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Expresso

Rui Gustavo Editor de Sociedade

Feliz e desgraçada

16 de Maio de 2017

O Vinicius já sabia: "Tristeza não tem fim, felicidade sim." O poeta e cantor e o branco mais preto do Brasil falava do Carnaval e da vida e a verdade é que vivemos preparados para enfrentar a infelicidade mas não sabemos como lidar com a felicidade, especialmente se for muito prolongada. Depois do super-fim-de-semana da canonização dos pastorinhos e da festiva visita do Papa a Fátima que decorreu sem qualquer incidente; do tetra-campeonato do Benfica, dando felicidade a mais de metade do país e da espetacular vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão, estava à espera de um início de semana de ressaca, de más notícias, de chuva e descida de temperaturas. Mas não.

O Produto Interno Bruto cresceu 2,8 %, o valor mais alto dos últimos dez anos o que significa que há mais riqueza para distribuir por todos. E como o turismo será a principal causa para o sucesso - É o turismo,estúpidos! - só temos razões para ficar ainda mais otimistas: vem aí o verão e o mais certo é que todos os recordes de receitas e visitas de turistas sejam batidos outra vez este ano. Já repararam há quanto tempo não se fala de crise, austeridade e desemprego? Não há coração de fadista que aguente.

Para equilibrar a força houve um ataque informático em larga escala e sem precedentes (de acordo com a Europol) que infetou 12 mil computadores em Portugal e milhões no mundo inteiro. Um vírus sequestrou os dados dos computares e hackers de origem ainda desconhecida (norte-coreanos, chineses, russos?) um resgate de 300 dólares para os devolver. Ninguém ou pouca gente terá pago e o ataque foi sustido. Não houve prejuízos graves e o incidente até serviu para as grandes empresas se convencerem da necessidade atualizar os sistemas de proteção. Pelo caminho, mais um herói: Marcus Hutchins, um puto rodeado de pizzas e videojogos inventou uma espécie de vacina que resolve, ou pelo menos trava o problema, por cerca de dez euros.

Indiferente a Salvador Sobral que fez uma excelente divulgação da língua portuguesa não só na impecável atuação, mas também na conferência de imprensa; e até ao Benfica – só o benfiquista um bocado lixado com isto parece ter compreendido o meu drama - o líder da Coreia do Norte continua a assustar o mundo e António Guterres com os planos de construção de uma arma nuclear de destruição em massa. Os testes nucleares continuam, caíram bombas no mar do Japão e críticas do mundo inteiro, até dos aliados China e Rússia, mas será Kim Jung-un uma ameaça real? Um verdadeiro motivo para provocar infelicidade fora da Coreia? A Revista E desta semana ajuda a clarificar os espíritos mais confusos.

Felizmente há Trump. De acordo com o insuspeito Washington Post, o presidente dos Estados Unidos terá partilhado informação classificada sobre o Daesh com o embaixador e o ministros dos Negócios Estrangeiros russos. A informação, segundo o jornal, pôs em perigo uma fonte no terreno e terá resultado de uma bravata de Trump que queria demonstrar que estava bem informado. A Casa Branca desmente. Esse arrepio na espinha que acabou de sentir é o mais parecido com infelicidade que se pode arranjar por hoje.A Amália já tinha dito que era "feliz e desgraçada".

OUTRAS NOTÍCIAS

Juro que não estou a fazer de propósito: Leonardo Jardim foi eleito treinador do ano em França. O técnico português já é campeão francês pelo Mónaco, pondo fim a uma hegemonia de quatro anos do muito mais rico Paris Saint-Germain. Em Portugal foi mais ao menos corrido do Sporting depois de uma época sem títulos. Em França não só ganhou como revelou ao mundo a próxima grande estrela: Kylian Mbappé, um adolescente de 18 anos que faz coisas destas. Bernardo Silva, que saiu do Benfica quase sem ter jogado pelo clube do coração e João Moutinho, o ex-maçã podre do Sporting também são campeões.

O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes e os sindicatos dos médicos reúnem-se hoje para negociar as reivindicações “justas” (palavra de ministro) que na semana passada fizeram greve por dois dias adiando consultas, exames e intervenções cirúrgicas. Depois de ter dito que não negociava “sob pressão” o governante dá agora sinais de abertura já que foi dele o primeiro passo na direção da paz.

Em França, o novo presidente Emmanuel Macron, um ex-simpatizante do Partido Socialista que rebentou com o partido nas últimas eleições, convidou Edouard Phiippe, social-democrata, para primeiro-ministro. É a primeira vez que um presidente francês convoca alguém fora da sua área política sem ter sido forçado por eleições. Como é linda a fraternidade.

O Sporting anunciou a contratação de Piccini, lateral italiano e Matheus, um médio brasileiro que começou por ser notícia porque é filho de Bebeto, mas que fez por merecer esta oportunidade depois de uma boa temporada no Estoril.

A ILGA diz que Portugal é um dos países do mundo que mais defende os direitos dos homossexuais.

Hoje o ministro do Ambiente vai à Assembleia da República explicar porque é que Portugal aceitou que Espanha construísse um depósito de resíduos nucleares na velha central de Almaraz. A Rádio Renascença cita um estudo do exército português de 2010 que diz que 800 mil pessoas seriam afetadas pela radioatividade no caso de um acidente nuclear. A proteção civil desconhece o estudo. Uma nuvem negra no céu azul de hoje.


Nos jornais de hoje, o normalmente dramático Correio da Manhã garante que “Riqueza sobe 14 milhões por dia”. O Jornal de Notícias denuncia o facto de os Call centers mudarem um terço dos funcionários todos os anos. O Público diz que a acusação do caso dos comandos estará pronta em junho e que a procuradora acusa os instrutores de saberem que estavam a por em perigo a vida dos instruendos. Morreram dois. O DN faz manchete com a providência cautelar que suspendeu o castigo a um oficial da PSP responsável por 57 armas que desapareceram do armazém da polícia. No I o patrão dos patrões, António Saraiva, revela que foi líder de uma comissão de trabalhadores da Lisnave. No Negócios destaca-se que “Marcelo pediu mais de 2%. Economistas já acreditam”. O PIB outra vez.


O que eu ando a ler

"Inocência Perversa", Patricia Highsmit

Se pudesse escolher um super poder queria ter a direita do Federer e saber escrever como a americana, autora de clássicos como "O Desconhecido do Norte Expresso" ou "O Talentoso Mr, Ripley". Compro ou peço emprestado tudo o que me vem à mão e guardo e leio devagar para saborear melhor. "Inocência Perversa" é a história de um homicídio estúpido e desnecessário, um tema caro à escritora que tem uma capacidade de criar e perscrutar como um cirurgião mentes normais capazes do pior. Basta carregar nos botões certos. Ainda bem que é ficção e que na verdade não somos máquinas de matar prontas a explodir. Pode dormir descansado.

"Quando Perdes Tudo Não Tens Pressa De Ir a Lado Nenhum", Dulce Garcia

Tinha começado a ler no último curto e acabei agora. A primeira sensação não se apagou: excelente livro e promissora estreia da jornalista entretanto apanhada na onda de rescisões amigáveis (adoro o eufemismo) da Sábado. A história é baseada no caso real de uma mulher que vivia num aeroporto e um excelente retrato do atual estado das relações entre homens e mulheres e mulheres e mulheres. Pessoas. A autora, que é minha amiga, descreve carne e osso com humor, crueza e muita música. Ótimo retrato da capital e dos lugarejos do interior. Escreve mais um.


O que eu ando a ver

"Guardiões da Galáxia vol2"

Os filmes de superheróis e mais particularmente da Marvel estão para o cinema como os hambúrgueres para a cozinha. Se forem bem feitos sabem bem mas nunca serão gourmet. Mesmo que os ingredientes sejam do melhor. Mesmo assim fui. Chamem-lhe síndroma de domingo à tarde. O filme é ótimo, com uma banda sonora espetacular (hits e músicas desconhecidas dos ano 60 que me valeram uma tarde no youtube), excelentes piadas e uma história, vá, de alguma profundidade. A aventura foi ainda mais profunda porque vi o filme num cinema cheio de putos que não se calaram um segundo (alguns comentários não foram nada maus, tenho de admitir) e rebentaram num aplauso entusiástico no final. Cinemateca: prometo que não falho o próximo ciclo de expressionismo alemão.


Fargo, temporada 3

Adorei o filme e as duas primeiras temporadas e boa notícia é que se pode começar por esta série porque as histórias nem sequer estão ligadas. Só o ambiente é o mesmo: neve, bandidos, "wise-guys" e broncos com pronúncia do Minnesota. O protagonista é Ewan McGregor (Trainspotting) que faz o clássico papel de gémeos (ainda não bate Jeremy Irons Irmãos Inseparáveis, mas anda lá perto).

O que não vou ver

Caetano Veloso, hoje, no Casino Estoril. Vi o bardo brasileiro há poucos meses no Coliseu de Lisboa e se pudesse e se os bilhetes não fossem assim para o puxadotes ia outra vez. Que músico. Foi a primeira vez que o vi ao vivo e apara além de ter confirmado a excelente voz de mel fiquei extasiado com a dureza daquela mão na guitarra. E também ele podia ser fadista. Espero que cante outra vez "Libertação", de Amália.

Prometemos dar todas as notícias, boas e más, no site e no diário de hoje.E note que "a felicidade é como a pluma; Que o vento vai levando pelo ar; Voa tão leve; Mas tem a vida breve; Precisa que haja vento sem parar."

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