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Miguel Cadete Diretor-Adjunto

A acusação tarda mas Sócrates já leva mais três crimes

17 de Março de 2017

A Operação Marquês é um dos maiores, senão o maior, caso de sempre da Justiça portuguesa. Porque envolve um ex-primeiro-ministro, um outrora poderoso banqueiro e os dois líderes daquela que até há pouco era a maior e mais conceituada empresa sediada em Portugal. O bom senso diz que a delicadeza do caso exige todos os cuidados mas o arrastamento dos prazos para que seja conhecida a acusação chegam, por si, para colocar em causa a justiça portuguesa.

São 1324 dias, como dizia aqui, ontem, Pedro Santos Guerreiro. Mais ainda podem ser mais 60 dias. Ou longa é a noite, como sublinhou Henrique Monteiro, no Expresso Diário, para a credibilidade desta justiça. Não brinquemos: pode suceder a qualquer um – sobretudo se tiver menos recursos ou visibilidade.

Ainda ontem, na Quadratura do Círculo, na SIC Notícias (ainda não disponível online), Pacheco Pereira apontava o dedo à tentação de tornar este caso um caso total. Porque envolver todas as operações (PT, Vale de Lobo, TGV, Venezuela, etc)? E porque não separar os crimes para que a acusação incidisse ora sobre a fraude fiscal, ora sobre o branqueamento, ora sobre a corrupção? A tentação de ter tudo pode dar em nada.

Ora bem, há ainda mais crimes imputados a José Sócrates, de acordo com o artigo de Carlos Rodrigues Lima hoje publicado no “Diário de Notícias”. Além de corrupção, fraude e branqueamento, o Ministério Público prepara-se para acusar o ex-primeiro ministro de tráfico de influências, falsificação e recebimento indevido de vantagem. Este é um mundo que não se sabe onde nem quando acaba.

No “Público”, adensa-se o suspense sobre a decisão da Procuradora Geral da República quanto ao pedido de adiamento do prazo de apresentação do despacho de acusação.

O prazo termina hoje mas, até às 22 horas de ontem, Joana Marques Vidal manteve-se em silêncio. Só hoje se saberá se o Procurador Rosário Teixeira terá mais 60 dias para trabalhar na acusação, tal como foi por si requerido. Espera ainda cartas rogatórias que virão de Angola, Singapura, Reino Unido e Suíça. Mas, pergunta-se, é certo que chegam nos próximos dois meses?

OUTRAS NOTÍCIAS

Donald Trump recebe hoje Angela Merkel. A reunião terá lugar na Casa Branca, em Washington,
e está previsto que sejam abordados temas como o comércio internacional e a NATO entre muitos outros assuntos capazes de demonstrar quão distantes os dois líderes se encontram. A chanceler alemã e o presidente dos EUA terão nesta ocasião o seu primeiro tête-a-tête numa altura em que um acabou de chegar e a outra pode estar de partir ao fim de mais de uma década no poder.

Dilma Rousseff esteve em Lisboa. De acordo com o “i”, veio ao Teatro da Trindade fazer campanha por Lula da Silva. Não perca, amanhã, a longa entrevista que deu ao Expresso.

A apresentação do nome de Teresa Leal Coelho para concorrer às autárquicas, por Lisboa, está a gerar controvérsia no seio do próprio PSD. O nome da vereadora e vice-presidente do partido não recolhe apoio na distrital de Lisboa, que diz não ter sido ouvida, mas também, segundo o “Público”, gera incredulidade entre os deputados do PSD mais próximos de Passos Coelho. Carlos Carreiras, coordenador autárquico, também disse à Rádio Renascença não garantir que o nome seja “consensual”. Os mais pessimista falam em perder não só para Fernando Medina mas também para Assunção Cristas.

A emissão de dívida da CGD vai ter lugar no Luxemburgo. São 500 milhões de euros, só para investidores institucionais, de alto risco. O juro pode subir aos 10% mas esta emissão de dívida perpétua é feita no Luxemburgo para fugir ao controlo da CMVM, como se pode ler aqui, em artigo ontem publicado no Expresso Diário.

António Mexia ganhou mais de 5500 euros brutos por dia. É a conclusão que se tira do relatório do governo da EDP ontem apresentada na CMVM. Em 2016, o presidente executivo da EDP foi remunerado em 2,04 milhões de euros, menos 6% do que no ano anterior.

Frederico Morais, ou Kikas, está a arrasar no Circuito Mundial de Surf. Apesar de esta ser a sua primeira época, já está na terceira ronda do Quiksilver Pro Gold Coast, a decorrer na Austrália, primeira etapa do circuito mundial. Melhor do que isso, o surfista de Cascais teve direito a uma longa narrativa no Expresso online, com textos, fotos e vídeos que contam tudo o que importa saber. O português vai agora defrontar o veterano campeoníssimo Kelly Slater, depois de este ter sido repescado. Da única vez que se encontraram, em Peniche, o português saiu vencedor.

Os Metallica regressam a Portugal. É só no dia 1 de fevereiro de 2018, no Meo Arena, em Lisboa. E cada bilhete dá direito ao último CD da banda de “Enter Sandman”. Saiba aqui, no site da BLITZ, o que tem a fazer para adquirir uma entrada. Saiba também que a revista de música portuguesa vai publicar, já a 31 de março, um número exclusivamente dedicado aos Guns N’Roses, a propósito da concerto que Axl Rose, Slash e Companhia vão fazer no Passeio Marítimo de Algés.

Venda de produtos para dormir dispara. É a manchete do “Jornal de Notícias”. Os portugueses gastaram mais de 14,8 milhões de euros em calmantes que não necessitam de receita médica. Um aumento de 46%.

Sonae troca Angola por Moçambique. O grupo da família Azevedo continua a internacionalizar-se mas prefere Moçambique depois de falhada a parceria do Continente com Isabel dos Santos. É o “Jornal de Negócios” que o diz, no âmbito da apresentação de resultados que ontem teve lugar.

Bloco de Esquerda critica Fernando Medina. O candidato Ricardo Robles diz que “Lisboa não pode ser uma montra para turistas que expulsa os habitantes”, segundo o “i”. O candidato sugere a intervenção direta da autarquia no mercado de habitação.

Em sentido contrário, Fernando Medina esteve ontem numa feira de imobiliário, em Cannes, a promover habitação de qualidade com rendas não superiores a 450 euros para a classe média francesa, segundo o “DN”.

Adrien e Pizzi, jogadores de futebol do Sporting e Benfica, são cobiçados por clubes espanhóis. Há promessas de ordenados limpos superiores a 3 milhões de euros por ano. Caso se concretize, a transferência terá lugar em junho.

FRASES

“De cada vez que Schäuble abre a boca cai uma estrela na bandeira da Europa”. Francisco Rodrigues dos Santos, presidente da juventude do CDS, no jornal “i”

“O discurso da saída da Europa chegou e veio para ficar. Isso mostra quanto o projeto europeu está fragilizado e não se vê qualquer espécie de mobilização parar que se solidifique”. Manuela Ferreira Leite, na TVI24

“Estavam todos feitos e isso fez-nos a vida difícil, durante muito tempo, de forma muito injusta.” Paulo Azevedo, presidente da Sonae, na apresentação de contas anuais, sobre a OPA à PT

“Estou contra o Rentes de Carvalho”. Valter Hugo Mãe, no Festival Literário da Madeira, citado no “DN”

“Está a acontecer-me exatamente aquilo com que sempre sonhei”. Dengaz, ao “DN”, que atua hoje e amanhã nos Coliseus de Lisboa e Porto



O QUE ANDO A LER

“The Vanishing Man”
não é um livro de ficção, nem um ensaio histórico ou uma biografia, neste caso sobre a vida e a obra do pintor espanhol Diego Velázquez. É tudo isso mas é, também, ou sobretudo, a demanda de Laura Cumming, crítica de arte do “The Observer”, por três personagens absorventes: o pintor da corte de Filipe IV, o trágico John Snare que no século XIX descobriu um dos seus quadros, e ela própria.

Antes do mais, “The Vanishing Man” (2017, Chatto & Windusm, £18.99) descreve em pormenor o amor à arte das suas três figuras principais. Começa com a própria autora a cirandar por Madrid após a morte do seu pai, às voltas com um trauma que só se resolveria no Museu do Prado diante de Las Meninas, a obra-prima de Velázquez.

É também, obviamente, uma ode à arte de Velázquez e à forma como apesar de fazer parte da corte de Filipe IV tratou todos os seus retratados como iguais, desde os anões presentes em várias pinturas, a Pablo, ao rei ou a ele próprio, oferecendo dignidade a todos e convidando o espectador a deixar de sê-lo e a entrar naqueles quadros.

Por fim, é a história rocambolesca de um livreiro, John Snare, que um dia descobriu uma pintura de Velázquez entregando-lhe a sua própria vida. Snare deixou tudo para trás para provar a autenticidade do “seu” quadro. Nas décadas de 1840 e 1850, exibiu-o galhardamente na então centralíssima Old Bond Street de Londres e em Edimburgo, escreveu ensaios, publicou anúncios nos jornais, restaurou o quadro. E, mais que isso, estudou tudo o que na época havia para estudar sobre Velázquez.

Porém, o seu cândido amor à arte, a Velázquez e ao quadro seria fustigado até à tragédia final pelos mais reputados historiadores de arte como Stirling Maxwell e por algumas famílias aristocratas que não suportavam que o pobre alfarrabista fosse proprietário de tamanha obra de arte.

Esse foi o tempo em que o pintor de ascendência portuguesa conquistou uma fama inatacável, até hoje, nos maiores mercados de arte. Mas o que sobrava a John Snare faltava às grandes casas senhoriais que então possuíam uma das obras de Velázquez (ou uma falsificação), às maiores autoridades como o citado crítico, autor do primeiro livro de história de arte publicado com imagens, ou aos maiores leiloeiros.

John Snare fugiria para os Estados Unidos da América, desaparecendo numa Nova Iorque demolidora no seu processo de se transformar numa gigantesca cidade. O mesmo sucedeu ao seu troféu, o quadro de Carlos I da Escócia pintado por Diego Velázquez. Não deixaram rasto.

Por hoje é tudo.
Amanhã, como é costume desde há 44 anos, o semanário Expresso estará nas bancas. Ainda hoje, toda a informação será atualizada em permanência no Expresso online. Às 18 horas, chega o Expresso Diário. E na segunda-feira conte com mais um Expresso Curto, dessa vez bebido na cordialidade de Nicolau Santos.

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