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Expresso

Miguel Cadete Diretor-Adjunto

Paris já está debaixo de fogo

21 de Abril de 2017

A menos de 24 horas do fecho da campanha eleitoral para as presidenciais francesas, o coração de Paris foi alvo de um ataque terrorista do qual resultaram dois mortos e dois feridos. O atentado, um tiroteio que aconteceu nos Champs Elysées, cerca das 19h50 de Lisboa, foi reivindicado pelo Daesh.

Abu Yussef, 39 anos, é considerado o autor do atentado pela Amaq, a agência responsável pela propaganda do autoproclamado Estado Islâmico. Foi abatido pela polícia não sem antes ter feito um morto e dois feridos entre as forças da ordem, depois de disparar uma arma automática – que algumas fontes reconheceram ser uma metralhadora Kalashnikov - após ter estacionado o seu automóvel atrás de uma carrinha da polícia naquela avenida parisiense.

Yussef já era conhecido das autoridades há mais de 15 anos. Em 2001 foi condenado a 20 anos de prisão por disparar contra um polícia. A pena seria reduzida, em 2005, para 15 anos.

O perfil do atacante enquadra-se no de alguns autores de atentados recentes, associados à delinquência mas que se radicalizam quando passam por estabelecimentos prisionais.

O ataque de quinta-feira à noite não pode, porém, ser dissociado das eleições para as presidenciais francesas, cuja primeira volta tem lugar no domingo e onde um dos mais fortes candidatos – tem seguido sempre nos dois primeiros lugares nas sondagens - é Marine Le Pen que advoga o fecho das fronteiras. Cas Mudde, cientista político especialista em populismo que esteve recentemente em Portugal, escreveu na sua conta de Twitter que “Sendo um ataque direto do Estado Islâmico, é claramente orientado para influenciar as eleições presidenciais francesas, isto é, para dar gás a Le Pen”.

O assassínio de um polícia no centro da capital de França, tal como sublinhou o colunista do Expresso Miguel Monjardino, ontem à noite na SIC Notícias, tem um significado simbólico óbvio. No programa “Quadratura do Círculo”, Lobo Xavier frisou ser “impossível que um atentado destes não tenha impacto sobre as eleições”.

A tensão em torno das eleições francesas, onde há quatro candidatos com a possibilidade de passar a uma segunda volta disputada a dois, aumentou significativamente.

O atentado de ontem pode por isso ter consequências na contagem dos votos sendo esse um dos objectivos do ataque como também sublinhou Thibault de Montbrial, advogado especialista em terrorismo em declarações ao “Le Figaro”: “os islamistas querem beneficiar da sequência eleitoral que se avizinha”, disse referindo-se às eleições presidenciais e às legislativas, procurando “influenciar diretamente o seu desenrolar senão mesmo a organização do escrutínio”.

Todos os onze candidatos que disputam a primeira volta das presidenciais encontravam-se, à hora do atentado, num debate na estação de televisão France 2.

Benoît Hamon, do Partido Socialista Francês, foi o primeiro a comentar: “os meus pensamentos vão para o polícia morto e para os seus colegas feridos. Apoio total às forças da ordem contra o terrorismo”, escreveu no Twitter.

Seguiu-se Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional: “Emoção e solidariedade para as nossas forças da ordem que se transformaram novamente num alvo”, escreveu na mesma rede social. Seguiu-se François Fillon, o candidato dos republicanos.

Emmanuel Macron foi no mesmo sentido ainda que bastante mais solene: disse que “o primeiro dever de um presidente é proteger.” Antes, o candidato francês havia “postado” no twitter fotografias suas enquanto mantinha uma conversa telefónica em que do outro lado da linha estaria Barack Obama, o que seria confirmado pelo porta-voz deste, Kevin Lewis.

As últimas sondagens, hoje conhecidas mas ainda produzidas antes do atentado, publicadas pelo "L’Express" e pela BMTV, mantêm Emmanuel Macron e Marine Le Pen na liderança, com 24% e 21,5%, seguidos de perto por François Fillon, 20%, e Jean Luc Mélenchon, com 19,5%. Como se pode ver, a distância entre os quatro não ultrapassa os 5%

Vale também por isso relembrar que em momentos de mudança, como aliás sucedeu com o Brexit e a eleição de Donald Trump, as sondagens erram mais facilmente. As previsões dos resultados da segunda volta, num momento em que o sistema partidário francês está a implodir, são ainda mais complexas. Os indecisos rondam os 28% e a abstenção pode ser decisiva na contagem dos votos.

OUTRAS NOTÍCIAS

O debate sobre a vacinação obrigatória prossegue em Portugal, depois da morte de uma rapariga não vacinada devida ao sarampo. PSD e Bloco de Esquerda têm dúvidas sobre a obrigatoriedade. O PCP acha que este é um caso de “saúde pública”.

Em Portugal, já há duas vacinas obrigatórias, tétano e difteria mas as posições extremam-se. Daniel Oliveira, na sua coluna de opinião no Expresso Diário de anteontem, considera que a vacinação deve ser obrigatória. Henrique Monteiro escreveu ontem que está contra.

Idade mínima da reforma vai subir todos os anos” é a manchete do “Jornal de Negócios”. O acesso à pensão antecipada só será possível depois dos 60 anos.

Venezuela em clima de pré-guerra civil, lê-se no “i”. Governo português diz que tem barcos e aviões prontos para ir resgatar portugueses. Ricardo Marques escreve no Expresso Diário sobre os “Dias de Cólera” por que passa a capital Caracas.

Mais de metade dos desempregados não recebe qualquer subsídio é a manchete do “Diário de Notícias”. Os números do INE revelam que existem 510 mil portugueses sem trabalho mas que a Segurança Social só paga a 218 mil.

O “Público”anuncia nova legislação para a banca. “Venda abusiva de produtos aos clientes pode ser punida com expulsão”. Conversas ao telefone com os clientes vão passar a ser gravadas.

José Mourinho e o Manchester United foram apurados para as meias-finais da Liga Europa. Ontem, venceram o Anderlecht, já no prolongamento, por 2 – 1. Lyon, Ajax e Celta de Vigo são as outras equipas apuradas.





FRASES

“Passos Coelho está morto politicamente e ainda ninguém lhe disse”. José Miguel Júdice em entrevista ao jornal “i”

“Maria não vem por aí abaixo”. D. Carlos Azevedo, a propósito de Fátima, no “Público”

“Como sportinguista até à morte arrisco uma vitória”. Liedson, ex-jogador do Sporting, em “A Bola”, sobre o dérbi de sábado

“Vai ser 2 – 0, golos de Jonas e Mitroglu”. Rodrigo, ex-avançado do Benfica, em “A Bola”



O QUE ANDO A LER

Quem, na quarta-feira, foi ao lançamento da reedição do livro “Portugal Amordaçado”, que Mário Soares escreveu no exílio e publicou, ainda em francês, em 1972, já tem um exemplar do primeiro dos sete volumes que o Expresso vai oferecer nas próximas semanas.

Na Gulbenkian, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a sublinhar que, no último quartel do século XX, Mário Soares era “o maior e o melhor de todos”. Um elogio que, no entanto, ainda é insuficiente para perceber a tenacidade e a incapacidade para desistir de Soares não só durante o período que se seguiu ao 25 de Abril mas também durante a vigência do Estado Novo que é o período a que se reporta “Portugal Amordaçado”.

Logo no prefácio, avisa: “Sendo uma longa reflexão sobre um combate que vem de longe, nunca perdi de vista a ideia-força, central, de que o combate continua. Comigo e, naturalmente, para além de mim, porque entronca na própria luta do povo português. Depoimento vivido sobre o passado próximo, evocando figuras cujo perfil importa conhecer e acontecimentos ignorados sobre que interessa projectar alguma luz? Sem dúvida! Mas também – e principalmente – ponto de partida, rumo ao futuro…”

E então inicia as memórias do seu combate, com dedicatória a mestres como Jaime Cortesão e Bento Jesus Caraça, mas também ao relembrar dois defensores das maiores utopias do século XX em Portugal como foram Álvaro Cunhal e Agostinho da Silva, sem deixar de mencionar o então emergente movimento do neorrealismo, onde destaca Carlos de Oliveira, Mário Dionísio e Manuel da Fonseca entre outros.

Ler “Portugal Amordaçado” é voltar à história do século XX português mas também à adivinhação do que haveria de ser o seu futuro. É aqui que Mário Soares apresenta pela primeira vez três objectivos para o país que seriam claramente cumpridos, a descolonização, a democracia inspirada no modelo europeu e a adesão à Europa.

A este primeiro volume foi agora acrescentada uma apresentação de Alfredo Barroso, que faz a devida contextualização da obra e da vida de Soares, seguindo-se nos próximos, prefácios de Clara Ferreira Alves, Isabel e João Soares, António Costa Pinto, José Manuel dos Santos, José Pedro Castanheira e Henrique Monteiro; ficando esta reedição completa com uma cronologia de Paulo Paixão, jornalista do Expresso.

Um dia, Mário Soares terá dito, porventura citando um camarada seu, “só é vencido que desiste de lutar!” Esta pode ser uma boa maneira para começar o dia.

Acompanhe toda a informação, atualizada em permanência no Expresso online. Às 18 horas chega mais um Expresso Diário. Amanhã é dia de semanário, e já se sabe que a capa da Revista E é dedicada às eleições em França, as mais importantes que este ano acontecem para os franceses, mas também para a Europa e para nós.

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