero ver quando é que esta lei é aplicada a outros grupos discriminados ou sub-representados.



A primeira-ministra britânica Theresa May vai explicar hoje no parlamento que direitos terão os cidadãos da comunidade europeia depois do brexit. O Guardian diz que os europeus só não terão direito ao voto e perderão todos os direitos e serão deportados “apenas os que persistam na prática de crimes”.

Hermínio Loureiro vai ficar a saber hoje se vai aguardar a conclusão da investigação criminal de que é alvo em liberdade ou em prisão preventiva. O ex-presidente da Liga de futebol e atual vice da federação é suspeito de 14 crimes, entre os quais corrupção e de ter adjudicado dezenas de trabalhos sem concurso prévio. O Ministério Público pediu prisão preventiva. Loureiro já está preso há seis dias.

Felix Mourinho, antigo guarda-redes e treinador de futebol, morreu ontem aos 79 anos. Era pai de José Mourinho, treinador do Manchester United.


Fernando Medina, que é presidente da Câmara de Lisboa há dois anos em substituição de António Costa, anuncia hoje a candidatura a um novo mandato. É a primeira vez que concorre como número um. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto anuncia no dia 1 de julho a candidatura a um novo mandato.



No fim-de-semana, a equipa de Hóquei em Patins do Benfica decidiu não comparecer à final four da Taça de Portugal em protesto contra um golo que lhe foi anulado na última jornada do campeonato que seria conquistado pelo FC Porto. Vamos supor por um segundo que o Benfica tem razão e que o golo foi mesmo mal anulado e que o clube perdeu um título por causa do árbitro. Por esta ordem de ideias o Marselha nunca mais participaria na Liga dos Campeões porque em 1990 foi afastado da final pelo Benfica com um golo de Vata marcado com a mão. Ou então a Inglaterra nunca mais participaria num campeonato do mundo depois de ter sido derrotada em 1986 com a mão de Deus, Diego Maradona. O erro faz parte do desporto, por muito que isso custe. E sim, até pode ser premeditado. Mas por causa disso privar o clube e os adeptos da possível conquista de mais um título é absurdo. E o FC Porto ganhou a Taça.



Ainda no campo do desenvolvimento civilizacional: um grupo de “populares” decidiu amarrar fogo-de-artifício ou algo semelhante aos cornos de um touro devidamente amarrado e manietado para o efeito. Esta bonita tradição teve lugar em Benavente e foi proibida pela Direção Geral da Veterinária e denunciada pelo PAN. Mesmo assim o evento bem demonstrativo da coragem e bravura de todos os intervenientes humanos foi efetuado, filmado e publicado no facebook. Quem tentou impedir a “lide” foi ameaçado e, de acordo com o PAN, os militares da GNR presentes no local não se esforçaram muito por impedir fosse o que fosse. Em sua defesa a GNR, diz que não esteve presente no local, o que não deixa de ser fantástico tendo em conta toda a publicidade e polémica à volta do caso e o facto da “tradição” estar proibida. Não há melhor publicidade do que esta para o movimento anti-touradas. Boa, pessoal dos touros de Benavente.



Manchetes

Público: "Creches financiadas pelo Estado são livres de admitir só crianças ricas.". A lei das quotas económicas vai ter de chegar à educação privada.

Correio da Manhã: "IRS e IMI pagos com cartão de crédito". Pagar dívidas ao Estado contraindo dívidas ao banco. Fantástico.

JN: "Câmaras exigem mais dinheiro para proteger população"

DN: "Cartas de Condução.Estado só tem 41 examinadores para todo o país." Quem paga são os futuros encartados que têm de esperar três meses para fazer o exame.

I: "Governo vai acabar com papel nas provas de aferição do 8º ano.". No papel, é uma boa ideia.



O que ando a ler

“Retrato de uma Família Portuguesa”, Miguel Rovisco

Peça de um dramaturgo português que se matou novo, com 27 anos, depois de ter recebido o prémio Garret de 1987 para a melhor peça de teatro precisamente por causa desta obra. Nesta história, uma família abastada espera e foge das invasões francesas que chegam a Lisboa. No desespero, mostram a verdadeira natureza. E não é bonita. Rovisco desapareceu cedo de mais. Do mundo, mas também das prateleiras das livrarias e dos palcos de teatro. Hei de voltar a ele. E espero que volte a ser encenado e publicado.

“O Desconhecido do Norte Expresso”, Patricia Highsmith



Já tinha visto o filme e agora estou agarrado a uma edição antiga da coleção Vampiro comprada por um euro numa feira na Costa de Caparica. Logo no primeiro livro, logo na primeira página, a escritora conquistou o mundo, Alfred Hitchcok (o filme é tão bom como o livro, a regra de que a obra é sempre melhor do que a versão cinematográfica tem exceções) e a mim que não vou descansar enquanto não ler tudo de americana que parecia gostar mais de gatos do que de pessoas.

O que ando a ver

“O Boxer” e “Em Nome do Pai”, de Jim Sheridan



Assim que soube que Daniel Day Lewis iria deixar, de vez, o mundo do cinema e da representação fui à box da televisão para ver o que encontrava do genial ator britânico (meio ingês, meio irlandês), talvez o mais talentoso do que ainda estão vivos. Esta semana foram estes dois filmes do irlandês Jim Sheridan. Revi-os de uma assentada. A temática é semelhante: a luta na irlanda, a opressão inglesa, duas histórias de injustiça. Melhor o segundo do que o primeiro, mas dois ótimos filmes que provam que um ator nunca morre ou desaparece. Mesmo que queira.



O título deste curto foi roubado ao programa da peça “As Bacantes” que vi no Teatro Nacional Dona Maria II. No final do espetáculo acho que fui o único a ficar sentado sem aplaudir. Senti-me como o condutor na auto-estrada que recebe uma chamada a dizer que anda um louco em contra mão na autoestrada e responde que não é um mas são centenas. Também desta vez espero estar enganado e que seja agora que vamos fazer alguma coisa para evitar mortes desnecessárias.Mais exatamente: 64.

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