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Expresso

João Vieira Pereira Diretor-Adjunto

História de uma violação. Aqui, no Brasil e nos EUA

18 de Maio de 2017

Este Expresso Curto começa com uma violação. Não de alguém, mas dos princípios básicos do jornalismo.

(Esta opinião não vincula nenhum dos outros elementos do Expresso, nem a direção da qual faço parte. Não discuti sequer o tema com todos os jornalistas do Expresso mas tenho a certeza de que a maioria (se não todos) concordam, de forma geral, com as próximas linhas).

A divulgação de um vídeo pelo Correio da Manhã de uma alegada violação de uma rapariga num autocarro da cidade do Porto, durante a Queima das Fitas, não é jornalismo. É entretenimento travestido de informação. É a procura da maximização de audiência e de visualizações através da profanação do jornalismo, recorrendo para isso ao total desrespeito pela alegada vítima.

Mostrar aquele vídeo não acrescenta nada à notícia. A mesma podia ser dada sem recurso a imagens. Por isso o seu uso é errado, despropositado e condenável. E justificar a sua divulgação por uma questão de justiça também não faz sentido. Se algum crime foi cometido, então o jornal deveria ter entregue as imagens às autoridades para que fizessem o seu trabalho.

Infelizmente, os jornais não estão isentos de erros, alguns são cometidos por descuido, outros por desleixo. Há outros ainda que resultam do engodo das fontes. Todos são condenáveis. Mas os piores, e os que não têm desculpa, são estes, os que transformam informação numa outra coisa qualquer.

A vítima do alegado abuso já foi identificada pelas autoridades e fonte policial diz que a jovem é maior de idade e não quis apresentar queixa.

A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género já anunciou que vai apresentar uma queixa no DIAP contra o “Correio da Manhã” pela publicação do vídeo. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) abriu um processo para analisar a transmissão do vídeo e o conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas condenou a sua divulgação.

Mudemos de violação, para outras de segredos de estado e limites do poder. No Brasil e nos EUA.

Primeiro o Brasil
. Michel Temer foi gravado por um empresário, Joesley Batista (dono de um império de produção de proteína animal, o Grupo JBS), a recomendar a manutenção de um suborno ao ex-deputado Eduardo Cunha para se manter calado.

Tem de manter isso, viu?”, terá dito Temer. O Presidente brasileiro também apontou o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) como o homem indicado para resolver um assunto da empresa de Batista. Rocha Loures acabou por ser filmado a receber uma mala com 500 mil reais enviados por Joesley Batista — já agora vale a pena conhecer quem é este empresário que em abril já tinha dito: “vão todos presos”. As gravações, depois de o empresário ter optado pela delação premiada, foram todas entregues à polícia.

Eduardo Cunha, que se encontra preso a cumprir uma pena de 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, teria afirmado que se “a JBS delatar, será o fim da República”.

É claro que Temer desmente. O escândalo, que rebentou ontem ao fim da tarde, já originou manifestações e trouxe de volta a palavra impeachment às ruas de várias cidades do Brasil.

Nos EUA, quando pensávamos que Trump não podia ir mais longe, eis que ele surpreende todos. Ao ponto de congressistas Republicanos exigirem a divulgação de documentos relativos aos dois escândalos mais recentes: o Presidente norte americano terá passado informação confidencial à Rússia e terá pedido ao ex-diretor do FBI (que ele demitiu pouco depois), que parasse as investigações a Michael Flynn, o seu ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional.

Putin, num papel que não costuma ser o dele, diz que está disponível para contar tudo e até mostrar documentos. Até porque não há nada para esconder já que, segundo o Presidente russo, Trump não passou qualquer informação secreta ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Palavra de Putin.

Vale a pena relembrar o que é que Trump terá partilhado com os russos e porque é que é tão importante esta notícia.

Mas o caso que está a marcar a atualidade nos EUA é a alegada interferência na investigação do FBI. Comey já foi ‘convidado’ a depor no Senado para explicar tudo.

E para finalizar talvez um dos dias mais negros da já negra presidência norte americana, o Departamento de Justiça nomeou Robert S. Muller, ex- diretor do FBI, para liderar uma investigação especial às alegadas interferências russas nas eleições presidenciais. O "The New York Times" explica aqui porque é difícil haver uma investigação independente à questão russa.

Também nos EUA, a palavra mais usada é impeachment. Mas pode realmente haver um? Algumas respostas podem ser encontradas aqui. A petição para que tal aconteça já ultrapassa 1 milhão de assinaturas.

Como resultado desta trapalhada, a bolsa, o dólar e os juros americanos estão em queda forte porque os investidores duvidam que Trump consiga agora uma maioria no Congresso para passar a sua agenda.

Aconselho ainda três textos que ajudam a explicar toda esta história. O de Henrique Monteiro, que pede a demissão de Trump, por excesso de ego, de incompetência ou de cumplicidade; o de Daniel Oliveira, que nota que “Trump descobre que o Estado não é a sua empresa”, e o Henrique Raposo, que fala em “Nero a caminho do impeachment”.

OUTRAS NOTÍCIAS
Para quem ainda tinha dúvidas que António Horta Osório era o homem certo para dar a volta ao gigante Lloyds, essas ficaram dissipadas quando o Governo britânico anunciou que vendeu as últimas ações que tinha no banco. No total o tesouro, depois de ter sido obrigado a injetar quase €24 mil milhões para salvar a instituição, acabou por recuperar todo o seu dinheiro e ainda lucrar mais de mil milhões de euros.

Na onda de sucessos lusos, Leonardo Jardim levou o Mónaco à vitória do campeonato francês. E Ronaldo, com mais dois golos, colocou o Real Madrid a 1 ponto de ser campeão em Espanha.

A Bosch Portugal é uma das melhores empresas a operar no nosso país e invariavelmente apontada como um caso de sucesso de IDE. Agora voltou a ser reconhecida ao ficar com 65% da produção de um contrato de 2 mil milhões que o grupo ganhou para fornecer os sistemas de informação e entretenimento para todos os automóveis da Renault e Nissan. As fábricas de Braga e de Ovar irão beneficiar diretamente com este novo contrato.

Em apenas seis dias foram registados 4152 pedidos de trabalhadores que querem ver a sua relação laboral com o Estado regularizada. Vieira da Silva divulgou este número no primeiro balanço ao Programa de Regularização Extraordinária de Vínculos Precários da Administração Pública. Não deixa de ser curioso que o último relatório sobre a precariedade no Estado feito pelo Governo falasse em pelo menos 116 mil precários. A que se deve esta enorme discrepância? Primeiro ainda estamos nos primeiros dias do programa e depois este deixa de fora muitos dos casos identificados como precários, como funcionários das autarquias, trabalhadores em part-time ou sazonais, ou quem tenha já algum tipo de contrato com o Estado.

Morais Pires, (ex CFO do BES) está na lista do saco azul do GES, o que não é propriamente novidade já que aquele mecanismo era usado para remunerar ‘por fora’ administradores do banco liderado por Ricardo Salgado.

O alerta é dado pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos. Paulo Ralha diz que não há qualquer funcionário do Fisco que faça, por iniciativa própria, averiguação dos sinais exteriores de riqueza, tudo por receio de ser punido no seguimento da criação da lista VIP pelo anterior governo. A ‘lista VIP’ funcionou durante quase quatro meses e monitorizou os acessos indevidos à informação fiscal do então Presidente da República, Cavaco Silva, do ex-primeiro-ministro Passos Coelho, do ex-vice-primeiro-ministro Paulo Portas, e do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio.

O mesmo Paulo Ralha voltou a afirmar no Parlamento que acredita que a não publicitação das estatísticas da Autoridade Tributária com os valores das transferências para offshore aconteceu por "erro humano" e não por um "erro informático".

Também Paulo Núncio voltou ao parlamento para ser ouvido a dizer que “foi o governo PSD/CDS que impediu que o Panamá saísse da lista negra dos paraísos fiscais”.

O Ministério da Administração Interna quer que as redes sociais parem de divulgar os sítios onde estão a ser feitas as operações stop. Para o conseguir vai avançar com campanhas de sensibilização sobre os riscos de partilha desta informação.

António Guterres discursou pela primeira vez no Parlamento Europeu na qualidade de Secretário Geral da ONU propondo um pacto para a emigração e criticando a União Europeia pela demora na resposta à crise dos refugiados, ou melhor, à crise humanitária, pois como diz Berta Palou, especialista em migrações, não se trata de refugiados, "pois não estão refugiados em lado nenhum".

Particularmente perturbadora é esta reportagem do Expresso sobre os órfãos que chegam sozinhos à Suécia. A não perder.

O novo Governo francês foi apresentado e conta com 22 ministros, 11 são mulheres. De referir que a ministra da Cultura, Françoise Nyssen, é editora de vários autores portugueses e lusófonos.

Enda Kenny anunciou a sua demissão do partido conservador que liderava há mais de 15 anos. O primeiro-ministro irlandês continuará, no entanto, a liderar o Governo até às eleições do próximo dia 3 de junho.

Chelsea Manning foi libertada da prisão depois de ter cumprido sete anos por ter revelado milhares de documentos diplomáticos e militares norte-americanos à Wikileaks. A maior parte dos 35 anos que lhe faltava cumprir foi comutada ainda por Barack Obama. Os primeiros momentos de liberdade foram passados a comprar uns ténis e a comer piza. Tudo registado no Instagram.

Já pode ajudar a selecionar a palavra do ano 2017 através do site criado pela Porto Editora.

Como hoje é o Dia Internacional dos Museus, se puder não deixe de participar em pelo menos uma das muitas atividades gratuitas programadas. Pode consultar o programa completo aqui.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
€1500 milhões, montante colocado pelo IGCP em Bilhetes do Tesouro a seis e a 12 meses a taxas de juro médias ainda mais negativas. A taxa de juro média foi de -0,153%,

1 milhão foi o número de visitantes em museus, monumentos e palácios nacionais no primeiro trimestre deste ano, mais 13,8% relativamente ao mesmo período do ano passado.

13.530 hectares é a área ardida desde o início de 2017, dez vezes superior ao mesmo período de 2016.

71%. É a percentagem de população portuguesa que utiliza a internet e que fica 13% abaixo da média europeia.

€51,65 milhões é o valor pelo qual foi vendido um par de brincos em Genebra num leilão realizado pela Sotheby's.

$45 milhões é o valor pelo qual foi vendida a pintura de Picasso intitulada "mulher sentada de vestido azul" num leilão em Nova Iorque. Tinha sido vendido a uma colecionador privado por $26 milhões há seis anos. Mais de €3 milhões de lucro por ano, nada mal.

3 mil milhões de dólares. É o preço que Lee Shau-Kee, dono da segunda maior fortuna da China, pagou por um parque de estacionamento em altura (com uma área de terreno de 2.880 m2) em Hong Kong. Este negócio bateu todos os recordes.

FRASES
Há capital árabe em empresas chave na economia portuguesa, há capital português que quer avançar investindo em países árabes e por outro lado há, hipoteticamente, a possibilidade de haver capital árabe comprando dívida pública portuguesa e se isso vier a acontecer significa um estreitamento de relações económicas e financeiras entre Portugal e o mundo árabe” - Marcelo Rebelo de Sousa.

O Governo meteu travão a fundo na despesa e procurou por todos os meios obter receita extra, para assegurar um défice mais baixo do que aquele que previa. Aquele fundamentalismo de que o PS nos acusava? Conseguiu ultrapassar-nos com o que fez na segunda metade de 2016”, Marco António Costa

O QUE EU ANDO A LER

Ainda no rescaldo das boas notícias sobre a capacidade do nosso sector exportador ser o verdadeiro motor do crescimento, deixo como sugestão de leitura o mais recente ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Os exportadores portugueses de Filipe S. Fernandes é uma visão real de algumas das nossas empresas que mais exportam, um retrato de quem são os verdadeiros campeões das exportações.

Não é de espantar que numa economia dominada em larga escala por micro empresas, os maiores exportadores sejam as grandes empresas. “Em 2014, 1,9% das empresas exportadores (…) representavam 42,4% do valor exportado”, o que dá para perceber que os campeões são apenas alguns.

Mas o panorama está timidamente a melhorar e todos os anos sobe o número de empresas que são criadas já como exportadoras. Só que este número é apenas de 5% do total de empresas criadas num ano. Um retrato a não perder neste livro.

E agora para algo totalmente diferente, termino com um texto absolutamente fantástico sobre o documentário do historiador, escritor e jornalista Tom Holland. Isis: The Origins of Violence, pretende explicar o que esteve na origem do movimento que pretende criar um califado global. Ainda não o vi, foi exibido recentemente no Channel 4 no Reino Unido, mas depois desta crítica do The Guardian, diria que está no topo da minha lista. Holland é ‘acusado’ de uma visão própria e bastante enviesada sobre o Isis já que este documentário terá sido filmado de uma perspetiva bastante cristã. Mesmo assim é apresentado como um dos documentários com mais profundidade e coragem já feito sobre o Isis… com os olhos postos nos Óscares de 2018.

Já agora vale a pena ver este fantástico trabalho multimédia da BBC que nos mostra o impacto da guerra na Síria visto do céu… de noite e de dia… é...brutal!

Este Expresso Curto termina aqui. Tenha uma ótima quinta-feira e não se esqueça que às 18h há Expresso Diário e que pode consultar a qualquer hora o site do Expresso para se manter atualizado.

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