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Expresso

Cristina Figueiredo Jornalista da secção Política

A festa que mal chegou a sê-lo

9 de Maio de 2017

Foi breve o suspiro de alívio que a Europa deu às 20h00 de domingo em França (19h00 em Portugal), quando a vitória de Emmanuel Macron sobre Marine Le Pen se tornou oficial. A posse do novo Presidente é já no domingo e a primeira volta das eleições legislativas (ou a terceira das presidenciais, como já está a ser interpretada) está marcada para 11 de junho. E não há tempo a perder quando há tantos problemas para resolver.Como, infelizmente, se vê: ainda nem 24 horas tinham passado sobre o fecho das urnas quando se verificaram os primeiros protestos em Paris contra o novo Presidente eleito ("queria dizer ao senhor Macron que a maioria dos 65% que votaram nele, não o fizeram a seu favor mas contra Le Pen", ouve-se a um dos manifestantes num vídeo captado pela AP-Reuters). Foram feitas várias detenções. E a notícia ainda estava a ser digerida quando se soube que a polícia evacuara a Gare du Nord, em Paris, para buscas depois de alegadamente três indivíduos procurados por questões de segurança do Estado terem sido avistados num comboio.

Nada disto se tinha ainda passado quando Macron surgiu, ontem de manhã, ao lado do ainda presidente François Hollande, nas cerimónias de homenagem aos soldados franceses mortos na II Guerra Mundial. Mesmo descontando a solenidade da ocasião, o mais jovem presidente de sempre da República francesa trazia o semblante carregado de quem sabe que a responsabilidade que o espera não é pequena: para já, evitar o caos político, explica o correspondente do Expresso em Paris, Daniel Ribeiro, e nomear um primeiro-ministro (e um Governo) que lhe garanta vitória nas eleições de junho. O Nouvelle Observateur faz um exercício especulativo sobre vários nomes possíveis, o que pode já vir tarde pois Manuel Valls acabou de dar uma entrevista à RTL onde admite que vai ser o candidato da maioria presidencial nas eleições de junho porque "este Partido Socialista está morto". Macron ainda não se pronunciou.

Ainda no rescaldo das presidenciais gaulesas, vale a pena ler a reportagem que o Le Monde foi fazer na aldeia de Brachay, no Haute-Marne, onde 90% dos habitantes votaram Le Pen. Aqui o universo era pequeno (apenas 62 habitantes), mas os números absolutos apontam para mais de onze milhões de franceses que votaram na antiga líder da Frente Nacional no domingo e Le Pen já está a pensar em como "fazer rendê-los" nos próximos cinco anos.


OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro...



Por cá, o país segue, intermitente, entre os feriados das duas últimas semanas e a tolerância de ponto que o Governo entendeu conceder aos funcionários públicos na tarde da próxima sexta-feira, a pretexto da presença do Papa nas cerimónias de comemoração do centenário das aparições em Fátima. Na contagem decrescente para o evento não há meio de comunicação que não lhe traga reportagens no santuário, ou a caminho dele. O Expresso, claro, também tem lá os seus jornalistas: ontem, o Hugo Franco, a Mariana Lima Cunha e o José Carlos Carvalho foram à descoberta de quem pede à virgem pelo Benfica.Igualmente curioso, de tão inesperado, é este trabalho da Rádio Renascença sobre os pagadores profissionais de promessas: prometeu ir a Fátima a pé ou percorrer o recinto do santuário de joelhos mas não tem como? Eles fazem-no por si a partir de 2500 euros. De volta ao Santo Padre: se ainda não leu, vai perfeitamente a tempo de tirar as suas conclusões sobre se "Este Papa é de esquerda?",a partir do ensaio de António Marujo que publicámos na penúltima edição semanal do Expresso e que está agora acessível no site.

Contas de outro rosário são as que os partidos já fazem às eleições autárquicas de 1 de outubro. O terramoto no Porto - onde o PS se viu obrigado, à última hora, a arranjar um candidato próprio à Câmara, quando já estava a contar apanhar boleia da mais que provável reeleição de Rui Moreira - continua a produzir réplicas. Ontem o Expresso confirmou que o diretor do Porto Canal, Júlio Magalhães, foi mesmo sondado pelo PS para ser candidato pelos socialistas (em vez de Manuel Pizarro); e poucas horas depois de se saber que os vereadores socialistas prescindiam dos pelouros que ocupavam até aqui no executivo camarário, Rui Moreira voltou a dar uma entrevista, desta vez à TSF, onde explica as razões por que dispensou o apoio dos socialistas. O PSD, perante a confusão gerada, esfrega as mãos de contente: "A barraca do PS no Porto ultrapassa qualquer problemazinho no PSD", diz Carlos Carreiras, o coordenador autárquico social-democrata, em entrevista ao Diário de Notícias.

Em Lisboa,as autárquicas afiguram-se bem mais cor-de-rosa para o PS. Fernando Medina nem precisa de ir a Fátima! Governo ajuda no que pode para dar boas notícias aos alfacinhas e ontem divulgou formalmente os planos de alargamento do metropolitano, que passam por quatro novas estações, duas delas (Santos e Estrela) já até 2021.

Em véspera de dois dias de greve dos médicos - que, segundo as contas do Jornal de Notícias, somados à tolerância de ponto obrigam ao adiamento de 182 mil consultas (conteúdo exclusivo para assinantes) -, o Sindicato Independente dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos vão até à residência oficial de São Bento, hoje às 18h00, para entregar uma carta ao primeiro-ministro, onde alertam para o "conflito aberto" pelo Ministério da Saúde, apelando à intervenção política de António Costa, "de modo a ser encontrada urgentemente uma solução que impeça o agravamento crescente do processo de luta em desenvolvimento". O contexto não passa certamente despercebido às forças que apoiam o PS no Governo e hoje o Público anuncia que o BE quer mais investimento do Governo na Saúde e na Educação e que essa é a moldura de exigências que molda as negociações entre os dois partidos para o Orçamento do Estado de 2018 (que, segundo o jornal, Costa quer concluídas ainda antes de se entrar na campanha autárquica).

A música não é tudo (se calhar, nem é o principal) neste tipo de eventos, como se percebe neste artigo do Público, ou neste do Observador. Mas, por uns instantes, ponha a política (ou o futebol) de lado e, ao início da noite, sente-se em frente ao ecran e torça pelo representante português na primeira meia-final do Festival Eurovisão da Canção, que este ano se realiza em Kiev, na Ucrânia. Salvador Sobral vai interpretar “Amar pelos dois” - a canção composta pela sua irmã Luísa Sobral que está a fascinar Portugal e a Europa e que, segundo as reações da imprensa estrangeira e os sites de apostas, deverá obter a melhor classificação de sempre para o país. Salvador pode não ganhar (a final é só no sábado e, ao que consta, a Itália leva grande vantagem) mas isso, é ele que o diz e eu concordo, não interessa nada: o justo reconhecimento que a sua música finalmente teve, à conta do Festival, é a maior e a mais grata das recompensas.


... e lá fora

A agitação continua (e contínua) nos EUA. Ainda a nomeação de Michael Flynn para Conselheiro de Segurança da Administração Trump (cargo que só ocupou durante 18 dias) fazer as manchetes dos principais jornais norte americanos.A antiga procuradora-geral, Sally Yates, garantiu ontem em Washington que logo na primeira semana de Trump na Casa Branca o avisou que Flynn teria mentido sobre os seus contactos com a Rússia e que, por isso, podia ser facilmente alvo de chantagem. O próprio Barack Obama terá feito o mesmo no primeiro encontro com o seu sucessor. Trump que se prepara, segundo o Washington Post, para uma nova escalada na presença norte-americana no Afeganistão, plano que, a ser aprovado, significa o reacender da guerra (que se julgava praticamente extinta) contra os talibãs.

A agitação continua (e contínua) também na Venezuela, onde as manifestações contra o Governo de Nicolás Maduro já somam 37 mortos e 600 feridos mas não dão mostras de abrandar. O Executivo de Caracas também não se mostra particularmente empenhado nos esforços de paz: ontem o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV, no poder) anunciou que vai preparar os seus militantes "para qualquer tipo de cenário", que inclui treino militar, de defesa e anti motim.

Em Espanha inicia-se hoje (e decorre até 20 de maio) a campanha eleitoral para secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol, a que concorrem Susana Diáz, Pedro Sánchez e Patxi López. O debate de ideias e projetos promete: a equipa do segundo acusou a equipa da primeira de ser "máfia ao serviço de Rajoy" e Diáz exige desculpas a Sánchez. As primárias estão marcadas para dia 21. A 15 há o primeiro (e único) debate entre os três candidatos.

Do "outro lado" da barricada política espanhola, há novidades sobre a corrupção no PP: O El Español revela uma troca de SMS (sim, também "los hay" por lá) entre o responsável pela gestão financeira do partido em Madrid e um dos "correios" de que os populares se socorriam para pagar despesas de campanha (durante a campanha para as eleições municipais e autonómicas de Madrid, em 2011) de forma ilegal. Não resisto à moral da história: é também por estas (e outras) que andamos a debater a erosão dos partidos tradicionais e a escalada dos ditos "independentes" no mundo ocidental.

Harrison Ford apresentou o trailer completo de "Blade Runner 2049", a sequela realizada por Denis Villeneuve do épico de Ridley Scott (estreado em 1982). Ford, 74 anos, contracena com Ryan Gosling (o protagonista de La La Land), e garante que o novo filme é "emocionalmente profundo". Como se o primeiro não o fosse já... Se é fã (eu sou), é só mais um bocadinho de paciência: segundo o IMDB, o filme estreia por cá a 5 de outubro.


AS MANCHETES DOS JORNAIS DE HOJE

"Bloco exige mais investimento na Saúde e na Educação no OE2018" (Público)
"Polícia Municipal de Lisboa aumenta orçamento em 600%" (Diário de Notícias)
"Greve e tolerância adiam 182 mil consultas" (Jornal de Notícias)
"Banqueiro testemunha contra Sócrates e Salgado" (Correio da Manhã)
"Primeira notícia especulava que Fátima ia ser estância milagrosa como Lourdes, em França" (i)
"Fisco perdoou 168 milhões em juros, custas e coimas" (Jornal de Negócios)

O QUE ANDO A LER E A VER


Acabei este fim-de-semana a leitura de “Numa casca de noz”, o último romance do britânico Ian McEwan. Desde “Amsterdão” (Booker Prize em 1998) que não lia nada deste autor mas deixei-me seduzir pelos resumo que Carlos Vaz Marques fez do romance na sua rubrica diária na TSF, “O livro do dia”, realçando o artifício imaginativo da história ser narrada por um feto no ventre da mãe. Numa entrevista que deu, em agosto, ao Diário de Notícias, o autor, com 69 anos, explicava-se usando o argumento de um amigo ( e crítico literário) que afirmava ser “típico nos escritores que entram nos 70 libertarem-se das amarras e ganharem uma nova liberdade”. “Numa casca de noz” é sem dúvida um exercício de liberdade literária. Só que, como sabemos, originalidade não é necessariamente sinónimo de “bem conseguido”. A ideia de partida até é boa: o mundo de pernas para o ar (literalmente) de um bebé a quem, apesar de ainda não ter nascido, é negada a inocência da infância, por ser testemunha/cúmplice da conspiração entre a mãe e o amante para o assassínio do pai. Começa por ser desconcertante, absurdo, sórdido. Mas, depois, a ‘chama’ extingue-se num policial com final previsível. Acho que vou ficar novamente mais uns anos (mesmo que desta vez não sejam 19) sem voltar a McEwan.

O que significa ser um génio? A pergunta ocorreu-me quando pensei em escrever aqui sobre “Genius”, a biografia de Albert Einstein, a passar às quintas-feiras à noite no National Geographic. Na pesquisa da resposta fui ao site do canal e verifiquei que na promoção da série televisiva (a primeira escrita propositadamente para o NG) punham tal e qual a mesma questão, o que me confirmou as suspeitas de que eu não sou um génio: entre várias outras definições possíveis, diz-se que “génio é aquele que faz perguntas que nunca ninguém fez antes”. Einstein fê-las - e em catadupa. Ao fim dos dois primeiros episódios (em dez) já percebemos que é essa sua capacidade de pôr tudo em causa (e de, em consequência, ‘enlouquecer’ os professores, mesmo os que lhe reconhecem um imenso potencial detrás da aparente insubordinação e extravagância) que o vai levar ao pedestal da história da ciência moderna. Também se confirma que viver/conviver com um génio tem que se lhe diga.

Não sei se José de Almada Negreiros entra na definição de genialidade do National Geographic (ou mesmo da “Psychology Today”, que tem dúvidas em meter Picasso na galeria onde convivem Da Vinci, Shakespeare, Mozart, Newton e Einstein), mas é um facto que na cultura portuguesa não houve (há) muitos como ele. Almada foi pintor, poeta, escritor, dramaturgo, ator, bailarino e, sobretudo, provocador - mesmo na época, ainda incompreendida por muitos, em que aceitou fazer trabalhos para o Estado (Novo). Boa parte da sua obra (e, com ela, da história de Portugal do século XX pois, como ele próprio disse, “Os meus olhos não são meus, são os olhos do nosso século!”) está exposta na Fundação Gulbenkian até 5 de junho. E, se puder, vá ver os belíssimos murais que Almada pintou nas gares marítimas de Alcântara (entre 1945-47) e da Rocha Conde de Óbidos (1946-48) - ainda há mais uma visita guiada, no âmbito da programação complementar da exposição, a 27 de maio.

E o Curto fica por aqui. Sem pretensões de genialidade, mas com a ambição de lhe dar um efémero panorama da atualidade. Claro que para o ajudar nessa tarefa inglória de se manter a par tem sempre o site do Expresso e o da Tribuna, e, às 18h00, o Expresso Diário. Depois, às 20h00, já sabe, pára tudo: é hora do Festival da Canção.

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