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Expresso Curto

POR João Vieira Pereira Diretor-Adjunto
20 de Abril de 2017

A morte não nos fica bem

A morte é sempre um assunto difícil. Ainda mais quando está em causa alguém jovem. Costuma-se dizer que não é natural um pai enterrar um filho, e não deve haver dor maior.

Com todo o respeito para com a família, o caso da jovem de 17 anos que morreu na sequência de uma infeção por sarampo tem de servir para impedir futuros casos.

Os movimentos anti-vacinas (e para o caso não é relevante se a família defende este comportamento, já que o facto é que a vítima não estava vacinada) são um perigo para todos.

A vacina não defende apenas o indivíduo. A teoria de imunidade de grupo mostra que a partir de determinadas taxas de vacinação é interrompida a circulação dos microrganismos entre pessoas, contribuindo assim para que as doenças não se propaguem. É importante discutir a vacinação obrigatória quando são cada vez mais as teorias contra o uso de vacinas. E uso as palavras de Daniel Oliveira para também defender ‘vacinas obrigatórias e, se necessário, compulsivas’.

As escolas privadas já falam em recusar alunos que não tenham as vacinas em dia.

Já o ministro da Educação diz que a exigência de vacinas “não é uma questão premente”. Escolha infeliz de palavras quando, no mesmo dia, a Direção Geral de Saúde (DGS) — que o ministro disse que ia tranquilizar as famílias através de uma nota enviada às famílias — acabou por aconselhar as escolas a afastarem dos estabelecimentos de ensino, por 21 dias, qualquer aluno que, depois de exposto ao vírus do sarampo, recuse ser vacinado.

Até ontem tinham sido detetados 46 casos suspeitos de infeção — 21 já confirmados e 15 em investigação. Nos restantes 10 casos foi excluído o diagnóstico de sarampo. A maioria dos casos ocorreu em adultos com idade superior a 20 anos (13 casos) e sete em crianças: quatro com idade inferior a um ano e três no grupo etário dos 1 aos 4 anos. 12 dos indivíduos infetados não estavam vacinados.

Para quem ainda tem dúvidas recomendo esta banda desenhada. Com o título ‘Vaccines Work. Here Are the Facts — The risks, the misinformation, and the science behind history’s greatest life saver’, o cartunista Maki-Naro explica tudo o que precisa de saber sobre vacinas.

Se não for suficiente basta ler o trabalho da Marta Gonçalves, que pode tirar-lhe todas as dúvidas sobre o Sarampo.

Os jornais de hoje dão amplo destaque ao tema. É quinta feira e por isso temos a Visão nas bancas. A revista faz capa com “o regresso do sarampo” e conta a história do bébé de 12 meses que foi o paciente zero da doença. Sábado e Público trazem histórias de pais que recusam vacinar os seus filhos.

O Diário de Notícias noticia que o Parlamento quer discutir a vacinação obrigatória e que para isso o PS vai pedir audições na comissão parlamentar de Saúde. Não deixa de ser curioso que o Governo tenha também a proposta para o fim da obrigatoriedade da vacinação contra o difteria e o tétano. E que, como escreve Paulo Paixão, afinal há duas vacinas que são obrigatórias, mas o Governo quer acabar com essa imposição.

O Jornal de Notícias alerta que há 15 mil crianças por vacinar no país.

O Correio da Manhã escreve que os pais estão revoltados e que culpam os médicos por alegadamente terem aconselhado a filha a não ser vacinada.

O caso marcou de tal forma a atualidade que lançou para segundo plano a discussão no Parlamento do Programa de Estabilidade (PE) e do Plano Nacional de Reformas. O PE não será votado esta sexta-feira. Talvez seja essa a explicação para o ataque cerrado que os parceiros da geringonça fizeram aos documentos apresentados pelo Governo. O Bloco de Esquerda falou em "poupança forçada", que levará o Estado a ter "um lucro de 5%" até 2031. Dinheiro esse "utilizado para pagar juros à custa de investimento público". "Está tudo errado", concluiu Mariana Mortágua. É estranho não terem visto a mesma estratégia no Orçamento de Estado para este ano…

Também o PCP, no mesmo tom, atacou a “política orçamental enfiada no espartilho das imposições europeias”, o que impossibilita, segundo o deputado Paulo Sá, melhorias na vida dos trabalhadores, corte nos impostos, a recuperação dos serviços públicos e do sector produtivo. “Como se enfia o Rossio na Rua da Betesga?”, foi a pergunta que deixou.

Ambos os partidos pediram garantias de que o aumento do salário mínimo será para cumprir e de que os escalões de IRS serão revistos, criticando ainda o parco valor destinado para a baixa de imposto (200 milhões em 2018, como anunciou o Expresso no sábado). “É da ordem do simbólico”, qualificou Mortágua.

Sem responder diretamente, Mário Centeno repetiu a ladainha habitual: o Governo irá manter a estratégia de cumprir todos os compromissos internos e externos.

Maria Luís Albuquerque criticou o facto de o Governo "não apresentar uma única reforma estrutural" e de o crescimento previsto ser "muito curto para o que o país precisava de alcançar”.

Pedro Mota Soares acusou o PS de liderar o "Governo menos reformista e mais situacionista da União Europeia". O deputado do CDS deixou ainda um aviso: "Não nos resignamos com o crescimento poucochinho da economia e com a revisão em baixa do futuro de Portugal".

Tudo para ser lido aqui

OUTRAS NOTÍCIAS
Ainda sobre os dados do PE, o FMI não acredita nos planos para redução do défice durante os próximos anos. Para 2017 ainda prevê uma redução do mesmo para 1,9% do PIB mas, a partir daqui, diz que será sempre a subir.

Os dados fazem parte do ‘Fiscal Monitor’, um documento cuja publicação depende diretamente de Vítor Gaspar. Depois da sua leitura, Jorge Nascimento Rodrigues traz-lhe os 5 princípios de Gaspar para a política orçamental.

Saiba também quais são as 4 ameaças à estabilidade financeira mundial eleitas pelo FMI. E duas têm o nome de Donald Trump.

Os médicos vão mesmo fazer greve nos dias 10 e 11 de maio. Hoje deverá ser emitido o pré-aviso de greve.

A Altice está a estudar acabar com o nome Portugal Telecom e com a marca MEO. A notícia do Público avança que a empresa está a estudar a criação de uma marca global, igual para todos os países onde está presente.

Quem comprar casa vai ter de explicar como a pagou. O Negócios revela que notários, conservadores e agentes imobiliários vão ter de passar a indicar quais os meios de pagamento usados na compra e venda de imóveis. A medida faz parte das propostas de lei que transpõem as diretivas europeias de branqueamento de capitais.

A proposta para as reformas antecipadas vai ser melhorada pelo Governo. O DN revela que as alterações serão levadas à concertação social no início de maio e que passam por uma versão mais generosa nas saídas antecipadas sem penalização.

Na Venezuela foi o dia da ‘mãe de todas as manifestações’. Até à hora de envio deste Expresso Curto tinham sido registadas duas vítimas mortais. Mas as informações são escassas sobre os 26 protestos que tinham sido agendados pela oposição contra o governo de Nicolas Maduro. As imagens e os relatos disponíveis falam de várias dezenas de milhares nas ruas e de muita violência.

Em França, que vai a eleições este fim de semana, Marine Le Pen exigiu que uma bandeira da União Europeia fosse retirada do cenário de um programa do canal de televisão TF1 onde ia ser entrevistada. Para quem já está em estágio para as eleições de domingo, recomendo este fantástico trabalho multimédia do The Wall Street Journal e, claro, o nosso 2:59 onde Pedro Cordeiro lhe explica tudo o que precisa de saber sobre mais um fim de semana decisivo para a Europa.

Está decidido, vão mesmo realizar-se eleições antecipadas no Reino Unido no dia 8 de junho.

A Emirates está a reduzir os voos para os EUA devido aos constrangimentos que as novas regas de segurança introduzidas estão a gerar. A decisão surge uma semana depois de os EUA terem proibido que computadores pessoais e outros aparelhos eletrónicos sejam transportados na cabina.

O Brexit já está a fazer vítimas. Uma investigação do Financial Times revela que Bruxelas está a fomentar que os grupos económicos britânicos sejam retirados dos contratos multimilionários para prevenir complicações futuras.

Foi descoberta uma 'Super Terra' a 40 anos luz de distância. Este planeta é um excelente candidato para a procura de sinais de vida.

A publicidade é perita em gaffes: depois da Pepsi, desta vez foi a Adidas que resolveu enviar emails a quem terminou a maratona de Boston com a seguinte mensagem “Parabéns, sobreviveu à maratona de Boston

Ontem foi dia de Champions. O Barcelona não conseguiu voltar a repetir a reviravolta contra o PSG e caiu aos pés da Juventus. E o Mónaco, de Jardim, bateu o Dortmund por 3-1. Leia as aqui as crónicas de Tiago Oliveira e de Lídia Paralta Gomes. O sorteio das meias finais, que inclui ainda o Real e o Atlético de Madrid, é na sexta.

O petróleo está de volta aos 50 dólares no mercado americano depois de terem sido divulgados os dados positivos sobre as reservas norte-americanas.

Billy O´Reilly, a principal figura da FOX News, foi obrigado a deixar a estação no seguimento de uma série de acusações de assédio que pendiam sobre ele. “Depois de uma extensa e cuidadosa análise das alegações, a empresa e Billy O´Reilly acordaram que Billy O’Reilly não voltará ao Fox News Channel”, diz o comunicado da 21st Century Fox.

Aaron Hernandez, 27 anos, estrela de futebol americano caída em desgraça foi encontrado morto na cela. O antigo atleta dos New England Patriots, que cumpria pena perpétua desde 2015 por ter morto um amigo, Odin Lloyd, enforcou-se com o lençol da cama atado à janela da cela. Apenas cinco dias depois de ter sido considerado inocente de ter matado dois cabo-verdianos. Não foi encontrada qualquer nota de suicídio na cela individual que lhe estava destinada, nem o ex-atleta estava sinalizado como possível suicida.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
12ª é a posição que Portugal ocupa entre as melhores cidades para investir no sector hoteleiro

4097 é o número de empresas que foram criadas em Portugal no mês de março, mais 18,9% do que no mesmo mês do ano passado.

FRASES
Não é aceitável que o advogado de defesa de Dias Loureiro (Daniel Proença de Carvalho) seja presidente do Conselho de Administração de um jornal onde o seu cliente é entrevistado no dia seguinte ao arquivamento do processo”- João Miguel Tavares.

O que me surpreende mais é que, durante estes anos todos, ninguém tenha ficado surpreendido de cada vez que eles morriam” – José Azeredo Lopes, ministro da Defesa, sobre o caso dos Comandos.

Quando o Real ficou com medo, o árbitro começou o espetáculo. Este roubo não pode acontecer na Liga dos Campeões. Sentimos muito o que aconteceu e ficamos na dúvida” – Arturo Vidal, jogador do Bayern

O QUE EU ANDO A LER
A questão central dos nossos dias é se estaremos a assistir à rejeição mundial da democracia liberal e à sua substituição por algum tipo de autoritarismo populista.”

A frase com que Arjun Appadurai começa o seu texto resume o mais importante tema da atualidade. Desde a América de Trump à Venezuela de Maduro, da Rússia de Putin à Turquia de Erdogan, não faltam exemplos de como o populismo está a colocar em causa as bases da democracia. E até à Europa, como defende Arjun, já chegou o cansaço da democracia.

O seu fantástico texto é apenas o primeiro de vários reunidos num livro que, em boa hora, aterrou na minha secretária. A ele se juntam nomes como Bauman (recentemente falecido), Donatella Della Porta, Nancy Fraser, entre outros (também António Costa Pinto faz parte dos autores). O Grande Retrocesso (da editora objetiva) reúne diversos textos que deve ler o mais rápido possível.

Este Expresso Curto fica por aqui, amanhã regressa pelas mãos de Miguel Cadete. Não se esqueça de se manter ligado ao Expresso durante todo o seu dia. Tenha uma ótima quinta-feira.