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Pedro Candeias Coordenador

O lobo Mou, o ladrar do presidente, o centavo do banqueiro e a mota do 36

25 de Maio de 2017

Bom dia,

Entre 22 de maio de 2010 e 24 de maio de 2017 passaram-se dois mil quinhentos e cinquenta e nove dias, que são mais quinhentos e cinquenta e nove dias do que os necessários para o cérebro de um bebé completar as suas ligações, e foi durante estes sete anos e dois dias, em que, por acaso (a ironia veste itálico) Oliveira e Costa passou de rei da banca ao banco dos réus, Donald Trump de apresentador a presidente, e Messi de primeiro bola de ouro FIFA a fraudulento, mas foi durante este exato período, dizia eu, que o meu cérebro reconfigurou a forma como olhava para um certo e determinado treinador português – até voltar à configuração original.

Isto acontece porque José Mourinho acabou de ganhar a Liga Europa, e ainda que seja mais comezinho que as duas Champions e não tenha o simbolismo daquela Taça UEFA, este troféu é mais importante do que qualquer um dos títulos europeus conquistados por ele desde 30 de junho de 2010. E foram estes todos: nenhum.

Depois do Porto, do Chelsea e do Inter, Mou esteve no Real Madrid e regressou ao Chelsea, clubes ricos e com meios, mas ele também recuou no tempo e nas ideias, e as suas equipas tornaram-se cínicas, defensivas e, sobretudo, chatas.

Por outro lado, o seu discurso deixou de arrebatar e passou a abarrotar com desculpas variadas - os árbitros, o calendário, a imprensa, etcetera - como se houvesse uma conspiração global planeada pelo planeta terra contra o cidadão José Mourinho.

Não havia, mas foi a forma que ele arranjou para que se falasse de outra coisa, qualquer coisa, desde que não fosse do espetáculo das suas equipas: defender bem e contra-atacar melhor do que se defendia.

A qualidade caiu, a reputação decaiu e a percepção mudou: Mou deixara de ser o génio que trouxera o detalhe e a obsessão para a Premier League, e começava a ser apenas mais um a tentar safar-se.

Até ontem, já que os ingleses não ganhavam nada desde 2013 (Liga Europa, Chelsea).

As vitórias fazem isto, são redentoras e transformam um homem, e o triunfo sobre o Ajax (2-0), que a Lídia Paralta Gomes analisa aqui, pode ser o clique que faltava a Mourinho para recuperar aquilo a que os ingleses chamam “mojo”, uma palavra curiosa que podemos traduzir no limite por “magia” e no mínimo por “imprevisibilidade”.

E às vezes, tudo o que é preciso é ser-se imprevisível

OUTRAS NOTÍCIAS
Mais dia, menos dia, tendo em conta que um dia são mesmo vários dias no que toca à velocidade da nossa Justiça, a decisão sobre o caso BPN tinha de sair – o julgamento do processo começou em dezembro de 2010. Oliveira e Costa foi condenado a 14 anos de prisão, cinco mil cento e dez dias, por crimes de falsificação de documentos, fraude fiscal qualificada, burla qualificada e branqueamento de capitais. Há outras 11 condenações e três absolvições, e o Expresso tem aqui a lista do quem-é-quem​ e de quem, alegadamente, fez o quê. O passo seguinte será o recurso para o Tribunal da Relação.

Sobre relações e relacionamentos já se escreveram muitas frases com Donald Trump como sujeito principal e os piores predicados no final. Até que… Lembra-se do que disse sobre a imprevisibilidade? Ora, segundo o New York Times e a Politico, ambas ligeiramente equidistantes do presidente dos EUA, Trump portou-se “graciosamente” com o Papa Francisco. “Embora tenham expressado pontos de vista opostos no passado” – no Twitter, claro, que Sua Santidade também é bastante ativo nas redes sociais – os dois trocaram argumentos sobre a Paz no Médio Oriente. Há uma fonte da administração que garante que – e vou traduzir livremente – “o ladrar de Trump é mais perigoso do que a própria mordida”. O Papa deu a Trump a sua Encíclica Laudato Sí, votada ao tema do meio ambiente, e ainda uma oliveira, símbolo da paz, e perguntou a Melania se dava potica (uma sobremesa eslovena) ao seu marido; já Trump ofereceu livros de Martin Luther King Jr.. No final, o presidente prometeu ao Sumo Pontífice que não se esqueceria das suas palavras (“faz a paz”) e partiu, que a sua vida anda num lufa-lufa nos últimos dias. Hoje, o 125º dia após a sua tomada de posse, Trump reúne-se em Bruxelas com a NATO e o assunto em cima da mesa é o combate ao terrorismo. Nota: sobre aquela foto de família, trago esta espécie de ensaio da CNN e, ainda, o dress code do Vaticano, no qual não constam referências a véus e roupas pretas nas mulheres – apenas a ombros cobertos e descobertos.

O New York Times descobriu o que parece ser o engenho explosivo usado pelo autor do ataque à Manchester Arena. O jornal descreve e mostra a fotografia de um invólucro de metal ligeiro que estaria escondido dentro de um colete ou de uma mochila Karrimor. “É possível que o bombista segurasse um pequeno detonador na sua mão esquerda”. Ou seja, houve um pouco mais de sofisticação do que pensava e isso é assustador. Entretanto, a caça aos cúmplices de Abedi estende-se à Líbia, enquanto em Manchester se reforça a segurança e se contam histórias de heróis. Como a deste homem sem nada que deu tudo para salvar pessoas na noite do concerto na Arena.

Já na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, houve 49 feridos, oito detidos e pelo menos dois tiros de PM durante o protesto contra Michel Temer. A manifestação, liderada pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e pelas centrais sindicais, começou no Mané Garrincha, prosseguiu para o Congresso Nacional e resultou no caos. Pela segunda vez, o estado brasileiro pôs os militares (1.300 do Exército e 200 Fuzileiros) na rua para “proteger o espaço público” ao abrigo da Garantia da Lei e da Ordem. Estima-se que estariam 25 mil manifestantes a pedir a queda de Temer, que tomou posse há 268 dias, um cenário possível de quatro maneiras diferentes: renúncia,acção no Tribunal Superior Eleitor, pedido de impeachment e acão penal. A Folha explica-lhe isto melhor.

Por explicar continua a frágil argumentação de Lionel Messi, o craque da Argentina e do Barcelona, no caso da fraude fiscal. Ontem, o Supremo Tribunal confirmou a sentença de 21 meses, 639 dias (já reparou que estou a contar), de prisão com pena suspensa por ter omitido ao fisco espanhol 4,1 milhões de euros nos exercícios de 2007, 2008 e 2009. Messi disse num primeiro momento que não sabia o que estava a fazer, que só assinava os documentos que o pai lhe passava, mas o Supremo não foi na história. E este é apenas mais um caso, depois dos de Coentrão, Falcao e Ronaldo, craques agenciados pela Gestifute de Jorge Mendes.

Agora, os jornais:
O Público diz que os “pais só vão pagar por manuais escolares ‘em casos extremos’”, o Jornal de Notícias escreve sobre a “greve, feriados e ponte” que “tiraram cinco dias de aulas num mês”, o Diário de Notícias alerta para o facto de o SEF estar “sem agentes para controlar aumento de entradas nos aeroportos”, e o i traz um boneco curioso, todo ele Cristiano Ronaldo do pescoço para baixo e com a cara de Mário Centeno. Obviamente, o Ronaldo do Ecofin.

FRASES
Centeno é o Ronaldo do Ecofin”, Schäuble sobre o ministro português

Por uma vez, não pensou mal”, Marcelo Rebelo de Sousa, sobre o que o antigo ministro alemão disse sobre o atual ministro português

Isso pode significar, por exemplo, e esse número vou arriscá-lo, que o crescimento do segundo trimestre venha a ser superior a 3% em termos homólogos dada a aceleração que estamos a assistir Senhoras e senhores, o Ronaldo da Ecofin

Oliveira e Costa não se apropriou de um único centavo Leonel Gaspar, o advogado de Oliveira e Costa

Há muitos poetas no futebol, mas poetas não ganham títulos José Mourinho, o iconoclasta, está de volta

O QUE ANDO A LER
Não vou dizer que me lembro como se fosse hoje, mas quase que podia jurar que foi isto que sucedeu quando li Saramago pela primeira vez: desisti. A minha história com o nosso Prémio Nobel aconteceu por tentativa e erro, até compreender a lógica da sua escrita que era o oposto daquilo que me ensinavam na preparatória e depois no secundário: uma frase, uma ideia; pontos finais; aspas ou travessões para diálogos e discursos diretos; e não resisto à piada, cuidado com as vírgulas. Depois, o estilo assentou e acho – repito, acho – que percebi a lógica de Saramago, que escreve como nós pensamos, em velocidade, sem pausas e parágrafos, como se tudo o que nos saísse da cabeça passasse imediatamente para o papel.

Só que no caso dele não são coisas avulsas e desgarradas, mas ideias e cenas perfeitamente encadeadas, em que as palavras mais simples são usadas nos raciocínios mais complexos. E isso faz dele um autor único. Portanto, quando li o “Caim”, redescobri o prazer de ler em velocidade, sem me perder, rindo-me com as suas ironias e interpelações, a genialidade, e os tempos passado-presente-futuro misturados com elegância e improvavelmente coerentes. Não é o “Ensaio sobre a Cegueira” ou o “Memorial do Convento” ou o “Evangelho segundo Jesus Cristo”, mas é Saramago. E isso basta-me.

E, por hoje, basta. Convido-o a passar os olhos pelos sites do Expresso, Tribuna, Blitz, Exame, Exame Informática durante o dia, e a aceder ao Expresso Diário por volta das 18h – mais ecléticos, impossível, somos os decatletas da informação. E já que falamos de desporto, se tiver menos de três minutos e mais de dois minutos e cinquenta e oito segundos disponíveis, veja este 2:59 que resume o que aconteceu no campeonato português. Tem o Rui Vitória e o Eliseu a andar de mota e um desenho do Nuno Espírito Santo rasurado. Escrevi-o com o analista Rui Malheiro, e é um trabalho feito com a Joana Beleza, o André de Atayde, o João Roberto, o Carlos Paes, o Jaime Figueiredo e a Eugénia Borges.

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